A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 10 de 30

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A Manilha e o Libambo

8. Mali e Songai

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Mali e Songai

 

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Rui de Pina, Garcia de Resende e João de Barros contam -nos a história. O grão-j alofo Biram apoiava-se num irm ão uterino, Bem oí (Bem oí Gilem ou Bum i

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Jelen ), que era de verdade quem regia o im pério. Tendo o burba sido assassinado por dois outros de seus irm ãos e um deles, Cibitá, assum ido o m ando, Bem oí a eles se opôs e lhes deu guerra. Desfavorecido pelas arm as, viu-se forçado a refugiar-se entre os portugueses de Arguim , que o levaram para Lisboa. Em Portugal, Bem oí foi recebido por D. João II, não com o um bárbaro nem com o um “hom em de suas cores” — com o escreve, j á tingido de preconceito, João de Barros —, porém com o “um príncipe a que se devia todo

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acatam ento”. Batizou-se em 1488, apesar de m uçulm ano, e o fez — isto afirm a Garcia de Resende — m ais por conveniência política do que por adesão sincera ao cristianism o. Não dem orou em convencer o soberano português, ansioso por sócios africanos, a aj udá-lo a recuperar o poder. D. João II m andou-o de volta ao Senegal com 20 caravelas e um a grossa tropa, sob o com ando de Pero Vaz da Cunha, de alcunha o Bisagudo. Tinha este instruções para construir um a fortaleza na foz do rio, m as, ali chegando, frustrou as expectativas do seu rei, ao m atar a punhaladas o príncipe Bem oí. Alegou Bisagudo que o j alofo lhe preparava um a traição, m as é possível, com o aventa João de Barros, que outro fosse o seu m edo e com seu ato buscasse fugir ao destino de ficar no com ando do forte num a terra insalubre, onde ia vendo m orrerem tantos dos que o acom panhavam .

O príncipe Bem oí parece ter sido um hom em de faro. Exercendo o m ando em nom e do irm ão, intuiu que a chegada dos portugueses aos litorais do Senegal poderia alterar, com o alterou, a correlação de forças entre o im pério j alofo e seus reinos vassalos — Ualo, Caior, Baol e Sine. Muito em bora, j á então, o braque de Ualo, o dam el de Caior, o tenhe de Baol e o bur de Sine governassem seus reinos sem dar m aiores satisfações ao grão-j alofo, a ele pagavam tributo e prestavam hom enagem . Com o controlava o com ércio com os azenegues, o burba podia responder à fidelidade desses reis, presenteando-os com cavalos, espadas, cotas de m alha, obj etos de cobre, tecidos de lã, contas e escravaria. Em contrapartida, esperava receber deles sal, conchas, peixe seco e tam bém escravos. As caravelas — raciocinou Bem oí — podiam quebrar a dependência dos estados praianos desses bens de prestígio que em anavam do burba. Não convinha ao grão-j alofo que o dam el recebesse de outras m ãos que não as suas os cavalos que m ontava ou com que distinguia os seus validos. Se estava aberta um a outra fronteira ao com ércio, im punha-se que o im perador tam bém a controlasse. Foi isto o que buscou fazer Bem oí, trazendo para m ais perto da costa a capital do im pério e procurando tornar-se um freguês privilegiado dos portugueses. Na tentativa de m onopolizar as com pras, ele pagava até m esm o os equinos que m orriam durante a viagem m arítim a, desde que, com o prova, lhe entregassem o rabo cortado do anim al. Recebia, é certo, um bem de alto valor (ainda que m enor do que o cavalo vivo e são), m as os portugueses, que isto ignoravam , tom avam o gesto com o o de um freguês fidalgo, com quem era seguro e rem unerador m anter com ércio.

Quando, m orto Biram , Bem oí teve de lutar contra seus dois irm ãos, pediu aj uda a Portugal. Ao próprio D. João II. Que o acudisse com cavalos, arm as, gente. O rei m andou-lhe de presente cinco anim ais arreados, e D. Manuel, então duque de Bej a, m ais um . Nas caravelas, seguiram outros, para serem vendidos. O príncipe j alofo os adquiriu a crédito, m as os pagou a seu tem po. E devolveu ao m onarca português, com o de boa regra, a generosidade: cem escravos e um a grossa m anilha de ouro.

Os cavalos portugueses não im pediram a derrota de Bem oí. Mas perm aneceram na sua ideia com o essenciais à desforra. Juntam ente, talvez, com as arm as de fogo. A aliança que, em Portugal, buscara forj ar — e se desfizera com alguns gestos que o Bisagudo, educado noutra cultura e, portanto, noutra linguagem , tom ara com o sinais equívocos — ter-lhe-ia perm itido não só recuperar o poder, m as tam bém provavelm ente restaurar no im pério a suprem acia efetiva do burba. Os portugueses, em com pensação, teriam erguido na boca do rio Senegal um a im portante feitoria fortificada, que poderia repetir o desem penho de São Jorge da Mina.

As punhaladas em Bem oí contribuíram para o desm ancho do im pério j alofo. 4 Os reinos litorâneos açam barcaram , na região, as transações com as caravelas, sem deixar, os de Ualo e Caior, graças ao sal e ao peixe seco, de m ercadej ar com os azenegues e as cáfilas do deserto. Na m etade do século seguinte, o dam el Am ari Angune (ou Am ary Ngoone), após vencer pelas arm as o burba, independentizar-se-á inteiram ente. E, logo em seguida, o rei de Ualo fará o m esm o. O com ércio transatlântico, ao aum entar a riqueza e o prestígio dos reis da costa, virava de ponta-cabeça o sistem a de forças no Senegal. Não só os liberando do grão-j alofo, m as tam bém perm itindo que o bur de Sine, que era de origem m andinga, pusesse sob seu com ando, no fim do século XV ou princípios do XVI, as chefias sereres do rio Salum e desse início ali a um novo estado.

O grão-j alofo talvez não tenha feito m aior esforço para reconquistar as vassalagens perdidas porque tinha que cuidar de suas fronteiras orientais. O Tacrur caíra nas m ãos dos fulas, que, desde o século XIII, se vinham infiltrando, com seus rebanhos, na Senegâm bia. Na m etade do Quatrocentos, eles engrossaram os seguidores de um certo Dulo Dem ba, que, partindo possivelm ente de Macina, atravessou o Senegal e o Gâm bia e se dirigiu para o sul, até que os beafadas, vassalos do farim do Gabu e, portanto, do m andim ansa ou rei do Mali, lhe cortaram o avanço. Tendo de recuar, os fulas refugiaram -se no Futa Jalom , am pliaram suas bases de apoio e voltaram a atacar, no alto Gâm bia, os m andingas e seus aliados. Derram aram -se depois sobre o Futa Toro, de onde, entre 1511 e 1513, invadiram o reino saeliano de Diara, que havia sido vassalo do Mali, m as se tornara dependente de Songai. O irm ão do ásquia ou soberano de Songai, o curm ina-fari Um ar Condiaga, correu, porém , com um num eroso exército, em auxílio do agredido, e venceu e m atou o líder fulo, Tenguelá (o Tem alá do cronista João de Barros). O filho do chefe fulo, Coli, reuniu as tropas derrotadas, incutiu-lhes novo ânim o e retornou ao vale do Senegal, onde se im pôs sobre os num erosos pequenos reinos em que se havia fragm entado o Tacrur. Ao fazê-lo, os fulos se interpuseram entre o grão-j alofo e os seus fornecedores de equinos do deserto, contribuindo tam bém , ao debilitar

