A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 18 de 30

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A Manilha e o Libambo

16. Na Etiópia

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Na Etiópia

 

Ao com eçar o século XVI, havia m ais de 1.500 anos que a Etiópia colocava escravos nos portos do m ar Verm elho e do Índico. E havia quatro séculos, pelo m enos, que se sucediam os conflitos entre os neguses abissínios e os islam itas que

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ocupavam a parte sul-oriental dos planaltos etíopes.

Aos abexins não passou despercebida a conquista otom ana do Egito e dos litorais da Arábia, no início do Quinhentos. Isolados no altiplano, m as com notícias claras de que se estendiam para além das terras m uçulm anas reinos poderosos de cristãos, tinham tentado, m ais de um a vez, com eles estabelecer contato e criar vínculos de aliança. Do lado europeu, não era m enor a curiosidade pelo rei que se tinha pelo Preste João, visto com o um parceiro ideal contra a am eaça turca.

Desde m uito, o Preste frequentava a im aginação lusitana. Ele figurava com o um dos m óveis da própria aventura portuguesa nas costas da África. Não se estranhará, por isso, que D. João II tenha m andado Pero da Covilhã, em 1487,

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localizá-lo. Após seis anos de viagens, o enviado português chegou à Etiópia. E de lá j am ais saiu, para dizer a seu rei o que fizera, sofrera e vira. Era este o costum e da terra: não deixar que se fossem os forasteiros, para que dela nada pudessem contar. A rainha regente, Eléni ou Helena, que teve Pero da Covilhã por hóspede durante tantos anos, ouviu de sua boca notícias que a convenceram de que os portugueses eram os aliados naturais da Etiópia, pois, se lograssem controlar os litorais africanos do m ar Verm elho e do golfo de Aden, cortariam os acessos à Arábia e ao Egito dos islam itas que sem icercavam o reino abexim e os obrigariam a com bater em duas frentes. Essa convicção reforçou-se com o bom bardeio de Mogadixo por Vasco da Gam a, em 1499, com a ocupação portuguesa da ilha de Socotorá em 1507, com a tom ada de Zeila em 1517 e com o saque de Berbera em 1518. Antes m esm o desses dois últim os feitos, Eléni j á havia enviado um em baixador a D. Manuel I, o arm ênio Mateus. Isto em 1509.

O em issário da rainha regente foi, ao que parece, recebido na Corte portuguesa com desconfiança. Para m uitos, por ser branco, não passava de um em busteiro, de um aldrabão. Mas o rei o tom ou a sério ou, pelo m enos, decidiu correr o risco de acreditar nele e o devolveu à Etiópia com o acom panhante e guia de um a m issão chefiada por D. Rodrigo de Lim a, da qual fez parte o padre Francisco Álvares, que dela e dos seis anos passados nas terras do negus nos deixou um relato precioso, de quem sabia ver, ouvir e contar o que vira, ouvira e vivera.

Quando, em 1520, a em baixada desem barcou em Maçuá (ou Massawa), Eléni j á havia entregue o poder a Lebna Dengel e se retirado para os seus dom ínios de Goj am . Ao j ovem im perador fazia-se urgente recom por a paz interna, abalada por sucessivas guerras civis, e conter a am eaça m uçulm ana, que tom ara a form a de j ihad, conduzido, ao arrepio dos interesses do sultão do Adal, Muham ad ibn Azar al-Din, por um chefe m ilitar, Mafuz, a quem se davam os títulos de im am e e em ir.

O sultão, religiosam ente m orno, contem porizador e sem pre predisposto, no interesse do com ércio, a um entendim ento com os cristãos ou, quando m enos, a um a coexistência pacífica, perdera o controle da situação para aquele seu general, sustentado por um partido devoto, m ilitante, intransigente e

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expansionista, que se apoiava sobretudo nas tribos nôm ades afars e som alis, para as quais a pilhagem era m ais im portante do que as trocas m ercantis. Os repetidos êxitos m ilitares de Mafuz, que descia da Etiópia, após cada cam panha, com um enorm e saque de escravos e gado, contribuíram para fortalecê-lo e para engrossar o seu partido. Durante m ais de trinta anos, com a Etiópia nas m ãos de regentes ou de im peradores ou negachis m al entrados na adolescência, as tropas islam itas fizeram grandes estragos nos lindes sul-orientais do im pério. E a com batê-las, perdeu a vida o negus Naod, em 1508.

Em 1516, Lebna Dengel, que tinha apenas 17 anos de idade, logrou, num ataque de surpresa, m atar Mafuz, que se achava em cam panha no Fatagar. A m orte do im am e não só trouxe um certo respiro aos cristãos, com o os estim ulou a tom ar a iniciativa da guerra. As tropas etíopes entraram pelas terras m uçulm anas, a incendiar aldeias, a arrebatar gado e a escravizar gente.

No Adal, o descontentam ento com o sultão Muham ad, que havia fugido do cam po de batalha, desem bocou no seu assassinato e num a com plicada disputa pelo poder entre vários de seus descendentes e líderes m ilitares que aspiravam a substituir Mafuz. Da confusão de am bições é possível destrinçar a persistência dos dois velhos partidos: o da fam ília real dos Ualasm as (ou Wälasm a), representado pelo sultão Abu Bacre, e a dos herdeiros espirituais de Mafuz, com o o seu escravo Ousani e Garad Abun, que exerceu o com ando da facção até 1525, quando foi derrotado e m orto. Sucedeu-lhe um novo chefe, Um ardin.

Em suas tropas, Garad Abun tinha um j ovem cavaleiro, Ahm ad ibn Ibrahim al-Ghazi, que serviu tam bém sob as ordens de Um ardin. Com o falecim ento deste, Ahm ad assum iu o com ando dos adversários dos Ualasm as e, após um a série de vitórias, im pôs ao sultão um acordo, pelo qual a este se garantia o trono, em troca da renúncia à condução dos assuntos do Estado. Com o Abu Bacre tivesse ensaiado a retom ada do poder efetivo, foi m orto por Ahm ad, que pôs nom inalm ente na cabeça do sultanato, com o títere, um irm ão do Ualasm a.

É possível que Lebna Dengel, na sua inexperiência, tenha j ulgado que a vitória sobre Mafuz afastara o perigo islam ita. É esta a principal razão apontada para o que tem sido considerado com o desinteresse do negus pela em baixada de

D. Rodrigo de Lim a e pela proposta de aliança m ilitar que trazia.4 Percorro, porém , o padre Francisco Álvares, nossa principal fonte, e não encontro os sinais desse descaso. É certo que Lebna Dengel custou a receber a m issão, m as a espera a que foi subm etida e o aparente desdém com que o negus negasta (ou “rei dos reis”) a tratou não destoam do que sabem os ser a norm a na corte etíope. O que noto é a enorm e paciência do im perador em aturar as brigas entre os m em bros da com itiva portuguesa, brigas que vão em aum ento até chegar à agressão arm ada. Essa inusitada tolerância diante da desobediência às repetidas

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ordens do im perador para que cessassem as contendas entre os portugueses só se explica pelo cuidado que ele punha em buscar um aliado que pudesse proteger contra os turcos os litorais contíguos à Etiópia. Mais de um a vez, aliás, Lebna Dengel exam inou com a em baixada a possibilidade de, j untos, abexins e portugueses erguerem fortalezas em Maçuá, Suaquim (Suakin ou Suaquém ) e

Zeila,6 prontificando-se a fornecer os m eios para isso. E de que tinha um proj eto que não se assentava na brisa, há clara indicação no padre Álvares. Lá pelas tantas, o negus, após exam inar um m apa-m úndi, argum entou: sendo o rei de Portugal e o rei de Castela “senhores de poucas terras”, o soberano português não poderia sozinho “defender o m ar Roxo ao poder dos turcos”, pelo que seria “bom escrever a el-Rei de Espanha que m andasse fazer fortaleza em Zeila e el-Rei de Portugal m andaria fazer em Maçuá e el-Rei de França m andasse fazer Suaquém e todos três com as gentes dele Preste, poderiam guardar o m ar Roxo e tom ar Judá [ou Jeddah] e Meca e o Cairo e a Casa Santa [ou Jerusalém ] e ir por todas

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as terras que quisessem ”. Essa era a fala de um realista político, que não ignorava o poderio otom ano, em bora não fizesse ideia de que a da Sublim e Porta era então a m ais eficiente m áquina m ilitar daquele m undo que se estendia do Atlântico à Índia. E, a confirm ar seu interesse na aliança, aí estão as cartas que

escreveu a D. Manuel I e a D. João III8 e que foram levadas para Lisboa por um seu em baixador, Zagazabo (tam bém cham ado Licacanate), que acom panhou D. Rodrigo de Lim a em sua viagem de regresso.

Não creio, assim , que tenha havido, com a passagem do poder de Eléni para Lebna Dengel, um a m udança de política em relação aos portugueses. Se um alto dignitário etíope afirm ou a D. Rodrigo de Lim a que o arm ênio Mateus não fora

m andado a Portugal pelo im perador nem pela rainha regente, 9 é porque isso ignorava ou porque não lhe convinha, naquele m om ento, adm itir o fato. O próprio negus talvez não soubesse, de início, da iniciativa de Eléni. Num a corte deam bulante, não se guardavam registros escritos. E, com a m udança constante dos hom ens de confiança na cabeça do im pério, era curta e restrita a m em ória do que se ordenava da boca ao ouvido. Com o quer que tenha sido, Lebna Dengel deixou claro, na carta escrita a D. Manuel, que, em bora não tivesse sido ele quem m andara Mateus de em baixador a Portugal, a ordem partira da rainha Eléni, que por ele governava com o m ãe, e agradeceu o recebim ento que lhe deram os portugueses. Na m issiva a D. João III, além de m anifestar seu entendim ento de que a em baixada de D. Rodrigo de Lim a tivera por obj etivo iniciar um a ação conj ugada que perm itisse expulsar os m ouros, j udeus e gentios das terras que ficavam entre Portugal e a Etiópia, e de pedir ao soberano português o envio de arm eiros que soubessem fazer espadas e espingardas, e de pedreiros, carpinteiros, telheiros, físicos, cirurgiões, m ineiros e ourives, soltou esta bazófia: “Eu tenho hom ens, ouro e m antim entos com o as areias do m ar e as estrelas do céu, nós am bos destruirem os toda a m ourism a, nem de vós quero senão gentes que ordenem e arm em as nossas.”

Quando D. João III tom ou conhecim ento dessas cartas, os m oslins de Adal, sob o im am e Ahm ad ibn Ibrahim al-Ghazi, que se tornaria conhecido por seu apodo Granhe (Gragn ou “o Canhoto”), j á haviam retom ado os ataques regulares aos cristãos da fronteira e se preparavam para o que viria ser a grande invasão. Após assum ir o com ando de fato do sultanato, Ahm ad procurara, pela persuasão e pela força, congregar ao seu redor as tribos som alis, a m aioria das quais tinha até então apoiado os Ualasm as. Com a aj uda dos ulem ás, esforçara-se para com por as rusgas e as diferenças que tradicionalm ente as separavam , e j untar adalitas, afars e som alis, e harm onizar os interesses dos com erciantes com os dos pastores, e unir os m uçulm anos sedentários aos nôm ades, difundindo entre todos a urgência da guerra santa.

