A Manilha e o Libambo
22. O cabo da Boa Esperança
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O cabo da Boa Esperança
Em 3 de fevereiro de 1488, Bartolom eu Dias, que havia passado, sem o saber, o cabo que m ais tarde receberia o nom e de Boa Esperança, chegou a um a baía am ena, onde avistou, ao longe, m uitas vacas com seus pastores. Estes eram
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seguram ente cóis, koenas ou hotentotes. Cóis ou hotentotes seriam tam bém os hom ens que se m antiveram a distância, quando os portugueses desceram em terra para tom ar água, num a outra angra, a que cham aram São Brás e
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atualm ente se conhece com o baía de Mossel. Não nos diz o cronista se os da terra tam bém se faziam acom panhar de bois. Caso contrário, é possível que
fossem daqueles hotentotes do m ar, os beach rangers ou strandlopers, 3 que viviam nas praias, a alim entar-se de m ariscos, peixes, lobos-m arinhos, baleias e pinguins. Os portugueses ofereceram -lhes presentes — os barretes, guizos e contas de praxe —, que eles não foram apanhar. Em vez disso, arrem essaram pedras contra os intrusos. Em resposta, Dias tom ou de um a besta e m atou um deles.
Nove anos m ais tarde, num dia calorento do início de novem bro, Vasco da Gam a chegava, antes de dobrar o cabo da Boa Esperança, a um a outra baía, que ainda hoj e m antém o nom e que lhe deu: Santa Helena. Era de m anhã, quando viram em terra dois hom enzinhos abaixados, em busca de m el, nas colm eias que as abelhas construíam ao pé das m oitas. Os m arinheiros capturaram um deles, a quem trataram bem e, depois, devolveram à praia, vestido e com presentes. Tanto esse quanto os que com ele vieram à tarde e, em núm ero ainda m aior (entre 40 e 50), no dia seguinte, eram de cor baça, ou m elhor, de um cinzento-am arelado, e tinham cabelos tão encarapinhados e colados à cabeça, que m ais pareciam grãos de m ostarda. Traziam peles nos om bros e usavam estoj os penianos. Faziam -se acom panhar por m uitos cães e tinham nas m ãos lanças com ponta de chifre ou osso, bem com o rabos de raposas encabados em paus, com
que se abanavam .4 5 É possível que fossem sãs ou bosquím anos.
Um dos navegantes, um certo Fernão Veloso, resolveu ir com eles até onde m oravam . Não o conduziram ao acam pam ento, m as, sim , a um a charneca, onde assaram um lobo-m arinho. Quando o hóspede voltava à praia, levantaram -se suspeitas entre os da terra e os que tinham vindo recolhê-lo num batel. O m edo tenha talvez apressado nos nativos o uso das arm as. Lançaram azagaias contra os
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portugueses, ferindo três ou quatro, entre os quais, na perna, Vasco da Gam a. O choque fora de todo inesperado, um a vez que os estranhos tinham ali perm anecido sem problem as por oito dias, durante os quais lim param a craca dos cascos dos navios, consertaram as suas velas e tom aram água e lenha.
No fim do m ês, os portugueses chegaram à baía de Mossel, aquela m esm a de onde Bartolom eu Dias havia sido expulso a pedradas. Desta vez, os nativos aproxim aram -se — eram cerca de 90 — sem receio. Receberam os presentes de costum e e deram em troca braceletes de m arfim . No dia seguinte, som avam cerca de duas centenas. E trouxeram 12 bois e uns quatro ou cinco carneiros. Os m arinheiros, prevenidos, não desceram dos botes. E foi de dentro deles que responderam , com sons de trom betas e dança, à instigação dos cóis, que, na praia, com eçaram a tocar flautas e a bailar. Os portugueses, então, desceram em terra, onde trocaram um boi negro por braceletes de cobre.
As reses da terra eram nédias e gordas. Em algum as delas, sobre albardas de m adeiras, vinham m ontadas m ulheres, a guiar os anim ais, que tinham rédeas
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presas a paus enfiados nas ventas. Em bora os bois fossem m uitos, os cóis só se
dispunham a trocar cordeiros com os portugueses.8 Não deviam com preender com o os estranhos, carneando os bois, dissipavam com facilidade tanta riqueza.
O convívio afável foi-se m anchando de incom preensões e gestos equivocados, à m edida que se alongava a estada. Os hotentotes com eçaram a inquietar-se. Os forasteiros, que se com portavam de m odo extravagante, a rom per todos os dias as boas norm as de vida (o que fazia m uitos cóis suspeitarem de que não chegassem a ser hum anos), pareciam não querer m ais partir. Ninguém se acostum ava ao terrível m au cheiro deles. É verdade que, no caso, tam bém os portugueses podiam queixar-se do fedor dos cóis, pois estes se untavam de m anteiga e da gordura dos anim ais. Para eles a gordura era m ais que form osura: era sinal de prosperidade e grandeza. Tanto assim que a seus
líderes cham avam “hom em gordo”.9 Os portugueses tinham até tido sorte: não haviam chegado após um a grande festa, quando, para celebrar o nascim ento, a puberdade, o m atrim ônio ou a m orte, os cóis, contrariando a norm a, abatiam um ou m ais bois. Nessas ocasiões, ostentavam com o colares, quase sem esvaziá-las, as tripas dos anim ais sacrificados. E podiam arrancar pedacinhos delas e com ê-los.