sua cavalaria, para a desintegração do im pério.5 Do Tacrur, Coli Tenguelá e seus sucessores, os Denianquês, deram prosseguim ento a um a política expansionista, às custas sobretudo do Mali e do Grão-Jalofo. E com tal êxito que, no final do século, os dom ínios daquele a quem os portugueses cham avam grão-fulo (o satigi ou silatigi do Futa) estendiam -se do norte do m édio Senegal até as m ontanhas do Futa Jalom e só por pouco deixavam de separar inteiram ente as partes oriental e

ocidental do território sob a suserania do m andim ansa.6

Este j á perdera boa parcela de seu im pério. No últim o quartel do século XIV, Gaô recobrara a independência e com eçara, às expensas do Mali, a construção do que viria a ser Songai. Durante todo o Quatrocentos, estados vassalos se foram apartando do m andim ansa e áreas que a ele tinham sido subm etidas conquistavam ou reaviam a independência, para, em m uitos casos, logo em seguida, cair sob o dom ínio de Songai. Com o se isso não bastasse, velhos inim igos, com o os tuaregues e os m ossis, rom piam suas fronteiras. Em 1433, os tuaregues se apossaram de Tom buctu. Jené retom ou a liberdade. E a m aioria dos reinos soninquês separou-se do Mali. Diara seguiria o m esm o cam inho. E tam bém o Tacrur, que se fracionou em pequenos reinos. Um im pério que abarcara todo o espaço que ia, na costa, de Aulil ao Casam ansa, e no extrem o leste, desde Tadm ekka até Cuquia, e que, ao norte, ultrapassava o Sael e entrava pelo deserto, para incluir Audagoste, Tichit e Ualata, e ao sul, ia até o m ar, a abranger o Futa Jalom , o Buré e o alto Sacarani, fora-se encolhendo e dele só restavam as áreas, ainda am plas, entre os rios Gâm bia e Grande e as banhadas

pelo alto Senegal e o alto Níger. 7

O Mali deixara de estar voltado para o Saara. Perdera os seus portos caravaneiros. Sobretudo para Songai. Em 1469, o rei songai Soni Ali entrou em Tom buctu. Quatro anos m ais tarde, tom aria Jené. E cerca de um a década depois, Ualata. Seu sucessor, o ásquia Muham ed, continuou a alargar o im pério. Subm eteu Agadés, em 1499. Derrotou os soninquês de Bagana e os fulas de Macina. Venceu Diala e Galam . Retom ou Ualata aos tuaregues. E, senhor dos grandes em pórios a oeste da Hauçalândia (Gaô, Tom buctu, Jené, Ualata), das m inas de sal de Tagaza (e depois de Taoudeni) e dos depósitos de sal e de cobre de Tegidda N’tesem t, passou a controlar parte substancial do com ércio transaariano. A continuada expansão m ilitar songai produzia, adem ais, um a im ensidade de escravos, postos a trabalhar nas grandes plantações do delta interior do Níger ou oferecidos aos caravaneiros. O m ercado de cativos de Gaô tornou-se fam oso. Lá vendiam -se braços para os canaviais do sul do Marrocos, para as lavouras da Sicília e para o serviço dom éstico no Magrebe, na Líbia, no

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Egito, na Turquia, em Gênova, em Nápoles e em Veneza.

Ao longo de m ais de um século, Songai não cessou de fustigar os dom ínios do m andim ansa. Por duas vezes suas tropas saquearam Niani, a capital m aliense (prim eiro na m etade do século XV e depois em 1545 ou 46), m as não lograram capturar o im perador m andinga, nem dele obter capitulação ou vassalagem . Num terceiro ataque ao centro do Mali, em 1558 ou 59, tiveram , ao que parece, um certo êxito, pois, talvez com o reconhecim ento de derrota ou de subm issão, ou sim plesm ente para selar a paz, o m ansa deu um a de suas filhas em casam ento ao

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ásquia Daúde (ou Dawud).

Os exércitos m alienses não tinham força para deter um avanço decidido das tropas de Songai. Mas, quando derrotados, refaziam -se com facilidade e podiam , aqui e ali, açoitá-las com rigor, tornando custosa um a eventual ocupação dos territórios que obedeciam ao m ansa. Os songais não a tentaram . Não só não dispunham dos m eios logísticos para estacionar tropas com segurança na região, com o lhes era difícil repetir anualm ente, a cada estação seca, um a nova cam panha contra a região de Niani. O poderio m ilitar de Songai assentava-se nas ações com binadas de um a num erosa cavalaria com grandes flotilhas de canoas de guerra. E, se os cavalos tinham dificuldade para m over-se nas m atas e nas elevações que cobriam o alto Níger e o Sacarani, as alm adias só com grande esforço e risco ultrapassavam as cataratas de Sotuba, que cortavam o Níger a

m ontante de Bam ako.10 Seria alto o preço a pagar para m anter de m odo duradouro as conquistas que se fizessem em terreno tão hostil. E m aior ainda, o que exigiria a ocupação de Bam buk e de Buré.

Não tinha Songai por que im por-se sacrifícios que eram , em últim a análise, desnecessários, um a vez que, para obter ouro, não precisava de controlar os cam pos produtores. Era senhor do sal, a m elhor m oeda para obter-se o m etal am arelo. E este chegava-lhe pelas m ãos dos m ercadores m andés ligados a Jené e a Tom buctu — a um a Jené e a um a Tom buctu que se haviam tornado dependências de Songai. Para aquelas cidades e tam bém para Gaô afluía ouro não só de Bam buk e de Buré, m as tam bém das m inas do Gâm bia, de Lobi, do país acã e de Kangom a e Zam fara, na Hauçalândia.

Quem procurou conquistar Bam buk foi o grão-fulo Coli Tenguelá. Por volta de 1534. Não teve êxito, porém , por causa da resistência m andinga, a que não teria

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faltado o apoio português. As tradições locais afirm am , aliás, que, durante um

breve tem po, um a pequena guarnição lusitana perm aneceu em Bam buk, tendo de abandonar a área, não só por causa da hostilidade da gente da terra, m as

sobretudo porque vitim ada pela disenteria e pelas febres.12

Muitos com erciantes m andês, sobretudo os diacanquês, não se incorporaram ao universo com ercial songai. Continuaram fiéis às ligações religiosas, fam iliares e com erciais que tinham no Mali. Mudaram de itinerário. Em vez de se dirigirem a Jené, encam inhavam -se ao Gâm bia. Ali com erciavam com os portugueses. Ou atravessavam o rio e iam abastecer os portos caravaneiros j alofos e tucolores.

