A Manilha e o Libambo
12. A disputa pelo comércio transatlântico
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
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A disputa pelo com ércio transatlântico
Nem todos os brancos que chegavam do m ar eram portugueses, e os povos que viviam nas cercanias do litoral logo aprenderam a distingui-los. No início, eram raros: um ou outro barco castelhano ou francês, que vinha em busca de ouro e que m uitas vezes se contentava com m alagueta, âm bar, alm íscar, peles, couros, m arfim , papagaios, m acaquinhos, gatos-de-algália, paus tintórios e algum escravo. Se os surpreendiam , os portugueses os atacavam , queim avam e punham a pique. Mas, às vezes, ocorria o oposto. Com o, para não passar de um exem plo, naquele dezem bro de 1556, quando cinco navios franceses incendiaram e afundaram , defronte do rio Sess (na Costa da Malagueta) um a nau portuguesa de
200 toneladas. 1
Os portugueses insistiam com os reis e notáveis do litoral para que não transacionassem com os outros europeus, por eles qualificados de piratas. E recom endavam que lhes dessem com bate. O que sucedeu — e fico de novo num só exem plo — em 1525, na foz do Zaire: o m anicongo m andou aprisionar vários
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dos tripulantes de um a em barcação francesa que ali fundeara. D. Afonso I form ou, contudo, naquele pequeno grupo de dirigentes africanos que vinculava a sua política com ercial ao esquem a português de m onopólio. A m aioria m ostrou-se hostil, aberta ou dissim uladam ente, à pretensão lusitana. Sobretudo a partir da m etade do século XVI, quando o núm ero de naus de outras nações com eçou a aum entar: só na Costa da Mina, no últim o dia de 1556, anotaram -se seis navios
franceses e dois ingleses, sem contar as pinaças.3 A cada ano, tornava-se m ais difícil para os portugueses afastar os com petidores. Era im enso o litoral, e poucos os vasos que por ele deviam velar. Em terra, os m elhores aliados não hesitavam em vender a quem desse m ais e a com prar de quem oferecesse m ais barato.
Franceses, ingleses e holandeses não só pagavam m elhor, m as tam bém forneciam m erces que a Coroa portuguesa negava aos africanos. Artigos de ferro, por exem plo, naquelas áreas que não eram produtoras do m etal. Por um a carta régia de 13 de setem bro de 1497, D. Manuel I vedara que ao resgate da Guiné se levassem peças de ferro, e não só da Europa, m as tam bém , ao longo
das costas africanas, de “uns rios e terra onde o há a outras onde o não há”. 4 Estendiam -se, assim , aos negros as interdições que se aplicavam aos m ouros, com o obj etivo de dificultar entre eles o fabrico de arm as. Chegou-se a cogitar no perigo que poderia haver em prover-se o africano de cobre: não fosse ele, sobretudo o bixirim , passá-lo aos turcos, que com o m etal fariam canhões. André Álvares d’Alm ada anota esse tem or e tranquiliza: os que trocavam por ouro as m anilhas de cobre não as queriam senão para “ornam ento e arreio de suas
pessoas”. 5
Os próprios súditos da Coroa portuguesa m uitas vezes desobedeciam à proibição de com erciar com ferro. Alguns barcos, sobretudo cabo-verdianos, abasteciam clandestinam ente os lançados. Disto ficaram sinais: em 1500 e 1508, por exem plo, duas cartas régias determ inaram o confisco de todos os bens de um certo Gonçalo de Paiva, porque reiteradam ente fazia com ércio ilícito com sua caravela na Guiné, levando a bordo “certos cristãos que se introduziam nas m ontanhas do país m andinga”, com “grande quantidade de ferro para vender aos
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negros”. Os que vinham do Reino não podiam contar sequer com os portugueses instalados na costa. Eram eles, os tangom ãos — as críticas repetem -se nos
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autores da época —, os que m ais facilitavam as atividades dos franceses, ingleses e holandeses. Muitos fizeram -se até seus agentes. Africanizados, viviam entre africanos, m ais próxim os do rei da terra do que de um Portugal a que a m aioria não esperava regressar. Seus filhos e netos m ulatos, em bora se gabassem de portugueses, estavam m ais ligados aos interesses locais do que aos das caravelas. Se o rei queria ferro e os barcos lusos não o vendiam , iam com prá-lo aos franceses. Ao principiar o últim o terço do Quinhentos, estes j á haviam
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substituído os portugueses com o os principais parceiros da Senegâm bia, para,
antes de term inar o século, serem superados pelos ingleses.9
O pioneiro africano na política de livre-com ércio com o Atlântico teria sido, na Alta Guiné, um soberano do Caior e do Baol, Am ari Angune (ou Am ary Ngoone). Tanto ele quanto os que o seguiram não tinham com o agir no m ar contra o m onopólio, nem precisavam , em últim a análise, de fazê-lo. Os navios franceses, ingleses e holandeses que se defendessem dos lusitanos, o que logravam , diga-se logo, com crescente eficiência. Em terra, porém , os reis africanos controlavam os m ercados e dirigiam o com ércio contra as aspirações
exclusivistas dos portugueses. 10 Continuavam a com erciar com eles, claro. E não desej avam que desertassem os seus portos. Queriam , porém , beneficiar-se da com petição que uns europeus faziam aos outros, e cada um deles, e todos j untos, aos bixirins — diacanquês, uângaras ou diulas. De que disso tiraram bons resultados dão testem unho os escritos da época: falam todos do deterioro dos preços dos produtos europeus nas relações de trocas com os africanos. Álvares d’Alm ada, por exem plo, escrevendo no fim do século XVI, acusava os com petidores franceses e ingleses de serem a causa do grande aum ento no valor
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dos escravos nos m ercados do rio Gâm bia.