Após 12 ou 13 dias, durante os quais os portugueses não devem ter cessado de insistir em com prar reses e de tom ar água no riacho, perturbando os anim ais que ali iam beber, os hotentotes resolveram levar o gado para longe. Enquanto o faziam , os m arinheiros viram que os rapazes cóis corriam agachados, de arm as na m ão. Tem erosos, dispararam duas bom bardas. Os da terra puseram -se ao largo, m as, de longe, continuaram a observar o que faziam os forasteiros. Decidido a partir, o Gam a ordenou que se erguesse um padrão, o que foi feito. Mal, porém , com eçavam as caravelas a afastar-se, viram os de bordo que os
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nativos derrubavam o m arco de pedra. (Ver o m apa “Ao sul do Cunene e do
Lim popo”.)
No regresso da Índia, Vasco da Gam a, em m arço de 1499, de novo tom ou refresco e aguada na baía de Mossel. Ali m atou e salgou um a boa quantidade de anchovas, pinguins e lobos-m arinhos, sem , ao que parece, ter tido qualquer problem a com os cóis. Talvez tenha aprendido que esses não se dispunham a apartar-se de seus bois.
Outros portugueses devem ter tocado as angras dos dois lados do cabo da Boa Esperança. Alguns deles defrontaram -se com a hostilidade dos cóis. Com o aquele Antônio de Saldanha, que subiu, em 1503, a m ontanha de cim o plano a que cham ou de Mesa, deixando o seu próprio nom e num a baía próxim a. Voltou ele ferido a seu navio, após um choque arm ado, por causa de um a vaca, com
duas centenas de hotentotes.11
Mais infeliz foi D. Francisco d’Alm eida, o vice-rei da Índia, quando, em 1509, regressava a Lisboa. Pobre de água, viu-se obrigado a ancorar na baía a que Saldanha dera o nom e. Alguns dos seus andavam a com erciar com os hotentotes, quando com estes se desavieram . Um dos m aruj os regressou da aventura “com os focinhos feitos em sangue”. Indignados, os portugueses dispuseram -se a castigar a afronta. D. Francisco d’Alm eida, acostum ado a grandes vitórias sobre os m ouros do Índico, desceu em terra, acom panhado por uns 150 hom ens, alguns deles da m elhor nobreza, e todos sem couraças e arm as de fogo, levando apenas lanças e espadas. Atacaram o acam pam ento dos nativos, onde capturaram crianças e gado. Quando voltavam para os batéis, foram surpreendidos por quase duas centenas de hotentotes. Com assobios, os cóis ordenaram aos bois, m uitos dos quais treinados para com bate, que cercassem e atacassem os portugueses. Protegidos pelos anim ais, os cóis com eçaram a lançar paus endurecidos pelo fogo e pedras certeiras contra os intrusos. Quando estes conseguiram rom per o cerco, viram que tinham deixado por terra m ais de 50 hom ens, entre os quais D.
Francisco d’Alm eida, m orto com um lançaço na garganta. 12
Esse desastre, por envolver quem envolveu, terá tido o seu papel em afastar os portugueses das enseadas próxim as ao cabo da Boa Esperança. O m ar quase sem pre violentam ente encapelado e a frequência das tem pestades terá sido, porém , a principal razão. As em barcações da Carreira das Índias, com boas bases no Atlântico, podiam passar ao sul do cabo e ir descansar na ilha de Moçam bique. Não tinham , por isso, por que correr riscos nos litorais do que hoj e é a República da África do Sul. Já os holandeses, ingleses e franceses estavam excluídos daquelas bases na Azânia e tiveram de contentar-se, para repouso e refresco, com os espaços deixados pelos portugueses. Por isso, é provável que, à m edida que avançava a segunda m etade do século XVI, fosse aum entando o núm ero de seus barcos que buscavam não só as baías do Saldanha e da Mesa (a baía de Tafel ou Table dos sul-africanos), m as tam bém outras enseadas do que hoj e é o sudoeste da África do Sul. No final do Quinhentos, a baía ao lado do cabo da Boa Esperança j á se tornara um pouso habitual dos europeus e se faria ainda m ais frequentada a partir da segunda década do século seguinte.
Os holandeses, após as m alogradas tentativas de tom ar a ilha de Moçam bique, tinham abandonado os antigos roteiros para ir às Índias. Desde 1611, os seus barcos, m ais robustos do que os lusitanos, navegavam , a partir da altura do cabo
da Boa Esperança, na linha dos paralelos, entre 36o e 42o de latitude sul, até encontrarem os alísios de sudeste, quando infletiam para o norte, na direção do estreito de Sunda. Senhores, desde 1619, do porto de Jacarta (onde ergueram um a cidadela com o nom e de Batávia), era dali que com erciavam com a baía de
Bengala, o golfo Pérsico, a China e o Japão. 13
Tam bém os ingleses afastavam -se dos litorais índicos da África e procuravam , com o os holandeses, libertar-se, navegando m ais ao sul, da tirania das m onções. Para todos os europeus, a viagem até as Índias era duríssim a. Durava em m édia sete m eses, m as, em m uitos casos, podia estender-se por m uito m ais, não sendo raro que se gastassem cinco só para se chegar à altura do cabo da Boa Esperança. Não era incom um tam pouco que, antes do últim o destino, quase a m etade da tripulação ficasse sepultada no m ar. O único alívio eram as estadias em terra, quando os m arinheiros descansavam do regim e de água choca, bolacha e carne-seca e dos lim ites estreitos de barcos infestados de ratos, baratas, piolhos e pulgas e com as m adeiras entranhadas de urina e fezes. Nessas paradas, enchiam -se os tonéis de água fresca, renovavam -se os depósitos de alim entos, reparava-se o velam e e se consertava, calafetava e lim pava de m ariscos o casco do navio.