Em bora entre os portugueses j am ais se tenha apagado o fascínio de Tom buctu, que consideravam a cidade do ouro, cedo com preenderam que não podiam com binar seus interesses com os dos sonis, nem , depois, com os dos ásquias. Se logravam pegar na ponta de um fio da am pla rede m ercantil songai, era para logo vê-lo partir-se. O com ércio de Songai com os brancos fazia-se nas praias do deserto. Não tinha Songai por que envolver-se num diálogo direto com as caravelas, das quais só lhe chegavam , além das m ercancias trazidas por alguns diulas, notícias esparsas e vagas. Já o m ansa do Mali pensava seguram ente de m odo contrário. Perdera os caravançarais saelianos. Continuava, porém , a controlar os acessos aos cam pos auríferos do alto Senegal e do alto Níger e boa parte do com ércio do sal m arinho e do pescado seco. Deve ter-se alvoroçado, portanto, quando recebeu da costa as notícias sobre a chegada e o m ercadej ar dos portugueses. É possível que tenha, desde logo, reconhecido nos recém -vindos os substitutos dos berberes cam eleiros. E talvez j á fosse por instruções suas que se facilitou a Cadam osto e a Diogo Gom es a subida do Gâm bia.

Da conveniência da parceria pronto tam bém se convenceram os portugueses. Com o o dem onstram as em baixadas que lhe m andaram . Por iniciativa própria e tam bém , talvez, para responder aos presentes e recados a que alude, sem

m encionar o m andim ansa, João de Barros.13 Este refere terem sido várias as m issões diplom áticas que os reis de Portugal enviaram ao soberano m aliense e que delas nasceu um a boa am izade. Destaca três: um a ainda na época de D. João I; outra, a de Rodrigo Rabelo, João Colaço e Pero Reinel, na penúltim a ou últim a década do Quatrocentos; a terceira, em 1534, a cargo de Pero Fernandes.

Os portugueses procuraram cultivar não som ente o m andim ansa, m as tam bém , do Senegal à Serra Leoa, vários outros reis africanos — m andaram m ensageiros a Tom buctu, aos m ossis e ao próprio Tenguelá — e se viram

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obrigados, m ais de um a vez, a intervir nas guerras deles. Os resultados foram ,

porém , ao que parece, m agros. Não lograram o m onopólio das trocas e nem sequer um sócio poderoso, que perm anentem ente os favorecesse.

No caso do m andim ansa, os próprios portugueses devem ter involuntariam ente contribuído para o esm aecim ento de sua força relativa na região. O com ércio costeiro acrescentou o poder do m ansa do Gabu (ou caabu-

m ansa-ba) e robusteceu o subim pério que esse vinha construindo.15 Em bora teoricam ente devesse obediência ao m andim ansa e continuasse a considerá-lo seu suserano e a pagar-lhe tributo, o m ansa do Gabu não lhe prestava contas e tornara-se um verdadeiro rei dos reis, a ter por vassalos não só vários régulos, m as reis poderosos. E para dissociar ainda m ais o Gabu do m andim ansa e pô-lo ao abrigo de eventuais corretivos m ilitares, inseriu-se entre um e outro, no Futa Jalom , o Estado do Grão-Fulo.

Ao expandir m ilitarm ente o Mali na direção do litoral, a nobreza m andinga não só desenhou novas províncias para o im pério, m as tam bém se estabeleceu com o elite dirigente em vários reinos que tornaram form alm ente vassalos do m andim ansa. Algum as estirpes aristocráticas m andingas se im puseram com o senhoras sobre as populações locais, cobrando-lhes, do alto de seus corcéis, im postos, trabalho e obediência. Foi o que se deu no Badibu, na Casam ansa, no Nium i e no Uli (ou Wuli), para ficar em quatro exem plos.

As estruturas sociais m andingas eram tão hierarquizadas quanto as j alofas. E se tornaram , ao que parece, ainda m ais, naquela área entre o Gâm bia e o alto Corubal, onde, segundo as tradições, um general do Sundiata, Tiram acã Taore, criou o Gabu. Desse chefe m ilitar descenderiam os três grandes clãs senhoriais — um Sané e dois Manés — que dividiam rotativam ente a chefia do Gabu. Esses

três clãs, os niantios, 16 possuíam um carism a especial para o m ando, que lhes

vinha no sangue e era transm itido pelas m ulheres. 17 Só entre eles podia ser escolhido o farim ou m ansa do Gabu. Os filhos de niantios com m ulheres que não pertencessem a essa superaristocracia form avam um a nobreza secundária, a dos

coringos, 18 da qual saíam os altos funcionários do estado e até m esm o alguns m ansas das províncias m ais distantes, as m ais próxim as ao centro do poder sendo reservadas aos niantios. O m esm o sistem a estendeu-se para o Sine e o Salum ,

onde um a dinastia, possivelm ente saída do Gabu, a Gueluar, 19 se im pôs sobre os sereres, em territórios dantes sob o dom ínio j alofo. A m atrilinearidade dos

gabunquês20 discorda do regim e de descendência do Mali, que era patrilinear. Este não seria, aliás, o único afastam ento de Gabu em relação à sua fonte, pois, se, ao longo do tem po, as populações guineenses se foram am andingando, o processo aculturativo não se deu, com o j am ais se dá, num a só m ão. Daí provém que esses num erosos povos, dos sereres aos tim enés, sej am , em nossos dias,

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com o dizia Avelino Teixeira da Mota, “m uito hom ogêneos”, m ais sem elhantes

do que diferentes. Walter Rodney foi m ais longe e alongou essa hom ogeneidade cultural, que seria devida ao influxo m andê, desde o rio Gâm bia até o cabo

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Palm as.

Os niantios e tam bém os coringos guiavam -se por um código de com portam ento heroico, que os obrigava a um constante expansionism o m ilitar. A aspiração de cada um de seus m em bros era a de ser um grande guerreiro. Um grande guerreiro a cavalo. Um guerreiro que devia preferir a m orte à rendição. E que não devia suj ar as m ãos com qualquer outro tipo de atividade que não a

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das arm as e viver exclusivam ente do tributo e do saque. Eles distanciavam -se

do resto dos hom ens até m esm o na form a de vestir, com suas am plas roupas cor

de laranj a.24

Abaixo dessa nobreza, ficavam os orons, ou hom ens livres. E abaixo ou ao

lado destes, os castados ou niam acalas,25 entre os quais os griots (diélis, entre os gabunquês), os ferreiros, os tecelões, os carpinteiros e os curtidores. No chão da escada social ficavam os escravos. E num degrau acim a, os povos recentem ente subm etidos e os fulas que pastoreavam nos dom ínios m andingas. Dos fulas, os niantios e os coringos esperavam que lhes cedessem gado para o consum o diário de carne e deles obtinham os couros bovinos que figuravam com o o segundo item de seu com ércio com o exterior. O prim eiro era o escravo.

Em bora lhe tivesse sido arrancada a m aior parte de seus antigos dom ínios ao norte e assistisse, no sul, à substituição de seu poder pelo do m ansa do Gabu, o soberano do Mali não perdera os dentes. Disto há sinais claros. Cortou, por exem plo, os avanços dos bam baras e dos m ossis. E, ao saber que Songai fora subm etido pelos exércitos m arroquinos, sentiu-se com energias para tentar a reconquista de Jené, talvez com o a prim eira etapa de um proj eto de recuperação dos portos do Sael.