No início, foi necessária algum a aj uda à form ação da concorrência. Os reis e seus prepostos indicavam provavelm ente aos barcos franceses e ingleses os esconderij os nas pequenas baías, na foz dos rios, nos m angues e atrás das ilhas e restingas. Nesses esconsos, eles podiam não só m ercadej ar em sossego, m as tam bém lim par a craca dos cascos e betum á-los, consertar m astros e rem endar velas. Assim se passava, nos dom ínios de Am ari Angune, na angra de Bezeguiche, abrigada dos ventos por um ilhéu defronte. No canal entre a ilhota e a terra firm e, protegiam -se os dem ais europeus dos portugueses e de suas
galeotas. 12
Por volta de 1560, os portugueses com eçaram a usar galés para patrulhar as
costas próxim as ao forte da Mina. 13 Algum as, m uito grandes, levavam um a trintena de soldados, além dos rem adores, que podiam chegar a 75, entre
condenados brancos e escravos negros14 — e um negro ao rem o valia por dois
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brancos. Outras eram bem m enores: galeota, fusta ou bergantim . Com elas, os
portugueses podiam navegar j unto à linha da costa e esquadrinhar os desvãos do litoral. Tinham as galeotas, porém , pouca autonom ia: não podiam afastar-se
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dem asiadam ente de suas bases, fosse o castelo da Mina ou um a outra feitoria.
Os entrepostos nas m ãos de portugueses fiéis à Coroa eram poucos e quase sem pre dependentes da boa vontade dos chefes nativos, até para seus alim entos. Mais raros ainda, os sítios relativam ente seguros, com o Cacheu, Mina, Axim e sobretudo Luanda. O governo ibérico não dispunha de m eios para im por-se sobre grandes porções da costa. Se não caiu em ouvidos m oucos a insistência em favor de um esforço de colonização na Serra Leoa, com plantações m oldadas nas do Brasil — Felipe II de Portugal e III de Espanha concedeu o que cham ou de capitania da Serra Leoa a um de seus validos, o português Pedro Álvares Pereira
—, tudo ficou em proj eto.17 E ainda bem para os portugueses, porque, apesar dos elogios, de todo equivocados, a seu bom clim a e a seus bons solos, a área se revelou um dos m aiores túm ulos do hom em branco.
Os relatos da época, sej am em português, francês ou inglês, estão repletos de m ortes por febres de m arinheiros e m ercadores. Em bora soubessem que podiam pagar um alto preço pela busca da riqueza na África, não faltaram j am ais, entre os com petidores dos portugueses, os que se deixaram ficar no litoral, na esperança de erguer um entreposto. André Álvares d’Alm ada refere que entre os
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lançados havia alguns estrangeiros. Estes tornar-se-iam m ais num erosos m ais
tarde. Lem bro aqueles três franceses que Souchu de Rennfort encontrou em
Rufisque, em 1665,19 e aquele espanhol de Cuba, Juan Maldonado, que, no fim
do século XVII, possuía um a casa-forte entre os rios Casam ansa e Gâm bia.20 Ou, ainda, aquele inglês Tucker, cuj os descendentes m ulatos dom inavam , na
últim a década do Seiscentos, a ilha Sherbro. 21 No im itar dos portugueses, eles aliavam -se aos reis e aos nobres locais. E estes m andavam à França e à Inglaterra, nos navios que regressavam à Europa, alguns de seus súditos, para que
de volta os inform assem sobre aqueles países. 22 Muitos j á em barcavam sabendo falar francês, aprendido na própria Costa, ou inglês. Alguns casaram -se com
francesas.23 Era natural, portanto, que os reis africanos soubessem com quem lidavam e com o usar uns europeus contra os outros.