Em 1526, Ahm ad invadiu as terras etíopes de Dauaro, e de lá retornou com um enorm e saque. Quando, no ano seguinte, talvez para dar-lhe o troco, o governador abexim de Bali, Degelhã, atacou o território adalita, experim entou o que parecia um grande êxito, até que, ao regressar à base, foi de tal m odo fustigado pelas tropas de Ahm ad, que a vitória se voltou em desastre, perdendo os cristãos boa parte do exército e todo o despoj o em gado e escravos que traziam .

É possível que os abexins não suspeitassem de que o inim igo m udara de com portam ento. Talvez pensassem que o conflito m ais que secular continuaria a se travar nas fronteiras. E é provável que estivessem im buídos de um a confiança excessiva na sua superioridade nas arm as, construída pela história e reafirm ada

na vitória de 1516 sobre Mafuz. 10 O que parece claro é que receberam surpresos e divididos o derram ar dos exércitos de Ahm ad, em ondas sucessivas, sobre Fatagar, Dauaro (ou Däwaro) e Ifate (ou Ifat). Durante os anos de 1528 e 29, os m uçulm anos, m unidos de arm as de fogo, que adquiriam na Arábia contra escravos abexins, adentraram a Etiópia, derrotando todas as tropas que se puseram à sua frente e destruindo o que podiam .

O negachi procurou conter os invasores, que até então não haviam encontrado senão o que m al se podia cham ar de resistência, pois as forças que a eles procuravam opor-se revelavam -se desm otivadas, insuficientes e despreparadas. Para tanto, Lebna Dengel reuniu um enorm e exército. Convocou tropas de todas as partes do im pério e esperou Ahm ad no centro de Xoa (Shoa ou Shawa). Era vasta a superioridade num érica dos seus com andados em relação aos islam itas. Na prim eira batalha, em Sem arm a, os cristãos saíram vitoriosos e obrigaram os m oslins a se retirarem para Sim bra-Kure (ou Sehem bera-Kuré). Mas ali, após um a luta feroz, que durou um dia inteiro, Ahm ad praticam ente destruiu o exército abexim .

Viu-se o im am e, porém , im pedido de perseguir as tropas do negus. Não pôde tam pouco prosseguir na conquista. Perdera em Sim bra-Kure uns cinco m il hom ens, e seus soldados queriam regressar, com o butim , aos seus pagos. Ahm ad voltou à sua capital, Harar. Refez suas forças e, passados alguns m eses, após obter na outra m argem do m ar Verm elho num erosas espingardas e pelo m enos

sete canhões,11 retom ou a ofensiva. Já agora não tinha m ais grandes exércitos que enfrentar. E foi levando de vencida todos os que tentavam detê-lo.

O negus refugiou-se no alto rio Awash. Lá estava, em 1531, quando o im am e canhoto retornou a Xoa e saiu em seu encalço. Lebna Dengel buscou abrigo m ais ao sul, no Dam ote e depois em Am ara. Os cristãos resistiam com o podiam , no alto de escarpas quase inacessíveis, a atacar as tropas m uçulm anas, quando estas passavam por gargantas apertadas ou por desfiladeiros. Os islam itas haviam chegado ao coração do im pério. E, apesar das crescentes guerrilhas cristãs, derram aram -se por Am ara, invadiram o Tigrê e chegaram à Eritreia, onde a m aioria da população era m oslim . Por toda parte, queim avam e saqueavam os tem plos cristãos — nem a antiquíssim a catedral de Axum , nem o m osteiro de Debra Líbanos, nem as fam osas igrej as escavadas na pedra de Lalibela e do Tigrê escaparam da destruição, da pilhagem e de atos vandálicos —, talavam os cam pos, incendiavam aldeias, roubavam o gado, escravizavam rapazes, m ulheres e crianças. A m aior parte do riquíssim o patrim ônio da Cristandade etíope, acum ulado em tantos séculos de criação artística, desapareceu em poucos anos. Os m oslins rasparam nas pinturas m urais os rostos dos santos, quando não as apagaram por inteiro, puseram fogo em m ilhares de livros ilum inados, arrebataram tudo o que encontravam de valor, fossem vestes bordadas, cruzes ou

turíbulos de ouro e prata.12 E m ataram todos os m onges que puderam , os m onges, m uitos deles sábios e artistas, que se tinham , desde Axum , com o os guardiães da tradição.

O im am e Ahm ad Granhe viu-se senhor de um grande im pério, que se

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estendia, nas praias do m ar Verm elho, de Maçuá a Zeila e com preendia a m aior parte do que fora, no interior, o antigo im pério etíope. Com eçou a organizá-lo política e adm inistrativam ente, colocando governadores islam itas à cabeça das províncias. Descuidou do negachi, que se tornara praticam ente um foragido. E im aginou que a liquidação da resistência cristã no sul da Eritreia, no Tigrê, em Wag, em Lasta e no alto das escarpas e das m ontanhas de difícil acesso de Am ara, Xoa e Goj am , podia ficar por conta do tem po.

Não é difícil explicar-se a rapidez e a relativa facilidade com que Ahm ad se

assenhoreou da m aior parte da Etiópia. Para Taddesse Tam rat,14 o im pério expandira-se em dem asia e passara a abrigar povos distintos na fé e na cultura, só vinculados ao poder central pela força. Form avam -no vários reinos e vice-reinos, com o os de Tigrê, Dâm bia, Angote, Goj am , Am ara, Ifate, Begender (ou Bägém dir), Dauaro e Inaria, que obedeciam ao im perador ou o tinham por suserano, além de num erosas províncias, das quais quase todos os governadores procuravam tornar-se reis de fato. Era a am eaça das arm as o que assegurava a obediência e o im posto. A frouxidão do tecido social e a superficialidade das suseranias e vassalagens tornaram -se evidentes com a invasão islam ita. Para alguns, essa era a oportunidade esperada para sacudir um antigo j ugo; para outros, tratava-se apenas de m udar de senhores. Os falachas de Begender, por exem plo, que lutavam , desde o século XIV, pela independência, prontam ente se aliaram a Ahm ad e se fizeram nos m elhores guias de seus exércitos. Quanto aos m oslins, que form avam o grosso das populações de Ifate, Dauaro e Bali, não podiam deixar de ver com o libertadoras as tropas do Granhe. E a elas se uniram . (Ver o m apa “A Etiópia”.)

O im am e contava com o apoio aberto ou dissim ulado de outros correligionários, ao longo das grandes rotas com erciais. Os negócios a distância, tanto com o m ar Verm elho quanto com o Nilo, eram controlados por m ercadores islam itas. Os cham ados j abartis constituíam a quase totalidade dos caravaneiros que forneciam ao altiplano as barras de sal da Dancália (Danakil ou Afar), os tecidos da Índia, os tapetes da Pérsia, os brocados de Meca, as sedas, as j oias e as especiarias adquiridas em Arquico (ou Hergigo), Zeila ou Berbera. Eram eles tam bém que levavam , na volta, ouro, m arfim , alm íscar, m irra, cera, m el, m anteiga, sorgo, trigo e gado m iúdo, para serem exportados para o Egito, a Arábia e o Índico. Além , naturalm ente, de eunucos e outros escravos.

O tráfico de escravos concentrava-se, aliás, nas m ãos dos m oslins, pois estava vedado aos abexins, pelo código do im pério, o Fethä Nägäst ou Leis dos Reis,

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vender cativos cristãos aos infiéis. Havia, naturalm ente, aqueles que

transgrediam as regras, do m esm o m odo que alguns m uçulm anos castravam os seus cativos, ainda que proibidos de fazê-lo pela sua crença. Sabem os, por exem plo, que o im am e Ahm ad Granhe, apesar de piedoso, m andou capar dois

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sobrinhos do negus Lebna Dengel. A regra, contudo, era que os eunucos

fossem produzidos pelos pagãos ou pelos cristãos, para atender à dem anda dos j abartis, que os iam vender na Arábia, em Sennar e no Egito.

Alguns dos principais centros m ercantis da Etiópia eram habitados predom inantem ente por islam itas. Tal era o caso de Manadelei, no sul do Tigrê.

O padre Francisco Álvares 17 o descreve com o não tendo m ais de m il vizinhos, e todos m ouros. Colava-se a ele um a aldeota, na qual m oravam , com suas m ulheres, uns vinte ou trinta cristãos, que recebiam dos estrangeiros taxas de passagem . Apesar de seu tam anho — que não discreparia, por sinal, do de outras povoações abexins, nenhum a das quais, segundo o nosso inform ante, superava os

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1.600 vizinhos (o que ainda seria a norm a cem anos m ais tarde, conform e os

padres Pero Pais,19 20 21 Jerônim o Lobo e Baltasar Teles) —, Manadelei m ais parecia, segundo o padre Álvares, um porto de m ar, pela profusão e variedade do que ali ofereciam com erciantes de Mar-rocos, Túnis, Grécia, Cairo, Orm uz, Turquia e Índia. Assim era tam bém Acel (ou Wasal), onde se faziam “grandes tratos de escravos, sedas e de todas outras m aneiras de m ercadorias”. Em Acel, os cristãos viviam com os m ouros, m as em posição subalterna, pois para esses

carregavam água e lhes lavavam a roupa.22

Um contem porâneo do padre Álvares, o veneziano Alessandro Zorzi, refere-se, em seus itinerários, a outros vilarej os com im portantes m ercados. De Durbit, por exem plo, conta-nos que ali só se realizavam três feiras por ano, m as m ovim entadíssim as. Vinha gente de toda parte. Levantavam -se no cam po aberto tendas e pavilhões, e vendiam -se ouro e sedas, prata e pérolas, j oias e ervas

m edicinais, m ulas e cavalos.23 Ele não m enciona a presença de com erciantes m uçulm anos, m as a própria natureza das transações que lá se processavam aponta nesse sentido. Já o m ercado de Gendevelu dependia com certeza dos islam itas. O povoado ficava na rota de Zeila, onde especiarias, sedas e outras fazendas finas baixavam dos barcos provenientes do golfo de Cam baia. As m ercadorias atravessavam o sultanato de Adal, em cáfilas enorm es, para se protegerem dos assaltos, até chegarem em Gendevelu, j á em terras do negus. A carga descia dos drom edários, era depositada em arm azéns e depois vendida aos m ercadores do negachi, que pagavam em ducados húngaros ou venezianos e em

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m oedas de prata m ouras.

Os com erciantes m uçulm anos apoiavam -se, à sem elhança dos uângaras da África Ocidental, num a rede de entrepostos que se estendia por boa parte da Etiópia. Seus estabelecim entos pontuavam as grandes rotas m ercantis, assegurando-lhes o controle dos produtos provenientes de longe. A com eçar pelo sal em barra, extraído da depressão da Dancália, e transportado, prim eiro, em cam elos e, depois, em asnos, do deserto para o altiplano. O sal era, aliás, um a das principais m oedas da Etiópia (as outras eram o pó e os grãos de ouro, os panos e pequenas pás de ferro). O valor do sal aum entava à m edida que se distanciava das áreas produtoras. Por três barras com prava-se, na fronteira do Dam ote, um bom escravo; m ais para dentro, bastava um a; e não faltava lugar em que se

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podia trocar sal por igual peso em ouro.