Com os xerifes saadianos, o Marrocos, após século e m eio de aflições hum ilhantes, recuperara a independência e a confiança. Desde a conquista de Ceuta, em 1415, os portugueses, perseguindo um a política de ocupação do país, se haviam instalado em vários pontos da costa (Alcácer Ceguer, Arzila, Tânger, Agadir, Massa, Safim , Azam or, Mazagão) e se infiltravam periodicam ente em cavalarias e pilhagens pelo interior. No início do século XVI, a situação com eçou, porém , a alterar-se. Im pulsionados pelos m arabus e liderados pelos que se apregoavam descendentes do Profeta, os m arroquinos lançaram -se em guerra santa contra os cristãos e contra o sultão otom ano, a quem consideravam com o usurpador, por não pertencer ao clã de Maom é e nem sequer ser árabe. Esse j ihad, iniciado no Dara (ou Drá) e no Suz, atingiria seu ápice em 1578, com a derrota de D. Sebastião em Alcácer Quibir. Dessa batalha, em ergiu um novo líder saadiano, Abul Abbas Ahm ad, que adotaria o título de Al-Mansur (“o Vitorioso”) — o Alm ançor dos portugueses — e se gabaria de califa.

A ascensão dos saadianos dera-se num a das pontas setentrionais das rotas que atravessavam o Saara. Entre os vastos canaviais do Suz. De um Suz que não seria o que era, rico produtor e exportador de açúcar, de algodão, de anis e de cobre, sem a escravaria que as cáfilas traziam do Sudão, as m esm as cáfilas a que os xerifes deviam o ouro com que com pravam as arm as de fogo e a pólvora a

outros europeus que não os portugueses. 26 Já para adquirir escravos e ouro no outro lado do deserto, a m elhor m oeda era o sal — o sal que fizera fam osas, a sudeste do Dara, as m inas de Tagaza, as quais, no início do século XVI, estavam sob a soberania dos ásquias.

Desde cedo, os saadianos entenderam que, sem o ouro e o com ércio do Sudão, não poderiam cum prir seus desígnios políticos, sobretudo se tivessem com o obj etivo últim o, conform e indicaria a adoção dos títulos de califa e am ir al-m um inin (ou “com andante dos crentes”), o de restaurar a unidade política do islam e. Prim eiro que tudo, tinham de im pedir que os otom anos a eles se antecipassem e assum issem , a partir de Trípoli, o controle do tráfico. Os turcos m oviam -se, aliás, rapidam ente. Na m etade do Quinhentos, ocuparam o Fezzan, tom aram o im portantíssim o porto de Trem ecém , subm eteram Tuggurt e Warghla e estabeleceram um a guarnição perm anente em Biskra. Se tudo isso fizeram na m argem setentrional do Saara, não descuidaram das praias do sul: acertaram -se diplom aticam ente com o m aí Ídris Alom a, do Bornu, de quem

recebiam escravos e a quem forneciam arm as de fogo. 27

Os Saadianos não esperaram por essas ações. Já em 1537 conquistaram o Tafilete, onde ficava Sij ilm essa. E, dois anos m ais tarde, o xerife Mulei (ou Mawlay ) Ahm ad Akbar enviou de Marraquexe um a carta ao ásquia, a exigir que este lhe entregasse as m inas de Tagaza. O ásquia não respondeu com palavras, m as com dois m il tuaregues, que caíram sobre os lindes do Dara, saqueando o

que podiam , m as sem m atar ninguém . 28

Tagaza, para os m arroquinos, significava, ao que parece, a chave do com ércio com o Sudão, pois passavam a dispor com abundância de sal, que ao sul do Sael se transform ava em ouro e em escravos. Im punha-se para eles não só cortar o fluxo das m ercadorias africanas para as feitorias portuguesas e os navios de outros europeus, m as tam bém desviar as caravanas que saíam de Gaô e Tom buctu, das rotas que as levavam ao Egito, à Líbia e à Argélia, para as que as conduziam ao Suz e ao Tafilete. Os m arroquinos j ulgavam o ásquia riquíssim o e “os seus reinos, os m ais ricos do m undo” — conform e escreveu um contem porâneo, provavelm ente um nobre português cativo em Marraquexe,

Antônio de Saldanha. 29 Nada m ais natural, portanto, do que exigir que um a parcela de suas rendas revertesse em favor da guerra santa contra os ibéricos. E foi o que Al-Mansur requereu de Daúde: os proventos de um ano das m inas de Tagaza. O ásquia enviou-lhe dez m il m eticais de ouro com o reconhecim ento do que o saadiano havia feito em favor do Islam e. Com o contribuição voluntária e não com o tributo.

Isso acalm ou o xerife. Mas não por m uito tem po. Nem o desviou da aspiração de controlar o com ércio transaariano e trazê-lo para o Marrocos. Com esse obj etivo, guerreou por vários anos, no Tuate, os turcos e seus aliados. E ordenou, em 1584, que tropas suas atravessassem , na direção do sul, o deserto. Um cronista afirm a que os árabes do Saara Ocidental e os negros do baixo Senegal lhe reconheceram a soberania. Mas outros contam que a expedição foi dizim ada pela fom e e pela sede.

Dois anos depois, duzentos m osqueteiros do sultão m arroquino invadiram Tagaza. E pela segunda vez — a prim eira fora em 1556 — encontraram -na abandonada. Avisados a tem po, os tuaregues que exploravam as m inas em nom e do ásquia haviam , com o 30 anos antes, fugido com seus escravos e recom eçado suas atividades em outro local. Não só os m arroquinos não sabiam com o trabalhar as m inas, j á próxim as da exaustão e, por isso, a exigir técnicas que não dom inavam , com o o ásquia, por conselho dos m ercadores tuaregues, proibira qualquer transação com ercial com Tagaza. De nada servia a Al-Mansur a posse das m inas. E delas retirou-se.

O am biente político no Sudão Central com eçava, entretanto, a favorecer os m arroquinos. Bornu, aliado dos otom anos de Trípoli, passara a com eles ter problem as. Os turcos avançavam para o sul, no Fezzan, e tinham ocupado um a fortaleza bornu, se é que não a construíram eles próprios em território que o m aí tinha por seu. Vendo baldados os esforços diplom áticos j unto à Sublim e Porta para que o forte lhe fosse restituído, os bornus acorreram a Marraquexe. E seu rei, para fazer frente ao expansionism o otom ano, fez-se vassalo do sultão m arroquino. Este sentiu-se fortalecido. Não m ais tinha de tem er que os bornus acudissem os songais com suas arm as de fogo. E, em j aneiro de 1590, fez chegar ao ásquia um a m ensagem , acom panhada de um parecer j urídico, segundo o qual a renda das m inas de Tagaza devia ser recolhida ao tesouro dele, califa. Na m issiva, anunciava a decisão de im por a taxa de um m etical por cam elo que entrasse na cidade, revertendo a receita em favor das tropas que, ao fazer a guerra santa, estendiam sua proteção aos islam itas sudaneses. Junto, enviava um outro texto: o de um pretenso irm ão do ásquia, a solicitar a Al-Mansur que o apoiasse m ilitarm ente nas suas pretensões de poder. A resposta a esse pedido, acrescentava o xerife, dependia da reação do soberano de Songai à sua carta.