Convém insistir: os estrangeiros estavam , na m aior parte dos casos, à m ercê da gente entre a qual viviam . Quando se entrincheiravam em feitorias, não bastavam os seus canhões para rom per um dem orado cerco. E dos navios, pouco era o socorro que podiam esperar. Na m aior parte do litoral, as grandes em barcações tinham de perm anecer ao largo, de onde a artilharia se revelava inútil ou pouco eficaz, e seus escaleres, além de ter de enfrentar a forte quebrança das vagas, e os arrecifes, e os parcéis, e os bancos de areia, não eram em geral adversários que se pudessem im por às flotilhas de alm adias africanas.
Nos litorais da África, os europeus com erciavam com o queriam os nativos, dentro das regras por estes estabelecidas e pagando a seus reis e notáveis, em form a de presentes, im postos e taxas. Até m esm o porque a Europa, com o
m ostrou convincentem ente John Thornton,24 pouco oferecia à África que esta j á não produzisse e m enos ainda que lhe fosse indispensável. Não vinham em seus navios os bens de capital nem as ferram entas que tinham m udado e continuavam a m udar a vida e a econom ia europeias, m as artigos de consum o — e quase sem pre artigos que eram , do ponto de vista africano, suntuários. De que os tecidos, as lâm inas de ferro e aço, a contaria e os utensílios de cobre m anufaturados no continente africano eram de alta qualidade e gozavam de estim a entre os consum idores dão prova o em penho com que, prim eiro, os portugueses e, depois, os dem ais europeus procuraram subtrair aos locais a sua com ercialização e a diligência que puseram em im itar esses produtos. Se abstrairm os as arm as de fogo e a pólvora, o que m ovia os africanos a m ercadej ar com os europeus eram a atração e o prestígio do diferente, bem com o as m udanças no gosto que a variedade de bens trazida de outras bandas acabava por causar. Em alguns casos, porém , um a novidade, com o o tabaco, podia tornar-se em pouco tem po um hábito exigente.
Vej a-se o ferro. Tanto os depoim entos dos séculos XVI a XVIII25 quanto as investigações arqueológicas dão atestados de qualidade ao produto africano. O ferro fundido e o aço produzidos em m uitas partes da África eram iguais ou superiores em resistência e durabilidade às barras fornecidas pelos europeus. Havia m uito os africanos trabalhavam em pequenos fornos com ar preaquecido, antecipando um a técnica que só no século XIX revolucionará a siderurgia
britânica. 26 No alto Gâm bia, por exem plo, faziam -se barras de ferro, utilizadas com o m oeda, com um palm o de com prim ento e entre três e dois dedos de
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largura, e facas, azagaias, dardos e flechas, que se iam vender naquelas regiões da Costa onde não havia o m inério ou a m adeira dura necessária para alim entar as fornalhas. O produto europeu entrou inicialm ente para com petir com o africano, um e outro item , com o as espadas, a apresentar desenhos distintos, que as tornavam , proviessem do m undo m uçulm ano, pelas rotas do deserto, ou da Inglaterra, pelos navios do Atlântico, m ais do que arm as, sím bolos de status. As barras e os obj etos de ferro europeus som avam -se a um a oferta j á existente; não a substituíam , nem m uito m enos a criavam . Tanto assim , que j á se calculou ser da ordem de apenas 150 toneladas as com pras de ferro europeu pela
Senegâm bia na segunda m etade do século XVII, 29 o que corresponderia, quando
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m uito, a entre 10 e 15% do consum o total da área.
Tam bém o com erciante europeu, descesse do convés de um navio ou estivesse estabelecido num a aldeia da terra ou em sua própria feitoria, apenas com plem entava o m ercador africano, inserindo-se num sistem a com norm as bem definidas e sob o controle estrito das estruturas locais de poder. Na m aioria dos lugares, nenhum a transação com ercial com um estrangeiro se realizava sem o consentim ento form al do rei ou do chefe. A aprovação era indispensável para que se erguesse um a casa, um entreposto ou um a paliçada. A perm issão podia custar caro. Assim , para ter acesso ao m ercado, os portugueses, no século XVI, desem bolsavam um a pensão anual a cada um dos reis entre os quais se dividia a Costa da Mina, além de presenteá-los regularm ente. Não eram , aliás, os africanos que pagavam tributo ao forte da Mina, m as este aos soberanos daqueles, pois com o tributos eram por eles considerados não só as pensões anuais, m as tam bém os presentes que o com andante da fortaleza, ao assum ir o cargo, fazia chegar aos reis de Com enda e de Fetu, e os que lhes dava, ao recebê-los em visita, além dos que lhes eram devidos, quando estes subiam ao
poder.31 Os reis recebiam os presentes, m as não se consideravam obrigados por eles a respeitar a pretensão portuguesa ao exclusivo do com ércio. Tanto era assim que, na sexta década do século XVI, o rei de Fetu, por batism o D. João, m ercadej ava com o queria e podia com os ingleses e franceses, vendendo até a
estes últim os, de um a feita, todo o seu estoque de ouro.32
Com certeza, os portugueses cum ulavam D. João de queixas e reproches.