Não eram poucos, a descerem em terra, os esfaim ados ou enferm os de tifo ou disenteria. Vários m ostravam j untas inchadas e gengivas sangrentas a lhes cobrirem os dentes e se apressavam em procurar lim ões. Já então com eçava a difundir-se a noção de que os cítricos eram um bom rem édio para o escorbuto. E, por isso, os portugueses plantavam lim oeiros e laranj eiras onde quer que parassem . Assim fizeram na ilha de Santa Helena, para onde tam bém levaram cabras, porcos e outros anim ais dom ésticos, que, soltos e sem m aiores cuidados, não dem oraram em voltar à natureza. Com boa água, cítricos e carne, a ilha, isolada no m eio do Atlântico, tornou-se para m uitos a alternativa à ancoragem na baía de Tafel.
Ainda que o porto ao lado do cabo da Boa Esperança fosse perigoso no inverno, porque açoitado por fortes ventos, tinha ele um a grande vantagem : o clim a tem perado, um verdadeiro alívio para quem acabara de atravessar, em navios quentíssim os, o quentíssim o equador e os quentíssim os trópicos. Ali não grassava a m alária, ao contrário do que se passava na ilha de Moçam bique. Nem a febre am arela. Nem as disenterias. Nem a doença do sono. Abundavam os peixes, as aves, os leões-m arinhos e os diferentes tipos de antílopes, não faltando as zebras, as girafas, os rinocerontes, os hipopótam os, os elefantes e as avestruzes. Além disso, os habitantes do lugar criavam bois, cabras e ovelhas de rabo avantaj ado e gordo.
De um m odo geral, os cóis relutavam em desfazer-se de m uitos bois de cada vez. Não queriam vender senão um as poucas reses, as que, por assim dizer, lhes sobravam — e quase sem pre velhas, m ancas ou m agras. Cada navio europeu que chegava abria, porém , um leque de tentações, e os grupos de hotentotes m ais próxim os foram afrouxando as resistências, diante dos artigos de ferro e cobre, da contaria, do tabaco e da aguardente, produtos com que obtinham no interior m ais gado e tam bém dagga ou m aconha, apreciadíssim a por eles e de consum o
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corriqueiro. Os m etais eram a principal atração. Tão forte, que se trocavam
por bois pregos e pedaços usados de ferro, cobre ou latão. Para os cóis, escreveu
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um contem porâneo, “o ferro era ouro e o cobre, a prata”. Os europeus abusaram disso: um a vaca podia sair-lhes por nada.
A frequência do escam bo deu origem , com o era natural, a especialistas: hotentotes que aprenderam a com unicar-se com os europeus. E estes últim os com eçaram a alim entar a ideia de ter, entre os da terra, os seus agentes. Essa deve ter sido a razão que fez os ingleses enviarem a Londres, em 1613, dois cóis. Um deles faleceu na viagem . O outro, um chefete de nom e Coree ou Goree, tornou-se, ao regressar ao cabo da Boa Esperança, todo o contrário do que se esperava. Durante o tem po em que perm aneceu na Inglaterra, hospedado com Sir Thom as Sm y the (o principal m entor da Com panhia das Índias Orientais inglesa), Coree aprendeu os valores que os europeus davam às coisas. E passou a aplicá-los em sua terra. Não só em consequência de seus conselhos, m as tam bém pelo fato de haverem os europeus derram ado na baía m ais ferro, latão e cobre do que deviam , o preço do gado em pé com eçou a subir. Os hotentotes passaram a recusar fios de cobre m uito fino ou com defeitos, restos de ferro e
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tabaco que não fosse fresco e forte.
Apesar disso, ainda era um a boa decisão ir descansar e abastecer-se no cabo da Boa Esperança. Um navio seguia-se a outro, de tal m odo que, por volta de 1620, passaram a deixar em terra, quase com o rotina, m ensagens escritas para os que viriam depois. E era raro que não se encontrasse no porto m eia dúzia de em barcações de diferentes bandeiras. A baía tinha, de resto, os seus advogados em Londres e em Am sterdã. E estes insistiam em que ali se estabelecesse um a estação de atendim ento aos navios e às suas tripulações, com oficinas de reparos, hospital, hortas e pom ares. Os ingleses chegaram a fazer duas tentativas, em 1615 e 1620, am bas m alogradas. A prim eira, com dez condenados à m orte, sob o com ando de um ex-salteador de cam inhos, o capitão Jam es Crosse, que, com o os dem ais, teve a pena com utada. Os poucos sobreviventes regressaram à Inglaterra, onde acabaram na forca. A segunda, um a anexação form al, com a presença de seis navios e o hasteam ento da bandeira, m as sem qualquer consequência prática.
