A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 22 de 30

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A Manilha e o Libambo

20. Madagáscar

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Madagáscar

 

Ao que parece, por volta de 1550, j á haviam cessado as m igrações indonésias

para Madagáscar. 1 Os portugueses, quando com eçaram a percorrer as suas costas, ainda recolheram notícias de alguns naufrágios de barcos de Java (com o aquele que derram ou um a carga de cravo nas praias ao norte do rio Matitana e

fez crer a Rui Pereira, em 1506, que aquela especiaria era abundante na ilha2), m as, depois, as referências a viagens indonésias sum iram de seus relatos.

Alguns grupos de negros do continente continuavam , contudo, a descer nas praias de Madagáscar. Pelo m enos é isso o que sugerem as notas do padre j esuíta Luís Mariano, que, na segunda década do século XVII, ainda os encontrou na costa ocidental da ilha (ou, para ser m ais preciso, naquela parte, entre a baía de Boina e o rio Tsiribirina, conhecida com o Bam bala), a falarem línguas bantas,

sem elhantes “às de Moçam bique e da costa de Malindi”.3 A m aioria seria de colonos, de gente que atravessara em zam bucos, pangaios e pirogas de balancim o grande canal, para se instalar em novas terras. Não faltariam , contudo, entre os recém -vindos, escravos que fugiam de seus senhores de Sofala, Mom baça, Melinde e outras cidades suaílis, com o os quilom bolas que Tristão da Cunha

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topou, na baía de Anoraontsanga, em 1506. Esses ex-escravos — cerca de dois m il — saíram de suas aldeias, arm ados de lança, escudo e arco e flecha, para fazer frente, na praia, aos portugueses. Tam bém do continente provinha parte da escravaria encarregada do grosso dos trabalhos nas povoações m uçulm anas do norte da ilha, onde se viam m esquitas e “casas de pedra e cal, com terraços à

m aneira de Quíloa e Mom baça”, com o se lê em João de Barros.5

O cronista referia-se a Nosy Langany, m as a descrição podia aplicar-se a outros estabelecim entos antalaotes (ou antalaotras) do noroeste da ilha, com o Nosy Manj a, o m aior deles, Mahilaka, Nosy Mam oko, Sada ou Nosy Boina. Ou ainda Iharana (ou Bim aro), ao lado da atual Vohém ar, na costa nordeste. Nenhum deles era apenas um entreposto, m as, sim , um a cidade-estado, com ligações com as Com ores, as cidades suaílis do continente, a península Arábica, o golfo Pérsico, a Índia e a Indonésia.

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Já as Com ores, desde a chegada dos cham ados xirazes, oscilavam entre as tentativas de união num único sultanato e a fragm entação política. Cada ilha possuía um soberano próprio ou se dividia entre dois ou m ais. Na passagem do século XVI para o XVII, todas elas (a Grande Com ore, Anj ouan, Mohéli e May otte) estavam sob um a só rainha. O poder desta era, no entanto, m ais teórico e cerim onial do que efetivo, a verdade do m ando nas m ãos dos sultões que controlavam cada um a das ilhas.

Para o arquipélago, com o de resto para as cidades-estados do noroeste de Madagáscar, os suaílis e antalaotes traziam cativos do continente africano. Juntavam -nos aos que capturavam ou adquiriam em Madagáscar ou nas próprias Com ores e os reexportavam para os m ercados da Arábia, da Pérsia e da Índia. Os cativos feitos nas ilhas eram tam bém vendidos a Lam u, Pate, Mom baça, Melinde ou Quíloa. Havia, portanto, não só um tráfico de escravos do continente para as Com ores e Madagáscar, m as tam bém das Com ores e de Madagáscar para o continente.

Desse com ércio, ao que parece, bastante antigo, e não só de escravos, m as tam bém , e talvez principalm ente, de outros bens, os portugueses procuraram apossar-se. Por algum tem po, a partir da m etade do século XVI, chegaram a tornar-se os m aiores fregueses das cidades antalaotes, a acreditar-se no cronista Diogo do Couto. Quando tentaram , porém , assum ir um a posição de m onopólio, esbarraram com a resistência dos calej ados m ercadores locais. Os das baías de Mahaj am ba e Boina não hesitaram em cortar, por algum tem po, as relações

m ercantis com os lusitanos, apesar das am eaças de sua frota.7

Na realidade, os portugueses, após um longo período de expansão e euforia, com eçavam a perder para os m uçulm anos a disputa pelo controle do com ércio de Madagáscar. No início do Seiscentos, j á adquiriam m enor núm ero de escravos do que seus rivais suaílis e árabes, e a preços m uito m ais altos. E tinham passado a depender em grande parte dos interm ediários com orenses em seu com ércio com a grande ilha. Nisto não se diferençavam , aliás, de seus com petidores islam itas, um a vez que as Com ores se haviam transform ado em em pórios e portos de transbordo para os escravos, o arroz e outros produtos m algaxes destinados às cidades suaílis do continente, à Arábia e à Índia.