Consideravam -no “um vizinho assaz danoso”,33 m as, pelo que sabem os, hesitavam em puni-lo m ilitarm ente. Quando o fizeram , arrependeram -se. Assim , se os portugueses atacaram a capital de Fetu em 1562, ou andaram queim ando algum as aldeias, pagaram pela tem eridade: Mina foi sitiada pelas tropas não só
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de Fetu, m as tam bém de Com enda. Após desentendim entos com o esses, havia
que apaziguar D. João. O custo de sua inim izade, j á que não seria fácil vencê-lo de vez, poderia ser insuportável. Os m esm os escrúpulos não m ereciam certos régulos e cabeças de aldeia ao longo do litoral, que, por com erciarem com outros que não os portugueses, sem serem fortes o suficiente, eram por esses castigados. De um m odo geral, porém , funcionava a persuasão do bom com ércio, e m uitos dirigentes africanos preferiram , enquanto ela durou, a constância da presença portuguesa à incerteza de seus com petidores, que, por sinal, nem sem pre dispunham , para trocar por ouro, da m ercadoria m ais desej ada pelos acãs, o escravo.
Da vizinhança do castelo da Mina deviam defluir m ais vantagens para D. João do que dissabores. O m esm o talvez se aplicasse ao reino de Com enda, que fora constrangido a consentir na construção do forte. Em bora os dirigentes africanos controlassem as vias terrestres de acesso à fortaleza e taxassem os que para lá se dirigiam , só por terceiros podiam saber das transações com erciais que nela se processavam . O governador português, por seu turno, não tinha com o im pedir que os chefes das redondezas com erciassem com outros europeus, a não ser afugentando os com petidores que ficassem ao alcance de seus canhões e de suas galés.
Era dos fortes da Mina e de Axim que saíam os grupos arm ados portugueses que procuravam reprim ir com violência os contatos entre os dem ais dirigentes da costa e os franceses e ingleses. A algum chefe, a quem não faltava a nítida percepção do perigo que representavam enclaves de um outro poder que não o dele em seus dom ínios, ocorreu, no entanto, ao balançar as vantagens e os inconvenientes, que valia a pena correr o risco e pagar o preço dos transtornos. Esse deve ter sido o caso de Ebaane (Ebaan, Abaan, Abane ou Habaan), rei de “Perecow” (talvez a m oderna cidade de Seny a Beraku), a leste da Mina, que convidou os ingleses, na segunda m etade do século XVI, a construir em suas
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terras um forte, ou foi a isto induzido pelos ingleses. Ao fazê-lo, ele, ao m esm o tem po que procurava proteger-se das incursões arm adas dos portugueses, criava um espaço de com ércio privilegiado com os com petidores destes, com petidores que apresentavam a vantagem de não recusar arm as de fogo e pólvora aos africanos. Se abusassem da hospitalidade, sabia o rei que os estrangeiros perdiam a força dentro de suas trincheiras, quando a gente da terra lhes cortava a água e o sustento.
O convite do rei Ebaane, que os ingleses estiveram propensos a aceitar — em bora tenham talvez tom ado as prim eiras m edidas para a construção da
fortaleza, nunca a ergueram 37 —, faz parte das exceções e não da regra. A regra, até entre antigos aliados dos portugueses, era opor todas as dificuldades à construção de fortalezas. Foi isto o que fez o m anicongo Álvaro II, para irritação lusitana, quando, no início do século XVII, se pretendeu erguer um forte no porto de Pinda, com o obj etivo precípuo de im pedir que os holandeses ali com erciassem — deles, ali havia sem pre duas ou três naus a com prar m arfim — e de fechar a entrada do rio Zaire. Para os portugueses, o m anicongo, desde a expulsão dos j agas por Francisco de Gouveia, se fizera vassalo do rei de Portugal e não devia obstar o fabrico do forte. Era o contrário, porém , o que ocorria, pelo que se recom endava que se levantassem as fortificações contra a sua vontade e
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até pela força das arm as.