Melhor destino tiveram os holandeses, quando, na m etade do século, decidiram instalar-se no cabo da Boa Esperança, depois de desistirem da ilha de Santa Helena, onde, em 1645, teriam erguido um entreposto. Por essa época, porém , as cabras e porcos asselvaj ados j á estavam quase extintos, e de
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abundante na ilha só havia lim ões e m açãs. Por isso, em 1651, eles a
abandonaram .
No ano seguinte, a Com panhia holandesa das Índias Orientais m andou três navios, com pouco m ais de cem hom ens e quatro m ulheres, sob o com ando de Jan van Riebeeck, fundar um a estação de repouso e refresco na baía de Tafel. Os hotentotes não podiam deixar de m ostrar-se apreensivos, ao ver os recém -chegados levantar um a tranqueira, construir casas, plantar hortas e erguer currais para abrigar o gado. Aquela praia era deles, cóis; nela caçavam , pescavam e m ariscavam . E nos cam pos adj acentes exerciam a transum ância. A presença dos brancos os afligia e, m ais ainda, a insaciável dem anda por bois.
O que pretendia ser um a estação de refresco pronto transform ou-se num a colônia de povoam ento. O abastecim ento das em barcações não podia depender da volubilidade dos nativos. Cabia aos funcionários da Com panhia holandesa das Índias Orientais cultivar frutas, verduras e legum es e garantir, por criação própria, o fornecim ento de gado. Desenvolver um rebanho pede, contudo, tem po. E enquanto esse tem po passava, havia que persuadir os hotentotes a continuarem a desfazer-se de seus bois, a convencê-los de que deviam em pobrecer-se. Alguns cóis cediam à sedução das peças de ferro e cobre, da contaria, do tabaco e da aguardente e alienavam algum as reses, m as, depois, arrependidos, as cham avam de volta por assobios. Os holandeses sentiam -se roubados e se inclinavam a reagir com violência. O boi causara os prim eiros em bates arm ados entre europeus e hotentotes e continuaria a ser a principal fonte dos conflitos.
Um ano e m eio após a chegada de Van Riebeeck, j á havia boas hortas ao redor do forte do Cabo, que, m ais do que um forte, era um a aldeota cercada por um m uro de terra. Os currais continham , porém , apenas um as 42 vacas e cem
ovelhas18 — a reserva para a procria e a sobra dos abates para suprir os navios — e o cultivo de cereais não avançava. Era difícil fazer com que ex-m arinheiros, soldados, escreventes e artífices cavassem o solo em benefício da Com panhia das Índias Orientais, um a patroa avara, cuj o obj etivo prim ordial era abastecer as suas em barcações o m ais barato possível. Para poupar gastos, a Câm ara dos XVII queria m anter com o m enor tam anho possível o que se estava transform ando na colônia do Cabo. Num determ inado m om ento, entre 1655 e 1657, chegou-se até a cogitar de abrir-se um canal entre as baías de Tafel e Vals (ou False), a fim de, ao transform ar o prom ontório em ilha, dim inuir os custos
m ilitares com sua proteção e im pedir que continuasse a expandir-se. 19 Em vez disso, fez-se o que viria a produzir efeitos inteiram ente contrários: nove funcionários da Com panhia foram dela desligados e, com o burgueses livres (isto é, sem estarem m ais presos a contrato), receberam tratos de terra ao longo do rio Liesbeeck, do outro lado da m ontanha de Tafel, para o cultivo de trigo e dem ais cereais.
Instalados em suas glebas, os colonos viram -se sem m ãos para aj udá-los. Não podiam contar com os cóis. É certo que os nativos, desde que a baía com eçara a receber navios europeus, se tinham m ostrado dispostos, m ediante pequena paga, a prestar vários serviços, entre os quais carregar para bordo os barris de água e os feixes de lenha que cortavam . Eram , contudo, pastores sem inôm ades. Podiam trabalhar por algum tem po, m as não de form a perm anente. Davam , os hom ens, bons vaqueiros e alguns seriam , m ais tarde, excelentes cavalariços e cocheiros. Mas abom inavam a enxada. E a ela não podiam ser obrigados, até porque a Com panhia vedava que se escravizassem os hotentotes. Tanto Riebeeck quanto seu sucessor, a partir de 1662, Zacharias Wagenaar — o m esm o Wagener que viveu em Pernam buco e foi o autor dos desenhos e do texto daquele interessantíssim o Tierbuch, ou Livro de Anim ais no qual se contêm m uitas diferentes espécies de peixes, pássaros, quadrúpedes, verm es, frutas e raízes que se encontram e observam na terra do Brasil, suj eita ao dom ínio da Com panhia
das Índias Ocidentais, etc. 20 — não hesitaram em tentar atrair, sem qualquer êxito, agricultores chineses para a colônia. Acabaram por recorrer a escravos, os
prim eiros dos quais chegaram ao forte do Cabo em 165721 22 ou 1658. De início, foram negros da África Ocidental e de Angola, e tam bém indianos e indonésios. Desem barcavam em pequenos núm eros, que só aum entariam após 1670, quando
Moçam bique e Madagáscar se tornaram os principais fornecedores. 23 Mesm o assim , 30 anos depois, não havia na colônia m ais do que cerca de 800 escravos, divididos entre os que eram propriedade da Com panhia das Índias Orientais e os que pertenciam aos burgueses livres.
