A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 16 de 30

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A Manilha e o Libambo

14. Do Níger à Costa dos Escravos

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Do Níger à Costa dos Escravos

 

A oeste da confluência do Benué com o Níger, estendiam -se, a partir das m argens desse últim o rio, os dom ínios dos nupes, a quem os iorubás cham am

tapas.1 Com o seu poder assentado na cavalaria e em flotilhas de canoas, os nupes provavelm ente j á estavam , no início do século XVI, a aglutinar num grande reino os vários m icroestados que existiam na região e a expandir-se para o norte e o sul do Níger.

Desde m uito, os tapas eram interm ediários no com ércio entre o Iorubo e a Hauçalândia, figurando nas crônicas hauçás com o fornecedores de noz-de-cola, de castrados e de outros escravos. Estes estavam presentes em todas as cam adas da sociedade nupe: ao lado do rei sagrado, o etsu, a servi-lo diretam ente, sobretudo se eunuco, e a com andar em seu nom e; nos exércitos, com o soldados; nas oficinas dos ferreiros e dos tecelões; nas roças dos potentados; e até m esm o nas aldeotas, onde, com o se verificaria m ais tarde, num a casa sim ples podia

haver um ou dois escravos,2 para aj udar nos trabalhos m ais pesados.

De onde não se afastavam era de perto dos equinos. Pois os cavalos exigiam cuidados perm anentes. Cada anim al tinha a servi-lo pelo m enos um a dupla de

escravos. 3 Para lavá-los e escová-los. Para untá-los com as substâncias que os protegiam das picadas da tsé-tsé e dos m osquitos. Para cortar-lhes o capim que com iam , pois eram m antidos am arrados nos pátios dos com pounds. E para acom panhá-los nas cam panhas m ilitares, levando à cabeça fardos de forragem . Em toda a região, os equinos não só m orriam com facilidade, m as dificilm ente procriavam . Por isso, os nupes, para renovar os plantéis, tinham de adquiri-los continuam ente, em geral de Bornu e das cidades hauçás, pagando por eles na m oeda hum ana. Esta iam buscar onde e com o podiam — na m aior parte das vezes, ao sul do rio.

É possível que, j á então, a cidade-estado de Oió (Old Oy o, Ay ot, Ay aux, Ailleaux, Aillot, Ey eo, Ey o ou, para os hauçás, Catunga ou Katunga)

incom odasse os tapas.4 E talvez com petisse com ercialm ente com eles. Isso

explicaria que a tenham invadido, por volta de 1535 5 6 ou três décadas antes. O

exército oió estava distante, em cam panha para disciplinar um a cidade rebelde, de m odo que o alafim Onigbogi não pôde oferecer m aior resistência à cavalaria

nupe, vendo-se constrangido a fugir e a refugiar-se entre os borgus.7 A esse povo, que os iorubás conhecem com o baribas (ou ibaribas), pertencia a principal

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m ulher de Onigbogi e m ãe de seu sucessor, o príncipe Ofinrã. Teria sido por

causa dela que os borgus do reino de Bussa ou do de Nikki 9 consentiram que o alafim se instalasse entre eles com sua corte.

Assim com eçou o que teria sido, segundo a história tradicional de Oió, o longo exílio dos alafins. Um exílio que se confunde com um a dem orada viagem de volta. Isto porque, m orto Onigbogi, Ofinrã desentendeu-se com o rei bariba e resolveu regressar à sua terra. No cam inho, estabeleceu-se em Kusu, onde adotou os m istérios divinatórios de Ifá e, por influência nupe, o culto aos m ortos dos egunguns. E ali se finou. Para levá-lo ao destino que alm ej ava, o seu cadáver

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foi costurado dentro do couro de um asno. Antes, é provável que tenha passado

por um processo de em balsam am ento: dele provavelm ente se retiraram as

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vísceras e se secaram , em fogo brando e por fum igação, as gorduras.

Sucedeu-lhe no m ando o seu filho Eguguoj o (ou Egunoj u), que prosseguiu a viagem e acabou, no cam inho, por fundar um a nova cidade, Igboho. Talvez tenha sido ele quem com eçou a cercá-la por um a tríplice m uralha, a fim de protegê-la

dos nupes e dos borgus.12

Do quarto alafim no exílio, Orom poto, certas tradições, correntes em Igboho,

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afirm am que não era irm ão de Eguguoj o, m as, sim , irm ã. Mulher ou hom em ,

a Orom poto, que teria reinado durante 20 anos, atribui-se o ter restaurado o poder m ilitar oió. Diz-se que seu exército era enorm e, com um a retaguarda com posta

por m il infantes e m il cavaleiros. 14 Teria sido em sua época que os oiós

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com eçaram a im itar os nupes e os borgus e a usar a cavalaria em larga escala.

Aj iboy ede (Xopaxã ou Sopasan), que veio depois de Orom poto e deixou fam a de tirano, teria feito frente à últim a grande investida nupe. Aliviado dessa am eaça, o seu sucessor, Abipa, decidiu cum prir a vontade de Ofinrã e voltar de vez para Oió Ilê. Conta-se que enfrentou a oposição dos grandes chefes, dos oió m esis, que não queriam abandonar Igboho. Sabedores de que o alafim ia enviar alguns de seus validos para inspecionar a cidade e nela proceder aos ritos propiciatórios, resolveram antecipar-se, para lá m andando, com ordem de que procurassem atem orizar os em issários reais, alguns indivíduos que eram considerados com o testem unhas da vingança dos deuses — um corcunda, um albino, um prognata, um anão, um aleij ado e um leproso. A m istificação foi segredada ao rei. E este m andou um grupo de caçadores ir até a cidade calar os avej ões que gritavam estar esta j á ocupada e trazê-los para o palácio. Com as “assom brações” em seu poder, providenciou para que servissem , durante um a audiência, um a cabaça de cervej a a cada um dos grandes chefes que haviam

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tram ado o engodo, assim os desm oralizando. Vencidas as resistências, Abipa

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reocupou Oió Ilê, por volta de 1610 ou um pouco antes.

Robin Law sugeriu a hipótese de que o exílio e o retorno dos alafins fosse um disfarce ideológico para um a m udança de dinastia, um a história forj ada a fim de

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dar legitim idade a novos senhores. Após a tom ada e destruição de Oió pelos

nupes, ter-se-ia criado um vácuo de poder na área, que vários grupos borgus procuraram preencher. Um desses grupos, estabelecido em Igboho, dali ocupou Oió Ilê, ao m esm o tem po que ganhava dos que haviam ocupado Ogbom osho, Saki, Kisi e outras cidades o reconhecim ento com o suserano. Ter-se-ia verificado, assim , naquela ocasião, a m udança dinástica a que se referem as

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tradições recolhidas por Leo Frobenius. Frobenius diz-nos que a um a estirpe

real tapa sucedeu, em Oió, a um a outra, borgu. A prim eira representava Xangô ligado ao carneiro; a segunda, m ontado a cavalo.

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Quem se tinha por encarnação de Xangô ou, quando m enos, por

“com panheiro dos orixás”, 22 j á seria, desde m uito, um rei enclausurado, que só aparecia aos súditos algum as vezes por ano e sem pre de rosto coberto pelas franj as de sua coroa de contas, ou adê. Apesar de recluso no palácio, o alafim não deixara escapar de seu controle a cidade e o reino, nem a supervisão dos territórios que, ao longo do século XVII, se foram incorporando àquilo a que cham am os, por falta de m elhor palavra, “im pério” de Oió.

É possível que j á então tivesse o seu poder condicionado pelos sete oió m esis, que chefiavam as linhagens aristocráticas da cidade: o baxorum (bashorun), o m ais im portante deles, um a espécie de prim eiro-m inistro, que servia de regente entre a m orte do rei e a ascensão de seu sucessor; o agbakin, que cuidava do culto de Oraniã, o fundador de Oió; o sam u, cuj as funções não se sabem ao certo; o alapini, que era o cabeça da sociedade dos egunguns; o laguna, que tinha a seu

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cargo o culto de Oko, o orixá da agricultura; e asipa, chefe dos ritos de Ogum . A esses oió m esis, que, j untos, podiam depor o rei ou, m elhor, induzi-lo ao suicídio, ao enviar-lhe um a cabaça oca ou um ovo de periquito esvaziado por m eio de um furinho, o alafim opunha a forte burocracia do palácio, com posta em grande parte por escravos e por pessoas que se escravizavam voluntariam ente e até se em asculavam para nela ingressar.