Nessa interm ediação, eram enorm es os lucros com orenses. Segundo um testem unho de 1614, eles adquiriam por nove ou dez piastras um escravo em

Madagáscar e o revendiam aos portugueses por cem . 8 Trinta e dois anos m ais tarde, um escravo adquirido em Boina quadruplicava de preço ao chegar a Anj ouan; e seria vendido por dez vezes m ais em Melinde e por 20 vezes m ais no m ar Verm elho. Foi esse o cálculo que um entendido europeu fez do valor dos 500 cativos, quase todos crianças e adolescentes, que viu chegar às Com ores num

dhow de Boina.9 Com ganhos tão elevados, não era de estranhar-se que os portos do arquipélago estivessem sem pre cheios de escravos provenientes de Madagáscar e do continente, prontos para serem enviados para a Arábia, em

troca de tecidos de algodão indiano e de ópio. 10 Mas sem pre havia, claro, barcos árabes e suaílis que preferiam ir direto a Madagáscar, abastecer-se de arroz, m adeiras, rapazes e raparigas.

Com o tem po, os portugueses se foram desinteressando pelo com ércio com as Com ores. E até m esm o com Madagáscar. Esgarçava-se o prestígio de século e m eio de presença lusitana, durante o qual um m ercador com orense ou m algaxe tinha na língua portuguesa um instrum ento indispensável de trabalho. Não faltavam sequer reis que nela se expressavam . E eram até fluentes, com o aquele sultão de Mohély, que, no início do século XVII, deixava pasm os os seus interlocutores europeus, não só com seu profundo conhecim ento dos m apas e dos problem as da navegação no Índico, m as tam bém com tudo o que sabia, por

experiência pessoal, da África e da Arábia. 11

Falhara o intento lusitano de destruir a rede m ercantil m uçulm ana no Índico. Mas dessa am bição ficavam cicatrizes. No noroeste de Madagáscar, por exem plo, onde as cidades antalaotes não escaparam da fúria contra os m ouros. Algum as foram arrasadas pelos portugueses, que levaram seus habitantes com o escravos. Assim sucedeu, j á em 1506, com Lulangane, na ilhota de Nosy Manj a, na baía de Mahaj am ba, conform e o relato que nos deixou Afonso de Albuquerque. Entre os que foram m ortos na ilha e os que se afogaram , ao virarem os zam bucos e alm adias em que tentavam fugir, Albuquerque contou cerca de m il. Dos tom ados com o cativos, só nos disse que foram m uitos, pois cada m aruj o ou soldado teve autorização para agarrar quantos pudesse. Num erosas m ulheres e crianças foram deixadas em terra, por falta de espaço nos barcos, e outras, porque as trocaram por cabras e vacas. No saque de três dias, apuraram -se tam bém alguns panos de Cam baia e um pouco de prata e ouro, que as em barcações de Melinde e Mom baça traziam com o m oeda para adquirir m antim entos e escravos. Tam anha era a quantidade de arroz

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arm azenado na ilhota, que vinte naus não foram suficientes para carregá-lo.

Algum as das cidades antalaotes escaparam da violência lusitana ou dela se refizeram . Com o Nova Massalagem , na baía de Boina, visitada em 1613 pelo padre Luís Mariano. Era, então, um a cidade de seis a sete m il habitantes, dedicados à indústria têxtil — em cada casa havia entre três e quatro teares — e ao com ércio. Ao seu porto chegavam , não só do continente defronte m as tam bém da Arábia, dhows carregados de bens de luxo, que eram trocados por

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arroz, m adeira, cera de abelha, gado e escravos. Um pouco m ais ao norte, na

baía de Mahaj am ba — isto nos diz o m esm o j esuíta —, os m ouros com erciavam com um rei local, Tingim aro, que era um “buque”, isto é, se expressava em m algaxe, idiom a que o padre teve com o sem elhante ao m alaio. Tingim aro se considerava um m uçulm ano praticante, ainda que a m aioria de seus súditos fosse

pagã.14

Já ao longo de Bam bala falava-se com o os cafres. Cada aldeia ou pequeno grupo de aldeias tinha seu chefe. Na que pareceu ao padre Mariano a m ais im portante, Sadia, ele contou cerca de m il fogos. Os seus m oradores sacrificavam bois e oferendavam arroz aos ancestrais, que desciam ao corpo dos m édiuns. A nobreza preservava com o relíquias as unhas e os cabelos de seus

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m ortos, e depositava esses restos no oco de estátuas de m adeira.

Passado o rio Tsiribirina, voltava-se a falar m algaxe. Mas esta não era a única diferença. Saía-se de um a área de agricultura m esclada à pequena criação de gado para um a outra onde dom inava o pastoreio extensivo e onde o boi m edia a riqueza e condicionava o poder. Teria sido, aliás, com base nos grandes rebanhos que, no planalto interior do sul da ilha, com eçaram a tom ar corpo, j á no século XVI, novos organism os políticos, m aiores e m ais centralizados. Rabaratovokoka, que fundou o Estado Bara, seria da dinastia Zafim aneli, derivada ou ancestral da Maroserana. Senhor de num eroso arm ento, usava-o para ganhar e recom pensar aliados.

No início do Seiscentos, abriu-se em Bara um a violenta disputa entre herdeiros de Rabaratovokoka. Um m aroserana, Andriam anely, interveio na luta, capturou o gado dos baras e lhes destruiu o estado. Antes de falecer, em 1653, esse Andriam anely j á havia instalado vários de seus fam iliares com o senhores sobre vários povos do sul de Madagáscar.