Mal desem barcados, os prim eiros escravos com eçaram a fugir. E transform aram -se em um novo m otivo de atrito com os cóis, pois estes foram im ediatam ente acusados de lhes dar abrigo. Na tentativa de forçá-los a devolver
os fugitivos, os holandeses passaram a tom ar alguns hotentotes com o reféns.24 E acabaram por desenvolver um clim a de hostilidade entre os escravos e os cóis, pois estes se viram constrangidos a se transform ar em caçadores dos que escapavam de seus am os.
O principal m otivo de conflito seria, no entanto, a instalação dos colonos ao longo do rio Liesbeeck, com suas casas e lavouras em terras onde dantes pastava, em certa época do ano, o gado dos hotentotes. Os cóis não respeitavam as cercas nem tam pouco os rebanhos dos brancos. E não hesitavam em aum entar com os bois destes as suas m anadas. Tirar o gado dos outros não era, para eles, censurável; ao contrário, era um ato louvável de hom bridade e valentia. A guerra desatou-se em 1658, envolvendo vários grupos cóis e tendo entre os cabeças duas personagens nas quais os holandeses haviam posto m uito de suas esperanças.
A prim eira, o chefe de um grupo de cóis praianos, ou beach rangers,
cham ava-se Autshum ato, m as entrou para a história com o nom e de Harry.25 Por volta de 1631, um navio inglês levou-o para Bantam , onde ele aprendeu a falar inglês. Um inglês capenga, é certo, m as não m uito pior do que o da m aioria de seus interlocutores flam engos. De volta à baía de Tafel, ele repetiu o que, anos antes, fizera Coree: despiu im ediatam ente as roupas europeias e pôs sobre os om bros um a pele de carneiro. Os holandeses não entenderam o significado do gesto e passaram a utilizar Harry com o intérprete e interm ediário nos seus tratos com os hotentotes. Tam pouco com preenderam que o chefete cói só se resignava a trabalhar para eles porque tinha um obj etivo próprio: com prar gado e refazer a fortuna dos seus, que deixariam de viver dos recursos da praia e de novo se veriam senhores de bois. Van Riebeeck j á o encontrou na baía com o um interlocutor quase im prescindível. Usou-o e foi usado por ele. E não tardou em descobrir, indignado, que Harry passara a controlar o acesso dos dem ais grupos cóis aos holandeses e que inventava, quando oportuno, todo tipo de obstáculos ao com ércio do gado bovino, para lhe aum entar os preços. Em pouco tem po, Harry possuía um rebanho de m ais de duas m il cabeças. E havia restituído o prestígio ao seu grupo, os goringhaikonas. Já não precisava tanto dos holandeses. Não tinha m ais por que poupar o gado deles, nem de lhes servir de capitão do m ato. De rixa em rixa, acabou por cair num a cilada e foi banido pelos holandeses para a ilha de Robben, um a ilha sem árvores e sem água, povoada de focas e pinguins, a uns 11km do aldeam ento fortificado do Cabo. De lá só se conseguiu evadir quando j á estava acesa a guerra.
A outra decepção holandesa cham ou-se Dom an. Havia sido enviado a Java, para aprender o idiom a dos intrusos. Aprendeu m uito m ais: fam iliarizou-se com os truques, as m anhas, as forças, as fraquezas e as intenções dos flam engos. E ficou sabendo o que de m au poderiam esperar os hotentotes da presença europeia. Durante a guerra, dividiu com um outro chefe, Gogosa, o com ando dos cóis goringhaiquas, aos quais ensinou as lim itações das arm as de fogo do adversário: sob a chuva, as espingardas de m echa não disparavam , e a pólvora
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úm ida não servia para nada.
Durante dois anos, os cóis castigaram os colonos, com guerrilhas, ataques noturnos, captura de gado (sobretudo dos bois de canga que arrastavam os arados), queim a de casas de fazenda e destruição dos cultivos. A m aioria dos hotentotes das áreas próxim as ao cabo da Boa Esperança envolveu-se no conflito. Nem poderia ter sido de outro m odo, um a vez que os vários grupos de clãs cóis, desde o cabo da Boa Esperança até o rio Kei, se vinculavam entre si num a rede de fidelidades e tributos. Dentro dessa frouxa estrutura confederativa, a posição de cada agrupam ento de clãs, chefe, linhagem e indivíduo dependia do núm ero
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de bois sob seu controle. O êxito dos grupos a que pertenciam Harry e Dom an
em refazer seus arm entos aum entou, sem dúvida, a posição relativa deles face aos dem ais e fortaleceu a sua causa.
As ações arm adas cóis contra os colonos tiveram grande im pacto. A m aioria destes abandonou suas fazendolas e se refugiou na povoação m urada do Cabo. Alguns devem ter fugido clandestinam ente em barcos de passagem , cansados de esperar por um a paz que não chegava. Mas tam bém os cóis se fatigaram da luta e acabaram por reconhecer a inanidade de seus esforços. Acuavam os holandeses, m as estes não se iam . Talvez por isso, quando Dom an foi ferido, em abril de 1660, resolveram pedir a paz, que negociaram duram ente. Ao apresentar o seu caso, os hotentotes queixaram -se de que os holandeses se estavam apossando das terras que, desde tem pos im em oriais, pertenciam a eles, cóis, e onde costum avam pascer o seu gado. E perguntaram de chofre se, caso eles,
hotentotes, fossem para a Holanda, lá lhes seria perm itido fazer o m esm o.28 Em resposta, Van Riebeeck foi claro: a área sob controle da Com panhia havia sido ocupada pelas arm as e era dela, portanto, por direito de conquista. E traçou os lim ites da colônia.