Álvaro II, que assum iu o poder em 1587, tinha sobradas razões para opor-se à fortaleza. Durante os cento e tantos anos do que se im aginara ser um a parceria privilegiada, os portugueses haviam feito o possível para isolar o Congo do resto da Europa. Procuravam controlar inteiram ente suas relações exteriores e até m esm o os seus contatos de país católico com o papa. As m issões conguesas à Santa Sé eram retardadas ou detidas, sob os m ais diversos pretextos, em São Tom é ou em Lisboa. E para atar o Congo às m argens do Zaire, os portugueses sequer consentiam em vender-lhe um navio que fosse. Um após outro, frustraram -se todos os intentos feitos por sucessivos m anicongos para adquirir um a em barcação que os libertasse da dependência de São Tom é. Com o se não bastasse, o porto de Pinda se subalternizara em relação ao de Luanda. Era por este últim o que passara a em barcar o grosso da escravaria. Os congueses viam transitar por seu território as caravanas de pom beiros, provenientes do lago Malebo ou de Okango, a cam inho do sul. Cobravam -lhes direitos de passagem e lhes vendiam os panos que eram a m oeda para adquirir escravos nos sertões am bundos. Mas o m ani-sônio perdera os ganhos que lhe advinham de ter navios no porto. Para com pensar-se, nada m ais natural que deixasse nele ancorar os barcos holandeses. Estes am iudavam -se não só nas costas de Loango, m as tam bém em Cabinda, no pequeno estado de Angoio (ou Ngoy o), e em Malem bo, no reino, m ais ao norte, de Cacongo (ou Kakongo), portos frequentados pelos portugueses desde a m etade do século XVI. Esses pontos de em barque eram
servidos pelos vilis, que, ligados por um a sociedade religiosa, a Lem ba, 39 haviam criado um a rede com ercial, sem elhante em certas feições às dos uângaras, com estabelecim entos distribuídos ao longo das vias de acesso ao interior. Por elas, levavam aos sertões as m ercadorias europeias, inclusive as arm as de fogo que os holandeses não hesitavam em vender-lhes. De lá traziam o m arfim , os rabos de elefantes, cuj os fios se usavam e usam com o am uletos, os paus tintórios e o cobre. Mas era raro que vendessem escravos, um a vez que preferiam m antê-los em suas aldeias, a tecer os libongos e outros panos de ráfia, que tanta procura tinham entre os africanos e os portugueses, porque com petiam com os cauris com o a m elhor m oeda.
Antes dos flam engos chegaram os franceses. De que esbarraram com a reação arm ada de portugueses, são-tom enses e alguns congos ficou a funda
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cicatriz da destruição de Pinda pelos canhões de seus navios, em 1600. Os franceses, aliás, faziam incursões ao longo de todo o litoral atlântico. E eram , em m uitas partes, bem recebidos. Em alguns lugares, j á tinham , a repetir os portugueses, os seus agentes, a viver à africana e a constituir fam ília com as m ulheres da terra. Em outros, não dem oraria para que europeus que não os portugueses fossem autorizados a erguer entrepostos em ilhotas defronte à costa, a fim de que não perturbassem o controle que cada rei desej ava m anter sobre
seu litoral.41
Esses franceses e seus descendentes m ulatos não chegaram , durante todo o século XVII, a rivalizar, sequer de longe, com os que eram ou se diziam portugueses. Muitos dos últim os, m ais para negros na cor do que para m ulatos. De crucifixo ou m edalhinha de santo ao pescoço, vestiam -se à europeia, ou de um j eito que j ulgavam europeu, ou com roupas que, na Europa, tinham passado de m oda, falavam entre si em crioulo e davam aos filhos nom es com o Maria, Dom ingos ou Dam ião. Eram com esses luso-africanos que contavam os franceses, os ingleses e os holandeses. Gente ligada por laços de fam ília ou de com ércio aos reis, régulos e nobres nativos, ou a serviço destes. Gente que não se sentia constrangida, na m aior parte dos casos, por vínculos de fidelidade a Portugal e que não abdicava de sua condição de interm ediária no com ércio, opondo todas as dificuldades a que barcos franceses ou ingleses subissem o Senegal ou o Gâm bia — nisto coincidindo com os grandes locais —, ou a que seus tripulantes transacionassem sem sua m ediação com os africanos.