Havia poucos cristãos no com ércio a distância. Etíopes, arm ênios e talvez alguns europeus, com o aqueles contados genoveses e catalães que a em baixada de D. Rodrigo de Lim a encontrou na Abissínia. Deu-os o padre Álvares com o ex-cativos dos turcos — do m esm o m odo que um grego de Chios, um biscainho e

um alem ão26 —, m as não se pode excluir que este e aquele tivessem desem barcado em Maçuá ou Berbera para fazer com ércio. Onde os abexins predom inavam sobre os j abartis era nas feiras locais. Nelas viam -se m onges e m onj as a trocarem os produtos de suas lavouras, e bois, e gado m iúdo, e aves, e

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m el, e pim enta, e sal a varej o, e panos com uns. Os cristãos controlavam o

m ercadej o de alim entos, até porque os de sua crença não tocavam na carne de

anim ais abatidos pelos m uçulm anos nem em com ida por eles preparada. 28

Aos j abartis interessava a paz. Dóceis diante do negus e dos grandes do im pério, a m uitos dos quais serviam com o agentes m ercantis, não deixavam de ser m oslins devotos, e era o islam ism o o que os atava com firm eza uns aos outros, num a solidariedade que era m aior do que os interesses do com ércio. Bons m uçulm anos, não podiam ficar indiferentes ao cham am ento para a guerra santa. E, em bora a m aioria não tivesse agravos contra os senhores etíopes, poucos dentre esses m ercadores deixaram de entusiasm ar-se com as vitórias de Ahm ad. Muitos j untaram -se ao Granhe, trazendo para os invasores o vasto conhecim ento que tinham da geografia do país e do com portam ento de seus habitantes.

É provável que, desde o início, Ahm ad recebesse aj uda dos otom anos. E que deles obtivesse arm as de fogo. Nas tropas do negachi, estas seriam poucas. Apesar do enorm e interesse que por elas dem onstrou, em suas conversas com D. Rodrigo de Lim a, Lebna Dengel possuía apenas um a bom barda e 14 arcabuzes,

com prados aos turcos.29 Talvez o negus intuísse que esse tipo de arm as podia fazer a diferença nos seus em bates com os m oslins. Com o de fato fez, pois foi com a entrada em com bate dos pequenos canhões e dos espingardeiros de Cristóvão da Gam a que a situação m ilitar com eçou, na Etiópia, a inverter-se.

Em 1535, o im perador, no auge de sua aflição, pediu socorro aos portugueses. Usou para isso João Berm udez, ex-m édico da em baixada de D. Rodrigo de Lim a

que ficara em sua corte e se dizia patriarca cristão. 30 Seis anos m ais tarde — Lebna Dengel j á havia m orrido em 1540 —, o novo negus, Galaudeus (Galawdewos, Galawedos ou Claudius), repetiu o apelo ao governador da Índia e filho de Vasco da Gam a, Estêvão da Gam a. Este aportara em Maçuá, com um a frota portuguesa que estivera a com bater os turcos no Suez e incendiara Suaquim e Alcocer. Estêvão da Gam a escolheu 400 soldados, bem supridos de arcabuzes e m osquetes, dotou-os de pequenos canhões de cam panha e entregou a tropa a um seu irm ão de 24 anos, Cristóvão.

Graças ao relato que nos deixou um de seus m em bros, Miguel de

Castanhoso, 31 podem os refazer o percurso do grupo Etiópia adentro, acom panhado pela rainha-m ãe Sabla Wangel, viúva de Lebna Dengel, e por contingentes de soldados etíopes fornecidos pelo barnagais Yeshaq (Ichaque ou Isaac), o vice-rei do Tigrê e dos territórios adj acentes ao m ar Verm elho. Castanhoso conta-nos com o, um após outro, os chefes tigrenses e am aras, que form avam o núcleo de poder do antigo im pério etíope, desceram de seus redutos e esconderij os para j untar-se aos portugueses e engrossar as suas hostes. Narra tam bém as sucessivas derrotas que esse exército infligiu aos m uçulm anos. A m aior delas, em abril de 1541, nos cam pos de Iarte, onde Cristóvão da Gam a enfrentou o próprio Ahm ad Granhe. O im am e tinha consigo 200 turcos com espingardas, 1.500 hom ens a cavalo e 15 m il arqueiros e adargueiros, m as viu-se obrigado a abandonar o terreno, ferido por um tiro num a coxa.

Castanhoso não deixa dúvida de que o êxito de Cristóvão da Gam a deveu-se à utilização disciplinada e com petente das arm as de fogo. Logo no início da cam inhada, por exem plo, os portugueses dedicaram -se a construir 24 carros — algo inteiram ente estranho à paisagem etíope, pois os abexins não haviam adotado a roda —, a fim de neles transportar os canhões de cam panha e, possivelm ente, torná-los m óveis durante os com bates. Em 11 desses carros puxados por bois, eles assentaram m osquetes, que passaram a funcionar com o

parte da artilharia. 32 Não era fácil, contudo, usar os carros. Com o escreveu o padre Pero Pais na sua História da Etiópia, a terra não era para eles, “por haver m uitas serras ásperas, e as planícies no verão com um ente estarem cheias de

fendas, e aberturas m uito grandes”.33 Num a Etiópia dram aticam ente m ontanhosa, com encostas abruptas e vales estreitos e profundos, onde os cam inhos atravessam corredores estreitos entre paredões de granito ou se espicham à beira dos precipícios, Cristóvão da Gam a teve num erosas vezes de ordenar o desm onte das carroças e levar as suas partes, a m unição e os canhões

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nos om bros dos hom ens ou no lom bo dos burros.

Foi, então, a vez de Ahm ad solicitar aj uda. O paxá de Zebid (ou Azebide) m andou-lhe da costa arábica m il arcabuzeiros (ou 600, ou algum as poucas

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centenas, ou 700, ou 900), dez canhões e 30 turcos com seus cavalos —

cavalos que, ao contrário das m ontarias etíopes, tinham os cascos protegidos por

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ferraduras. Com esse reforço de turcos, e tam bém de árabes e albaneses, os m uçulm anos destroçaram , num a batalha travada no vale de Afla, em agosto de 1542, o exército cristão. Cristóvão da Gam a foi feito prisioneiro, e o próprio

Ahm ad o teria decapitado. 37

Vários dias depois dessa derrota, o negus Galaudeus j untou-se ao que sobrara das tropas que tinham com batido sob as ordens do capitão português. Dos arcabuzeiros restavam cerca de 200. Ou m enos. Mas o m oral dos abissínios havia m udado. A recente derrota não apagara o entusiasm o das vitórias anteriores. Eles sabiam que eram capazes de bater o Granhe. Por isso, quando se espalhou a notícia de que o negachi assum ira o com ando do exército, afluíram de todos os lados novos e antigos com batentes. Em pouco tem po, reuniram -se ao redor de Galaudeus cerca de oito m il abexins a pé e 500 a cavalo.

Em 22 de fevereiro de 1543, em Woina-Dega (Way na Daga ou Vay ná Dagá), próxim o ao lago Tana, defrontaram -se Galaudeus e Ahm ad. Com andava este últim o m ais de 13 m il infantes e 1.200 cavaleiros, m as tinha consigo, com arcabuzes, apenas 200 turcos, porque havia devolvido os dem ais a Zebid, por conflitos que com eles tivera, por tem or de que acabassem por se im por com o senhores aos adalitas, ou por excesso de confiança em suas forças. Reduzido em seu poder de fogo, Ahm ad enfrentou abexins cheios de entusiasm o e de desej o de desforra. No auge da luta, um português o feriu com um tiro, e um cavaleiro etíope, após curta perseguição, lhe cortou a cabeça. Ao se verem sem chefe, os m uçulm anos debandaram . Dos que se rendiam , os cristãos só pouparam as m ulheres e as crianças, que ficaram escravas.

Os exércitos islam itas com eçaram a dispersar-se e a retornar ao Adal. Muitas das tropas estavam cansadas não só da guerra, m as tam bém dos rigores de um clim a a que não estavam afeitas. Para quem se criara no deserto ou à beira dele era difícil suportar as chuvas intensas e dem oradas do inverno etíope, o frio das m ontanhas e as grandes alturas. Ainda houve uns poucos chefes m ilitares que procuraram , em algum as áreas com o Dauaro, Fatagar e Bali, resistir à reconquista etíope, m as acabaram por ceder terreno. Por sua vez, os abexins não se adentraram m ais que o necessário pelas terras quentes. Multiplicaram os ataques a aldeias, rebanhos e posições m ilitares adalitas e, em 1550, saquearam a capital do sultanato, Harar, m as dele não se fizeram senhores. Dali, os m uçulm anos responderam à altura à hostilidade do im perador. E se reorganizaram de tal form a, que, em 1559, o negus Galaudeus perderia a vida durante um a cam panha contra Nur, um sobrinho de Ahm ad Granhe. Se Nur não se aproveitou da vitória para invadir as terras do negus, foi porque teve de regressar às pressas a Harar, que estava sob ataque dos orom os.

Galaudeus não teve problem as apenas com os adalitas. Em abril de 1557, os turcos de Zebid ocuparam as cidades de Maçuá e Arquico. A prim eira, num a ilha j unto ao continente, dependia em grande parte da segunda, que lhe ficava defronte, em terra firm e, até m esm o para abastecer-se de água potável, que

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barcos lhe traziam , em odres, todos os dias. Arquico era, adem ais, a porta de

entrada e o escoadouro do com ércio com os abexins. As m ercadorias vinham do interior até Arquico e ali, após trocar ou não de dono, atravessavam o canal e eram postas, em Maçuá, nos navios que seguiam para os outros portos do m ar Verm elho e do Índico.