O ásquia Ishaq m andou de volta um a descom postura. E Al-Mansur reagiu im ediatam ente, ordenando que se organizasse o exército para a conquista de Songai. Prim eiro, pensou em colocá-lo sob o com ando de seu filho, Mulei Abu el-Hassan, m as este recusou-se a partir para o que lhe parecia um exílio do

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poder. Pôs, então, sob as ordens de um eunuco granadino, Judar, dois m il

arcabuzeiros a pé e 500 a cavalo (andaluzes, m ercenários e ex-cativos cristãos, inclusive portugueses, convertidos ao islam ism o), além de 1.500 lanceiros, 660 sapadores, m il condutores de cam elos, m il bestas de carga e oito m il cam elos

aj ouj ados de água, m antim entos, arm as e m unições.31 O idiom a predom inante na expedição era o castelhano.

O m onarca songai estava na rem ota província de Kala, envolvido em m ais um a das guerras civis pelo poder, que se sucediam , havia um lustro, entre irm ãos, quando soube que as tropas m arroquinas atravessavam o Saara. Apressou-se em retornar a Gaô, enquanto m andava m ensageiros com ordens para que se tapassem os poços do deserto. Estas não se cum priram , porque os em issários encontraram a m orte, antes que pudessem transm iti-las.

Judar chegou a Kabara, j unto ao rio Níger, nos últim os dias de fevereiro de 1591. Quase a m etade de suas tropas havia m orrido no deserto. Mas com o que lhe sobrava encam inhou-se, decidido, para Gaô. Em Tondibi, topou o exército songai: entre oito m il e 18 m il cavaleiros e um a enorm e infantaria, variando os núm eros conform e o cronista. No total seriam , para um observador da época,

m ais de 80 m il hom ens.32 A batalha durou pouco. Os invasores, arm ados de arcabuzes, m osquetes e pequenos canhões, derrotaram a cavalaria pesada e os arqueiros e lanceiros de Songai.

Sobre essa batalha, na qual m enos de três m il hom ens desgastados pela travessia do deserto, m as m unidos de arm as de fogo, derrotaram as enorm es hostes songais, escreveu Roland Oliver que foi m ais im portante para a história da África do que a chegada dos portugueses ao continente, sim bolizada pela

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construção do castelo da Mina. As consequências de um a e de outra não

corroboram a afirm ação: com os portugueses e os que vieram após eles, a África tornou-se parte, dolorosam ente, do m undo atlântico; a conquista m arroquina desm oralizou-se e dissolveu-se, sem alterar a longo prazo as relações transaarianas.

Penso que o desfecho de Tondibi indica claram ente que o uso disciplinado — e ponho ênfase no adj etivo — das arm as de fogo fez a diferença na batalha, anulando a desm edida vantagem num érica dos locais. Não creio, portanto, que os m osquetes m arroquinos tenham sido m ais efetivos pelo barulho e pela novidade

do que por seu poder letal. 34 Houve certam ente espanto e confusão entre a soldadesca songai, quando se defrontou com a fum aceira e os estam pidos dos canhões e dos m osquetes e viu caírem os prim eiros com panheiros, sem que fossem atingidos por flecha, azagaia ou lança. Talvez o volum e do fogo tenha tam bém aturdido os nobres a cavalo. Mas custa-m e acreditar, considerando-se a am pla rede com ercial que servia Songai, que parte de sua elite não tivesse j am ais posto os olhos num a espingarda. Estas chegavam com os otom anos até o Fezzan e eram em pregadas nas cam panhas m ilitares de Bornu. O m aí Ídris Alom a, cuj o reinado principiou por volta de 1564, im portara não só arm as de fogo, m as tam bém soldados turcos, ou treinados pelos otom anos, que transform aram escravos dom ésticos de sua confiança num a tropa de elite de espingardeiros. É provável que um ou dois de seus antecessores j á contassem com lazarinas, obtidas no norte da África. Mas talvez tenha sido ele o prim eiro rei da África Ocidental a com preender que, sem o uso disciplinado das arm as de

fogo, estas de pouco ou nada serviriam .35

Ainda que apenas alguns dentre os songais tivessem visto um m osquete, m uitos seguram ente deles tinham ouvido falar. Não consta, aliás, que as tropas do ásquia se tenham apavorado diante dos arcabuzeiros de Judar. Há m esm o, nos relatos que nos chegaram , episódios a indicar grande bravura da parte dos songais. Agrupados e arrem essando sem cessar suas flechas contra o inim igo, m uitos resistiram até a m orte.

Um guerreiro que finque várias setas no chão, ao seu lado, e as vá tirando um a a um a para arm á-las no arco, enviará, num determ inado período de tem po, m ais proj etis contra os adversários do que aquele que tenha nas m ãos um arcabuz, para quem será sem pre dem orado o processo de recarregá-lo pelo cano. Ao contrário, porém , do que sucede com um tiro de um a arm a de fogo, a m aioria das flechas não consegue atravessar a cota de m alha ou o gibão acolchoado (ou lifidi) de um cavaleiro, o que perm ite que alguns canhonaços, ainda que de pequeno calibre, e um a fuzilaria bem -ordenada — um grupo adiantando-se para disparar, e outro atrás dele se protegendo, para recarregar as arm as — possa desm oralizar um a carga de cavalaria pesada e m atar um bom núm ero de ginetes, ou abrir brechas num a m ole de arqueiros. Isto foi, provavelm ente, o que ocorreu em Tondibi.

À derrota das tropas songais seguiu-se um levante dos escravos reais,36 o que confirm aria as duras condições de vida a que estavam subm etidos nas plantações

do ásquia.37 Esses rebelados devem ter procurado ir à forra, som ando-se à insegurança e violência que tom ou conta de quase toda a região, desam parada pelo exército do ásquia, que, vencido, retirou-se, prim eiro, para Gaô e, depois, para a outra m argem do rio.

Ishaq dispôs-se a reconhecer a suserania de Al-Mansur, a entregar-lhe as m inas de Tagaza, a ceder-lhe o exclusivo do com ércio de cauris e a pagar-lhe um tributo de m il escravos e de cem m il m eticais ou 12.500 onças de ouro. Judar, que se decepcionara com a pobreza de Gaô, onde o palácio do ásquia (de barro socado e coberto de palha, com o as dem ais casas da cidade) lhe parecera inferior à m orada de um chefe de tropeiros do Magrebe, m anifestou-se propenso a aceitar a subm issão do soberano songai e a devolver as tropas invasoras ao Marrocos. Mas foi desautorado e perdeu o com ando e a condição de paxá. Al-Mansur estava decidido a com pletar a conquista de Songai e a atingir as m inas de

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ouro.