Graças a essa burocracia, encabeçada por três eunucos — o otun iwefa, que tinha a seu cargo o culto a Xangô e o seu santuário em Koso, o osi iwefa, que respondia pelas finanças reais, e o ona iwefa, que substituía o rei com o j uiz —, o soberano m ultiplicava os seus olhos e ouvidos e os espalhava cidade, reino e im pério afora. Em algum as cidades-estados, o alafim punha um representante

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perm anente, o asoj u oba ou aj ele, para vigiar o com portam ento do obá. E por

toda parte andavam os seus ilaris, escravos de confiança, que se reconheciam por ter, na cabeça raspada, fundas incisões com substâncias m ágicas, e que eram , ao m esm o tem po, m ensageiros e espias. Não eram estas, contudo, as únicas funções dos ilaris: hom ens e m ulheres, eles e elas se desdobravam a

serviço do rei, dentro e fora do palácio.25 Outros funcionários, de nível m ais alto, eram tam bém tidos com o escravos: os arokins, ou historiadores da Corte, por exem plo, os tetus, ou carrascos do alafim , e o olokun eshin, o “senhor do cavalo”,

palafreneiro e cuidador dos estábulos reais.26 O olokun eshin, do m esm o m odo que o osi iwefa, pertencia ao grupo abobaku, ao núm ero seleto daqueles que deviam suicidar-se, quando do falecim ento do soberano, a fim de acom panhá-lo

no além -vida. 27

Os assuntos de cada cidade tributária eram colocados, na corte, sob o cuidado de um nobre ou de um escravo de alto bordo, que dela se fazia patrono. Os régulos ou obás vassalos, com direito a usar um a coroa sem franj as de contas, a akoro, e os chefes de cidades m enores, ou bales, gozavam , contudo, de grande liberdade de governo. Não podiam , é certo, envolver-se em guerra sem o consentim ento do alafim . Nem condenar um hom em livre à pena capital, um a vez que o alafim era o senhor da vida e da m orte. Era tam bém o senhor do m undo, que regia com ritos m inuciosos e diários. Tam bém os obás locais tinham funções sagradas. E eram j uízes. Mas ao alafim com petia decidir de form a definitiva e final as disputas entre os diferentes régulos, bem com o os casos j udiciários m ais sérios. Quase sem pre, era o ona iwefa quem ouvia as partes e j ulgava por ele.

Há sinais claros — um alafim , Oluodo, afogou-se durante um a cam panha

m ilitar, 28 e um outro, Aj iboy ede, escapou de m orrer num com bate contra os

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tapas — de que, antes de encerrar-se em seu afim ou palácio (alafim quer

dizer literalm ente “o senhor do palácio”), os soberanos podiam com andar, e com andavam , os seus exércitos. Depois, a direção das tropas de Oió Ilê passou para o baxorum . Apoiava-se ele em 70 chefes m ilitares, escolhidos por seus

m éritos nas arm as, os exós (ou esos),30 cada um dos quais trazia consigo os seus

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hom ens, na m aioria escravos, bem treinados com o arqueiros ou com o ginetes. Os obás vassalos e os bales das cidades provinciais m andavam tam bém as suas tropas, dirigidas por eles próprios e talvez sob a condução geral de um deles, que,

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em m ais de um a ocasião, foi o oni ou rei de Ikoy i. Mais tarde, j á no fim do

século XVII, o alafim criou um novo título, o are ona kakam fo, e o fez com andante dos contingentes que não eram form ados pelos habitantes de Oió

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Ilê.

Os arqueiros funcionavam com o artilharia ligeira. Em bora fossem soldados apenas parte do ano — após um a cam panha, voltavam aos trabalhos agrícolas em suas aldeias —, deviam ser subm etidos a um bom adestram ento. Já o m esm o não ocorria com os infantes, arm ados de lanças, porretes, punhais e azagaias, que só tiravam as m ãos das enxadas de cabo curto na hora de ir para a guerra. Quanto à cavalaria, form ada em grande parte, pelo m enos de início, por

escravos nortistas afeitos aos equinos,34 com o os baribas, nupes, hauçás e bornus, e m unida de lanças longas, azagaias e espadas, é a ela que se atribui o bom êxito das arm as oiós, nas savanas do norte do Iorubo e em sua continuação até quase o litoral, na grande brecha que se abre na floresta, do leste da atual República de

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Gana à fronteira com a Nigéria.

Depois de neutralizar, no início do Seiscentos, as am eaças nupe e bariba, Oió deve ter-se im posto sobre as pequenas cidades-estados circunvizinhas (talvez fosse m ais correto falar de aldeias-estados), que continuaram — e esta terá sido a regra em quase todo o Iorubo — a ser chefiadas por seus obás ou régulos tradicionais. Foi, em seguida, am pliando sua área de suserania sobre o norte do Iorubo, até dom inar a grande área que se estende do sul dos rios Moshi e Níger até a confluência do Oy an com o Ogun, e do Opara, a oeste, até, para o oriente,

as terras dos equitis.36 Ensaiou ir adiante, para leste e sudeste, m as esbarrou não

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só com o poder do Benim , m as tam bém , no país dos ij exás e no Ekiti, com a

floresta e o terreno m ontanhoso, adversos ao uso da cavalaria e ao próprio cavalo, pela presença da tsé-tsé. Para o sul, nas áreas egbá e ij ebu, bem com o no Egbado, não eram m elhores as condições. Dada a fragm entação dos egbás em pequeninos reinos, os oiós lograram colocá-los em sua área de influência. Quanto ao Egbado, não o conquistaram m ilitarm ente: venceram -no por infiltração de grupos de colonos. E de origem oió seriam tam bém aqueles que, ao oeste do baixo Yewa se tornaram conhecidos com o anagôs — ou nagôs stricto sensu, pois

“nagô” é um a palavra tam bém em pregada pelos evés,38 fons e guns para

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designar todos os iorubás. Se os auoris se avassalaram ao Benim , os ij ebus

podem ter tam bém ficado por bastante tem po, ainda que frouxam ente, na esfera do reino ou “im pério” edo.

Os lindes com os equitis, os ij exás e os ij ebus sofreram , ao que parece, constantes razias dos oiós, que ali iam buscar os escravos que vendiam , em pequenos núm eros, para as savanas do norte e, em quantidades crescentes, m as que só se tornariam significativas nos últim os anos do século XVII, para o Atlântico. Curiosam ente, os oiós, talvez por confiantes em sua cavalaria, não se

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interessavam pelas arm as de fogo europeias.

Não sabem os até onde se estenderam , no Seiscentos, a suserania e a zona de influência de Oió, m as, pelo m enos na parte ocidental do Iorubo, o alafim deve

ter eclipsado a influência do oni ou rei de Ifé. 41 No século XVI, este últim o, ao que parece, ainda recebia hom enagem ou um tratam ento especial dos outros reis que se consideravam descendentes de Odudua. Talvez fosse m ais do que apenas o detentor dos poderes religiosos com que sacram entava a ascensão de alguns deles ou, noutros casos, consagrava ou reconsagrava periodicam ente os sím bolos da realeza, tal qual sucedia ao assum ir um novo alafim em Oió ou um novo oúa (ou owa) em Ilexá: a espada cerim onial devia ser enviada a Ifé para ser

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recarregada de força pelo oni. Poderia até ser m ais do que um prim us inter

pares, no plano secular, com o o viram Duarte Pacheco Pereira43 e João de

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Barros, se é que o Hooguanee do prim eiro e o Ogané do segundo eram

realm ente, com o tudo indica, o oguene, que é com o os edos ou benins cham am ao oni de Ifé. Os dois portugueses com pararam -no ao papa — ao papa daquele tem po. Não há, contudo, sinais de que exercesse suserania ou autoridade sobre os

dem ais reis. 45

No correr do Seiscentos, Ifé foi perdendo a sua im portância política e econôm ica, ainda que continuasse, com o continua até hoj e, a ser considerada a cidade sagrada, o um bigo do m undo, a fonte original de todas as coisas, o lugar onde surgiu o hom em e de onde ele se dispersou sobre a face da Terra. A arqueologia nos m ostra que, em algum m om ento, a cidade com eçou a dim inuir de tam anho. E que, possivelm ente durante o século XVI, nela deixaram de m oldar-se no barro e de fundir-se no m etal as belíssim as figuras hum anas, as cabeças fam osas pela serenidade, lim peza de form as e realism o idealizado, que colocaram Ifé no m apa da arte universal, na m esm a linha da escultura clássica grega e do Renascim ento italiano. Essas im agens vazadas em latão ou cobre, pelo sistem a da cera perdida, têm sido datadas do século XI ou XII ao XIV, XV ou

XVI.46 Deixaram de ser feitas exatam ente quando a presença portuguesa nas costas atlânticas da África havia aum entado a disponibilidade de cobre e latão. Inexplicavelm ente, Ifé silencia no m esm o m om ento em que a relativa abundância de m etais im portados — num único navio, em 1516 ou 1517,

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seguiram 13 m il m anilhas para Ughoton — m ultiplica as placas de “bronze” no

reino do Benim . O próprio trabalho nos m etais se apaga. Isto talvez se tenha dado no início do século XVI, pois Frank Willett nos recorda que João de Barros se refere ao bordão, ao capacete e à cruz sem elhante à de Malta que “ogané”

enviava ao obá beninense,48 disso deduzindo que Ifé ainda fundia obj etos em

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cobre e latão quando João Afonso de Aveiro visitou o Benim em 1485. E talvez

continuasse a fazê-lo algum as décadas m ais tarde, se é que não era antiga a cruz que, em 1540, um em baixador benim , um hom em dos seus setenta anos, disse ao rei de Portugal ter recebido do “ogané”.