Os luso-africanos, de início, só ganharam com o aum ento da concorrência europeia. À m edida que avançava o século XVII, as pretensões portuguesas ao m onopólio, tanto na foz do rio Senegal quanto nas enseadas até o fim da cham ada Petite Côte, tornavam -se coisa do passado. Franceses, ingleses, flam engos, alem ães e portugueses traficavam uns à vista dos outros e com petiam entre si. Em Rufisque, Portudal e Joal, por exem plo, os entrepostos franceses estavam
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quase que ao lado das feitorias holandesas. O valor dos artigos africanos só
tendia a crescer. Bem com o o dos serviços que se prestavam aos europeus. Um destes, Dierick Ruiters, se queixa: entre o cabo Verde e o cabo Roxo, pagava-se o
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dobro por um a barrica de água ou um a braçada de lenha. E um outro atribui
aos portugueses instalados desde havia m uito no continente, e a seus filhos e netos
m ulatos, que as iam buscar no interior, os altos preços das m ercadorias.44
Alguns desses portugueses e luso-africanos eram ricos e podiam traficar com ouro, m arfim e escravos, quando os notáveis o consentiam . Escravos que lhes eram fornecidos pelo rei ou pelos grandes da terra, ou que com pravam dos m ercadores que os traziam em caravanas do fundo do sertão. Os de parcos recursos contentavam -se com as peles de anim ais selvagens, os couros bovinos, o âm bar, as gom as, a cera, os panos de algodão. Os europeus confiavam -lhes a crédito produtos que desciam de seus navios, e eles, com o regatões, percorriam os rios a trocá-los pelas coisas da terra. Ou por ela se em brenhavam , até onde perm itissem os africanos, os fardos à cabeça, no lom bo de burros ou, no Sael, no dorso de cam elos. Esse sistem a de crédito não deixava de apresentar seus riscos para os europeus, m as deve ter sido com pensador, porque se estendeu no tem po.
Ao que parece, os lançados e seus descendentes souberam desde cedo que o escravo era, depois do ouro, a grande m ercadoria. Todos, até os m ais pobres, j ogavam -se no interior, com a esperança de ganhar o bastante para com prar e vender o prim eiro escravo. Era ao entrar no tráfico de corpos (ou de alm as) que ganhavam respeitabilidade com o com erciantes. Subiam de patam ar. Dos que prim eiro desem barcaram na África, a m aioria tinha consciência do valor do escravo, fosse para com ele com prar-se ouro na Mina, fosse com o m ão de obra nas ilhas do Atlântico. Não podia deixar de ser assim , pois os portugueses desceram a Costa com prando e vendendo gente.
Com os outros europeus talvez se tenha passado de m odo distinto. De início, franceses, ingleses e flam engos voltaram -se principalm ente para outras m ercadorias, que variavam de região para região. Na Senegâm bia, o grande
artigo, por exem plo, foi o couro.45 E não só as peles de anim ais bravos, com o o leopardo, a zebra, os antílopes e o búfalo, m as sobretudo o couro bovino. O couro dos grandes rebanhos que pastavam nas estepes do Sael e nas savanas sudanesas.
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Jean Boulègue, louvando-se em Francisco de Lem os Coelho, calcula que, no terceiro quartel do século XVII, as exportações de couro da Senegâm bia seriam da ordem de 150 m il unidades por ano. Desde o início do Seiscentos, elas j á deviam , porém , ser im portantes, pois só a Petite Côte vendera, em 1616, segundo
o padre Manuel Álvares, 50 m il couros.47
Os franceses e ingleses interessavam -se m ais por produtos com o os couros, os paus de tinta, a m alagueta, as pim entas, o m arfim , as gom as, o alm íscar ou o âm bar, porém não deixavam de com prar alguns escravos. Estes últim os não eram , no entanto, o obj etivo das viagens à Costa da África. Daí a notoriedade que tiveram , no m undo de língua inglesa, as três expedições, em 1562, 1564 e 1568, de John Hawkins à Guiné, tidas com o iniciadoras do tráfico inglês de africanos. Não se destacaram apenas porque rom peram de form a acintosa e escandalosa a aparente aceitação inglesa do m onopólio português, nem pelo m aldisfarçado patrocínio real que tiveram — a rainha Elizabeth chegou a ceder-lhe, nas duas últim as viagens, navios de sua propriedade —, nem tam pouco pela violência usada para capturar os escravos (atacando e incendiando aldeias africanas e navios negreiros de lançados e de portugueses, e envolvendo-se em guerras entre reis guinéus), m as porque foi esta a m ercadoria que prim ordialm ente pretenderam . Hawkins saiu dos portos ingleses para obter escravos e vendê-los nas Am éricas. Não que outros ingleses, antes de Hawkins, não tenham contrabandeado alguns negros para Sevilha, as ilhas das Caraíbas ou Cartagena de Índias. Com quase certeza o fizeram : os colonos tinham fom e de escravos e adquiriam os que lhes eram oferecidos, im portando-se pouco com a nacionalidade dos navios em que vinham ; e pagavam m uito bem , em ouro ou prata.