Cedo esses lim ites com eçaram a ser ultrapassados. Se, j unto ao vilarej o do Cabo, vicej avam as hortas e os pom ares, os colonos livres que se haviam instalado nas m argens e além do rio Liesbeeck preferiam ao cultivo de cereais a criação de gado. E o criavam , não à m aneira da Holanda, m as ao j eito que haviam aprendido dos hotentotes. As m anadas iam -se m ultiplicando livrem ente e, ao se expandirem pelas pastagens, cada vez m ais se afastavam da baía de Tafel. Os seus donos tam bém se distanciavam dos rígidos controles da Com panhia das Índias Orientais e de seu com andante no Cabo. Aquela não só im punha os preços com que deviam vender-lhe obrigatoriam ente o que produziam , m as lhes cerceava o com portam ento. Os transgressores sofriam castigos severos. Podiam ser açoitados. Ou m andados para a ilha de Robben e lá subm etidos a trabalhos forçados, com o recolher conchas, sob o sol ardente, e esm agá-las para produzir cal. Ou ter as m ãos presas por pregos a um a árvore.
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Ou ser fuzilados, enforcados ou afogados na praia. Não é de estranhar-se,
portanto, que, em 1660, 42 colonos livres tivessem fugido de volta para a
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Holanda, com o clandestinos num navio de passagem .
A m aioria dos colonos refugava a agricultura. Queria com erciar com os cóis, às escondidas da Com panhia, e abastecer os barcos ingleses e franceses, sem o constrangim ento dos preços fixos. Ou, então, fazer-se dono de um a hospedaria, de um a casa de pasto ou de um bar. Se possível, para atender a com andantes, oficiais e passageiros de navios que não eram holandeses. A aspiração de m uitos era a de ser um burgher citadino, e não um boer, ou fazendeiro. Ou, então, ser um bôer o m ais distante possível do com andante do Cabo. O que era perfeitam ente factível ao criador de gado, porém m uito m ais difícil para quem plantasse trigo ou centeio e tivesse, da lonj ura onde se instalasse, de transportar a colheita, por estradas inexistentes e em lentos carroções puxados por bois, até o Cabo. Por isso, só por volta de 1684 é que a colônia se tornou autossuficiente em cereais. Até então, em bora produzisse em abundância legum es, verduras e frutas (e até uvas, m açãs, peras, cerej as e nêsperas), a colônia dependia de Batávia e de outras fontes para abastecer-se de arroz e trigo.
A população europeia crescia lentam ente, form ada sobretudo por em pregados da Com panhia. Em 1672, os brancos som avam m enos de 600
pessoas, das quais som ente 64 eram colonos livres, e 39 deles, casados. 31 Apesar disso, o espaço frequentado por essa gente, com seus clientes cóis e sãs e seus poucos escravos, tornava-se cada vez m ais am plo. Desde 1663, aventureiros do Cabo avançavam para leste, por território dos cóis chainouquas, na direção do rio Breede, e iniciavam o escam bo com os hessequas. Em desobediência às proibições da Com panhia das Índias Orientais, que se reservava o m onopólio do com ércio de gado com os cóis, eles com pravam aos hotentotes o gado que podiam , não só para abastecer os navios ingleses e franceses, m as tam bém para aum entar suas m anadas. Ao com petir com a Com panhia, esses bôeres tinham a vantagem da m obilidade. E esta era tam anha, que não se passara um a década, e eles j á haviam cruzado, para leste, o rio Gouritz e tratavam com os attaquas,
enquanto, para o norte, traficavam com os nam as. 32
Vários dos grupos cóis que lutaram , de 1658 a 1660, contra os holandeses, tinham perdido todo o gado ou estavam reduzidos a poucas cabeças, por haverem alienado m ais vacas e novilhas do que era indispensável à reprodução dos rebanhos. Vários tinham -se transform ado em coletores e caçadores ou regressado a essa condição. Outros viam suas pastagens tradicionais serem cercadas pelos europeus, que as cortavam com seus arados. Alguns renderam -se ao serviço dos holandeses, os hom ens com o pastores e as m ulheres com o em pregadas dom ésticas. Estes desm oralizaram -se e não puderam evitar a em briaguez e a vadiagem . Aqueles afastaram -se para longe. Para o norte. Para o nordeste. Para o nascente. Para terras de onde, m uitas vezes, iam expulsando os bosquím anos, que se refugiavam nas m ontanhas e nos desertos.