É possível que, pela m esm a época, tenha desaparecido da coroa do oni a roseta que, no gorro de contas que cobria as cabeças em terracota ou bronze, indicava a realeza. Form ada em geral por vários discos concêntricos, que vão dim inuindo de tam anho e term inam em botão, dela se levanta um a espícula enfeitada, um penacho ou um a placa a rem atar em rosácea. A substituição da coroa das esculturas clássicas de Ifé pelo adê fez com que se aventasse ter

havido, no século XVI, um a m udança de dinastia em Ifé.50 Para o novo grupo que tom ou o poder, as esculturas realistas em terracota e ligas de cobre não tinham utilidade religiosa nem política. Deixaram de encom endá-las e, em breve tem po, as técnicas m orreram com os seus m estres.

Se houve um a ruptura dinástica, a história oral de Ifé a esconde. Não que nela faltem suicídios e deposições de onis. Dela consta até um usurpador, Laj uwa, um cam areiro do oni Awotokolokin, que, m orto este, ocultou o fato, vestiu as roupas reais e, atrás da cortina facial do adê, atuou com o o soberano, até ser descoberto.

Frank Willett51 sugere sej a outra versão dessa história a que recolheu E. Bolaj i

Idowu, e que explicaria o desaparecim ento da escultura naturalista em Ifé.52 Tendo o rei falecido, os servidores do palácio resolveram calar a sua m orte. Mandaram fazer um a estátua de tam anho natural — e de tam anho natural é a m aioria das cabeças em m etal e cerâm ica de Ifé — e a colocaram num canto escuro da sala de audiências. O língua continuou a falar pelo m onarca, enquanto o engodo não foi revelado. O novo oni tirou sua desforra: deu ordem para que se m atassem , sem exceção, todos os escultores.

Com o declínio de Ifé, até m esm o a prim azia ritual do oni foi contestada, e

não só por Oió, m as tam bém pelos ij exás e ij ebus. 53 Procurou-se desqualificar o oni: não descenderia ele de Odudua, m as de um escravo que ficara a cuidar do

palácio, quando os príncipes saíram de Ifé para fundar os novos reinos.54 Não havia, portanto, razão para conceder-lhe precedência nem prestar-lhe hom enagem . O passo seguinte não tardou a ser dado por Oió: o alafim passou a reivindicar a posição de irm ão m ais velho, ou sej a, para usar um a palavra inglesa, de param ountcy entre os obás iorubas.

(Aqui convém que se abra parênteses para explicar que nem aqueles reis nem os seus povos se consideravam iorubas ou iorubás. Antes do século XIX, iorubá era o nom e que os hauçás davam aos oiós. Talvez tenha sido em 1832, no livro A Vocabulary of the Ey o, or Aku, a Dialect of Western Africa, de J. Raban, que o term o foi usado pela prim eira vez para referir-se aos vários povos que, vivendo no que é hoj e o sudoeste da Nigéria e o sudeste da República do Benim , falavam variantes do m esm o idiom a, adoravam os m esm os deuses e tinham

cultura sem elhante.55 Mem bros desses diferentes grupos — abinus, auoris, egbados, egbás, equitis, ibarapas, ibolas, ifés, ifoniins, igbom inas, ij ebus, ij exás, ilaj es, oiós, ondos, quetos —, ao viverem j untos, em terras estranhas, a duríssim a experiência da escravidão, aproxim aram -se e se reconheceram com o parentes, com o “nagôs” no Brasil e com o lucum is em Cuba. O m esm o se dera com aqueles que foram libertados dos navios negreiros pela esquadra britânica e colocados na Serra Leoa: identificaram -se coletivam ente com o akus. Ao se estabelecerem em Lagos, com o retornados do Brasil, de Cuba ou da Serra Leoa, encontraram grupos de línguas sem elhantes, m as de distintas procedências, que para lá tinham sido expelidos pelas repetidas guerras no interior. Uns e outros verificaram que as diferenças os enfraqueciam e as sem elhanças os fortaleciam diante dos dem ais grupos e sobretudo dos europeus. Em bora continuassem a ser o que eram antes — ij exás, ij ebus ou egbás — ou o que se tinham tornado — agudás, am arôs ou “brasileiros” e sarôs ou “serra-leonenses”—, todos passaram a reconhecer um a identidade m aior, a de iorubá — palavra que ganhou, na África do século XIX, trânsito m ais am plo do que aku, lucum i ou “nagô”. Quando os m issionários, na esteira do reverendo Sam uel Crowther, que publicou A Vocabulary of the Yoruba Language em 1843, com eçaram a usar o dialeto de Oió, de preferência a qualquer outro, para escrever os textos com que am paravam a atividade catequética, e a em pregar a palavra “iorubá” em seu

novo sentido, contaram com a anuência e a adesão de quem se via com o tal.56)

É provável que m ais da m etade dos que hoj e cham am os iorubás não estivessem sob a suserania ou na área de controle de Oió. Esse era, certam ente, o

caso dos ij ebus, espalhados ao norte dos auoris57 e da laguna onde fica Eke, Onim ou Lagos. Form avam eles, num a região densam ente florestada, vários reinos, com o Ij ebu-Ode, Rem o, Idowa, Iwoy e, Ij ebu-Igbo, Owo-Ikij a e Ij ebu-Ifé, exercendo o prim eiro, sob seu soberano, o avuj ale (ou Awuj ale), um a certa hegem onia sobre os dem ais. De certo m odo, o avuj ale reinava sobre reis.

Os dom ínios sob seu controle direto estavam cercados por um a extensa m uralha de terra, o Eredo, com 128km de com prim ento, a envolver cerca de 1.000km 2, e com até 7m de altura, acom panhada por um fosso exterior de 6 a 8m de profundidade. Duarte Pacheco Pereira, ao vê-la, deve ter-se espantado. Diz da cidade que era grande, “cercada de um a m uito grande cava”. E que nela

os portugueses adquiriam escravos e dentes de elefantes.58 Mas m uitas outras m ercadorias se ofereciam em Ij ebu-Ode. As que transitavam do litoral para a floresta, da floresta para a savana e ao longo da lagoa e dos canais que a vinculavam ao longo cam inho aquático que se estendia paralelo à costa. E as que se produziam localm ente. Pois os ij ebus eram excelentes agricultores e artesãos. Seus tecidos, sobretudo os listrados de azul e branco, viriam a ter grande procura, não só entre os povos vizinhos, m as tam bém em terras distantes e até m esm o do outro lado do oceano, na Bahia, onde, a partir pelo m enos do fim do século

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XVIII, foram dos m ais requestados panos da Costa. Entre o fim do século XV

e os com eços do XVII, os portugueses ali com praram m uito desses panos e sobretudo escravos, para revender aos acãs. Mas depois, ao que parece, deixaram de frequentar com assiduidade a laguna. Talvez porque sua entrada fosse perigosa e nela tivessem experim entado m uitas perdas. Não devia valer o risco, até porque um a boa parcela da produção têxtil ij ebu devia escorrer para o Benim , onde estava à disposição dos portugueses. Quanto aos escravos, passaram

a seguir por terra ou por canoa para os portos do reino de Aladá.60

Contra o silêncio da história oral ij ebu, os benins afirm am que, no fim do

século XV, o obá Ozolua conquistou o país e o dom inou por algum tem po.61 Quase duzentos anos m ais tarde, Olfert Dapper nos indica que o rei de Ij ebu (ele

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escreve Jaboe) pagava tributo ao obá do Benim . Se isso correspondia à

realidade, a vassalagem devia ser frouxa. Mas é possível que os benins, que haviam alongado o seu poder até Eko e ali instalado um reino deles dependente, tivessem tam bém se apossado de parte do território ij ebu. Já as áreas m ais ao norte deviam sofrer as razias dos oiós. Em Oió, registrou-se um a tradição segundo a qual, na segunda m etade do Seiscentos, o alafim Aj agbo entrou com

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seus exércitos em Ij ebu-Ode e colocou no poder um avuj ale de sua confiança. Caso isso tenha ocorrido, a presença oió foi passageira, pois seria extrem am ente difícil a um exército baseado na cavalaria m anter-se num a área de florestas, adversa ao cavalo e ao seu uso.

A sudeste de Oió, na região m ontanhosa e coberta por m atas do país ij exá, não parecem ter sido m elhores os resultados obtidos pelos exércitos do alafim . Em bora tanto os oiós quanto os ifés costum assem ali efetuar razias por escravos — os ij exás eram apreciados sobretudo para os sacrifícios hum anos —, as tradições m encionam tam bém repetidas incursões arm adas dos ij exás contra os oiós e destacam a derrota que aqueles infligiram às tropas do alafim Obalokun,

desacostum adas a lutar no m eio do m ato.64 O reino ij exá, com sua capital em Ilexá (ou Ilesha), é lem brado por seus potes de barro de alta qualidade, pela valentia de seus soldados e tam bém por ter tido cinco m ulheres com o oúas (ou Owa), o nom e dado a seus obás.

O eleuí (Elewi) ou euí (Ewi) de Ado, o ore ou ouore (Owore) de Otun, o aj ero de Ij ero, o elecole (Elekole) de Ikole, o dej i de Akure, o onirê de Irê e o oúa (Owa) de Idanre são alguns dos reis das pequenas cidades-estados equitis, cerca de 16, em poleiradas em suas m ontanhas rochosas. Idanre era a de m ais difícil acesso: no alto dos 950m do m onte Orosun, a ela só se podia chegar subindo um a

escada de corda que acom panhava um a escarpa vertical. 65 As m ontanhas protegiam os equitis da cavalaria oió, m as não dos exércitos edos, de m odo que boa parte de seus territórios esteve por m uito tem po sob o controle do obá do Benim .