Sabem os disso graças a Étienne de Flacourt, que dirigiu, de 1648 a 1658, Fort Dauphin, um estabelecim ento francês encravado no litoral sudeste da grande ilha, e nos deixou o livro m ais im portante que sobre ela se escreveu até

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praticam ente o século XX, a Histoire de la grande île de Madagascar. Ao

francês não escapou tam pouco a saga de certos grupos aristocráticos de origem m uçulm ana ou tingidos de islam ism o, que se iam , a partir do rio Matitana, dissem inando com o elite política ou religiosa no sul da ilha. Refiro-m e aos

antem oros. 17

Ray m ond K. Kent situa a chegada dos antem oros ao sudeste de Madagáscar

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entre 1509 e 1513. Apoia-se, para isso, nos relatos de três capitães portugueses

que estiveram na área: Rui Pereira, em 1507; Diogo Lopes de Sequeira, em 1508; e Luís Figueira, que ali fundou um a feitoria, de brevíssim a vida, em 1515. Os dois prim eiros não encontraram m uçulm anos estabelecidos na foz do Matitana, em bora os locais com erciassem com eles. O últim o j á descreve um a cidade densam ente habitada por m ouros, que se opuseram energicam ente à

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presença dos portugueses, os obrigaram a abandonar o entreposto e eram provavelm ente os ancestrais dos antem oros.

Os antem oros, que redigiam em m algaxe com caracteres árabes e que deixaram por escrito m uitas de suas tradições, assentavam o seu poder na religião e na m agia. Ao se im porem sobre a gente que vivia no Matitana, form avam quatro clãs aristocráticos, cada qual a dom inar um a parte do território, e quatro clãs sacerdotais. Sobre todos reinava o andrianoni, que podia ser escolhido em qualquer das estirpes nobres — a Anteoni, a Antem ahazo, a Anteisam bo e a Zafikazinam bo. Esses clãs estavam em perm anente luta pelo poder, o m esm o se passando com os quatro sacerdotais, conhecidos coletivam ente com o antalaotras, pois com petiam pela guarda dos m anuscritos

sagrados (ou sorabés)20 e o posto de sum o pontífice.

Os antem oros não disputavam o m ando apenas entre si. Ao chegar ao sudeste da ilha, ali encontraram um a outra elite, que se arrogava ter vindo de Meca: os descendentes de Ram ínia, conhecidos com o Zafi-Ram ínias ou Zafidram ínias). Tam bém estes tinham seus textos em caracteres arábicos, com lendas, tradições, encantam entos e fórm ulas religiosas. O conflito entre os dois grupos agudizou-se na m etade do século XVI, com a ascensão ao poder dos Zafikazinam bos.

Os andrianonis zafikazinam bos procuraram desm anchar a influência que tinham na área os Zafidram ínias. Fizeram sua a prerrogativa de que só um descendente de Ram ínia podia abater anim ais dom ésticos e passaram a usá-la com o um instrum ento de controle econôm ico e político. Foram , depois, além : m ataram todos os Zafidram ínias adultos que puderam e confinaram suas m ulheres e crianças. Seria sob os Zafikazinam bos e, em especial, durante os reinados de dois dos seus, Rabesirana e Andriapanolaha, o prim eiro entre aproxim adam ente 1580 e 1615, e o segundo de 1630 a 1660, que o Estado

antem oro de Matitana se fortaleceu e consolidou.21

Dataria dessa grande perseguição a chegada dos Zafidram ínias a Antonasi, onde, em bora não tenham conseguido criar um grande estado centralizado, se tornaram a classe aristocrática. Outras linhagens deslocaram -se para o interior da ilha, em consequência das contendas que se travavam entre os Zafikazinam bos e os Zafidram ínias, e tam bém entre os vários clãs antem oros, e se fizeram reis e nobres entre outros povos, com o os Zafim anaras e os Zafindravolas, que reinarão sobre, respectivam ente, os antandrois e parte dos m asicoros, os Zafiram bos, que fundariam o estado de Tanala, os Zafim anelis, que se tornarão senhores de Bara, e os Andrevolas, que tam bém m andarão em

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m asicoros. Esses Zafim anelis são tidos com o um a estirpe derivada ou

ancestral dos Maroseranas, o m ais im portante dos clãs fazedores de reis. Dos Maroseranas saíram os soberanos de Menabe, Boina, Mahafali e de parte dos antandrois.

Não apenas aristocratas em igravam do Matitana. Tam bém dali saíam m em bros dos clãs sacerdotais. Alguns deles, os cham ados om biasas, costum avam viaj ar por outras terras, a oferecer seus serviços religiosos e curativos. Nelas m uitas vezes se fixavam , contribuindo para propagar, entre pequenas chefias, a ideia do estado. Assim , na m aior parte da ilha, ou por pressão de grupos de im igrantes que se arrogavam poderes sobrenaturais, ou por contágio cultural, os reis se foram im pondo sobre os clãs, e os estados, ainda que pequenos, sobre as aldeias. Boa parte desse processo foi coetâneo da frequentação de Madagáscar por navios da Europa.