Os cóis cochoquas, que viviam nas proxim idades do cabo da Boa Esperança, deslocaram -se para a baía do Saldanha. O chefe deles, Gonnem a, ficara neutro durante o conflito de 1658 a 1660, a cham ada Prim eira Guerra Hotentote, e, em bora procurasse afastar-se da vizinhança dos holandeses, aspirava a continuar a ser deles um bom freguês. Tornara-se irresistível para o grupo, com o para a m aioria dos dem ais, a tentação do ferro, do cobre, das m içangas, da aguardente, do tabaco e, sobretudo, das arm as de fogo. Mal a intensidade das trocas esgotava a m anada de um grupo cói, outro aparecia, com rebanhos frescos, para substituí-lo. E tornaram -se frequentes as lutas pelo predom ínio no com ércio com os brancos, um com ércio no qual perdiam rapidam ente o que para eles tinha sido até então a m edida da riqueza. Na pretensão de ser o cliente privilegiado, Gonnem a esbarrou com a concorrência dos chainouquas e dos hessequas, e entrou em luta contra eles, quando sentiu que o estavam im pedindo de m ercadej ar nos seus term os com os holandeses.
Na disputa, os colonos alinharam -se com os inim igos dos cochoquas, alguns dos quais j á haviam estabelecido com o governo do Cabo um a espécie de relação de clientela. Com o se não bastasse, vários bôeres com eçavam a apossar-se de terras cochoquas, enquanto outros, em operações ditas de caça, em preendiam repetidas razias contra os seus rebanhos. Em represália, os cochoquas, com os seus aliados ou clientes, os ubiquas, que talvez fossem sãs ou
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um a m istura de bosquím anos e hotentotes, com eçaram a fustigar as
propriedades isoladas dos bôeres, atacando os que nelas viviam e roubando provisões e gado. As repetidas ações arm adas transform aram -se num a verdadeira guerra, a Segunda Guerra Hotentote, que se desenrolou entre 1673 e 1677. Em bora não tenha sido dobrado por seus adversários, Gonnem a acabou por
pedir a paz. E, com os seus m ais de 16 m il cochoquas,34 cam inhou para o em pobrecim ento, isto é, para a perda de seu gado. A isto ele e outros grupos pareciam condenados pelo aum ento incessante da dem anda de carne fresca para os navios europeus, cada vez m ais frequentes no porto do Cabo.
Com o fim do conflito, apressou-se a expansão dos colonos, cuj os núm eros cresceram , na penúltim a década do século, com a chegada não só de órfãs casadouras e de novas fam ílias holandesas, m as tam bém de 160 huguenotes, que fugiam da perseguição religiosa que se desatara na França, após a revogação do Edito de Nantes, e se estabeleceram na Cidade do Cabo e em áreas que lhe eram próxim as, com o Stellenbosch e Drakenstein. Em boa parte, esse increm ento da im igração deveu-se a um a nova política da Com panhia das Índias Orientais e de seu com andante no Cabo, Sim on van der Stel, que governaria de 1679 a 1699. Do êxito dessa política falam os núm eros: em 1695, os brancos j á som avam cerca
de m il, dos quais 340 seriam burgueses livres, 35 e, no início do século XVIII,
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chegariam perto das duas m il pessoas. Dois terços eram de holandeses e alem ães, e quase um terço, de franceses, havendo tam bém valões, suecos e
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dinam arqueses.
No fim do Seiscentos, j á com eçavam a distinguir-se, entre os brancos, os funcionários da Com panhia, ou “europeus”, que contavam o tem po para regressar a seu país de origem , e os “africânders”, os colonos que, por livre escolha ou circunstâncias do destino, estavam na África para ficar e ali form ar
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descendência. Aqueles olhavam para estes com um ar condescendente e se tinham com o a cam ada superior da sociedade. O que não significava que com eles não se m esclassem . Eram obrigados a fazê-lo, o alto funcionário a dançar
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com a filha do estalaj adeiro e m uitas vezes a desposá-la. Já as relações entre
brancos e cóis eram m uitíssim o m ais tensas, e as distâncias sociais incom paravelm ente m aiores. Com pouquíssim as exceções, o branco, fosse “europeu” ou “africânder”, via o hotentote com o um hom em im perfeito, m ais anim al do que gente. E o cói, enquanto não subm etido, não se aproxim ava do branco sem um a sensação de noj o. Apesar disso, houve m ais uniões sexuais entre os dois grupos do que faria prever a anim osidade existente, pois repulsa e atração andavam j untas. Devem ter sido raros os casam entos form ais, com o o de Pieter van Meerhof, em 1664, com a cói Eva, que entrou para a História por causa do papel relevante de interm ediária que exerceu entre os holandeses e os
hotentotes.40 Foram raros os m atrim ônios form ais, m as existiram . Tanto assim que um com issário m etropolitano, Van Goens, os proibiu na penúltim a década do
século XVII.41 Ainda que os m inistros da Igrej a Reform ada Holandesa não chegassem a abençoá-las, as uniões entre m ulheres cóis e colonos, sobretudo entre j ovens, nas fazendas, eram com uns e deram origem a um a grande quantidade de m estiços, os “bastardos” ou coloureds do Cabo, tão num erosos que chegaram a form ar um povo, os griquas. As m ancebias estáveis e as uniões eventuais não se davam apenas entre hom ens brancos e m ulheres cóis, m as tam bém entre aqueles e escravas negras, indonésias ou indianas.