Bem m ais exposto estava, a sudeste do Ekiti, o reino de Owo. Lindeiro com o Benim , foi por ele invadido m ais de um a vez e provavelm ente por algum tem po lhe pagou tributo. O reino era enorm e e de sua riqueza dá testem unho o palácio do rei ou olouo (ou Olowo): um dos m aiores de todo o Iorubo, continha m ais de

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cem pátios internos.

A sudoeste de Owo, a noroeste do Benim e a leste de Ij ebu, viviam os ondos, sob o oxem aue (ou Oshem awe). Um a das peculiaridades desse reino iorubano é a im portância política que nele detêm as m ulheres. Form am elas um conselho de chefes, que tem acesso ao dos hom ens e a cuj a líder, a lisa labun, cabe o papel

de instalar o novo rei. 67

Se Oió não logrou expandir-se para sudeste, o seu avanço im perial colheu quase tudo o que queria na direção do sudoeste. O alafim contou naquelas bandas com dois bons aliados iorubanos, se é que não eram dele tributários: o reino de Savê (Savé ou Sabe), na m argem direita do Opara, e, ao sul, entre o alto Yewa e o Ouém é, Queto. Com a anuência, o beneplácito ou a aj uda de am bos, Oió procurou im por-se sobre os povos de idiom as que têm sido cham ados aj as (ou adj as), evés (no sentido lato) ou gbe que viviam nas savanas m ais para oeste. Na segunda m etade do século XVII, quando reinava o alafim Aj agbo, a cavalaria oió teria devastado o reino de Uem ê (Ouém é ou Wem e), j unto à laguna costeira de Nokué, atacado o do Daom é (Dahom é, Dahom ey, Danxom é ou Dangom é) e, m ais de um a vez, o de Aladá (Ardra ou Arda).

Segundo suas tradições, os antepassados dos aj as viviam em Queto, de onde teriam sido expulsos pelos iorubás. Dirigiram -se, então, para o ocidente, fixando-se em Tadô (ou Sadô), na m argem esquerda do Mono, de onde, ao sentirem que se aprofundava a discórdia entre as várias linhagens, algum as delas resolveram sair em busca de outras terras. Um grupo foi para sudeste e lá fundou Aladá. Um outro encam inhou-se para o sul, instalando-se em Popó Grande e em Huedá (Aj udá, Judá, Ouidah, Why dah ou Fida). Um terceiro seguiu para o poente e parou em Nuatj a (ou Notsie), de onde teriam saído os evés stricto sensu, que são

aqueles que habitam a região entre o Mono e o Volta. 68

A dispersão dos evés stricto sensu teria sido causada — é o que afirm a a história oral — pela crueldade de um rei cham ado Agokoli, que, na construção das m uralhas de Nuatj a, obrigava os súditos a am assar com os pés o barro que enchia de espinhos. Possivelm ente, os evés se foram segm entando à m edida que as suas povoações aum entavam de tam anho. Um conj unto delas form aria um m icroestado, que se som aria ou não a outros para com por confederações, que tinham por obj etivo a defesa com um , m as não afetavam a independência de cada um de seus m em bros. Assim j á devia ser, na penúltim a década do século XVII, entre os evés anlos, que vivem em torno da lagoa Keta, no sudeste da atual República de Gana, no extrem o ocidental do sistem a de lagunas, furos e canais que corre paralelo à costa até praticam ente o delta do Níger. Reconheciam eles no chefe de Anlogan, o awom efia, o líder secular e provavelm ente tam bém espiritual de todos os anlos. O awom efia vivia recluso, era tido por sagrado, e acreditava-se que quem o m irasse de frente ficava cego ou louco, quando não

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recebia m orte fulm inante.

Outras são as histórias contadas pelos fons e pelos guns sobre a saída de Tadô.

A que predom ina em Porto Novo70 nos diz que reinava Aholuho, quando sua filha, Dako Huin, desposou um forasteiro, um caçador m ágico, Adim ola, que

seria um iorubá.71 Apesar da oposição dos dem ais filhos de Aholuho e contrariando a norm a de herança patrilinear, o poder acabou nas m ãos de dois rebentos gêm eos da princesa e do estrangeiro, Dassu e Dassa, que se sucederam no m ando. Após m ais 15 reis da m esm a linhagem , abriu-se, com a m orte do últim o deles, Akolu, um a violenta querela sucessória, que obrigou aquele que seria o herdeiro legítim o, Kokpon, a abandonar com os seus partidários Tadô. Sua cam inhada só teria fim depois que ergueu a aldeia de Adanhounsa, da qual se originaria Aladá, onde foi rei durante alguns anos.

Já as tradições esotéricas do clã real do antigo reino do Daom é dão à filha do soberano de Tadô o nom e de Aligbonu e contam com o ela se uniu a um

leopardo. 72 Ou a um espírito com a form a do felino. Ou a um guerreiro poderoso com o um leopardo. Desse encontro nasceu um filho, Agassu (ou Agasu), e das relações incestuosas deste com a m ãe, a estirpe dos Agassuvis. Estes, em bora não tivessem , num sistem a de herança patrilinear, direito ao tam borete real, reclam aram -no para um dos seus. Diante da oposição que lhe faziam as linhagens patrilineares de Tadô, resolveram abandonar o reino, levando consigo o cadáver ressecado de Agassu. Chegados ao sítio onde viria a ser Aladá,

enterraram -no e construíram sobre seu túm ulo um santuário,73 que puseram sob os cuidados de um sacerdote, o agassunon. Com esse ato, os im igrantes fizeram de Aladá um novo lar ancestral, ainda que não apagassem as lem branças de

Tadô.74 Num a outra versão, Agassu seria um a pantera, que se transform ava em m ulher para coabitar com o rei. Os rebentos da união nem por isso foram aceitos, porque a gente de Tadô não quis ser governada pelo filho de um a fera.

O reino de Aladá ou Ardra j á existia na m etade do século XVI, pois Arida e

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Arda aparecem nos m apas portugueses a partir de 1570. Algum as décadas m ais tarde, era um estado poderoso, controlando os portos de Ofra e Jakin e tendo por tributários, ao que parece, não só os reinos de Tori e Daom é, fundados por m em bros de sua casa real, m as tam bém o de Huedá ou Aj udá, que tinha sua capital em Savi. É possível que Popó Grande tam bém lhe prestasse algum tipo de vassalagem . E que os reis desses estados recorressem ao santuário consagrado a Agassu. Todos diziam -se originários de Tadô e talvez vissem no soberano de Aladá o irm ão m aior, um a espécie de rei dos reis, com autoridade sobre os

dinastas aj as a leste do Mono. 76 Devia ser por isso que lhe cabia, por m eio de seus representantes, conduzir os ritos m ortuários do rei de Aj udá e de outros reis aj as e consagrar os seus substitutos.

Do ahosu (ou akhosu) de Aladá ou Ardra dizia-se que era o “rei grande”. Um rei dos reis, repito. Mas é possível que tivesse ele de com por-se, a leste, com o obá do Benim , que, na m etade do século XVI, havia alongado o seu dom ínio, pelas lagunas, furos e canais paralelos ao litoral, até Lagos e, para além de

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Lagos, até um a cidadezinha cham ada Idole, próxim a à atual Porto Novo, encostando, assim , suas fronteiras às de Aladá. Talvez, ao escoar-se o segundo terço do Seiscentos, o rei de Aladá ainda pagasse tributo ao soberano benim , ou, quando m enos, lhe reconhecesse a precedência, lhe enviasse presentes ou lhe prestasse hom enagem .

Aladá fortaleceu-se com o com ércio com os portugueses. Em algum m om ento do século XVI, m etropolitanos e são-tom enses com eçaram a parar em seus portos. Tornaram -se fregueses. E alguns deles, no início do século XVII, passaram a m orar nas aldeias aladás, para m elhor fazer com ércio. Pelo m enos

foi isso o que escreveu, em 1602, Pieter de Marees. 78 O holandês nos assegura que os portugueses adquiriam ali m uitos escravos, geralm ente m elhores do que os do Gabão, em bora inferiores aos de Angola. A sua afirm ação de que, naquela parte da costa, nada m ais havia que valesse a pena, exceto as contas coris, choca-se, porém , com o que escreveria, pouco m ais de 20 anos depois, o capitão Garcia Mendes Castelo Branco. Segundo este, além de negros, obtinham -se em Ardra, cuj o rei era am igo dos portugueses, panos de algodão, m arfim , azeite de dendê, inham es, legum es e outros m antim entos. Num bom porto negreiro, a abundância de gêneros alim entícios devia acom panhar a de cativos, pois a dem orada travessia do oceano reclam ava água e com ida em grande quantidade, para o sustento das centenas de escravos que em cada navio se em barcavam .