Os turcos, após se fortificarem nas duas cidades, avançaram , com cem cavaleiros e 400 infantes, para Debaruá (Dibarwa) e dela se assenhorearam , passando em seguida a fustigar as aldeias do Tigrê. Fizeram m ais: profanaram , em Agam e, a antiquíssim a igrej a de Debra Dam o e m assacraram os m onges que ali viviam . Debra Dam o ocupa o alto de um a am bá, isto é, um enorm e cone truncado de rocha, em cuj o topo plano os solos são propícios à agricultura ou se cobrem de pastagens. A façanha turca, ao tom ar essa fortaleza natural, tida por quase inexpugnável, pela dificuldade de se escalarem as suas encostas íngrem es de pedra nua — o próprio Ahm ad Granhe não a tinha conseguido ocupar, por isso que ali se refugiara, antes de m orrer, Lebna Dengel —, deve ter assustado os abexins: continuava viva a am eaça islâm ica. Aos etíopes não escaparia tam pouco que a ocupação otom ana de Suaquim , Maçuá, Arquico e parte do Tigrê lhes cortava o acesso às frotas portuguesas e em baraçava a ação destas no m ar Verm elho, que acabaria por transform ar-se num m ar turco. A reação não tardaria. O barnagais Yeshaq, o m esm o que havia acolhido Cristóvão da Gam a, obrigou os otom anos a se retirarem do Tigrê. Não conseguiu, porém , expulsá-los de Maçuá, de Arquico, nem do resto do litoral da Eritreia, onde eles

perm aneceram por cerca de 300 anos. 39

Foi tam bém no final do reinado de Galaudeus que os orom os ou galas se fizeram m ais visíveis e am eaçadores. Antigos habitantes, ao que parece, de

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Bali, os orom os criavam gado e cultivavam a terra. Com os bois, eles haviam

criado um a relação afetiva, sem elhante à que encontram os em outros povos da

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África — entre os fulas, os nuers e os angúnis, para citar apenas três exem plos. Desde pelo m enos o início do século XVI, os galas vinham -se infiltrando pelo altiplano acim a, em busca de novas pastagens. De início, o poder m ilitar abexim não os deixou ocupar novas terras, a não ser m uito lentam ente e em pequenos núm eros. Graças, porém , aos deslocam entos de populações provocados pelos num erosos anos de guerra entre cristãos e m uçulm anos, com o consequente abandono de vastas áreas no sul e no leste da Etiópia, os orom os puderam acelerar o ritm o de sua expansão. Pelos vazios de gente e de autoridade, ou afrontando m andos frágeis e desm oralizados, os orom os foram subindo do sudeste e se apossando, pela força das arm as, de boa parte dos territórios que tinham pertencido ao im pério abexim ou ao sultanato de Adal.

Os orom os dividiam -se em vários grupos e clãs independentes e, dentro de cada um deles, organizavam -se em estratos geracionais de oito anos, as gadas. Por isso, de oito em oito anos, em cada um desses grupos, um a nova geração de guerreiros era obrigada a feitos de coragem , a razias e a com bates. Só aquele que dem onstrava ter m atado vários indivíduos ou ser um grande caçador de anim ais perigosos tinha prestígio na com unidade e podia usar as insígnias da coragem : anéis nas orelhas, penas no cabelo em pastado de m anteiga e o falo de

um inim igo na testa.42 A cada oito anos, portanto, os orom os se lançavam contra os vizinhos. E com o os grupos eram m uitos, havia sem pre um ou m ais em pé de guerra.

Com o deslocar do conflito entre o Ahm ad Granhe e os abexins para o centro e o norte da Etiópia, dim inuíram os obstáculos à expansão dos galas. Apesar dos esforços posteriores de Galaudeus, de Nur e dos subsequentes neguses e im am es para lhes conter o avanço, os orom os ocupariam , na segunda m etade do século XVI e no correr do XVII, boa parte de Xoa, de Am ara, do leste e do sul de Lasta e quase todo o planalto de Harar. Para essa expansão m uito contribuiu o terem

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eles passado a guerrear do alto de cavalos. Senhores das novas terras, alguns

deles concentraram -se na pastorícia; outros continuaram a unir o gado ao am anho da terra. Estes fizeram -se m uçulm anos; aqueles, cristãos; e aqueles outros continuaram a crer nas suas divindades tradicionais. Aqui, eles se m isturaram aos que encontraram nos territórios a que chegavam , assim ilando-os ou sendo por eles assim ilados; ali, tornaram -se senhores dos cuchitas e sem itas ou, m ais adiante, seus servos; na m aior parte dos casos, m antiveram -se com o grupos fechados, vivendo lado a lado de outros povos, m as guardando ciosam ente as diferenças.

Em 1563, o negus Sarsa Dengel (ou Serse Dingil) sucedeu ao irm ão de Galaudeus, Minás (ou Adem ás Sagad). Minás havia sido prisioneiro de Ahm ad

Granhe e do paxá de Zebid, e a sua vida44 passou-a m ais no cativeiro — cinco anos e m eio — do que no trono. Neste, só ficou por quatro anos tum ultuados, a enfrentar a hostilidade dos grandes da terra e sobretudo do barnagais Yeshaq, que chegou a entronizar, contra ele, dois de seus sobrinhos e a aliar-se aos m uçulm anos de Harar e aos turcos.

No Harar, o im am e Nur, após ter conseguido rom per o cerco orom o, m orreu de peste, em 1567 ou 68. Seguiu-se um período turbulento, durante o qual foram pouquíssim os os sultões e im am es que conseguiram ficar por alguns anos no poder. Um desses sultões, Muham m ed IV, atendeu à convocação do barnagais Yeshaq e, em 1577, atacou a Etiópia. Na batalha do rio Webi, foi vencido pelas tropas de Sarsa Dengel e executado, j untam ente com o m elhor da elite adalita. O antigo sultanato de Adal não se recuperaria dessa derrota. Enfraquecido, não logrou im pedir que seu território fosse quase todo dom inado pelos galas. Em bora estes não tivessem conseguido tom ar a cidade de Harar, um novo im am e transferiu a capital para o oásis de Aussa (ou Awsa), em pleno deserto da Dancália. Ali, entre guerras civis, desm oralizou-se o sultanato que fora o grande adversário da Etiópia cristã.

Restavam os otom anos, firm es em Suaquim , Maçuá e Arquico. Aliadas ao barnagais e aos senhores tigrenses que o apoiavam , as tropas do paxá volveram a Debaruá e de novo a fortificaram . Sarsa Dengel não deixou, porém , que ali descansassem . Atacou-as em 1578, m atou o paxá e o barnagais e pôs no chão a fortaleza. Os turcos refluíram para os seus portos na costa, m as voltaram , anos depois, com a aj uda de um chefete de Tigrê, a ocupar Debaruá. Quando souberam que as tropas do im perador se aproxim avam , retiraram -se para Arquico. Sarsa Dengel decidiu, então, tom ar o porto e expulsá-los do litoral. Malogrou, porém , em seu intento, pois não conseguiu rom per os m uros do forte que protegia a cidade. Diante do im passe, aceitou as propostas que lhe fez o paxá. E com ele concluiu a paz em 1589. A partir de então, o governo de Arquico ficou entregue a um pequeno dignitário local, o naib, que atuava form alm ente em nom e da Sublim e Porta.

A paz era necessária ao com ércio. Em bora os abexins j á contassem com portos sobre o Nilo em Sennar e Shendi, não podiam dispensar os escoadouros do m ar Verm elho. Nem tam pouco os m ercadores m oslins. Por isso, acalm adas as hostilidades, o negus procurou tranquilizar os j abartis e devolver a m uçulm anos o agenciam ento do com ércio im perial, ainda que deles desconfiasse e tivesse passado possivelm ente a vigiá-los.

A im pressão que nos fica de Sarsa Dengel é a de que atravessou o reinado de arm as na m ão, m ontado a cavalo. Era o rei dos reis, m as não se acom odou à condição de com andante dos com andantes. Antes dele, os negachis só tinham ao seu dispor um pequeno corpo de tropas. Em caso de guerra, form avam o exército com os contingentes que lhe forneciam os grandes do im pério, os reis vassalos e os governadores de província. Sarsa Dengel procurou m udar essa situação. Prim eiro, reforçou a sua guarda pessoal. Em seguida, transform ou-a no espinhaço de um exército que não tinha outro chefe senão ele. Para isso, trouxe para as tropas ex-escravos — escravos que libertava, ao fazer deles soldados — e gente livre, m as que, sendo estrangeira, não tinha fidelidades locais.

Cônscio da am eaça que continuavam a representar os m uçulm anos, que sem icercavam a Etiópia cristã, e sentindo-se talvez incapaz de reconquistar os espaços que ao sul e ao sudeste lhe iam arrancando os galas — se é que não reconheceu, à luz da dolorosa experiência das invasões de Ahm ad Granhe, que era m elhor abandonar aquelas áreas do im pério que discordavam culturalm ente de seu núcleo e em cuj a lealdade não se podia apostar —, Sarsa Dengel procurou fortalecer o seu m ando sobre o centro e o norte da Abissínia e expandi-lo sobretudo para o noroeste. Foi então que esbarrou com os falachas ou Beta

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Israel.

Desde pelo m enos Ám eda-Sion, no início do século XIV, as relações entre cristãos e os que se diziam j udeus tinham , sem pre tensas, oscilado entre a luta arm ada e a vassalagem insatisfeita. Na m aior parte do tem po, os reis falachas rendiam -se à suserania do negus negasta, m as rebelavam -se sem pre que este procurava im por-lhes o seu m ando direto ou cristianizá-los. Para os neguses, era, por outro lado, quase irresistível a tentação de reduzir e dispersar os falachas, a fim de m elhor assim ilá-los. Se Minás, m al assum ira o poder, com andara um a expedição contra eles, de Sarsa Dengel essa gente só podia esperar o pior, pois, ao deslocar o centro do im pério para o noroeste, entrava por suas terras. As lições que Sarsa Dengel tirava do passado recente eram , por sua vez, claras: o Granhe se im pusera com facilidade nas áreas islâm icas, j udias e pagãs, m as não lograra dom ar o núcleo cristão do im pério. Consequentem ente, Beta Israel, enquanto não se convertesse à religião e à cultura dom inante, constituía um a am eaça à segurança e à integridade da Etiópia.

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De 1577 a 1594, Sarsa Dengel com bateu os falachas. Em Sem ién, Wagera,

Dâm bia (ou Dem bia), Belasa, Sallam t e Sagade. A guerra foi crudelíssim a. Os falachas resistiram heroicam ente e cobraram caro cada avanço dos cristãos. Ao recusar-se a apostatar do j udaísm o, boa parte deles foi executada. Outra, vendida. Dos que sobraram , m uitos foram expropriados de suas terras e tiveram de transform ar-se em ferreiros, ceram istas, tecelões, carpinteiros e outros artesãos — e os artesãos form avam o m ais baixo nível social na Etiópia, um conj unto de castas só acim a da escravaria. Com o j á se escreveu, a perseguição

religiosa fez-se acom panhar pela degradação social. 47 Os falachas espalharam -se por várias cidades da Etiópia, nelas m orando em guetos, desprezados pelos cristãos, na com panhia dos quais não podiam com er e em cuj as casas estavam

proibidos de entrar. 48 Nem todos, porém , foram vencidos, pois m uitos continuaram a viver no alto das am bás. Quem nos diz isso é o padre Pero Pais. No fim da segunda ou início da terceira década do século XVII, ele escrevia, da própria Etiópia: em bora o im perador Suzênios (ou Susney os) tenha novam ente dado guerra aos falachas, “não os pôde botar das serras; e assim hoj e estão nelas,

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sem lhe quererem obedecer”.

Com a redução dos falachas, de outros grupos agôs e dos reinos sidam as, Sarsa Dengel colocou nas terras adj acentes ao lago Tana todos os colonos am aras e tigrenses que quis e pôde. A região era de solos ubérrim os. E nela ou próxim a a ela ficavam as fontes dos principais produtos de exportação da Etiópia: o m arfim , o ouro, o incenso e os escravos. A expansão para o noroeste e o oeste não

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deixava, assim , de ter um a forte m otivação econôm ica.

Não só as cam panhas contra os falachas, m as todas essas guerras envolvendo

cristãos, m uçulm anos e pagãos, am aras, tigrenses, agôs,51 orom os, som alis e afars ocasionaram um a quase ininterrupta produção de escravos. Eles pouco aparecem , contudo, nas crônicas abexins e nos relatos europeus.