Ao saber que as tropas songais haviam escolhido o seu irm ão Muham ad Gao com o novo ásquia, Ishaq fugiu para Gurm a, onde foi m orto, num a em boscada. Muham ad não teria m elhor sorte: enganado com prom essas de paz, caiu nas m ãos dos m arroquinos, que o executaram , j untam ente com vários outros m em bros da fam ília real. Um deles, porém , um outro irm ão de Ishaq, Nuh, fez-se ásquia em Dendi, reorganizou as forças songais e, durante sete anos, deu duro com bate aos invasores. Os ásquias que o sucederam prosseguiram na resistência.

Até m esm o em Tom buctu, onde o paxá m arroquino, que ali residia, instalara com o títere um ásquia rival, Suleim ã, a vida não corria fácil para os invasores. A m alária e outras doenças tropicais causavam entre eles enorm es estragos. E tão grandes eram as exigências fiscais, a rapinagem , os abusos, as violências e as crueldades dos novos senhores, que, em m enos de um ano, a gente da terra contra eles se revoltava. À repressão da insurgência seguiu-se a prisão e desterro dos letrados da cidade, aquela elite que dera fam a a Tom buctu em todo o m undo islâm ico.

Se enfrentavam dificuldades em Tom buctu, e tam bém em Jené e Gaô, m ais difícil era ainda para os m arroquinos consolidar o seu poder fora do espaço que envolvia aquelas cidades. Aqui, enfrentavam as guerrilhas do ásquia Nuh. Ali, as insubordinações dos antigos tributários do im pério. Acolá, as arrem etidas dos bam baras e os ataques dos fulas. Mais adiante, as algaradas dos tuaregues e dos sanhaj as.

Em Niani, o m andim ansa Mam udu (ou Mahm ud) acreditou ter chegado o m om ento de recuperar parte do que pertencera ao Mali. Procurou a aliança dos descontentes. E, em 1599, endereçou a Jené um num erosíssim o exército, com posto não só de m andingas, m as tam bém de bam baras e de fulas que obedeciam ao ardo de Macina. Cercou a cidade e a teria tom ado, não fosse o socorro de Tom buctu.

Um a vez m ais, as arm as de fogo se im puseram sobre o volum e da soldadesca. Vencido, o m andim ansa fugiu a cavalo. Perseguiram -no dois chefes aliados dos m arroquinos e cuj os predecessores tinham sido vassalos do Mali. Quando o alcançaram , desceram das m ontarias, prostraram -se e lhe pediram que se fosse o m ais depressa possível, para im pedir que, capturado, os

m arroquinos o hum ilhassem . 39 Ignoro com o disso soube o cronista, m as, ainda que o episódio tenha nascido de sua im aginação, vale pelo que indica.

O im pério do Mali, do qual os songais tinham desm em brado, havia 150 anos, a parte ocidental e a região saeliana, partiu-se, após o desastre do cerco de Jené, em cinco reinos e num erosas chefias. Os povos vassalos dele se desligaram . Nem sequer Bam buk continuou em sua órbita, pois foi tom ado pelas tropas do grão-fulo, o silatigi denianquê, reforçada por lançados portugueses e sob o com ando do Ganagoga, aquele cristão-novo que em Portugal se cham ava João

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Ferreira. O m ansa do Mali passou a com andar um reduzido espaço. Já não era

m uito m ais do que um régulo, m as, apesar disso, perto das praias do Atlântico, longe do resto de terras em que governava, as pessoas continuavam a fazer gestos de respeito, ao pronunciar ou ouvir o seu nom e.

Perdera-se a possibilidade de parceria com que sonhavam os portugueses. Toda a segunda m etade do século XVI fora-lhes, aliás, adversa. Tornaram -se frequentes na Costa os barcos espanhóis, franceses, ingleses e holandeses. Os lançados trabalhavam cada vez m ais contra os interesses da Coroa. E os m arroquinos, além de recuperar os seus portos no Atlântico, haviam subm etido Tom buctu. Tenho para m im que a invasão de Songai continuou, por assim dizer, Alcácer Quibir. Foi, creio, um novo capítulo da guerra santa contra os portugueses. Talvez a sua principal m otivação tenha sido cortar o fluxo de ouro para Arguim e o Senegal. Em vez de atacar as posições lusitanas na costa ao sul do Marrocos, Al-Mansur buscou im pedir que elas recebessem do interior o m etal am arelo, dom inando os seus principais centros distribuidores.

Logo após a conquista do coração de Songai, o ouro correu para Marraquexe. O ouro, o m arfim e a escravaria. Não só os m arroquinos para lá encam inharam , sem perm itir que tom assem outros cam inhos, todas as m ercadorias de exportação que, vindas do sul e do sudoeste, desciam em Jené, Tom buctu e Gaô, com o devem , com o resultado de saques e do confisco ou com pra forçada dos estoques m antidos pelos m ercadores locais, ter aum entado substancialm ente os prim eiros carregam entos. Do volum e da riqueza que atravessou o deserto, pode-se ter um a certa ideia com os depoim entos de dois com erciantes ingleses que viviam na época em Marraquexe. Um deles, Jasper Tom son, fez, em 1599, um inventário dos bens trazidos por um só viaj ante, em bora um viaj ante especialíssim o, pois o próprio conquistador Judar: trinta cam elos carregados de ouro não refinado, 120 outros com grande quantidade de m alagueta, chifres de rinoceronte e m adeiras de tinta, além de num erosíssim os escravos e escravas, entre os quais se destacavam quinze m ocinhas virgens e vários eunucos e

anões. 41 O outro, Laurence Madoc, relatou à sua m atriz em Londres, em 1594, que vira com seus próprios olhos chegar de Gaô um a caravana de andaluzes com trinta m ulas de ouro, o que, segundo os cálculos de E.W. Bovill, representaria

certa de 70 m il onças (ou quase duas toneladas). 42 Em outra ocasião, o paxá enviou ao sultão m arroquino 1.200 escravos, um a grande quantidade de m arfim ,

alm íscar e gatos-de-algália, além de 40 fardos de ouro. 43

Era m uito ouro para os padrões da época, m as m uito m enos do que esperava Al-Mansur. A quim era e a desilusão do Eldorado baseiam -se sem pre num equívoco: o de que, onde os reis ostentam o ouro e este se com ercia, o m etal existe em abundância e se obtém facilm ente; m as, se assim fosse, o cacique am eríndio não se cobriria de pó de ouro, antes do m ergulho ritual na lagoa de Guatavita (na atual Colôm bia), nem o usariam os reis, nem estaria cercado de segredo. O seu valor — insisto no óbvio — deriva da rareza.

No Sudão Ocidental, os m arroquinos não chegaram às fontes do ouro inesgotável, m as conseguiram parcialm ente o que fora, nas costas da Senegâm bia e da Guiné, negado aos portugueses: o controle do com ércio exterior. Nos últim os anos do século XVI, a soberania saadiana estendia-se do Mediterrâneo ao cotovelo do Níger, e dentro desse território produziam -se o sal, o cobre, o anil, os tecidos, os alam béis, os alquicés, as alj aravias e as j oias de prata com que se puxavam de terras distantes o ouro, o m arfim , a m alagueta, as ceras, o alm íscar e o âm bar. Quanto ao escravo, vinha de perto e de longe, e o de perto, produzido em grande núm ero nas guerras de conquista e resistência, que pareciam não ter fim , era levado deserto adentro na prim eira cáfila.