Desde 10 de agosto de 1500, quando Diogo Dias, irm ão de Bartolom eu Dias e com andante de um a das em barcações da esquadra de Pedro Álvares Cabral, chegou à ilha, os europeus passaram a frequentar as suas costas, sem pre com a vã esperança de riquezas. Portugueses e, depois, holandeses, ingleses e franceses logravam ali, às vezes com enorm es dificuldades, aguada e refresco, porém não conseguiam m anter fincada a bandeira, derrotados em seus intentos de fundar feitorias pela hostilidade dos nativos, pela m alária e pelas diarreias. Debalde, de Lisboa e Goa, se pediam notícias do cravo, da pim enta, do benj oim , da noz-m oscada e dos m etais preciosos que devia haver — m as não havia — na ilha. Debalde nelas se insistiam , com o se pode ler, para ficar num texto paradigm ático, no m inucioso Regim ento passado pelo rei de Portugal a Diogo

Lopes Sequeira, em fevereiro de 1508.23 Com o resposta, tinham de contentar-se com relatos sobre a existência de gengibre, a abundância de arroz e de cítricos, a boa aceitação que tinha o ferro m algaxe na Índia e a boa qualidade dos panos de ráfia ali produzidos. Da gente da terra, os portugueses e, nos seus calcanhares, os holandeses, ingleses e franceses adquiriam , além desses produtos, escravos, m adeiras, cera, couros, bananas, galinhas, cabras e bois. Só de vez em quando, e quase sem pre de m ercadores m uçulm anos, um gram a de ouro ou prata ou um a pequena m edida de especiarias. Por isso, era sobretudo com o ponto de descanso e reabastecim ento que os barcos europeus procuravam a ilha. E se nela teim avam em erguer feitorias, era porque a sabiam abundante em víveres e com

boa m adeira, ferro e breu para o conserto dos navios. 24

Por volta da m etade do Quinhentos, as fortes correntes, as altas m arés, os intensos ventos e as chuvadas súbitas e violentas fizeram com que o canal de

Moçam bique deixasse de ser o cam inho predileto para as Índias. 25 Os barcos que dem andavam Goa passaram a preferir a rota por fora de Madagáscar, isto é, à vista ou ao largo de sua costa oriental. De que esse itinerário j á era percorrido ocasionalm ente desde o início do século, as evidências são claras: não só os portugueses consideravam , em 1508, o litoral leste de São Lourenço (nom e que

davam à grande ilha) com o bem conhecido, 26 m as viriam a descobrir, pouco depois, no m eio do oceano, a m ais de 800km para oeste, o arquipélago das Mascarenhas. Se, em 1513, o traj eto por fora de Madagáscar não era ainda

m uito usado no transporte de carga, 27 indicava-se esse itinerário num Roteiro das

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costas sul e oriental da África, escrito pouco depois de 1535. E em relatos de naufrágios dos anos de 1554 e 1555, o cam inho por fora da ilha de São Lourenço

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j á aparece com o um a rota alternativa habitual.

Em 1598, os holandeses tom aram posse de um a das Mascarenhas, a que deram o nom e de Maurício. Em bora, desde provavelm ente a segunda década do século, um ou outro de seus navios parassem nessa ilha saudável, bonita e desabitada, os portugueses nela j am ais se instalaram . Após 1611, os holandeses, para escapar ao im pério absoluto das m onções, passaram a usar a cham ada “grande rota” para as Índias, que se traçava, a partir do cabo da Boa Esperança,

para leste, entre os 36o e 42o de latitude sul, até encontrar os ventos alísios de sudeste, quando infletia para o norte até o estreito de Sunda, entre as ilhas de Sum atra e Java. Desde então, a ilha Maurício passou a ser tida com o um a boa escala de socorro para os barcos europeus em dem anda da Índia e do Extrem o

Oriente.30 Tem erosos de que franceses e ingleses viessem a ocupar esse ponto de reabastecim ento e repouso, os holandeses, j á senhores de Batávia, na atual Indonésia, nele instalaram colonos em 1638.

Não tardou m uito e Maurício com eçou a pedir escravos, ainda que em pequeno núm ero. Os poucos flam engos que lá se fixaram necessitavam de m ão de obra para as roças de onde tiravam o abastecim ento dos navios e para derrubar o ébano com que forravam os seus porões. As ilhas de Madagáscar e Java tornaram -se as suas principais fornecedoras de m ão de obra servil. Não devia passar, contudo, de um a centena o núm ero de cativos que chegava anualm ente à ilha, pois, em 1706, só havia 67 escravos num a população de 236

habitantes.31

Quatro anos m ais tarde, os holandeses abandonariam Maurício, desanim ados. Nada ali parecia dar certo, nem m esm o a cana-de-açúcar. O núm ero de colonos sem pre se m ostrara insuficiente, a Com panhia das Índias Orientais não os apoiava com o devia, e os ratos, que se haviam m ultiplicado a partir dos que desceram dos prim eiros barcos europeus, devoravam im placavelm ente as colheitas.

Melhor destino teria outra ilha das Mascarenhas, a que os franceses cham aram Bourbon (a atual Reunião) e que ocuparam a partir de 1665. Em

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1711, ela j á contava com 1.024 habitantes, dos quais 367 escravos. Mas esse relativo êxito devia o seu tanto ao m alogro de Fort Dauphin, a pequena com unidade que, desde 1643, se instalara na ponta de Taolankara, em Madagáscar, sob os auspícios da Com panhia francesa das Índias Orientais.

Foram m ais do que cordiais os prim eiros entendim entos entre os franceses de Fort Dauphin e a gente da terra, os antanosis. Tanto assim que o com andante francês, um certo Prom is, não dem orou em casar-se com a sobrinha do régulo. Este, Dian Ram aka (ou Andriandram aka), era fluente em português, pois havia sido levado, m enino, a estudar em Goa, e conhecia os costum es europeus. Fora, aliás, batizado, m as abandonara o cristianism o, ao regressar aos seus pagos. Tudo parecia, portanto, favorecer o em preendim ento, até porque o povoado ficava num a área de fácil defesa, m enos insalubre que o resto da costa, e era servido por excelente baía. Em pouco tem po, porém , os franceses, que não entendiam as regras do cunhadism o vigentes no país, entraram em choque com os pais e irm ãos das m ulheres que tom avam com o esposas, os quais entravam na paliçada com o parentes e, portanto, coproprietários dos bens que lá se arm azenavam . E desagradaram Dian Ram aka, ao se recusar a acom panhá-lo em suas guerras. De desentendim ento em desentendim ento, chegou-se a um estado de conflito perm anente, não faltando abusos com o a venda pelos franceses aos holandeses de Maurício de 75 m algaxes que haviam sido atraídos ao forte com falsas prom essas. Dian Ram aka, de aliado, tornou-se inim igo. Atacou o forte, e só não o destruiu porque não se im pôs sobre os seus canhões. Sua m orte, pouco depois, em luta contra os franceses, não tornou a posição destes m ais segura.