Sabem os das norm as que regulavam a escravidão, porque constam do Fethä Nägäst. Nele diz-se que, em bora Deus tivesse criado todos os hom ens iguais, a guerra fazia dos vencidos escravos dos vencedores, e que os filhos dessas pessoas escravizadas lhes herdavam a condição. O escravo era, porém , um ser hum ano, tinha alm a, e esta devia ser trazida para Cristo. Por isso, os senhores eram obrigados a batizar os cativos e os rebentos destes e a facilitar aos que tinham sob seu dom ínio o cum prim ento das obrigações da fé. Libertar um escravo era a esm ola m ais alta, o gesto m ais perfeito para m ostrar-se am or a Deus, m as nenhum senhor devia alforriar um velho, um enferm o, um aleij ado ou quem quer que não pudesse ganhar o seu próprio sustento. Com o todos deviam ser feitos cristãos, e com o um cristão não podia ser vendido por um cristão a um infiel, o com ércio de escravos a distância ficava, consequentem ente, em m ãos

m aom etanas. 52

Com o se com portava, porém , no dia a dia, o senhor com o escravo? E com o eram a vida e as labutas deste? No livro de um autor tão atento a tudo, com o o do padre Francisco Álvares, a palavra “escravo” quase se esconde entre um a página e outra. E não é diferente num a obra ainda m ais m inuciosa, a do padre Pero Pais (ou Pero Paez, pois era castelhano, ainda que escrevesse em português), que sabia tanto da Etiópia, onde viveu 20 anos. Por corriqueira na Europa, no Oriente Médio e na Etiópia, e tida com o parte da ordem natural das coisas, a escravidão não era assunto de interesse. O escravo estava por toda a parte, a fazer as tarefas sim ples, ingratas ou pesadas. Mas não se falava dele, a m enos que se transform asse num general ou num vizir, do m esm o m odo com o não falava da j anela de um a casa, a não ser que fosse artisticam ente talhada, ou de um cam elo, exceto se fosse extraordinariam ente veloz, ou do pão de trigo, quando este não faltava. Num parágrafo, o padre Álvares m enciona os seus escravos e os que tinha D. Rodrigo de Lim a; noutro, diz que o negus m andou dar alguns aos portugueses; noutro ainda, afirm a que os cativos provenientes do Dam ote eram m uito apreciados na Arábia, no Egito, na Grécia, na Pérsia e na Índia, onde davam excelentes soldados; e m ais adiante, faz-nos saber que o sultão de Adal vendia m uitos abexins à Arábia, e com eles presenteava a Casa de Meca

e os reis m ouros. 53 Num determ inado m om ento, ele nos facilita um a boa inform ação: nos vastos reguengos, os escravos do im perador viviam , casados e com fam ília, “m ais libertados que nenhum a outra gente”. Eram escravos sem feitores, ocupados no cultivo da terra, de cuj os produtos se m antinham , em bora parte da colheita fosse para o negachi, que com ela alim entava a corte e fazia

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dádivas a quem queria. O sim ples fato, porém , de ter o padre Álvares reparado na situação deles, m ais servos da gleba do que escravos, indica a sua excepcionalidade, um a excepcionalidade que talvez derivasse do fato de ser a corte im perial deam bulante. Os plantios do negus estavam quase sem pre longe dos olhos do dono, e tudo o que este queria era, ao chegar a um lugar, receber o necessário para o sustento da corte. Só quando isso não se dava é que vinha o castigo.

Outros dados surgem de repente nos textos da época. Miguel de Castanhoso m enciona, de passagem , que Cristóvão da Gam a, após conquistar um a serra aos m ouros, recolheu um despoj o de escravas, e m ais 80 cavalos, trezentas m ulas e

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m uito gado. E um viaj ante italiano, Giacom o Baratti, conta-nos, na m etade do

século XVII, com o os turcos de Maçuá faziam razias no interior para capturar crianças etíopes. Não falta tam pouco quem se refira aos eunucos fam osos de Hadia, que talvez não fossem ali castrados, m as pelos pagãos de Waslu e de

outras áreas vizinhas. 56

Nos livros dos padres Jerônim o Lobo e Baltasar Teles, a palavra “escravo” não aparece m ais do que um a dúzia de vezes. Quase nunca, com o o suj eito da oração. Quanto ao padre Pero Pais, depois de m uitas dezenas de páginas sem um só escravo, diz-nos esta coisa surpreendente: que havia um j uiz encarregado de guardar os bens perdidos e os devolver ao seu dono, e entre esses bens perdidos

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enum era “escravos, m ulas e outro gado”. Não se trataria de escravos fugidos?

Fugitivos ou extraviados, eles voltam a sum ir do livro e só reaparecem num a rápida m enção ao tributo que recebia o im perador do trato de cativos que se

realizava nas feiras. 58 E de novo se ocultam , para, vários capítulos depois, aprenderm os que os abexins, enquanto não circuncidavam os escravos pagãos,

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não com iam dos m esm os pratos que eles, nem bebiam dos m esm os púcaros. Aqui e ali, há referências à redução de gente, após as batalhas, ao cativeiro. E lê-se, na transcrição de um a carta que o bispo D. André de Oviedo, patriarca da Etiópia, enviou ao papa, que os abexins evitavam cristianizar os gentios do Dam ote, para poder continuar a reduzi-los à escravidão. Eram então com prados em grande núm ero pelos m ercadores m ouros, que os revendiam aos sarracenos

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e aos turcos. A nossa desconfiança de que não fossem tão estritos e tam bém

cativassem cristãos confirm a-se m uitas páginas adiante, ao contar-nos Pero Pais com o intercedeu pelos prisioneiros — “m eninos form osos” e “m ulheres m im osas” — feitos pelas tropas do im perador Suzênios no Goj am . Eram cristãos e som avam cerca de 12 m il. Repito: 12 m il, e não costum ava enganar-se o padre. O negus cedeu aos argum entos do j esuíta e m andou libertar todos, exceto

aqueles que, antes da captura, j á eram escravos. 61

Suzênios era neto de Lebna Dengel, e talvez não tivesse crescido com o sonho do trono. Ganhou-o após um a sucessão confusa e conflituosa.

Sarsa Dengel m orrera em 1597. Em bora tivesse designado com o herdeiro um sobrinho, Za Dengel, sua viúva, aliada à nova classe m ilitar por ele criada, pôs no trono o seu filho, ainda m enino, Yacob. Os que favoreciam Za Dengel não o desertaram e acabaram por levá-lo ao poder, no qual não ficou, porém , m ais de um ano (entre 1603 e 1604), pois, além de querer reform ar as forças arm adas e m odificar o sistem a tributário, não conseguiu esconder a sua conversão ao catolicism o rom ano. Excom ungado pelo abuná (o bispo copta designado para a Etiópia pelo patriarca de Alexandria), foi deposto e m orto pelos grandes da terra, que cham aram de volta Yacob. Isto não agradou a um neto de Lebna Dengel, Suzênios, que se ergueu em arm as e venceu Yacob em 1607.

(Yacob transform ar-se-ia num D. Sebastião etíope. Muitos negavam que tivesse perecido durante um a batalha e sonhavam com o seu regresso. Surgiu até, poucos anos depois, um aventureiro que, em bora sem parecença de feições, pretendeu ser o negus desaparecido e, arregim entando um exército de

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seguidores, só a duras penas foi derrotado. )

Suzênios assum iu um im pério afligido por disputas internas, com reis vassalos e governadores de províncias desej osos de independência. Tinha de dom á-los e, por algum tem po, os dom ou. E tam bém os orom os. De alguns destes fez aliados e colocou-os com o guardiães das fronteiras. Ao continuar a política de Sarsa Dengel de expansão para o norte e o oeste, às expensas sobretudo dos agôs, Suzênios voltou a atacar com violência e ferocidade os falachas, na tentativa de expulsá-los de seus últim os redutos, e acabou por entrar em guerra com o sultão de Sennar, que dilatava para sudeste os seus dom ínios. Com frequência, os exércitos abexins tinham de lutar em m ais de um a frente. Assim , no final de 1618 e inícios do ano seguinte, as tropas do negus com batiam ao m esm o tem po os funj es e insurretos dom ésticos, inconform ados com o fato de haver o im perador trocado a Igrej a de Alexandria pela de Rom a.

Galaudeus, reconhecido aos portugueses pelo auxílio que lhe haviam dado para a derrota de Ahm ad Granhe, lhes perm itira o exercício dos ritos de sua fé e um a discreta catequese. Na corte e fora dela, católicos e m onofisistas envolveram -se num a série de controvérsias — apaixonadas, porém m utuam ente respeitosas —, das quais cada um a das partes saía convencida de haver triunfado. O próprio im perador nelas tom ou parte, deixando de sua posição um a interessantíssim a Confissão de fé. Nesse texto, ele defende a doutrina m onofisista e explica aos seus am igos portugueses as tradições e os cos-tum es religiosos etíopes. Não é por j udaizantes — escreve — que os abexins se circuncidam , m as por ser esse um antigo uso etíope, com o o dos núbios de escarificar o rosto ou o dos indianos de furar a orelha. Não é tam pouco porque o proíbe a lei m osaica que os abissínios não com em porco. Não o com em com o outros povos não com em peixe e certas pessoas não apreciam aves ou carneiro. O respeito ao sábado, a com unhão com hóstia e vinho, o batism o anual coletivo e outras práticas religiosas tinham um a longa história no país e o m esm o valor que as

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europeias, frutos de um a história diferente.

Galaudeus era um hom em de convicções firm es. Mas revelou-se, dentro de certos lim ites, tolerante. Tanto assim que, em 1557, instalou em Frem oná, perto de Adua, no Tigrê, o bispo designado por Rom a para atender aos católicos na Etiópia e perm itiu que este, D. André de Oviedo, e o pequeno grupo de j esuítas que o acom panhava lá exercessem atividade m issionária. Lá, em From ená, longe dele e da corte, na periferia do im pério.

Seu sucessor, Minás, teve atuação inteiram ente inversa. Opôs-se a que os

j esuítas se dedicassem à catequese e os perseguiu.64 Foram tão grandes as aflições por que estes passaram , que D. André, em cartas ao papa Pio V e ao rei D. Sebastião de Portugal, datadas de 1567, condicionava o êxito da m issão evangelizadora à presença de 500 ou 600 soldados portugueses, que garantissem a segurança dos conversos e conquistassem terras pagãs, onde m ais facilm ente

se pudesse praticar o apostolado.65 Se não fosse possível o envio dessa tropa, que ao m enos um a arm ada viesse recolher os 400 ou 500 católicos que havia na Etiópia, dos quais 230 viviam em Frem oná e em outra aldeia m antida pelos padres no Tigrê. Muitos desses católicos eram filhos de portugueses com m ulheres etíopes.

Quando D. André de Oviedo escreveu ao papa e ao rei português, Minás j á havia m orrido e fora posto no trono, ainda m enino, Sarsa Dengel, que retom aria a política tolerante de Galaudeus. Um de seus sucessores, Za Dengel não resistiu à pregação j esuítica e rendeu-se ao catolicism o.