Na m etade do Seiscentos, a capital do reino, Grande Aladá ou tam bém Zim a, Assim ah ou Assém , conform e quem escrevesse a palavra fosse espanhol, inglês

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ou francês, era um a grande cidade, com entre 19 e 25km de circunferência e

por volta de 30 m il habitantes. 80 Olfert Dapper nos diz que o rei tinha nela dois palácios. De um deles sobrou um a descrição, feita por um francês, D’Elbée, que visitou a cidade em 1670: de dois andares, o prédio era am plo e bem construído,

com num erosos aposentos, abertos para pátios espaçosos.81 Do rei que nele vivia recluso, contou que falava português, o que tam bém se passava com o seu filho

m ais velho e com a m aioria dos chefes.82 Disto não deveríam os espantar-nos, pois esse era o idiom a com ercial predom inante ao longo da costa, que os outros europeus tinham de aprender, se queriam m ercadej ar com êxito. William Bosm an, que lá viveu no final do século XVII, conta-nos que o rei de Aj udá

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com preendia um pouco de português, e seu contem porâneo Jean Barbot acrescenta que os m ercadores nativos se desafogavam naquilo a que se dava

localm ente o nom e de “língua franca”, um pidgin do português.84 Num erosos eram , aliás, os term os portugueses que os autores holandeses, ingleses e franceses da época em pregavam , às vezes com pequenas alterações de grafia — term os com o “alcaide”, “cabeceira”, “com prador”, “fatura”, “feitiço”, “feiticeiro”, “fiador”, “fidalgo”, “pano” e “m ancebo” —, sem necessidade de explicá-los, porque pertenceriam ao “vocabulário sem fronteiras” de então,

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àquele tipo de palavras estudadas por Sérgio Corrêa da Costa, que, por

im prescindíveis, passam , praticam ente sem alteração de form a, de seu idiom a para os dem ais e se tornam “m oeda de uso corrente” internacional.

Muitos dos escravos que subiam nos navios portugueses em Ofra, Jakin ou Apa eram conhecidos nas Am éricas com o ararás, aladás, aradás ou ardras. O núm ero dos em barcados aum entaria consideravelm ente, depois que os holandeses, na quarta década do século XVII, passaram a predom inar na região. Foi por essa época que ela ganhou o nom e nada invej ável de Costa dos Escravos. Não sem m otivo, aliás, pois o reino de Aladá tornara-se o grande fornecedor de gente para os holandeses. Entre 1636 e 1647, estim a-se que os holandeses levaram de seus portos por volta de 800 alm as, anualm ente. Após um a fase de calm aria, as exportações de escravos retom aram im pulso em 1667. Por volta de 1670, os flam engos j á em barcavam cerca de três m il cabeças. E num só ano, 1670, os franceses ali com praram m il pessoas. Com pequenos intervalos de queda, os núm eros continuariam a subir: Aladá, Aj udá e as áreas vizinhas m andariam para longe de suas praias um a m édia anual de cinco m il escravos na

penúltim a década do século, e dez m il na últim a. 86 O grosso dessa escravaria destinava-se ao continente am ericano. Mas havia um a pequena parcela que ficava na África. Tanto os holandeses quanto os dinam arqueses e ingleses adquiriam gente em Aladá, a fim de pô-la a servir em seus estabelecim entos na

Costa do Ouro.87

Não só em Ardra, m as tam bém no resto da cham ada Costa dos Escravos, a reação à dem anda am ericana foi pronta, im aginativa e eficiente. A região era densam ente povoada, e nela se encontravam , ao lado de estados fortes, sociedades aldeãs, que aqueles viriam a considerar com o reservas naturais de escravaria. É provável que, antes da chegada dos europeus, nelas j á fossem esporadicam ente buscar cativos, m as só quando escasseavam os prisioneiros de guerra. Pois era das guerras políticas que provinham os seus escravos. Desses, não é de excluir-se que alguns poucos fossem ser vendidos, além -Volta, aos acãs, ou que seguissem na direção do Níger. Um a ou outra cativa podia fazer a longa viagem até os caravançarais da m argem do Saara, m as tinha de ser um a cativa m uito especial, um a bela m ulher ou um a excepcional tecelã, ceram ista ou cesteira, para m erecer um preço que j ustificasse o custo do transporte da região litorânea até o Sael. Seguram ente, uângaras e m ercadores hauçás levavam escravos adquiridos na costa, a carregar à cabeça os cestos de cola, até as savanas sudanesas e os vendiam nos portos caravaneiros do deserto. Mas esse seria um com ércio m arginal, com o escravo a custar barato nas áreas próxim as à costa.

Com os europeus, m udou-se o quadro.88 Subitam ente, a dem anda por escravos viu-se m ultiplicada. E o seu valor, tam bém . Os estrangeiros aguçavam a oferta com a perspectiva de pagam ento não só na m oeda corrente, os cauris, trazidos em grandes quantidades das Maldivas, m as tam bém em tecidos distintos dos da terra (sedas chinesas, dam ascos do Oriente Médio, lãs e linhos europeus e algodões indianos), em obj etos de cobre e latão, em arm as brancas e de fogo. Alguns desses bens, com o o tabaco brasileiro, pronto se transform aram de artigos de luxo em produtos de consum o corriqueiro. E a fom e por espingardas não cessaria de aum entar, até porque as arm as de fogo passaram a ser eficacíssim as na captura de gente. Gente que estava ali, nas pequenas aldeias dos grupos sem chefia centralizada, disponível para ser feita escrava pelos estados próxim os.

A m ão de obra para produzir a escravaria era tam bém abundante, pois, durante a estiagem , as aldeias ficavam ociosas e os hom ens podiam ser convocados pelos reis e pelos chefes para atacar outros vilarej os, vizinhos ou afastados. Já então se organizavam expedições m ilitares com o fim precípuo de capturar gente: cercava-se a aldeia, para que ninguém escapasse, e, de m anhãzinha, com grande estrondo de tiros de arm as de fogo, rom pia-se a paliçada. Matavam -se os velhos e os que resistiam ao aprisionam ento. Os dem ais, m ulheres, hom ens e crianças, tinham as m ãos e os pés am arrados. E j ungidos uns aos outros, em grandes linhas, por cordas e forquilhas ao pescoço, seguiam para os pontos de reunião, depósito e venda. Não tardaram , aliás, em aperfeiçoar-se os processos de captura, transporte, arm azenagem e m ercadej o de escravos. Os libam bos, isto é, as gargalheiras de ferro, presas entre si por correntes, substituíram , em grande parte, as forquetas e as cordas. Desse m odo reduziam -se as possibilidades de fuga, tam bém tornadas m ais difíceis pela organização dos com boios, que passaram a contar com m elhor guarda, provida de espingardas. Nos pontos de encontro das caravanas, nos m ercados e nos portos, im itaram -se as feitorias e os barracões dos europeus, e neles se j untavam os cativos, não só à espera dos com pradores, m as tam bém no aguardo de m elhores preços. E estes subiam , de um dia para outro e das praias para o interior, quando corriam as novas de que havia chegado um navio.

Se a região ainda não conhecia um regim e de crédito sem elhante ao praticado na Senegâm bia pelos bixirins, logo passou a adotá-lo. Os traficantes europeus confiavam bens em consignação a africanos, ou os entregavam contra prom essa de pagam ento em escravos. Reis e nobres m andavam então preá-los, enquanto que os m ercadores iam buscá-los no interior, frequentem ente cedendo os produtos que levavam a outros interm ediários, que saíam em busca de cativos. A expansão da área de captura — as terras que lindavam com os reinos se foram esvaziando — fez com que se difundissem e se tornassem cada vez m ais elaboradas as práticas creditícias, acom panhadas pela propagação de m oedas com o as m anilhas de latão e os cauris. Propagou-se tam bém , terra adentro, o gosto pelas m anufaturas europeias. A m aior parte dos escravos continuava a vir,

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no entanto, de terras que ficavam a m enos de 200km do litoral. E eram quase

todos aj as: quase 95% dos 229.700 indivíduos que se calcula terem saído, entre

1641 e 1700, do golfo do Benim .90 Entre os 5% restantes, em geral iorubás, não

deviam faltar os que chegavam do Benim ou de Oió. 91

A ânsia, entre os potentados do interior, pelos artigos da Europa ou da Ásia fez com que com eçassem a m andar dos sertões para os m ercados da costa a escravaria de que dispunham . Graças a seus portos, Ardra voltou-se, assim , num ativo interm ediário para o escoam ento dos prisioneiros produzidos pelos expansionism os de Oió e do Daom é.

Com o m ostra a atuação, na segunda m etade do século XVII, dos ahosus

Toxonu e Tezifon,92 Aladá procurou m anter esse com ércio em suas m ãos. Para com eçar, o rei exigia que todos os escravos em barcassem em portos controlados por ele. Durante algum tem po foi obedecido. Durante pouco tem po. Pois logo Aj udá e Popó Grande, com , m ais do que a cum plicidade, o incentivo dos europeus, com eçaram a encher os porões dos navios. Os vínculos de vassalagem não im pediam que os reis aj as com petissem entre si. Cada qual procurava obter o m áxim o desse com ércio: obrigava os europeus a pagar preço m ais elevado pelos escravos oferecidos por ele, rei, antes de terem acesso aos dem ais fornecedores; cobrava taxas de ancoragem , de perm issão para com erciar e para tom ar água e lenha, bem com o im postos sobre todas as transações; e, adem ais, se atribuía a preferência na escolha dos artigos trazidos nos navios.