Tam bém entre os europeus não dem orou em lavrar a discórdia, repetindo-se os conflitos por diferenças religiosas, por ciúm es e am bições frustradas ou reprim idas, por distintas m aneiras de ver os indígenas, pelo cansaço diante de dificuldades que só pareciam aum entar, pelo abandono a que se sentiam votados pela França, pela escassez de víveres, pelo constante estado de alerta e m edo. Sob o sítio dos nativos e das doenças, a com unidade via-se sem pre a m inguar, só se reforçando com a chegada de novos contingentes da Europa. Em quantidade sem pre inferior ao necessário.

A Com panhia francesa das Índias Orientais não era diferente de suas congêneres. Não hesitava em depositar em qualquer ponto dos trópicos punhados dos pobres que sobravam em seus países, e de órfãs, e de degredados, m as resistia em continuar a investir dinheiro num a feitoria ou num a em presa de povoam ento que não lhe respondesse com ganhos rápidos. Eram fundam entalm ente com panhias de com ércio, com interesses im ediatistas. Os seus acionistas dem andavam resultados a curto prazo, com o os que se obtinham com o açúcar na Bahia e em Pernam buco ou com as especiarias em Java. Todo o contrário do que se passava em Fort Dauphin, onde as prom essas de êxito se adiavam para após algum as décadas de continuado trabalho e de onde, por ora, só se recolhiam couros, ébano, cera de abelha, carapaças de tartaruga, algum gengibre e outros produtos de m enor valor.

Econom icam ente, Fort Dauphin foi um m alogro. Mas não faltaram em sua história personagens e situações rom anescas. Com o aquele francês, o m aj or La Case, que se casou com um a rainha antanosi, com andou as suas tropas e por várias vezes livrou de desgraças m aiores os seus conterrâneos. Ou com o o episódio que ditou o fim do forte. Um navio trazia 15 noivas para os colonos da ilha Bourbon. Ao encalhar defronte a Fort Dauphin, m uitas das m oças, tem erosas do que tinham pela frente, requereram ficar em terra e desposar os franceses que lá viviam . Foram atendidas. Os hom ens, porém , j á tinham m ulheres m algaxes, e estas, vendo-se desprezadas, instigaram os seus parentes a atacá-los, revelando-lhes as fraquezas do forte. Durante as festas do casam ento coletivo, os antanosis caíram sobre o povoado e m assacraram a m etade de seus habitantes. Os sobreviventes fugiram para a ilha Bourbon, onde foram reforçar a colônia

que lá engatinhava. Isto, em 1674. 33

Não foram m ais felizes as tentativas inglesas de se instalar em Madagáscar. Em m arço de 1645, 140 hom ens, m ulheres e crianças desem barcaram , a sudoeste da ilha, na baía de Saint-Augustin. A área era insalubre, extrem am ente árida e de todo im própria para a agricultura, por isso que, passado um ano, desses colonos só restavam 60. Não só não com eram o que plantaram , com o se gastaram em disputas com os m algaxes, sobretudo em torno do gado que um roubava ao outro e para o qual só havia pastagens ralas. No início, os nativos tinham -se m ostrado cooperativos, m as, tão pronto se convenceram de que os estrangeiros não tinham vindo apenas com erciar, m as, sim , instalar-se na terra, passaram de afáveis a hostis. Vencidos pelas provações, os sobreviventes

abandonaram de navio o povoado, em m aio de 1646. 34

Igualm ente curta e desastrosa foi um a outra aventura inglesa, na ilha de Assada, j unto à costa noroeste de Madagáscar. Se a Assada corresponde Nossi-

Bé,35 o local era inteiram ente distinto de Saint-Augustin. Cercada de águas tão lím pidas, que se veem os peixes coloridos a nadar entre os corais, a ilha é belíssim a, de solos férteis e praias brancas ponteadas de coqueiros. Os colonos, chegados em duas levas, em 1649 e 1650, não tiveram , entretanto, m elhor sorte.

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Foram vencidos pelas doenças e pela hostilidade dos m algaxes.

Esses dois intentos ingleses dificilm ente poderiam ter tido êxito, um a vez que coincidiram com a consolidação e a expansão, na parte ocidental de Madagáscar, dos grandes estados sacalavas. Os reis guerreiros que estavam subm etendo e assim ilando os m icroestados existentes na região não deixariam de com bater qualquer grupo estrangeiro que se procurasse insinuar nos territórios que tinham conquistado ou que am bicionavam conquistar.