Tam bém católico far-se-ia Suzênios, vencido pelo fascínio de um a personagem extraordinária, o padre j esuíta Pero Pais, que chegara em 1603 à Etiópia. Pero Pais, que j á dom inava vários idiom as (o castelhano de berço, o português, no qual escreveu a sua notável História da Etiópia, o latim , o árabe, o persa e o hebraico), pronto aprendeu a falar am árico e a ler gueze. Tornou-se conselheiro do negus, a quem converteu à Igrej a de Rom a. Hom em m odesto, generoso, cauteloso e conciliador, Pero Pais não deve ter deixado de observar com o o abuná aceitava e respeitava as peculiaridades do cristianism o etíope, difíceis de m udar porque entranhadas no espírito abexim . Se o abuná, um j acobita egípcio, não as condenava em nom e da unidade da Igrej a de Alexandria, esta era um a razão a m ais para que os católicos avançassem devagar. Não ignorava tam pouco o padre Pais que o cristianism o m onofisista copta etíope identificava-se com a nação. Por isso, quando Suzênios se converteu ao catolicism o, o j esuíta o aconselhou prudentem ente a não se declarar de público a favor de Rom a.

Num a série de cartas trocadas, entre 1609 e 1618, com o papa Pio V e Felipe II de Espanha, o negus deixa claro, prim eiro, a sua decisão de prestar ao papa “obediência com o cabeça de toda a Igrej a” e, segundo, a sua im possibilidade de isto proclam ar, sem aj uda m ilitar vinda de Goa, por não dispor, nas palavras do padre Pais, de “gente d’arm as de que se pudesse fiar ou resistir aos que o contradiziam ” e por tem er “algum a traição ou m otim que não pudesse apaziguar”. O negus insistiu, sem êxito, com o soberano que se sentava no trono

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português para que lhe m andasse m il soldados. Se o negus era cauto, o m esm o

não se passava com seu irm ão, o governador de Goj am , Celá Cristós (Seele Kristos). Este, com o ele próprio escreveu em carta a Felipe II, havia assentado

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que “a fé de Rom a era a verdadeira” e determ inara “m orrer por ela”.

As notícias de que o im perador e seu irm ão cada vez m ais favoreciam os j esuítas e se m ostravam adeptos do catolicism o rom ano indignavam o clero copta. O abuná — isto dizia Suzênios — “am otinava” contra eles “os grandes e a

gente popular”.68 Aos inconform ados j untaram -se até m esm o um irm ão e um genro do im perador, na revolução de 1617-18, só contida com grande violência.

A repressão não dissuadiu nem acalm ou os opositores. Cresceram eles em núm ero e com batividade, após a decisão do negachi de confessar-se

abertam ente católico e j urar fidelidade ao papa, em 1622.69 No m esm o ano, falecia Pero Pais, deixando o im perador sem seu m elhor conselheiro.

Pero Pais foi substituído por quem era quase o seu oposto. O patriarca Alfonso Mendez, tam bém espanhol, chegou à Etiópia em 1625, com ideias e ânim o inteiram ente distintos. Para ele, o que não tivesse o j eito europeu era bárbaro e devia ser alterado. Se o im perador se afirm ava católico, força era que todos os seus súditos tam bém o fossem : tornou-se obrigatória a adesão à Igrej a Rom ana. E desataram -se as perseguições contra o clero copta e os que a ele perm aneciam fiéis. D. Alfonso não procurava convencer o negus; dava-lhe ordens do alto de sua verdade, a fim de que tudo o que discrepasse da prática e dos dogm as católicos fosse extirpado. Não se devia m ais guardar o sábado, as proibições alim entares tinham de ser banidas, im punha-se que as pessoas fossem de novo batizadas, e os sacerdotes de novo ordenados, e as igrej as de novo consagradas e redecoradas à m aneira europeia, e a liturgia m odificada, para seguir fielm ente a de Rom a. Os abexins tom aram tudo isso com o insulto e tentativa de dom inação

estrangeira. 70 Não faltava quem lem brasse o que os portugueses haviam feito na Índia e com o haviam subm etido alguns de seus reis. Os abexins sentiam -se tratados com o se fossem pagãos, eles que eram dos m ais antigos seguidores de Cristo. O povo indignou-se. E m ultiplicaram -se as insurreições arm adas.

Conta-se que, durante a repressão a um a delas, o príncipe Fasiladas apontou para o grande núm ero de rebeldes m ortos e disse ao im perador, seu pai: “Todos

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estes, até há pouco, foram súditos fiéis vossos!” E disse m ais: “Tanto faz que

vençam os ou sej am os vencidos: perdem os sem pre. Pois nenhum dos que estão

ali caídos é um estrangeiro.”72 É possível que essas palavras tenham apressado um a decisão que j á devia estar nas cogitações do m onarca, diante da crescente resistência à conversão total que exigia Alfonso Mendez. Em 1632, Suzênios, após convocar um a assem bleia de todos os grandes do im pério, restaurou, de coração partido, m as num am biente de festa, a antiga fé e convocou o clero copta a reaver as suas igrej as e a retom ar a liturgia tradicional. Em seguida, abdicou em favor do filho. Meses depois, m orreria, sem abj urar pessoalm ente o catolicism o.

Em Frem oná, que era um a vila fortificada, e num lugarej o que lhe ficava

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próxim o, houve luta arm ada entre m onofisistas e católicos. A hostilidade aos

estrangeiros e aos que haviam a eles se som ado não cessava de crescer. Finalm ente, o novo negus, Fasiladas, expulsou os j esuítas. Um grupo deles foi entregue aos turcos do litoral, passando, depois de m enor ou m aior cativeiro, para a Índia. Outros, que ficaram escondidos à espera que a m issão se restaurasse, talvez com aj uda m ilitar vinda de Goa, foram executados, assim com o m uitos dos católicos que se recusaram a reconverter-se à Igrej a Etíope. Entre eles figurou o irm ão de Suzênios, Celá Cristós, que viu cum prido o seu desej o de m artírio. Essas m edidas não pareciam , porém , suficientes para os abexins, que tinham m udado de um extrem o a outro a m aneira de ver os europeus e especialm ente os portugueses: os antigos aliados m ostravam -se inim igos. Para im pedir que as experiências recentes pudessem repetir-se, Fasiladas concluiu, em 1648, um acordo com os paxás de Suaquim e Maçuá, a fim de barrar a entrada de europeus na Etiópia. Para cada um que fosse capturado e m orto, o

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negus pagava um a com pensação em dinheiro. Parece, no entanto, que algum as exceções foram feitas, no interesse do com ércio. Há notícias de ingresso no país de uns poucos italianos, de um holandês e de um m édico alem ão,

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que era na realidade um j esuíta disfarçado.

A Etiópia fechava-se para a Europa. Na realidade, ela nunca escancarara as suas portas. Por seu lado, os portugueses j am ais a tiveram de fato com o prioritária em suas preocupações externas. A presença europeia no altiplano restringiu-se a poucas centenas de soldados, que lutaram contra os islam itas e nas guerras locais, de alguns artistas, que pintaram um as poucas igrej as, e de alguns sacerdotes, na m aior parte do tem po confinados em aldeias com o Frem oná e a gastarem -se em debates infrutíferos com o clero m onofisista. Os portugueses sem pre foram em núm ero insuficiente para difundir os instrum entos e as m áquinas que estavam m odificando rapidam ente a Europa. Ainda que dois ou três soubessem com o construir um a azenha e a erguessem num regato, lá ficaria com o um a curiosidade na paisagem , provavelm ente sem repetir-se e, m uito m enos, m ultiplicar-se. Tal qual sucedera com os carros fabricados por Cristóvão da Gam a, durante a guerra contra o Granhe. Os abexins, por sua vez, parece que não se interessaram senão por algum as poucas inovações. Aprenderam a fazer espingardas e a fabricar pólvora. E adotaram novas técnicas de construção de igrej as e de prédios de prestígio. Um a cultura não se dem orou em seu diálogo com a outra.

A aproxim ação com os portugueses, que tivera um início tão prom issor, acabou em desastre. Os forasteiros, em vez de se com portarem com o hóspedes, tinham querido forçar os abexins a adm itir que viviam em erro, que seu m odo de dialogar com Deus e de pensar, sentir e com portar-se baseava-se em falsidades, que era m entira tudo o que eles tinham por verdade, sustentada por um m ilênio e m eio de história. Não nos enganem os: o próprio Pero Pais queria “regenerar” a Etiópia, m udá-la de ponta a ponta, europeizá-la. Católico, padre e j esuíta, olhava-a de cim a para baixo, ainda que se distinguisse dos seus colegas por ter um a outra noção do tem po e do m odo com o deviam ser feitas as reform as que considerava im prescindíveis. A intolerância e a prepotência do patriarca Alfonso Mendez só tornaram ainda m ais evidente para os abissínios o que eles desde cedo tem eram : que o desm anchar de sua Igrej a significava a perda da independência.

A Etiópia apartou-se da Europa. Mas continuou a conviver com aquela parte da Cristandade a que sem pre pertencera. Com o Patriarcado de Alexandria e os coptas egípcios. Com a Terra Santa, sobretudo com Jerusalém e Belém , para onde se dirigiam anualm ente num erosos peregrinos abexins e onde existiam com unidades religiosas etíopes a guardarem alguns dos santuários. Não se afrouxaram tam pouco as antigas relações com a Índia, a Pérsia, a península Arábica, o Egito e os outros vizinhos africanos; ao contrário, essas até se am pliaram , com o esm aecer da hostilidade em relação ao m undo islâm ico.

As transações m ercantis da Etiópia faziam -se, aliás, por portos m uçulm anos. Estavam em m ãos islam itas Suaquim , Maçuá, Zeila e Sennar, sem que com isso sofressem a segurança, a rapidez e a frequência dos em barques e desem barques, do carregam ento dos cam elos e das m ulas que subiam o altiplano ou da acolhida das m ercadorias que dele baixavam . Era em navios m oslins que saíam para o exterior os produtos etíopes. Quase nada tinham , ao longo do tem po, transportado os portugueses: uns punhados de ouro, algum as presas de elefante, um pouco de alm íscar, um tanto de incenso, m eia dúzia de pássaros e de gatos-de-algália e uns contados escravos para as casas de Goa. Os tecidos, os obj etos de cobre, as j oias, as arm as finas e as outras im portações de prestígio vinham diretam ente da Arábia, do Egito, da Pérsia e da Índia, em em barcações m uçulm anas. Durante os quase cem anos de presença dos portugueses na Etiópia, não se nota da parte deles um esforço m ais sério para incluí-la no grande arco m ercantil que traçaram do Japão a Lisboa. O país não foi j am ais tido com o um m ercado que valesse a pena.