Tam bém entre os europeus era dura a concorrência: um punha o pé no calcanhar do outro. Se, em 1640, os holandeses levantaram um entreposto em Ofra, 13 anos depois os ingleses j á tinham o seu, no m esm o sítio, e, um pouco m ais tarde, em 1670, os franceses. Entre 1641 e 1670, os flam engos dom inavam o tráfico no golfo do Benim , com em barques m ais de três vezes superiores aos dos portugueses do Reino e habitantes do Brasil. Na penúltim a década do século, porém , esses últim os j á adquiriam quase o dobro de escravos que os holandeses, que por pouco superavam os franceses, enquanto que os ingleses respondiam por algo equivalente à som a de flam engos, portugueses e — digam os — brasileiros. Mas, nos dez anos antes do fim do Seiscentos, os portugueses e brasileiros assenhorearam -se da m aior parte do tráfico na Costa dos Escravos, dela

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retirando quase o dobro dos seus com petidores.

Os brasileiros contavam com um a vantagem : o tabaco. Mercadoria indispensável ao com ércio na região, os próprios holandeses e ingleses procuravam adquiri-lo dos barcos baianos, a fim de com por os conj untos de produtos que ofereciam pelos escravos. Pois os reis, nobres e m ercadores africanos exigiam ser pagos não só com m oeda (ouro, cauris, barras de ferro, m anilhas e bastões de cobre), m as tam bém com um grupo equilibrado de outras m ercadorias — e com isso se protegiam das oscilações da dem anda dom éstica e das falhas de qualidade de alguns desses produtos. A troca de escravos por pacotes de m ercadorias variadas convinha tam bém aos europeus, para com binar artigos que adquiriam m ais barato (com o, segundo William Bosm an, coral,

contas de vidro e ferro) com aqueles que custavam caro (com o cauris).94 Bosm an chega a escrever que os escravos com prados som ente com búzios saíam

50% m ais dispendiosos do que os pagos com outras m ercadorias.95

Ao entregar um certo núm ero de escravos, pediam por eles um a determ inada quantidade de cauris e de m anilhas, de algodão estam pado, de cetim , de espingardas, de pistolas, de pólvora, de espadas, de facas, de bacias de cobre e de contas. Nessas relações, era raro faltar o tabaco. Não qualquer tabaco: o tabaco em rolo da Bahia. Nem tam pouco qualquer tabaco em rolo da Bahia, m as aquele feito com folhas partidas e banhado em m elaço, que, na Europa, se tinha com o de qualidade inferior. Na África Atlântica era, porém , apreciadíssim o: os m ais exigentes consum idores não dispensavam o seu sabor adocicado.

Na Costa dos Escravos, a com petição com ercial não se travava apenas entre os europeus: tinham eles de contar tam bém a que lhes faziam , no com ércio de cabotagem , os africanos. Estes, desde m uito, percorriam com seus barcos o extenso cam inho aquático que se estendia, paralelo ao litoral, do delta do Níger ao Volta, com um a única interrupção séria, e só na estação seca, nas proxim idades de Jakin, ou da atual Godom ei. Paravam nas aldeias, para m ercadej ar. E não raro passavam de sua alm adia para a de um outro os produtos que levavam . Mudando ou não de canoa, as contas do Benim e os panos de Ij ebu chegavam a Acra. Em Aflao ou Keta, os anlos punham à venda três ou quatro escravos que tinham trocado por sal e peixe seco no sertão; e um m ercador fante os adquiria e os levava de barco para vender no Popó Grande, em Aj udá ou em Aladá. Trazia de volta — isto nos dizem os holandeses — as contas coris, apreciadíssim as na Costa do Ouro. Por influência europeia, m uito desse com ércio passou a ser feito, j á no século XVII, pelo oceano. Os fantes, os gás e os adangbés construíram barcos que lhes perm itiam enfrentar o m ar aberto, e era por ele, sem perder de vista as praias, que, com frequência, levavam de um lado a outro as suas m ercadorias, só preferindo as lagoas e águas internas no

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trecho entre Popó Pequeno (Anexô, Anécho ou Aneho) e Aj udá.

Com petidores dos europeus, os m ercadores africanos eram tam bém parceiros e clientes: traziam de longe o m arfim e a escravaria. Por essa época, é provável que os hauçás j á estivessem estendendo na direção do litoral as m alhas de sua rede e viessem buscar, nas proxim idades da costa, noz-de-cola, sal, peixe fresco, cauris, m anilhas de latão, espingardas, pólvora, tecidos e outros produtos. Em bora date de 1704 a prim eira referência a com erciantes m uçulm anos em Aj udá, os m alês, com o lhes cham avam localm ente, deviam m ercadej ar na área

desde vários anos antes. 97

Em 1671, os franceses resolveram levar para o porto de Aj udá, Glehue, o

entreposto que tinham acabado de estabelecer em Ofra. 98 O novo em barcadouro teria um destino afortunado. Um a década m ais tarde, os ingleses, talvez por força da insistência dos seus agentes em Ofra — para os quais em Aj udá se podia conseguir um núm ero m uito superior de escravos, com m aior presteza e sem os constrangim entos a que estavam subm etidos nos

99 100

em barcadouros de Aladá —, para lá tam bém se transferiram . Os

brandem burgueses, em 1684101 102 ou, talvez, só dez anos m ais tarde. Os

holandeses dem orariam um pouco m ais: após verem sua feitoria em Ofra ser destruída pelos gãs, em 1692, instalaram -se em Aj udá em 1703. Em bora os

portugueses, ou m elhor, os baianos,103 só viessem a construir o forte de São João Batista em 1721, j á teriam , em 1681, um entreposto, de vida curta, em

Glehue.104 No fim do século XVII, o porto de Aj udá havia ganho a parada: tornara-se m uito m ais im portante com o exportador de escravos do que os de Aladá. Ironicam ente, porém , provinha de Aladá o grosso dos cativos que se

vendiam em Aj udá, 105 gerados pela expansão do Daom é, pelas repetidas guerras entre as cidades costeiras e pelo banditism o de um a série de warlords ou senhores da guerra que o tráfico de escravos aj udara a m ultiplicar na região.

Não dem orou para que se fossem desatando os laços de vassalagem , fossem esses apertados ou frouxos, entre Aj udá, Tori, Popó Grande e Aladá. Ao que parece, o próprio “fidalgo” de Ofra — a palavra portuguesa era aplicada aos

chefes que não eram reis ou ahosus106 — se independentizou. Ninguém queria repartir com um suserano os benefícios do com ércio com os europeus. O rei de Aladá tentou reagir e reim por sua precedência. Contratou os gás (ou gãs), que

haviam sido expulsos de Acra pelos acuam us 107 e recém -fundado, onde hoj e é o Togo, os reinos de Glij i e Anexô, para agredir Aj udá e Ofra. Ofra foi destruída em 1692, m as Aj udá não só venceu os invasores, m as robusteceu o braço arm ado com m ercenários acuam us e atacou Aladá e Popó Pequeno.

Bosm an atribuiu à ausência de qualidades m arciais, ou m elhor, à covardia dos

aj as, o fazerem eles suas guerras por m eio de m ercenários,108 no caso, os acuam us, que haviam desenvolvido na Costa do Ouro um a estrutura social altam ente m ilitarizada, e os gãs, tam bém oriundos do oeste do rio Volta e que, por isso, receberiam o nom e de m inas — gente vinda das bandas do forte da Mina. Na realidade, na Costa do Ouro haviam -se desenvolvido novas táticas de guerra, com o uso disciplinado das arm as de fogo, às quais a sua gente tinha tido um

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acesso am plo m uito antes do que os povos que lhe ficavam a oriente. Não que

não houvesse em Aladá e Aj udá espingardas de pederneira, fuzis de agulha e cápsula de fulm inante, pistolas e bom bardas. Havia, m as em núm ero

relativam ente pequeno. 110 Nas m ãos de soldados deste e daquele grão-senhor,

111

m ais para dar salvas de tiro em sua honra do que para defendê-lo. Tinha o rei

arcabuzeiros na sua guarda pessoal, e podiam ser vistos à porta do palácio,

ladeando quatro pequenos canhões de ferro. 112 Para a guerra, contudo, a peonagem levava arco e flechas, m achadinhas e m aças de arrem esso, escudo, espada e lança. Os com bates travavam -se corpo a corpo e se caracterizavam pelo choque de m assas de guerreiros. Neles, o papel dos arqueiros sem pre fora subsidiário: reduzia-se, ao que parece, a lançar um a chuva de flechas contra os adversários, ao abrir-se a batalha. Não seria de surpreender, por isso, que não se reservasse às arm as de fogo (de resto, poucas) um a função própria durante as batalhas: faziam m ais barulho do que estragos entre os inim igos. Eram disparadas a esm o, por arcabuzeiros espalhados no m eio da tropa, enquanto que, entre os acuam us e os m inas, os soldados com espingardas form avam o grosso do

exército e procuravam decidir as batalhas a distância. 113 Para m anter um a forte e constante fuzilaria, é m uito possível que os espingardeiros se revezassem no recarregar e disparar as arm as.