Nos com eços do século XVII, um príncipe da dinastia Maroserana, Andriam isara, estabeleceu-se às m argens do rio Sakalava, um pequeno afluente do Mangoky. Algum as décadas m ais tarde, foi ele sucedido por seu filho (ou sobrinho) Andriandahifotsi, que, em pouco tem po, se tornou senhor das terras que se estendem , ao norte, até o rio Manam bolo. De boa parte de Bam bala, portanto, com suas populações que falavam idiom as de origem banta e que se am algam aram aos invasores. Esses novos dom ínios receberam o nom e de Menabe, o prim eiro dos grandes reinos dos sacalavas, pois assim passaram a ser conhecidos os habitantes da costa ocidental de Madagáscar.

Aos franceses de Fort Dauphin não passaram despercebidas as conquistas de Andriandahifotsi, pois o reino de Menabe aparece em m apa que figura no livro de Étienne de Flacourt, publicado em 1661. Dez anos depois, um francês do forte, Desbrosses, procurou Andriandahifotsi, a fim de adquirir-lhe gado. Encontrou-o senhor de um rebanho bovino de m ais de 120 m il cabeças, sobre o qual assentava o seu poder, e de um exército de 12 m il hom ens. É provável que alguns de seus soldados j á estivessem m unidos de espingardas de pederneira, pois às arm as de fogo (as prim eiras das quais lhe teriam sido enviadas, durante um a difícil batalha, por um a de suas m ulheres) as tradições atribuem boa parte dos seus êxitos

m ilitares, as outras cabendo à sua astúcia e aos seus poderes m ágicos.37

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Quando da m orte de Andriandahifotsi, por volta de 1685, o reino passou

para seu filho Tsim anongarivo (ou Trim anongarivo), que dele expulsou seus dois irm ãos. O m ais j ovem , Tsim anatona (ou Tsim anata), acom panhado por tropas que lhe ficaram fiéis, prosseguiu a carreira paterna de conquistador: derram ou-se sobre as terras m ais ao norte e deu origem a um segundo estado sacalava, o de Boina (ou Iboina), do qual se fez rei.

Não é de afastar-se que a consolidação e a expansão desses dois estados se deva em parte ao desenvolvim ento do com ércio com os europeus ao longo do canal de Moçam bique. Muito provavelm ente, os navios holandeses, ingleses e franceses que com erciavam com as cidades suaílis abasteciam -se tam bém nas enseadas sacalavas. Não tardou m uito e para elas se canalizou um a boa fatia do intercâm bio dantes concentrado nas cidades-estados antalaotes, algum as das quais haviam sido destruídas pelos portugueses. As que sobraram na costa ocidental, ou foram conquistadas por Tsim anatona, ou dele se tornaram vassalas. Graças ao com ércio com os europeus, tanto o soberano de Boina quanto o de Menabe passaram a dispor de bens de prestígio para recom pensar os súditos e aliados m ais fiéis. E de arm as e m unições, que com pravam sobretudo com escravos. O cerne de seu poder continuou a ser, porém , a im ensidão dos rebanhos. Era por m eio da distribuição de bois que aum entavam o núm ero de vassalos e, consequentem ente, os seus exércitos.

A Andriandahifotsi atribuem -se as instituições que m oldaram os reinos sacalavas, ao longo da história, ainda que possivelm ente algum as delas o tenham precedido, com o o culto dos antepassados, a sacralidade dos reis e a veneração de suas relíquias. A partir dele, os territórios conquistados passaram a ser divididos entre os príncipes da fam ília real, e estes, a se distinguirem entre as linhagens dos Volam enas (Zafinim enas, Zafim bolam enas ou “descendentes de ouro”), que eram os filhos da esposa que lhe havia m andado os prim eiros arcabuzes, e os Volafotsis (Zafinifotsis, Zafim bolafotsis ou “descendentes de

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prata”), rebentos das dem ais m ulheres. Tam bém dessa época dataria o costum e de m udar-se o nom e do soberano, quando de sua m orte. Por esse nom e póstum o — Andriandahifotsi tornou-se, por exem plo, Andrianihananinarivo, “o senhor que hum ilhou m il” — os soberanos passavam a ser recordados, evitando-se m encionar o que tiveram em vida. A eles, aliás, ninguém aplicava as palavras

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“m orto” ou “m orte”.

No extrem o norte da ilha, que poderia dar-se por praticam ente despovoado, se não tivesse, no litoral, as cidadezinhas e feitorias antalaotes, alguns príncipes valafotsis, expulsos de Boina pelos Volam enas, criaram , no correr do século XVII, um reino, o de Ankara. O prim eiro soberano, Kozobe, instalou-se, inicialm ente, em Nosy Bé e, depois, em Mahavavy, estendendo a sua autoridade sobre pequenos grupos hum anos que viviam em grutas e que acabaram por dar

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nom e a todos os seus súditos, os antancaras, ou “gente dos rochedos”.

Ao longo do litoral leste, na extensa faixa ocupada, entre a baía de Antongil e o rio Mangoro, pelos povos que coletivam ente conhecem os com o betsim isaracas, dem oraram a form ar-se alguns estados pequeninos. Ao contrário do ocidente da ilha, com suas grandes planuras, favoráveis à pecuária extensiva, a costa oriental se com punha de um a sucessão de vales separados uns dos outros por m ontanhas. Ali, a pesca era a principal atividade, j untam ente com um a agricultura de coivara (ou tavy , em m algaxe). Havia abundância de inham es, laranj as, lim ões, bananas. Bem com o de cana-de-açúcar, que se cortava em rodelas e se chupava. As terras adj acentes à da baía de Antongil eram propícias ao cultivo do

arroz e ricas em m el.42 E deve ter sido ali que se im puseram os prim eiros régulos, com o aquele que os holandeses encontraram , em 1590, a fazer exclusivam ente sua a cor verm elha e a usar um a espécie de coroa com dois

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chifres. A pequena dim ensão das estruturas políticas prevalecentes entre os

betsim isaracas perm itiu que m uitas de suas com unidades se tornassem cam pos de caça dos sacalavas e dos sihanacas, que, j á no século XVII, nelas vinham

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capturar gente para vender na costa oeste.