Teria sido, por sinal, difícil arrebatar aos islam itas o controle desse com ércio a distância. Quase todo ele estava, na Etiópia, nas m ãos dos j abartis. Eram os j abartis os responsáveis pela m aior parte das caravanas que ganhavam o planalto ou dele desciam , caravanas enorm es, reunindo duas m il ou m ais pessoas, cada qual a cuidar de vários anim ais de carga — drom edários, j um entos, m ulas, cavalos ou bois, conform e a natureza do terreno a ser vencido. Os grandes núm eros eram um a exigência da segurança, pois, se nos portos esta prevalecia, nos cam inhos para o interior m ultiplicavam -se os perigos, por causa de grupos que tinham no saque o seu m eio de vida. Esses grupos atacavam não só as caravanas com m ercadorias de luxo, m as tam bém as que vinham , com barras de sal, da depressão do Afar. Estas eram , ao que parece, bem m enores. Com punham -se geralm ente de 300 a 500 anim ais. Algum as poucas chegavam a

um m ilhar.76

Durante o reinado de Fasiladas, que se estendeu até 1667, e o de Yohannes, que term inou em 1682, o com ércio no m ar Verm elho e do m ar Verm elho com o Índico experim entou um quase constante crescim ento, estim ulado pela prosperidade do Iêm en, que conquistara Aden e assum ira o controle do Bab-el-Mandeb, e pela expansão da frota m ercante de Om ã, que se tornara o principal transportador de peregrinos do oceano Índico para Meca. A expansão do com ércio no m ar Roxo atraiu holandeses e ingleses, além de árabes, indianos, sírios, arm ênios, gregos e italianos, m uitos dos quais se transform aram em agentes dos neguses abissínios. Para todos eles, um novo produto m ostrava-se especialm ente prom issor. No correr do século XVII, difundira-se na Europa o gosto pelo café e, com o Moca, o principal centro exportador, se revelara incapaz de atender, com sua produção própria, ao crescim ento da dem anda, os grãos

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passaram a ser adquiridos tam bém na Etiópia, de onde o cafeeiro era nativo.

Fasiladas não dependia dos islam itas som ente para com erciar com o exterior, m as tam bém para proteger-se contra um ataque português, que tinha por possível. E nisto não estava enganado, pois os j esuítas, ao chegar a Goa, esforçaram -se para que o vice-rei enviasse ao m ar Roxo um a arm ada e 400 soldados, com o obj etivo de capturar Suaquim , Maçuá e Arquico e, assim ,

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exercer pressão sobre Fasiladas para que reabrisse o país à catequese católica. Tem eroso dos portugueses, o negus ensaiou um a aliança com o soberano do Iêm en, chegando a adm itir até m esm o que esse enviasse m issionários m uçulm anos à Etiópia. Quando, porém , um enviado iem enita, Hassan ibn Ahm ad al-Hay m i, ali pôs os pés, foi recebido com tam anha hostilidade pelo populacho — em Gondar, houve até m otins —, que Fasiladas o aconselhou a

regressar im ediatam ente.79

Entretanto, o islam e fazia progressos na periferia do im pério. Para os que não eram tigrenses nem am aras e tinham o cristianism o com o a religião dos senhores, o m aom etism o tornou-se a crença dos discrim inados ou oprim idos. A conversão ao islam e era sim ples e, por ela, o novo fiel se vinculava a um a com unidade am plíssim a, sem os lim ites das religiões locais.

Crê-se que foi para distanciar-se da am eaça gala que Fasiladas decidiu, em 1636, construir um castelo, para sua residência, em Gondar, ao norte do lago Tana, num canto afastado do im pério. O vilarej o, que era sede de um bom m ercado, pronto se transform aria na sua capital perm anente.

Desde o últim o terço do século XIII, os negachis tinham deixado de ter um a cidade capital, com o Axum , e percorriam os seus dom ínios, em enorm es

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acam pam entos de tendas. O im perador Zara Jacó, na quarta década do

Quatrocentos, construíra um a capital fixa em Debra-Birhan, m as seu filho e sucessor, Baida-Mariam , voltara a vaguear de região em região. Bem m ais tarde, tanto Sarsa Dengel quanto Suzênios ergueram castelos de pedra, em Guzara, em Gorgorá e em Danqaz, m as neles pouco se dem oravam .

Não se descarta que a capital deam bulante tivesse suas vantagens — a presença do negachi, ainda que provisória, reforçava o seu controle sobre as várias partes do im pério. É provável tam bém que Gondar tenha isolado o soberano da nobreza regional e favorecido a form ação e o fortalecim ento de

um a cam arilha de cortesãos, da qual acabaria por se tornar refém .81 Mas não foi Gondar a causa única da esquivança dos grandes senhores regionais e de suas crescentes afirm ações de autonom ia, até m esm o porque, ao que consta, nem Fasiladas nem Yohannes lá passavam todo o tem po. Só ficavam em Gondar durante a estação das chuvas. Quando estas cessavam , iam arm ar tendas em

outras terras, m uitas vezes em cam panhas m ilitares.82

Desfeito o desafio católico rom ano, os abexins retom aram as rixas religiosas entre os eustateucianos e os tradicionalistas, seguidores do m onge e santo Tacla

Haim anote. 83 As discussões passaram a travar-se, e de form a cada vez m ais acre, em torno de um sutilíssim o ponto de doutrina: com o se processara em Jesus Cristo a união num a só natureza do divino e do hum ano. Fasiladas acom panhou os eustateucianos e, ao fazê-lo, alienou os am aras, que, grandes e pequenos, a eles intransigentem ente se opunham . Muitos senhores am aras retraíram -se em relação ao im perador e, em bora não lhe negassem vassalagem form al, praticam ente o ignoravam , fortificados em seus dom ínios. E de suas igrej as e seus m osteiros — m osteiros que eram aldeotas, cada m onge com sua casinhola —, os sacerdotes tradicionalistas estim ulavam a insubordinação. Para se protegerem dela, os neguses cada vez m ais se apoiaram em suas tropas particulares, a seguir, sem m edida, o m odelo ado-tado por Sarsa Dengel. Tornaram -se, assim , dependentes de ex-escravos e de m ercenários galas, falachas, turcos, árabes e núbios.

As pendências religiosas voltavam a danar a unidade etíope e favoreciam a expansão do islam e. Para fazer frente a isso, o sucessor de Fasiladas, Yohannes, convocou, em 1668, um sínodo, do qual saíram várias decisões destinadas a separar da sociedade cristã etíope os que nela não se enquadrassem . Os católicos rem anescentes, m uitos deles filhos e netos de portugueses, tiveram de escolher entre a conversão ou abandonar o país. Os m oslins, tidos com o indispensáveis à vida econôm ica do im pério, foram proibidos de viver m isturados aos cristãos, sendo constrangidos a m orar em aldeias ou bairros separados. Na m esm a situação ficaram os m em bros de Beta Israel. A determ inação legal tornava obrigatório o que j á era, havia m uito, a praxe: confinar em guetos os islam itas e

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os falachas.

Estes últim os eram num erosos na região onde se im plantou Gondar, que tinha

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por população autóctone um grupo deles aparentado, os kem ants. E consta que

form aram a m aior parte dos canteiros, pedreiros e m arceneiros que construíram

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os seus fortes, palácios e igrej as.

O castelo de Fasiladas possui planta retangular. De basalto cinzento, dele restam as quatro torres cilíndricas, um a em cada um dos cantos, as altas paredes com am eias, as escadarias, as portas e as j anelas, algum as a se abrirem para im previstos balcões em m adeira torneada. Tudo o que era decoração interna foi-se, durante os saques das tropas do im perador Teuoderos (ou Téwodros), em 1864 e 1866, e dos dervixes, 20 anos m ais tarde. O castelo, com o os dem ais edifícios de pedra e cal que se erguiam dentro de um a vasta circunferência m urada — o recinto da corte —, nada tem a ver com a arquitetura dom éstica da Etiópia, de planta circular, teto cônico trançado de palha e paredes de sopapo ou com postas por cam adas alternadas de m adeira e de pedra. Pequena é, adem ais, a sua relação com a antiga arquitetura religiosa abexim , que atingiu o esplendor nos santuários de Lalibela e que se singularizava por talhar, ou m elhor, por esculpir igrej as, fazendo-as em ergir inteiras, com abóbadas, naves e absides, pilares, arcos, j anelas, degraus, cornij as e frisos, do chão e das encostas das m ontanhas de pedra. Os construtores desses tem plos de Lalibela não levantavam volum es sólidos, com o os dem ais arquitetos; criavam , ao contrário, espaços

vazios na m assa pétrea, cortando-a, cavando-a e a desbastando. 87

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Até 1500, ainda se fabricavam tem plos à velha m aneira. Um século depois,

essa técnica requintadíssim a parecia esquecida. Nos paços de Gondar, os blocos de basalto cim entam -se uns aos outros para criar estruturas que se assem elham a prédios árabes, europeus e indianos. A im pressão que se guarda é a de um estilo híbrido, sincrético, no qual se m isturam às tradições arquitetônicas locais diferentes influências externas.

Do padre Pero Pais, sabe-se que orientou, em Gongorá, a construção de um a

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m ansão assobradada para o im perador e de um a igrej a de pedra branca, com

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seis colunas j ônicas no frontispício. Um outro palácio, o de Danqaz, teria tido

por arquiteto um indiano, cham ado Abdal Kerim , a quem tam bém se atribui a prim eira ponte de pedra sobre o Nilo Azul. O m estre de obras teria sido, porém , um egípcio, e entre os trabalhadores figurariam outros egípcios, gregos de

Constantinopla e indianos de Goa, levados para a Etiópia pelos j esuítas.91 Segundo o enviado iem enita Hassan ibn Ahm ad al-Hay m i, que esteve em Gondar em 1648, os trabalhos do castelo de Fasiladas teriam sido dirigidos por

um indiano. 92 Sendo esse edifício m uito sem elhante ao de Guzara, levantado por

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Sarsa Dengel, seria de presum ir-se que esse últim o tam bém tivesse sido

concebido por um arquiteto da m esm a origem . Vários outros palácios, construídos logo depois, foram obras de etíopes, e deles pelo m enos um nom e, Walda Giy orgis, conhecem os.

Com o im perador a viver a m aior parte do ano em Gondar, criou-se ali um a intensa vida de corte. Para a nova capital m oveu-se, adem ais, o núcleo de poder da Igrej a abexim , em detrim ento de Axum e dos grandes m osteiros. Essa concentração perm anente de nobreza e alto clero talvez tenha sido o acicate para o que se poderia cham ar de renascença das artes etíopes. Em torno dessa elite gravitavam m úsicos e poetas, teólogos e calígrafos, pintores, entalhadores e prateiros. Obras de literatura sacra, Bíblias, hagiografias e devocionários encheram -se de belíssim as ilum inuras. Cobriram -se de im agens as paredes e os tetos dos tem plos — pinturas que só podiam ser vistas, tal a escuridão que neles reinava, à luz de lam parinas e de velas. Um a enorm e quantidade de cruzes de prata, lavradas com um a inventiva e um requinte extraordinários, encim avam os bastões do clero ou se penduravam ao pescoço dos fiéis. Para m im , porém , as obras-prim as dos artistas dessa época são os pequenos dípticos ou trípticos, com santos e cenas sagradas — alguns não têm m ais do que 10cm de altura, e outros passam dos 50cm —, que se utilizavam com o santuários fam iliares ou pessoais.