Os acuam us e m inas eram pagos pelos aladás e pelos huedás em cauris, ouro,

114

coris e contas de coral. A principal recom pensa devia ser, no entanto, o butim

de gente: prisioneiros de guerra, m ulheres que acom panhavam os exércitos e que não logravam fugir quando os seus hom ens eram derrotados, e habitantes de aldeias incendiadas no cam inho. Form aram -se grupos de soldados profissionais, que, quando não tinham quem lhes pagasse os serviços, passaram a atuar por conta própria e saíam a prear cativos e a assaltar os m ercadores. A guerra que produzia escravos podia, contudo, tam bém im pedir ou dificultar o transporte desses até a costa — os cam inhos ficavam inseguros para os com boios e nas terras de passagem não havia com o conseguir alim entos. Não é incom um , aliás, lerem -se queixas de feitores europeus de que não conseguiam com pletar as cargas dos navios negreiros, porque os conflitos arm ados im pediam que os cativos fluíssem para o litoral.

Aladá não tinha problem as apenas com seus antigos vassalos. Se a retração externa do Benim lhe poupara cuidados na fronteira leste — ao que parece, conseguiu desm anchar os vínculos de vassalagem com o obá nos últim os anos do Seiscentos —, aum entaram as preocupações com as savanas do norte, pelas quais a cavalaria de Oió galopava no rum o do litoral.

Ainda na prim eira m etade do século XVII, representantes do alafim

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Obalokun tinham tido seus prim eiros contatos diretos com os europeus. Oió, que pagava com escravos os equinos que adquiria aos hauçás e aos bornus, e que devia, desde algum tem po, m andar cativos a vender em Aladá e Aj udá, não deve ter dem orado a com preender as vantagens do com ércio direto e de ter portos m arítim os próprios. Desceu na direção do oceano, pelas savanas a oeste do rio Ouem é, subm etendo ou tornando vassalos os povos que encontrava à sua frente e estabelecendo colônias oiós, com o, por exem plo, Ifony in, a alguns quilôm etros da Idole beninense e da Apa aladá.

Era inevitável que Oió se chocasse com Aladá. E devem ter sido repetidos os conflitos entre os dois reinos. Até que, em 1698, os oiós invadiram e devastaram o reino aj a. Bosm an conta-nos que estava em Aj udá, quando um em issário de um poderoso rei do interior foi ter a Aladá, para advertir o ahosu de que havia tom ado sob sua proteção alguns dos súditos deste e que para eles reclam ava m elhor trato. O ahosu riu da m ensagem . E fez m ais: m andou executar o em baixador. Pronto, o país viu-se invadido por um a poderosa cavalaria, à qual se

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aliaram os desafetos locais do ahosu. A m atança foi enorm e, m as os resultados da cam panha, inconclusivos, pois não só os invasores não conseguiram capturar o rei — e, por isso, o alafim , tão logo viu de regresso o com andante das tropas, em vez de prem iá-lo, m andou-o para a forca —, com o Aladá m anteve a independência e se refez da devastação e da m ortandade. Esses invasores, que deixaram um a lenda de brutalidade e terror, têm sido identificados com o oiós,

desde Jean Barbot 117 118 e Archibald Dalzel.

Por essa época, j á deviam inquietar o soberano de Aladá as notícias sobre um pequeno estado vassalo que se expandia agressivam ente no planalto entre os rios Zou e Coufo, ao norte de um grande pântano, o ko, que m ais tarde tom aria o nom e português de Lam a. O senhor desse estado tinha-se por agassuvi e cham ava à sua estirpe os Aladonus, porque seria descendente direto do prim eiro rei de Aladá.

É isto o que diz a história oral do antigo reino do Daom é: um a disputa entre príncipes fez com que dois deles, Dobagri-Donu (Do-Aklin ou Dogbagli-Genu) e Zozezibé (ou Tê Agbanlin), saíssem de Aladá em busca de novas terras. O prim eiro levou sua facção para o norte, instalando-se em Wawe, entre os quedevis. O segundo dirigiu-se para o sudeste e fundou o vilarej o de Hogbonu — o Adj aché (ou Aj acé) dos iorubás, ao qual um negreiro brasileiro, ao com eçar a utilizá-lo com o em barcadouro de escravos, deu, na m etade do século XVIII, o

nom e, que vingou, de Porto Novo. 119

Segundo as tradições de Porto Novo, Tê Agbanlin seria um dos três filhos de Kokpon, o fundador e soberano de Aladá. Ao finar-se o pai, o m ais velho, Medj i, tornou-se o ahosu, enquanto que Tê Agbanlin foi erguer, à im agem de Tadô,

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Hogbonu, onde teria reinado de 1688 a 1729. Há quem pense, porém , que o reino de Porto Novo só teria surgido após a conquista de Aladá pelos daom eanos,

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em 1724, quando se foram refugiar na laguna o rei e os exércitos vencidos. Porto Novo seria um estado sucessor de Aladá, e até m esm o continuaria a ser conhecido pelo m esm o nom e, Aladá ou Ardra.

A história tradicional do reino do Daom é colocaria bem antes a fundação de Hogbonu. Na m esm a época da de Abom ei. No início ou m eados do século XVII. E faz de sua dinastia a que verdadeiram ente continuava Tadô. Dizem as tradições daom eanas que, m orto Dobagri-Donu, seu corpo foi devolvido a Aladá, a fim de ser sepultado j unto a seus ancestrais. Mas tam bém se conta, a indicar um a posição de vassalagem , que o filho que deveria suceder a Dobagri-Donu, Gany ehesu (ou Ganehesu), tam bém se dirigiu a Aladá, ou para ali ser sagrado

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pelo rei, ou para buscar certas relíquias, ou, ainda, para receber as

escarificações faciais de Agassu.124 Na sua ausência, um irm ão m ais novo, Dakodonu (ou Dakpodonu), arrebatou-lhe o m ando. Esse Dakodonu, ao sentir-se forte, levantou-se contra os seus hospedeiros guedevis e os subm eteu, estabelecendo em seguida sua capital num a cidade fortificada, Abom ei. Ao que parece, ele não se dizia rei, m as sim plesm ente o chefe do clã dos agassuvis. O prim eiro rei daom eano seria seu filho, Aho, que, ao suceder-lhe, tom ou o nom e forte de Huegbadj a (Uegbaj a, ou Wegbaj a), e é tido com o o fundador do

Estado. 125

Faz tem po que as tradições sobre as origens do Daom é têm sido postas em

questão.126 Não só porque recolhidas tardiam ente, no fim do século XVIII ou j á no século XIX, m as tam bém porque se destinam a validar o exercício do poder por determ inados grupos e a legitim ar os reis, dando-lhes origem sobrenatural. Ao reclam ar por antepassado um leopardo e ao pôr em suas raízes um incesto entre m ãe e filho, o clã real do Daom é se colocava fora da hum anidade ou, quando m enos, se fazia diferente dos dem ais. O m ito fundador encobria a história verdadeira da fundação da dinastia e funcionava com o potente arm a de propaganda e intim idação: o rei era m eio hom em e m eio leopardo e, com o tal, perigoso e feroz. Em bora as tradições reais se tivessem com o um segredo dentro da fam ília — Le Hérissé afirm a que só os reis sabiam que seu ancestral (tohwiy o, tohuio ou toxuio) era um leopardo e isto só contavam ao herdeiro

aparente127 —, e fosse interdito enunciá-las em público ou em voz alta, m uitas delas deviam , para produzir o efeito social desej ado, ser um cochicho corrente, que se passava de aldeia em aldeia e de pai a filho. Outras eram apregoadas e cantadas pelos bardos ou ahanj itos.

Ainda quando o relato lendário reelabora o passado para j ustificar, enobrecer ou tingir de sobrenatural situações e personagens de hoj e ou de ontem , pode sobrar nele algo que não é m entira. É possível, assim , destrinçar a arrogante e im piedosa agressividade dos agassuvis e seus asseclas da narrativa com que se explica o surgim ento da palavra Daom é, que, aplicada prim eiro ao principal palácio real, se estendeu a todo o reino. Essa historieta tem registro m ais antigo do que o enlace entre o leopardo e Aligbonu (só tornado público após a queda do Daom é, em 1894), pois aparece em textos do fim do século XVIII, com o os dos

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britânicos Robert Norris e Archibald Dalzel e o do padre baiano Vicente

Ferreira Pires. 130

Para m elhor aloj ar os seus, Dakodonu (ou, em versões m ais recentes, Huegbadj a) solicitou a um chefe vizinho, Dan, que lhe cedesse um pedaço de terra. Este, ou se recusou a atender ao pedido, ou lhe passou um terreno que Dakodonu teve por insuficiente. Com o reclam asse, dem onstrando fom e por espaço, Dan lhe retrucou, com im prudência, que talvez o outro quisesse construir até sobre a sua barriga. Irado, o agassuvi o m atou e sobre seu túm ulo ergueu o seu palácio. Daí Daom é — de Dan hom é Huegbé, a “casa sobre o ventre de Dan”.