Os franceses j á deviam estar antes no m ercado, pois tem os sinais, da penúltim a década do século XVI, de que os seus barcos cum priam , então, rotineiram ente a viagem triangular entre a Europa, a África e as Am éricas. De 1580 a 1584, 15 de seus navios que foram ter ao Senegal e à Serra Leoa
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seguiram depois para a Hispaniola ou outro ponto das Antilhas. Não vej o que
outra carga poderia j ustificar a ida às Caraíbas a não ser escravos.
Até os holandeses, que chegaram à África com fortes obj eções religiosas ao com ércio de escravos, a ele não resistiram . Há pelo m enos um registro de que o pecado lhes podia sair caro: em 1596, um traficante das Províncias Unidas tentou vender em Middelburg 130 africanos; os governantes da cidade indigitaram esse com ércio com o im oral e ilícito e deram ordem para que se libertassem os cativos, aos quais se perm itiu que ficassem na terra e procurassem em prego
com o trabalhadores livres.49 Em certas ocasiões, com o não soubessem o que fazer com os escravizados a bordo de navios portugueses ou espanhóis que capturavam , alguns capitães holandeses deixavam de recolher esta parte do
butim e abandonavam os infelizes no m eio do oceano, ao deus-dará. 50 Pronto, contudo, aprenderiam a vendê-los às escondidas nas Índias de Castela. E sem rebuços, em outros lados. Assim , em 1619, um navio holandês que estivera a fazer o corso fornecia a colonos de Jam estown, na Virgínia, vinte negros, talvez os prim eiros escravos a desem barcar nos estabelecim entos ingleses do continente
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norte-am ericano.
Não dem oraria m uito para que as necessidades da indústria açucareira no Brasil pusessem fim de vez aos escrúpulos e até estim ulassem os teólogos e j uristas dos Países Baixos a construir toda um a doutrina para j ustificar a escravidão e o com ércio de escravos. E j á em 1629, a West-Indische Com pagnie (ou Com panhia das Índias Ocidentais) assum ia a responsabilidade de fornecer
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escravos africanos às colônias holandesas nas Am éricas.
Enquanto o interesse espanhol no Mar-Oceano centrava-se em garantir o fluxo seguro para a Europa das riquezas m inerais da m eseta m exicana e do altiplano andino, o Atlântico para os flam engos significava açúcar. É bem verdade que a Com panhia das Índias Ocidentais havia sido criada para tentar trazer para os Países Baixos o que pudesse da prata do México e do Peru. Mas o açúcar estivera tam bém , desde o início, em suas am bições e preocupações. Força é não esquecer que Antuérpia fora responsável não só pela quebra do m onopólio veneziano do refino e da com ercialização do produto, m as tam bém pelo financiam ento dos engenhos e das grandes plantações de cana, que os avanços técnicos portugueses haviam perm itido que se instalassem pioneiram ente no Brasil. Tam anho veio a ser o envolvim ento dos holandeses, que Celso Furtado chega a afirm ar que “o negócio do açúcar era na realidade m ais
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deles do que dos portugueses”. Ora, a em presa açucareira não se m ovia sem
grande quantidade de m ão de obra, e esta se ia buscar, cativa, na África. Se queriam continuar a expandir o consum o europeu de açúcar e atender a esse extraordinário increm ento com a produção brasileira, os holandeses tinham de vencer as inquietações da consciência e entrar em cheio no financiam ento e na
prática do com ércio de escravos. 54
Entre 1593 e 1607, cerca de 220 barcos saíram das Províncias Unidas, em
guerra contra o rei da Espanha e de Portugal, para a Costa da África.55 Em cada
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um dos anos de 1610 e 1611, vinte navios holandeses a frequentaram e, em
1614, 36 deles foram vistos ao largo da fortaleza de São Jorge da Mina. 57 Esses núm eros m ostram que os Países Baixos levavam a sério o com ércio com a África. O que as cifras não indicam isoladam ente é que os flam engos não buscavam apenas com petir com os seus antigos sócios portugueses; tinham a intenção de substituí-los. E não só na África, m as sobretudo no sudeste da Ásia e no Brasil, cuj o açúcar não estavam dispostos a perder. No processo, copiaram , na Ásia e na África, alguns dos m étodos lusitanos. A com eçar pelos entrepostos
fortificados, 58 que podiam ser verdadeiras fortalezas. Nessas feitorias, as suas m erces encontravam -se protegidas e à disposição dos navios, que não tinham , assim , de dem orar-se em litorais insalubres; nelas, os seus barcos podiam ser abastecidos e reparados em segurança; e serviam tam bém com o bases navais e m ilitares para procurar garantir a m elhor porção do com ércio.