O grande núm ero dessas peças parece indicar que a dem anda por elas era constante. Não devia haver sacerdote nem pessoa de posse que não aspirasse a ter a sua e não a encom endasse, na prim eira oportunidade, j á que seriam poucos os que a sorte favorecera com a herança de um a pintura antiga. O zelo iconoclasta de Ahm ad Granhe havia destruído quase todo o patrim ônio das épocas anteriores. Sobrara algum a cousa, escondida com cuidado, ou no alto de um a am bá inacessível aos m oslins. Perdera-se, porém , o m elhor de um a longa tradição, porque as obras de grande qualidade deviam estar nos tem plos e m osteiros fam osos, e esses foram saqueados e destruídos.

As lições do passado, contudo, perduravam . É verdade que os j esuítas, do ponto de vista iconológico, enriqueceram a pintura religiosa etíope. As gravuras europeias difundiram o Cristo crucificado e o coroado de espinhos. Multiplicaram -se as im agens a reproduzir a Nossa Senhora de São Lucas, com o Menino Jesus ao colo, que se encontra em Santa Maria Maggiore, em Rom a. Mas os artistas pintavam os seus ícones e ilum inavam os seus m anuscritos a seguir os cânones abexins. Apesar das naturais diferenças de estilo, conform e o m om ento, o lugar e o pintor, caracterizam -se as pinturas da época de Gondar pela persistência da frontalidade das figuras, dos contornos negros e grossos, da ausência de som bras, volum es e perspectiva, dos fundos chapados em am arelo, azul ou púrpura, das roupas m inuciosam ente decoradas, das cores fortes e, sobretudo, de um desenho que continua a fazer par com o rom ânico europeu. Fechados, com a tam pa prim orosam ente talhada na m adeira ou pintada com a alegria das flores, ou abertos, a m ostrarem santos equestres, os Quatro Evangelistas, os m ilagres de Nossa Senhora ou as cenas da Paixão, esses dípticos e trípticos em têm pera sobre m adeira, gesso ou pergam inho, vão da delicadeza ao trágico, do lirism o ao dram ático, do decorativo ao com ovedor. Vistos um a vez, deles não m ais nos esquecem os.

Era um a corte pom posa a de Gondar, talvez ignorante de que se ia esgarçando lentam ente o poder do im perador. Iy asu, que sucedeu em 1682 a Yohannes, usava roupa bordada em ouro, cobria-se de j oias e sentava-se num

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divã revestido por um pano de ouro e prata. Quando saía à rua, de turbante, a

parte baixa do rosto coberta por um véu, e protegido por um pálio ou um grande guarda-sol carm esim , cam inhavam à sua frente m úsicos a baterem tam bores e a tocarem flautas e trom betas. É provável que tam bém o precedessem , qual sucedia nos tem pos de Lebna Dengel e tam bém m uito m ais tarde, quatro leões

em suas trelas.95 (A vinculação tradicional entre o im perador e os leões persistiu até faz pouco: quando estive, em 1961, em Adis Abeba, visitei o local onde Hailé Selassié os criava, para fins cerim oniais.)

A Iy asu cham aram -lhe “o Grande”. Repetiu ele Sarsa Dengel. Antes de m ais nada, reorganizou m ais um a vez as forças arm adas. As recebidas de Sarsa Dengel j á haviam adquirido os vícios do m ando. Tinham -se feito, com o tem po, não só corruptas, m as vezeiras em tutelar o im perador. Nas províncias e nos reinos vassalos, a sua fidelidade ao poder central se diluíra, por se terem aliado e confundido com a antiga aristocracia, para cuj o controle haviam , aliás, sido reform adas. Iy asu voltou a escolher os seus generais com base no m érito. E, com o fizera Sarsa Dengel, m ontou um novo exército próprio, a partir de sua guarda pessoal, recrutada entre estrangeiros. Cerca de 12 m il hom ens a

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com punham , a cavalo e a pé, arm ados de lanças e de arcabuzes.

Iy asu criou novos regim entos com grupos orom os dos quais ganhara a am izade e colocou-os, sob com andantes neles escolhidos, em vários pontos do im pério. A alguns chefes galas prom oveu-os a altos postos não só do exército, m as tam bém da adm inistração pública, sobretudo nas províncias. E esforçou-se para que se cristianizassem . Muitos o fizeram . Esse processo de sedentarização e am arização tinha de ser, entretanto, constantem ente recom eçado, parecendo não ter fim , em virtude da incessante entrada em cena de novas tribos nôm ades de

galas.97

O m édico francês Charles-Jacques Poncet, cham ado à Etiópia para tratar um a enferm idade de pele de que sofria Iy asu, escreveu que este podia pôr com

facilidade no cam po de batalha entre 400 e 500 m il hom ens.98 De que era forte m ilitarm ente não duvido, ainda que não tenha logrado recuperar dos orom os todo o espaço que talvez pretendesse. De qualquer form a, graças às num erosas cam panhas que contra eles em preendeu, logrou restaurar a suserania im perial sobre am plas áreas de Am ara e do Xoa e lhes deteve o avanço sobre o Goj am e o Dam ote. Menos felizes foram os resultados em relação a Inaria, um dos seus m ais ricos reinos vassalos e de onde vinha m uito do que de m elhor se alim entava o com ércio abissínio. Os cam inhos para Inaria haviam sido cortados pelos orom os, no início do Seiscentos, m as os exércitos etíopes, por algum tem po, lograram atravessar as barreiras galas, para ir recolher o tributo, pago em ouro, devido ao im perador. Os contatos cessaram , porém , a partir do terceiro quartel do século, pois, apesar dos estragos que as tropas de Iy asu fizeram entre os

orom os, estes conseguiram isolar Inaria de Gondar. 99

O esforço para conservar os acessos a Inaria j ustificava-se diante da expansão do com ércio abexim . Com a capital em Gondar, não só o centro político, m as tam bém o econôm ico se afastara do m ar Verm elho e se aproxim ara do Nilo. Não se conclua daí que Maçuá e m uito m enos Suaquim tenham perdido im portância. Ia-se a Sennar para depois, atravessando o deserto, em barcar para o Egito ou para Meca em Suaquim . Suaquim ganhara, na realidade, um novo im pulso, o que fez com que o negus procurasse, às expensas dos funj es, então às voltas com as revoltas e as tropelias dos xaiguias, controlar as bordas norte-ocidentais do planalto e as rotas para Sennar. Durante certo tem po, apesar de m ais com pridos e m ais difíceis do que os que dem andavam Maçuá, esses itinerários rum o ao Nilo, e tam bém aqueles que se dirigiam para o norte diretam ente a Suaquim , passaram a ser favorecidos pelos que com erciavam na Etiópia. Isto porque o chefe de Arquico, o naib, tornara dispendiosa, com um excesso de taxas, a passagem dos m ercadores da ilha para a terra firm e. Suas exações não conseguiram , porém , im pedir que se expandisse, durante todo o século XVII, o com ércio da Etiópia no m ar Verm elho, com árabes, persas, holandeses, ingleses e indianos. Depois de 1692, quando o negus am eaçou m ilitarm ente o naib e o pôs em ordem , os negócios no m ar Verm elho floresceram ainda m ais. No fim do século, havia um representante com ercial abexim na Pérsia, e, em 1700, um a delegação inglesa tentou ingressar na Etiópia,

a fim de ali estabelecer contatos m ercantis diretos. 100

Passados 150 anos das devastações de Ahm ad Granhe, estas ainda estavam presentes, renovadas de pai a filho e de avô a neto, na m em ória abexim . Apesar disso, refizera-se nas terras cristãs a rede m ercantil controlada pelos m uçulm anos — se é que ela chegou a ser desfeita, em bora pudesse ter-se retraído ou m udado de feições durante o grande conflito. Não só se refez, m as expandiu-se ainda m ais. Eram predom inantem ente islam itas — havia tam bém cristãos arm ênios — os que m ercadej avam para o im perador e a alta nobreza e transform avam em bens im portados os im postos que estes recebiam em espécie. O próprio com ércio por sobre as fronteiras das províncias e dos reinos vassalos era exercido por esses estrangeiros. E com o estrangeiras deviam ser tratadas e confinadas em guetos aquelas pessoas de origem abexim que tinham sido, crianças, vendidas ao Egito, ao Iêm en ou a Meca, e que, conhecendo o am árico ou o tigrê e lem bradas dos costum es da infância, haviam , livres e convertidas ao islam ism o, retornado à Etiópia, para com erciar por conta própria ou em nom e de outrem .

Os num erosíssim os m uçulm anos que viviam em Gondar eram discrim inados pelos abexins. Não podiam m orar senão num canto da cidade. Era-lhes vedado casar com cristãos e ter cristãos, livres ou escravos, a servi-los. Apesar disso, dom inavam a m aior parte do m ercado, exceto o de alim entos. E o m ercado de

Gondar era enorm e — diz-nos o dr. Poncet 101 —, num a grande praça ao lado do principal palácio do negus. Nele, da m anhã à noite, vendia-se de tudo, tanto o que se consum ia localm ente quanto o que se levava para m uito longe e até para a outra m argem do m ar Verm elho: frutas, sal, sorgo e pim entas, j um entos e contas de Veneza, café e tef (um cereal de grãos pequeninos, m as m uito nutritivo, com os quais se prepara um pão, o enj era), gengibre e tecidos indianos, cardam om o, obj etos de cobre, im plem entos de ferro e panos de linho, incenso, m irra, aves e bois, cera e arm as brancas, j um entos e tapetes, presas de elefante, ovos e plum as de avestruz, j oias, couros, peles e alm íscar, eunucos e escravas de belas pálpebras som breadas de kohl.

Na Etiópia, a cidadania plena — digam os assim — confundia-se com o pertencer à Igrej a copta etíope. A Igrej a tinha um papel central na vida do Estado. Participavam das grandes e pequenas decisões de governo, não só o abuná e o echegé (ou abade de Debra Líbanos, chefe dos m onges tradicionalistas, que a invasão dos orom os tinha obrigado a m udar-se para Gondar), m as praticam ente todo o alto clero. As polêm icas e as desavenças religiosas j á nasciam políticas e, quando se acirravam , enfraqueciam o poder central e fragm entavam a nação. Iy asu subira ao trono com o país dividido entre os eustateucianos e tradicionalistas ou unionistas, estes últim os apoiados pela nobreza am ara. Na tentativa de pôr fim ao conflito religioso, ele inverteu a posição de Fasiladas: fez suas as teses dos unionistas, obrigando os eustateucianos a se conform arem com o silêncio ou, quando m enos, o recato. E procurou im pedir que tom assem força novas doutrinas que pudessem abrir cisões num a ortodoxia que ele desej ava que fosse, ao m enos na aparência, de todos. Por isso, cortou rente a tentativa de padres católicos, desta feita franceses, de voltarem , no

fim do século XVII, à Etiópia.102

Ao favorecer os tradicionalistas, Iy asu criava as condições para congregar ao seu redor a nobreza am ara. Em relação aos grandes de Tigrê, desde havia m uito desconfiados dos im peradores e receosos dos am aras, ele adotou um a política dual: tratava-os com a m aior deferência e cuidado, m as im pôs-lhes um a presença m ilitar, castigando os recalcitrantes por duas vezes, em 1692 e 93.