A essa etim ologia contrapõem -se outras. 131 132 E não faltou quem sustentasse

que a palavra Daom é antecede Dakodonu, e que este ou Huegbadj a se teriam apossado de um reino bem m ais antigo, que j á teria esse nom e. Corresponderia

ele ao Daum a m encionado por Leão Africano 133 e constante do m apa de Mercator e de outras cartas do século XVI. Em algum as delas, Daum a ou Dam é se inscreve no lugar correspondente ao Daom é, m as em outras a palavra aparece, volúvel e fantasiosa, a m arcar distintos pontos do interior, com o a substituir os leões e elefantes que se punham nos espaços que perm aneciam desconhecidos e, por isso, vazios nos m apas da África. Muito em bora j á se tenha

recusado, com bons argum entos, a identificação de Daum a com o Daom é, 134 não são eles conclusivos. Até porque há indícios de que, antes de Dakodonu e

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Huegbadj a, j á havia na área, que tinha o nom e de Danzum é, um reino ou,

quando m enos, um a im portante chefia. O padre Ferreira Pires deve ter ouvido claram ente, pois claram ente nos diz, que Dan era rei de Abom ei, aduzindo que

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pertencia à nação nagô. E com o soberano de Abom ei, Dan aparece no texto

de Norris.137 Nesse caso, não teria havido a fundação de um novo estado, m as,

sim , um a m udança de dinastia. 138 Ou um a conquista por gente vinda de fora.

A partir da investigação de tradições de outros clãs que não o clã real, j á se propôs que Huegbadj a tivesse sido o prim eiro de um a nova dinastia, após ter usurpado o poder a um guedevi, Dakodonu, que não seria, assim , seu pai, nem tam pouco o filho de um príncipe em igrado de Tadô. Huegbadj a, um estrangeiro, talvez proveniente do sul, das m argens do lago Ahem e, teria aberto cam inho na política local graças à aj uda da fam ília de sua m ãe, que era dos arredores de

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Abom ei. Quem avança essa teoria indica adem ais que Huegbadj a desposou

no planalto um a j ovem guedevi, Adonon, que se pode considerar com o a verdadeira fundadora da nova dinastia, pois foi a m ãe dos três soberanos seguintes, Akaba, a sua irm ã gêm ea Tassi Hangbe (ou Na Hangbe) e Agaj a (ou

de dois, se Akaba tiver sido não o filho, m as o antecessor de Huegbadj a140). Adonan teria por ancestral ou tohuio Aligonu, que, em vez de princesa tadô, seria originária do vilarej o guedevi de Wasa, a 20km ao sul de Abom ei, tendo o seu encontro com o leopardo se dado num a floresta a m eio cam inho entre os dois lugares. Não só esse m ito do leopardo e o de Agassu, m as tam bém o das m igrações de Tadô e de Aladá, teria sido criado na segunda m etade do século

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XVIII, a fim de ocultar a verdadeira origem aventureira de Huegbadj a. Dataria tam bém dessa época a transform ação em aladonus de Dobagri-Donu, Gany ehesu e Dakodonu e sua inclusão na lista dos reis daom eanos.

Tivessem ou não os seus líderes em igrado de Ardra, o reino que se ia fortalecendo e expandindo no planalto de Abom ei possuía instituições

sem elhantes, quando não idênticas, às de Aladá.142 Quase todas as inovações que se atribuem ao reinado de Huegbadj a, na segunda m etade do século XVII — e há um a tendência, na história tradicional, a atribuir tudo a Huegbadj a, com o se este fosse um herói civilizador —, figuram , nos textos europeus da época, com o existentes em Ardra e, m uitas delas, em outros estados da região. Assim , à sem elhança do que vigia em Aladá, Huegbadj a proibiu as vinganças pessoais e fez de si próprio a única fonte de j ustiça, com o m onopólio da pena capital; estabeleceu um im posto sobre a cabeça de cada um dos seus súditos; e im pôs a doutrina de que era o dono de todas as terras do reino e dos recursos que nela existiam . Por isso, tal qual sucedia em Ardra, o rei era o herdeiro de todos os que nela viviam : com o falecim ento de um chefe de linhagem , os bens da fam ília revertiam para o soberano, que a ela os podia restituir, após recolher a parcela que lhe aprouvesse. Para reduzir ainda m ais o poder dos clãs e tentar im pedir que influenciassem a sucessão ao tam borete e às sandálias reais, instituiu a figura do vidaxó, do herdeiro presuntivo, do filho escolhido, geralm ente o prim ogênito, que passava a viver em palácio próprio, nos arredores da capital, após receber as escarificações do leopardo.

Os prim eiros reis daom eanos teriam apertado com força as cravelhas de um a estrutura que j á era autocrática, centralizando ainda m ais o poder em suas m ãos. O rei, fechado em seu palácio, tem ido com o um sem ideus, era o senhor das

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cabeças de todos os súditos, que a ele pertenciam legalm ente. Quando desagradado por alguém , confiscava-lhe os bens e m andava decapitá-lo e a vários de seus fam iliares, am igos e dependentes. Mais tarde, colocá-los-ia no m ercado de escravos, sem , com isso, contrariar a doutrina do Estado, segundo a qual nenhum daom eano podia ser vendido, um a vez que o infrator e os seus tinham deixado de pertencer à grei. Essa doutrina defluía de um a m issão sagrada do rei: a de aum entar ilim itadam ente o território do Daom é e o núm ero dos que form avam o seu povo. Não se estranhará, por isso, a política de conquista de Huegbadj a, que teria desde logo com preendido a im portância m ilitar das arm as de fogo e procurado adquiri-las dos europeus. A principal m oeda de com pra só

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pode ter sido o escravo.

Já se sustentou, porém , que o reino do Daom é teria tido, no início, um a posição nitidam ente contrária ao tráfico de escravos. Que a própria partida de Dobagri-Donu para o planalto de Abom ei teria sido causada por sua oposição ao com ércio de gente e à presença europeia em Aladá. E que teria sido com o obj etivo de conter o tráfico ou, quando m enos, reduzi-lo e discipliná-lo, que, em 1724 e 1727, o rei daom eano Agaj a (ou Agâdj a) teria invadido Ardra e

Huedá. 145 Ainda que fascinante — seria consolador que, no m om ento em que o tráfico de escravos assum ia proporções ainda m ais trágicas, um estado africano se tivesse form ado para a ele se contrapor e, depois, atuado m ilitarm ente para conter os seus estragos —, essa tese, que encontrou o seu m elhor intérprete no historiador nigeriano I.A. Akinj ogbin, foi contestada, com base nos próprios textos

por ele utilizados e outras fontes da época.146 Ela tem por precursor um m édico naval britânico, John Atkins, que, em 1735, escreveu um livro sobre suas viagens à África, ao Brasil e às Caraíbas. Nessa obra, Atkins sustenta que Agaj a deu guerra aos reis de Ardra e Huedá, a fim de pôr fim ao tráfico, e aduz em favor dessa sua im pressão — ou m elhor, de seu wishful thinking de adversário dos negreiros —, prim eiro, o ser aquele soberano fom um hom em “j usto e generoso em suas m aneiras, que nada tinham de bárbaras”, e que, por isso, não podia deixar de ser contra o com ércio de gente; segundo, o haver aquele soberano declarado a um capitão inglês, William Snelgrave, que os reis de Ardra e Huedá eram “perversos com os negros e os brancos”, e que os punira por suas m aldades, m aldades essas que para Atkins tinham de ser o tráfico que este com batia; e terceiro, o ter Agaj a enviado, por interm édio de quem fora seu prisioneiro, o capitão Bulfinch Lam b, um a carta a Sua Maj estade britânica, com a proposta de que os ingleses passassem a adquirir escravos para trabalhar em plantações que esses estabeleceriam na África, em vez de serem transportados

para as Am éricas. 147

Textos da época m ostram que Agaj a não só com erciava com escravos, m as tinha os portugueses e brasileiros com o com pradores preferenciais, porque, em bora esses fossem exigentes e insistissem por rapazes im berbes, lhe pagavam em ouro. Se Agaj a invadiu Aladá, com o é de supor-se, a fim de rom per a situação de vassalagem em que o Daom é se encontrava diante de Ardra ou para realizar a aspiração de reaver um reino a que se j ulgava com direito por herança, contou com um outro m otivo, e forte: o desej o de controlar os portos nos quais se fazia o com ércio com os europeus e deles obter arm as de fogo. Isto escreveu, aliás, o m esm o capitão Snelgrave que Atkins tom ou por

testem unha. 148 E só falta lhe repetir as palavras o diretor do forte de São João Batista de Aj udá, Francisco Pereira Mendes, em carta de 4 de abril de 1727 ao vice-rei do Brasil: Agaj a disse-lhe claram ente que fora o desej o de ter trato com os brancos, “com quem queria todo o com ércio”, o que o m otivara a invadir

Aj udá. 149

Se a im agem de Agaj a com o contrário ao tráfico de escravos não se sustenta, m uito m enos as de Dobagri-Donu, Dakodonu e Huegbadj a. Não há por que supor que se tenham abstido de prear e vender escravos. E não deviam ser nisso

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diferentes de outros reis, chefes e senhores de bandos arm ados da região. Antes das conquistas de Ardra e Aj udá, os daom eanos eram , aliás, vistos com o um m agote de bandidos, em tudo sem elhantes, até na disposição a atuarem com o

m ercenários, aos m inas de Popó Pequeno.151