Nas casas da Cidade do Cabo, não havia, quando havia, m ais de um , dois ou três escravos. O serviço dom éstico estava, em geral, nas m ãos de m oças cóis. Os escravos, fossem da Com panhia ou de burgueses livres, eram dirigidos sobretudo a trabalhos especializados ou que requeressem força. Aquela os alugava a estes, para as tarefas que fossem necessárias. As m ais pesadas, nas roças e na estiva, reservavam -se aos negros; os indianos e indonésios eram em pregados com o pedreiros, carpinteiros, pintores, cozinheiros e pescadores, e suas m ulheres, com o
costureiras. 42 Não era incom um que esses escravos de ganho lograssem , após alguns anos, com prar a liberdade. Já para os escravos das fazendas, sobre os quais recaía todo o peso da labuta, tinha-se a autoalforria por m uito m ais difícil. Eram poucos, contudo: num vinhedo, 15 em m édia; num trigal, não m ais de m eia dúzia. Em toda a colônia, ao com eçar o século XVIII, a escravaria não passava
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do m ilhar — da m etade, portanto, da população branca.
Por essa época, o holandês falado pelos colonos e por m uitos dos cóis que deles viviam próxim os j á estava a cam inho de transform ar-se no africanês ou africâner, por contam inação e contágio com outros idiom as que se falavam no Cabo, com o as línguas cóis, o m alaio, o francês, o alem ão e o português. O português era, aliás, o segundo idiom a que se utilizava na colônia, e não só entre brancos e m estiços, m as tam bém entre hotentotes, negros, indianos e indonésios. Não seria isso de estranhar-se, porquanto o português funcionava com o língua franca das Antilhas às costas da China — não esqueçam os, por exem plo, que foi redigido em português o aj uste concluído, na últim a década do século XVI, entre o holandês Cornelis de Houtm an e o reino de Bantam , em Java — e com o a
língua geral do com ércio.44
Com o nenhum deles falava cói, nem queria aprender o que se considerava,
com seus cliques, m ais próxim o do cacarej o das galinhas45 do que do falar de um ser hum ano, era em holandês (talvez nesse holandês im pregnado de novidades) que o com andante do Cabo e seus prepostos se entendiam com os chefes hotentotes que deles se haviam feito, prim eiro, aliados e, depois, clientes. A alguns desses chefes escolhidos davam -se bastões com castão de cobre, a sim bolizar o reconhecim ento da autoridade deles pela Com panhia ou, m elhor,
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que esta os tinha com o parte de seus dom ínios. Muitos se viram , ao term inar o
século XVII, reduzidos a essa condição, a criar gado para os holandeses, a acom panhá-los em suas ações m ilitares contra outros grupos cóis ou a engrossar as suas tropas, m as a m aioria se preservava indom ada.
Do ponto de vista holandês, o território estava, por sinal, longe de pacificado. Nos lindes da colônia, a violência era o pão quotidiano. Cada clã hotentote, com a aj uda de seus clientes bosquím anos, atacava, quando podia, outros grupos cóis e as fazendas dos brancos, com o fito de capturar bois para reforçar os seus rebanhos. E os bôeres faziam o m esm o contra a gente da terra.
Os cóis que se recusavam a aderir ao m odo de vida im posto pelos holandeses afastavam -se deles. Tangiam o gado para longe, para pastagens que j á eram ocupadas por outros grupos hotentotes, com os quais entravam em conflito e m uitas vezes deslocavam para m aiores distâncias. Tom avam tam bém território aos bosquím anos, acentuando assim um confronto entre caçadores e coletores, de um lado, e pastores e agricultores, de outro, que antecedera, e de m uito, a chegada dos europeus à África Austral. À m edida que as ovelhas e os bois iam , por assim dizer, expulsando a im pala, o elande, o cudo, as palancas, a zebra e a girafa, os pequenos grupos de sãs m udavam de território, sem pre para áreas m ais inóspitas. Na lenta retirada, ao escassear a caça, atacavam os rebanhos dos cóis, que, em represália, os perseguiam e dizim avam .
Houve grupos de bosquím anos que preferiram à luta ou à retirada o tornarem -se clientes dos hotentotes. Acom panhavam -nos em suas razias. Caçavam para eles e para eles recolhiam m el, frutinhas silvestres, tubérculos, ovos de avestruz e de passarinhos — tudo aquilo a que cham avam veldkos, ou
sej a, tudo aquilo que podia ser colhido livrem ente no cam po. 47 Após a instalação dos europeus no Cabo, um novo m otivo passou a induzir os sãs a estabelecerem com os cóis esse j ogo de troca de aj uda, serviços e bens: a arm a de fogo. Habilíssim os caçadores, os bosquím anos não dem oraram em reconhecer as excelências de um a lazarina. Ao se tornarem clientes de um grupo cói, tinham quem caçasse por eles com um a espingarda ou quem pusesse em suas m ãos um a arm a de fogo.
Não era raro que algum a dessas m ãos ardesse em febre, pois os europeus trouxeram para o Cabo não apenas novas arm as, novas concepções de vida, novas form as de controle social, novos hábitos e novas necessidades de consum o, m as tam bém novas doenças, que fizeram grandes estragos nas populações coissãs, desarm adas de defesas contra elas. O tifo, por exem plo, introduzido por volta de 1666, prostrou um grande núm ero de hotentotes e tam bém de europeus. E deve ter sido enorm e a m ortandade causada entre os cóis pela varíola, durante
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a epidem ia de 1715, pois ela dizim ou ¼ da população da Cidade do Cabo.