Essa situação, à qual Vitorino Magalhães Godinho cham ou “desforra das

caravanas”, 44 durou pouco. Os m arroquinos não conseguiram , em nenhum m om ento, o dom ínio de todo o espaço — cerca de um m ilhão e 400 m il km —

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que pertencera a Songai. Até m esm o para controlar os territórios enquadrados

por Jené, Tom buctu e Gaô, dependeram de repetidos reforços de espingardeiros, que m al chegavam para preencher os vazios causados pelas guerrilhas e pelas sezões. As disputas entre os chefes invasores, por am bição de m ando ou ganância de bens, causavam tam bém suas baixas, m as sobretudo desm anchavam o m oral das tropas. E, assim , foi crescendo para Al-Mansur o custo da posse das terras que m andara subm eter no outro lado do deserto.

O filho que lhe sucedeu, em 1603, achou m uito caro o preço e, ocupado com sua sobrevivência política pessoal e com os problem as internos do Marrocos, desinteressou-se da conquista. Deixou-a nas m ãos das tropas que lá estavam , as quais passaram a escolher os próprios chefes e governantes. Os paxás por elas eleitos sucediam -se ao sabor das intrigas. Mas enviavam regularm ente o tributo a um sultão cada vez m ais distante. Até que, em 1660, as preces da sexta-feira passaram a ser rezadas nas m esquitas em nom e do paxá Muham m ad as-Shay taki, que se afastou de vez do califa de Marraquexe.

O que fora o núcleo do im pério de Songai deixara, havia décadas, de ser um a dependência m arroquina e se transform ara num estado dirigido pelos andaluzes e renegados ibéricos e por seus filhos com as m ulheres da terra, os m ulatos que se tornariam conhecidos com o arm as (talvez um a corruptela de rum a, ou

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arcabuzeiro ). De geração em geração, eles foram ficando m ais escuros. Esqueceram o castelhano e se assongaizaram .

No Tarikh al-Sudan, Al-Sadi traça-nos um quadro desolador de Songai após a conquista m arroquina: onde houvera tranquilidade, passara a prevalecer o perigo; a riqueza cedera lugar à penúria; a pilhagem tornara-se regra; a desordem

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fizera-se geral; e instalara-se a guerra de todos contra todos. Terá sido assim

nos prim eiros m om entos e, depois, em algum as partes e em certas ocasiões. Mas não parece que os sucessores de Judar haj am descuidado a segurança do

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com ércio e o livre trânsito dos m ercadores. Devem ter procurado deixar

lim pas de assaltantes as vias habitualm ente percorridas pelos diulas e há testem unhos de que se entenderam — e m uito bem — com os m ercadores de Tom buctu, que pagavam os custos das expedições m ilitares contra os bandidos que tentavam obstruir os cam inhos. Estranho seria que fosse o contrário, pois, ao longo de sua história, Tom buctu fora seguidam ente invadida, e retom ada, e de novo invadida. A classe m ercantil da cidade aprendera a lidar com os conquistadores. Descobrira, desde cedo, que estes não estavam interessados apenas na pilhagem , m as nos tributos que a constância do com ércio assegurava, e que se dispunham , por isso, a dar cobertura arm ada ao trabalho dos m ercadores e ao fluxo das m ercadorias.

A prosperidade não se apagou do com ércio em Tom buctu, ainda que, talvez, não continuasse a prevalecer, dentro do território dom inado pelos m arroquinos e os arm as que os sucederam , o m esm o am biente de segurança da época de Soni Ali ou dos ásquias, um am biente não distinto daquele que Ibn Batuta testem unhara no Mali, quando o percorreu entre 1352 e 1353 — podia-se viaj ar sem escolta, pois ninguém , nas terras do m andim ansa, tinha o que tem er de

salteadores 49 —, ou daquele que prevaleceria, dois séculos m ais tarde, nos dom ínios m uito m enores do casam ansa, “onde não se perdia cousa, nem havia

furtos”, conform e nos avisam André Álvares d’Alm ada50 51 e André Donelha.

Quer exercitassem a soberania sobre grandes ou sobre pequenos espaços, os reis, régulos e chefes africanos esforçavam -se, todos ou quase todos, para assegurar o trânsito seguro dos viaj antes e dos m ercadores.

Durante as guerras e nas regiões rebeldes, na periferia dos estados e nas áreas de contato e confronto entre eles, a situação podia ser diferente. Na própria época dos sonis e dos ásquias, dificilm ente se escoava um a estação seca sem cam panha m ilitar. Mas os m ercadores sabiam com o desviar-se de um a área em luta arm ada e com o fazer frente aos riscos de atravessar territórios hostis: m ontavam caravanas arm adas e, algum as vezes, traziam com eles — louvo-m e

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de novo em André Álvares d’Alm ada — m ais de m il flecheiros. Tiravam tam bém proveito dos conflitos. E cada vez m ais, à m edida que aum entava a dem anda europeia por escravos. Não só acom panhavam os exércitos, para adquirir prisioneiros a baixo preço, m as tam bém se instalavam nos m ercados que surgiam , quase espontaneam ente, nos aldeam entos das tropas sitiantes, quando se prolongava o cerco de algum a cidade.

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Vej a-se o caso das invasões dos m anes ou m anés na Serra Leoa, da qual

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Álvares d’Alm ada, André Donelha, o padre Manuel Álvares e Francisco

de Lem os Coelho57 registraram testem unhos e ressonâncias. Esses m anes eram provavelm ente m andês, com o indicavam as tradições, sugeriram Álvares

d’Alm ada e André Donelha, argum entou Yves Person58 e sustentou convincentem ente Walter Rodney. Segundo contaram os anciãos m anes a Donelha, tudo com eçara com um a m ulher de alto prestígio, Maçarico, que se indispôs com o m ansa do Mali e teve de abandonar as suas terras. Teria ela descido com os seus do alto Níger para sudeste, e chegado ao Atlântico, nas proxim idades de São Jorge da Mina, provavelm ente não depois de 1508 e não antes de 1482, data da construção do forte português, com o qual um de seus

grupos teria tido escaram uças.59

Pode-se conj eturar que os m anes buscaram o litoral, na tentativa de controlar

as exportações de ouro do país acã para Jené. 60 Ou com o obj etivo de abrir um a

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rota direta até as caravelas portuguesas. Detidos pelos canhões do forte da

Mina, em bicaram para oeste. De cam isolões de algodão até abaixo dos j oelhos e barretes cobertos de penas, cada guerreiro portando duas alj avas para flechas curtas, um arco pequeno, duas facas, um a delas am arrada ao braço esquerdo, e um grande escudo de j unco, que podia proteger o corpo inteiro, sucessivos grupos de m anes atravessaram a Costa da Malagueta (atual Libéria) e entraram na Serra Leoa. Os prim eiros, aí por volta de 1545.