O prim eiro desses fortes foi levantado em Mori (Mouri ou Morée), na Costa do Ouro, em 1611 ou 1612. O segundo seria construído alguns anos m ais tarde, na ilha de Bezeguiche ou Goréa (o ilhéu Bir dos locais). Datava de 1594 ou 1595 o início das atividades dos holandeses no local, e de 1617 um entreposto não fortificado que ali ergueram . A transform ação dessas instalações em fortalezas significava que buscavam o com ércio perm anente e estavam dispostos a defender com as arm as a sua presença na área. Os portugueses assim o com preenderam e tom aram o forte por duas vezes, em 1629 e 1645, sem conseguir desanim ar os flam engos, que de novo se instalaram na ilha, reforçando as suas defesas em 1647.
O forte da Goréa tornou-se o escoadouro de um a rede m ercantil na qual se integraram as j á existentes, interior adentro, dos diacanquês, dos tuculores, dos lançados j udeus (m uitos deles vinculados em Am sterdã a arm adores sefarditas de origem portuguesa) e dos luso-africanos. Dependentes da feitoria da Goréa, havia entrepostos em Rufisque, Portudal e Joal, cada qual a drenar o com ércio de sua área, ou sej a, respectivam ente, dos reinos de Caior, do Baol e de Sine. O forte dispunha, além disso, de agentes ou feitores, j udeus, cristãos-novos, cristãos-velhos, m ulatos ou negros, em distintos pontos da Casam ansa, do Gâm bia e dos Rios da Guiné. O entrelaçar de interesses era tão apertado, que os vínculos provavelm ente não se desfizeram quando a Goréa passou para os ingleses, em 1667, e para os franceses, um a década m ais tarde. Só m udaram quem m andava
no forte e alguns de seus prepostos.59
Os holandeses não se satisfaziam com rom per o m onopólio lusitano. Queriam substituir os portugueses com o senhores do Atlântico e do Índico. Não lhes bastava, para isso, estabelecer novas feitorias e construir novas fortalezas. Era-lhes necessário expulsar os portugueses dos lugares onde se haviam acastelado. O forte de São Jorge da Mina, centro do com ércio do ouro, era o m ais evidente obj etivo. E os holandeses o tom aram em 1637, com tropas trazidas do Brasil, após cinco dias de sítio. Outro alvo foi Arguim , arrebatado aos portugueses no ano seguinte. Axim seria capturado em 1642.
Na Mina e em Axim , os holandeses buscavam dom inar os escoadouros do ouro. Os escravos saíam de outros portos. Da Senegâm bia. Dos litorais do Gabão e do reinos de Loango, Cacongo e Angoio. De Pinda, para onde tam bém se dirigiam , por rotas paralelas à m argem norte do rio Zaire, a fim de evitar os territórios controlados pelo m anicongo, as caravanas vilis provenientes dos
pum bos de Malebo. 60 Esses em barcadouros eram bem conhecidos dos holandeses, que, antes de se dedicarem ao tráfico negreiro, desciam a costa ao sul do cabo Lopez para adquirir sobretudo m arfim . (Não só num erosas m anadas de elefantes vagueavam pela região, com o lá se encontravam incontáveis carcaças de anim ais que, ao longo de m uitas décadas, tinham m orrido naturalm ente ou sido caçados pela carne, e das quais, antes da chegada dos
europeus, não se tiravam as presas, por não terem m aior utilidade.61) A m aior parte dos escravos saía, porém , de São Tom é e Luanda, portos onde lhes estava vedado, a eles, holandeses, qualquer tipo de com ércio.
A política ultram arina das Províncias Unidas era coerente: em 1624, a Com panhia das Índias Ocidentais procurou apossar-se quase ao m esm o tem po da Bahia açucareira e de Luanda. Não bastava conquistar os canaviais e os engenhos baianos; era preciso povoá-los de trabalho. Se tiveram um passageiro êxito na Bahia, os holandeses não lograram , nas suas duas investidas, em j unho e em outubro de 1624 — a prim eira, com quatro em barcações e m ais de 46 peças
de artilharia, e a segunda, com oito navios e 114 canhões 62 —, ocupar um só pedaço de terra em Angola. Só 17 anos m ais tarde, com barcos e tropas vindos do Recife, tom ariam eles Luanda, Benguela e a ilha de São Tom é.
Nesse lapso de quase duas décadas, os navios flam engos não cessaram de com erciar e fazer o corso naquela parte da Costa, nem de assustar a gente de Luanda. Por m ais de um a vez, contingentes portugueses, acom panhados por suas guerras pretas, viram -se obrigados a interrom per cam panhas m ilitares e volver às carreiras para o litoral, diante de boatos sobre a im inência de ataques