Um reino sihanaca form ou-se, por algum tem po, ao redor do lago Alaotra. Surgiu antes de 1600, quando um chefe cham ado Raibenifananina, vindo do sul com os seus seguidores, expeliu ou, m ais provavelm ente, subm eteu os vazim bas (nom e que se aplica aos m ais antigos habitantes de Madagáscar) e os incorporou ao seu povo. Há quem pense, porém , que esse reino foi de curta duração e que, na m aior parte de sua história, os sihanacas não tiveram um estado

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centralizado. Em 1667, o francês François Martin ficaria im pressionado com a

agricultura bem -cuidada dos sihanacas, com seus socalcos e canais de irrigação, suas vilas no alto dos outeiros, cercadas por fossos e m uros de pedra, suas casas de m adeira, seus hábeis oleiros, ferreiros e ourives. Lá, encontrou até m esm o

um a ponte sobre o rio — a única em toda a ilha. 46

Bem m ais para o sul, no centro de Madagáscar e no alto do planalto, um a outra estirpe aristocrática, os hovas, com a sua gente, os betsileos, deslocava ou

assim ilava os vazim bas e criava, no início do século XVI47 ou som ente na

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segunda m etade da centúria seguinte, vários reinos. Mais de cem anos depois,

três deles haviam assum ido posições preponderantes na área: o de Lalagina, fundado por Rahasam anarivo, que talvez pertencesse à estirpe de Zafidram bo; o de Arindrano, cuj a criação se atribui ao m esm o régulo, que, ao se tornar leproso, teria sido expulso de Lalagina; e o de Isandra, o últim o a tom ar fôlego, j á às vésperas do século XVIII.

Entre os sihanacas e os betsileos, nas altas planuras pantanosas atravessadas pelos rios Ikopa e Sasaony, um a gente que viria a ser conhecida com o m erina, m as que nas tradições tinha o nom e de hova, com eçara, no início do Quinhentos, a expulsar ou assim ilar os vazim bas que ali viviam . Nisto gastou quase dois séculos, tem po que tam bém levou um a das suas chefias para im por-se sobre as dem ais e estabelecer na área um grande estado centralizado. A história oral atribui o início do processo a um a rainha, Rafohy ou Rangita, que, na m etade do século XVI, im pediu que seu pequeno estado se dividisse em dois, ao decretar que, ao m orrer, não herdassem seus dois filhos, m as apenas um deles, Andriam anelo. Posteriorm ente, o caçula foi m orto pelo povo. Estabeleceu-se, assim , um precedente: designado o sucessor, os dem ais candidatos ao trono

m erina passaram a ser executados.49

Andriam anelo com eçou a utilizar enxadas, azagaias e m achados de ferro, substituiu as j angadas de j unco que se usavam na área por pirogas m onóxilas e instituiu novos costum es, com o a circuncisão real. Instalando-se dentro de um a tranqueira cercada por fossos, ele com eçou a expandir-se pelos territórios vizinhos.

Essa política de conquista foi continuada por seu filho, Ralam bo, cuj os am uletos poderosos lhe asseguravam a vitória sobre os inim igos. Teria sido ele quem com eçou a criar bois e a abatê-los para o consum o da carne. E tam bém o

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prim eiro a ter um soldado arm ado de arcabuz. A Ralam bo atribui-se o ter dado

o nom e de Im erina às terras sob seu controle e de m erinas a seus súditos. Diz-se que com ele os reis m ortos passaram a ser divinizados e suas relíquias veneradas. E que dataria dessa época o banho ritual do rei, a m arcar o ano-novo. É possível que j á então o reino possuísse um a estrutura de classes rígida — ao grosso do povo cham ava-se hova, aos aristocratas, adriana, e aos escravos, andevo —, m as crê-se que tenha sido o autor da hierarquização da nobreza m erina em quatro grupos, conform e o parentesco com a fam ília real.

Tam bém o filho e sucessor de Ralam bo, Andrianj aca, foi um grande rei. Com tropas bem -organizadas, das quais constava um pequeno contingente de arcabuzeiros — em determ inado m om ento, Andrianj aca adquiriu 50 espingardas

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e três barris de pólvora —, ele com pletou a conquista das terras vazim bas,

logrando expulsá-los de seu baluarte, no alto de um rochedo. Nesse m esm o local, Andrianj aca estabeleceu sua cidadela (ou rova), a que cham ou Tananarivo (ou Antananarivo). De posse de toda a área pantanosa, que tom aria o nom e de Betsim itatatra, encheu-a de diques e regos, transform ando-a em vastos arrozais e favorecendo, assim , a rápida expansão de seus súditos. A seus núm eros incorporaram -se os vazim bas que restaram na área, a cuj os chefes Andrianj aca entregou posições de im portância no reino.