Não sabem os se eram m uitos, quando com eçaram a conquista. O que sabem os é que seus contingentes engrossavam com os vencidos: das m ulheres faziam esposas ou escravas, e os m eninos eram subm etidos a rigoroso treinam ento m ilitar e disciplinados até se tornarem verdadeiros m anes. Dos que se rendiam , boa parte ia form ar os regim entos dos sum bas (ou som bas), o grosso da soldadesca dos seus exércitos, de quem diziam , para provocar o terror nos adversários, que com iam carne hum ana.

Os m anes chegavam a um a aldeia. Enviavam um m ensageiro ao chefe ou ao conselho de anciões, com algum as roupas e arm as. A aceitação do presente representava a subm issão. A recusa, a guerra. Vencedores, um punhado de m anes ali se fixava com o nova elite dirigente e im punha suas estruturas políticas sobre os derrotados. O resto do grupo, reforçado por um bom núm ero de vencidos, seguia adiante. Assim os m anes, entre 1545 e 1560, foram suj eitando

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os sapes — nom e que, j á na época de Donelha, se aplicava a vária gente,

com o os bulons, os tim enés, os lim bas e os quissis — e quase toda a Serra Leoa. Quase toda, porque com os lim bas, dialonquês e sossos não tiveram êxito. Recorreram os dois prim eiros a um a política de terra queim ada e às guerrilhas: punham fogo nas aldeias e roças, escondiam -se em cavernas e dali atacavam de

surpresa pequenos grupos de m anes. 63 Quanto aos sossos, fizeram frente aos invasores e, com a aj uda dos fulas, os derrotaram num a só batalha. Nesse encontro, os fulas usaram cavalos, enquanto que do lado dos m anes houve pelo m enos um espingardeiro, o português Salvador Hom em da Costa, arm ado de três escopetas.

A derrota frente aos sossos não trouxe a paz à região. Dividida a conquista entre vários chefes m anes, passaram eles a lutar entre si e contra novos grupos que chegavam de leste. Toda a segunda m etade do século XVI foi, assim , m arcada por continuadas guerras no que hoj e são a Serra Leoa e a Libéria, com naturais consequências sobre o com ércio. Antes das invasões, por exem plo, as caravanas desciam o rio Pongo, desde o Futa Jalom , com ouro, tecidos e gado; no cam inho, obtinham dos sossos ferro e anil; e trocavam tudo, na costa, por sal, peixe seco e m ercadorias trazidas pelos portugueses. Os lançados distribuíam , depois, os bens ao longo do litoral. Com a chegada dos m anes e para fugir deles, o com ércio deslocou-se m ais para o norte, para o rio do Nuno, e só no fim do

Quinhentos voltou ao Pongo. 64

Houve um com ércio que se findou de vez: o dos belíssim os obj etos de m arfim — saleiros, colheres, olifantes, cabos de facas e garfos — que os sapes faziam de

encom enda para os portugueses e que hoj e deslum bram nos m useus.65 Os sapes foram escravizados aos m ilhares e postos a trabalhar nas plantações dos m anes ou vendidos aos diulas e aos europeus. Quanto a estes últim os, aproveitaram -se à larga dos conflitos. E disso deixaram registro. Álvares d’Alm ada conta-nos, por exem plo, com o os sapes, ante a im inência de um ataque sum ba, abandonavam tudo e se refugiavam nas em barcações com que os portugueses frequentavam os esteiros e os rios, e nelas, provavelm ente enganados, eram conduzidos para o cativeiro. Conta-nos m ais: que m uitas vezes os portugueses se recusavam a com prar os prisioneiros que lhes ofereciam os m anes, para depois propor em troca quase nada: um cinto, um gorro verm elho, “um pano que então valia em Cabo Verde sete vinténs”. E m enciona sapes que, com pavor de serem devorados

pelos sum bas, rogavam por am or de Deus que os com prassem . 66

Não silencia Álvares d’Alm ada histórias ainda m ais vis. Com o a daquele rei bulom que m atou em com bate um grande chefe m ane — talvez o filho da fam osa Maçarico — e, desam parado pelos régulos vizinhos, resolveu refugiar-se, com suas m ulheres e m uito de sua gente, entre os portugueses. Foram todos vendidos, exceto, por algum tem po, o rei, levado à Misericórdia da ilha de Santiago. Ali veio a ter o m esm o destino que os outros e trabalhou para “o seu senhor, não com o quem havia sido rei, senão com o quem fora toda sua vida escravo, servindo m uito bem e com m uita paciência, sem se queixar de sua

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desventura”.

Foi tam bém durante as guerras m anes que andou pela Serra Leoa o velhaco John Hawkins, a quem depois fizeram Sir, m em bro do Parlam ento e alm irante da esquadra inglesa. Na sua terceira viagem , em 1567, ele aliou-se a dois reis m anes, na guerra que faziam a dois outros de seus pares, em troca do com prom isso de que todos os prisioneiros tom ados nos com bates lhe fossem entregues. Os seis navios de Hawkins aj udaram a tom ar as tabancas, com postas

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de três ou quatro paliçadas concêntricas, com torres altas e um fosso externo, que envolviam Bonga, na m argem sul do canal da Serra Leoa, m as, depois, voltaram -se contra os vitoriosos, por considerar que não tinham cum prido o acordado, em bora um deles lhes tivesse prom etido que, se levassem os navios até o rio Cess, lá receberiam os escravos que queriam . Ainda que insatisfeito, Hawkins capturou, nessa operação, 250 indivíduos e recebeu 60, acrescentando à carga, que venderia nas Caraíbas, m ais um a centena, obtida por com ércio e

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agressões.

Fora, aliás, sobretudo pela espada contra aldeias africanas — seus hom ens desem barcavam “diariam ente, para fazer cativos e queim ar suas aldeias e roças” — e contra barcos portugueses que levavam escravos para o arquipélago de Cabo Verde, que, na prim eira e na segunda de suas viagens à costa africana, respectivam ente em 1562, com três navios, e em 1564, com quatro, ele enchera de negros os seus conveses e porões. Só na terceira, antes de envolver-se nos conflitos entre os reis m anes, recebeu ele algum castigo e talvez tenha com preendido porque os portugueses, desde a m orte de Nuno Tristão, haviam substituído a razia pelo com ércio. Os 200 hom ens que desceram no cabo Verde para prear os habitantes de um a aldeia foram atocaiados por um m agote de africanos, com flechas envenenadas. Os ingleses capturaram nove negros e deram m orte a um bom núm ero deles, m as sofreram tam bém baixas: 26, entre m ortos e feridos.

Quase todos os ingleses aprenderam a lição e passaram a com erciar com os africanos. Não faltaram , porém , aqueles que, acostum ados à pilhagem , insistiram na prática de razias contra as aldeias litorâneas. A tentação de obter escravos pela força não abandonaria de todo os tripulantes de navios europeus. De vez em quando, arranj ava-se um pretexto para atacar um vilarej o e cativar os seus habitantes. Ou se capturavam os nativos que subiam a bordo ou que, na esperança de com erciar com víveres e bebidas, traziam suas alm adias para j unto dos navios. Para escândalo dos holandeses que haviam tom ado, em 1665, a Goréa, foi isso o que fez, cem anos após a terceira viagem de Hawkins, o barco

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inglês Prosperity .