Estados com o os de Bara, Mahafali, Menabe, Boina e Im erina, ou com o os existentes, a sudeste, entre os antem oros, os antesacas, os antefasis e os antasonis, e, ao sul e ao sudoeste, entre os antandrois e m ahafalis, não cobriam todo o m apa de Madagáscar. Boa parte da ilha era escassam ente povoada ou m esm o deserta. E em m uitas áreas continuavam a predom inar com unidades organizadas em torno dos clãs e dos conselhos de aldeia. Assim , a nordeste, entre os tsim ihetis, um povo conhecido por sua independência e igualitarism o. Em bora, no fim do século XVII, eles tenham acolhido vários príncipes volafotsis expulsos de Boina, não os aceitaram j am ais com o classe dom inante. Desses tsim ihetis, afirm a-se, aliás, que eram form ados por distintos grupos, fugidos dos caçadores de escravos. A fim de ficar fora do alcance desses, instalaram -se com seu gado, no planalto de Mandritsara, protegido do litoral por um a alta escarpa.

O isolam ento da ilha de Madagáscar, o recortado de suas costas e a escassa população em boa parte de seu território favoreceram que nela se instalassem , a partir da antepenúltim a década do século XVII, vários flibusteiros expulsos do

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m ar das Caraíbas. As águas ao derredor só raram ente eram policiadas pelas

frotas dos países europeus ou de suas com panhias com erciais. E, quando se resolvia enviar um a expedição punitiva, os barcos piratas de até 200 toneladas podiam esconder-se com facilidade nas pequenas baías, estuários e reentrâncias da costa. Nas longas praias de areia branca, os seus navios repousavam até que se raspasse a craca de seus cascos e se reparassem as avarias com a m adeira de excelente qualidade que se encontrava à m ão. Na baía de Antongil, na ilha de Santa Maria e em vários outros pontos de Madagáscar (e tam bém das Com ores e das Mascarenhas), os piratas encontraram refúgio e ligaram -se à gente da terra, cuj as m ulheres desposaram , nelas gerando um grande núm ero de m estiços. A m aioria desses aventureiros era form ada por ingleses e por originários dos portos da Nova Inglaterra (com o Boston) e das Antilhas, m as tam bém havia franceses, holandeses e dinam arqueses. Alguns entraram na história da pirataria, com o Henry Avery (ou Every ), William Kidd, Robert Culliford, Thom as White, Edward England, o capitão Tay lor e o provençal Misson. A este últim o, acom panhado pelo padre italiano Carracioli e por Tom Tew, Daniel Defoe, no livro que escreveu com o pseudônim o de capitão Charles Johnson, A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates, atribuiu, talvez fantasiosam ente, a fundação de um a república libertária na baía de Diego Suarez, onde vigoravam a dem ocracia representativa, a igualdade das raças e a divisão equânim e da propriedade, e da qual estava proscrita a escravidão.

Das bases nas ilhas, os flibusteiros saíam para atacar, sobretudo no golfo de Aden e no m ar Verm elho, as em barcações que, vindas da Indonésia, da Índia m uçulm ana ou do golfo Pérsico, levavam peregrinos para Meca, carregados de ouro, prata, pedras preciosas, seda e outros tecidos finos, e os navios europeus que voltavam do sudeste da Ásia ou do Extrem o Oriente, com lacas, panos coloridos de algodão e todo tipo de especiarias. Muito desse butim era negociado na própria região, com outros navios europeus e com com erciantes instalados na ilha de Santa Maria, ou era levado para os portos das colônias inglesas na Am érica. Entre os bens m ercadej ados, não faltavam m oças nem rapazes. Alguns desses cativos eram recolhidos dos barcos postos a saque; outros, os próprios piratas capturavam em razias ou durante as guerras em que acom panhavam os grupos m algaxes a que se haviam vinculado.

Aum entara, na segunda m etade do Seiscentos, a dem anda por escravos. De Madagáscar, os suaílis continuavam a levá-los para as suas cidades no litoral africano; e os árabes, para o m ar Verm elho, o golfo Pérsico e a costa de Malabar; e os portugueses para Goa, Dam ão e Diu; e os franceses para Reunião; e os holandeses para a Indonésia; e os ingleses para as suas colônias — sobretudo para Barbados, onde, no fim do século, cerca de 16 m il escravos, ou sej a, a

m etade da população cativa, provinham de Madagáscar.53 A m aioria ficava, porém , na própria ilha, a alim entar as necessidades de m ão de obra e de prestígio das aristocracias que dom inavam os grandes e pequenos reinos.

Desse escravism o m algaxe j á se disse, com o de outros, que era benigno. No entanto, não se esconde que andevo ou ondevo, a palavra m ais com um para designar escravo, significa “hom em perdido”, isto é, um a pessoa que deixou de ser e se despiu até da esperança. E consta que era de praxe que, em sinal de subm issão e respeito, o escravo lam besse a sola do pé do dono — e esta im agem deixou-nos um m arinheiro inglês, Robert Drury, que viveu em cativeiro entre os

m algaxes, nas prim eiras duas décadas do século XVIII.54 Se se tratava de um a servidão tolerável, com o explicar o grande núm ero de fugas entre a escravaria? Para evitá-las, utilizavam -se não só procedim entos m ágicos — com o o fam ono, que fazia com que o fugitivo se perdesse ou sofresse um acidente —, m as tam bém peias ou grilhões de ferro que m al perm itiam um lento cam inhar. Nem os feitiços nem as correntes im pediram , no entanto, que fossem num erosos os quilom bos e os grupos nôm ades de escravos fugidos que viviam da rapina. Para rem atar, não se descarta que se castrassem alguns escravos. É isto, pelo m enos, o

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que nos conta um a tradição dos betsileos.