A Manilha e o Libambo
1. O escravo negro na Antiguidade
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O escravo negro na Antiguidade
Por volta de 2680 a.C. — conform e se celebra na cham ada pedra de Salerno — o faraó Esneferu, da IV Dinastia, viu suas tropas regressarem da Núbia com um butim espantoso: sete m il prisioneiros e 200 m il cabeças de gado. Ainda que os núm eros talvez tenham sido, para a m aior glória do rei, propositadam ente
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inflados, essa cam panha m ilitar pode ser considerada um a m uito bem -sucedida operação de preia de escravos.
Deviam datar de m uito antes — pelo m enos desde a I Dinastia — as descidas de escravos negros da Núbia e do Cordofã para o Egito. Em quantidades pequenas, m as que tinham peso na época, pois era parca a densidade populacional ao longo do Nilo e nos oásis próxim os. Descontados os exageros baj uladores das estelas com em orativas, talvez não chegasse a m eio m ilhar por ano o núm ero dos cativos então arrancados dos territórios ao sul do Egito. A sangria era, porém , constante e se estendeu por quatro m ilênios. No correr desse enorm e período de tem po, a Núbia, de fonte de escravos, transform ou-se em produtora e revendedora de um a m ercadoria que deve ter tido enorm e
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im portância na história da região, em bora, com o j á se disse, perm aneça quase invisível para os arqueólogos.
A captura de escravos figurou provavelm ente entre os obj etivos das expedições m ilitares egípcias à Núbia. Ainda quando a razão da guerra fosse outra, os cativos — dez, vinte, cinquenta, cem , duzentos — com punham a alegria da vitória. Entre eles, por m uito tem po, quase não se contavam hom ens adultos — m assacrados, geralm ente, após os com bates. Não só era difícil conduzir Nilo abaixo um grande núm ero de hom ens, propensos à rebelião ao m enor descuido dos guardas, com o as m ulheres estavam m ais acostum adas aos trabalhos duros e repetitivos, e as crianças m elhor se adaptavam à nova sociedade em que iam servir. Posteriorm ente, passou-se a favorecer a captura de prisioneiros
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m asculinos, sem que j am ais, contudo, os escravos chegassem a ser m ais num erosos do que as escravas. Num baixo-relevo da XVIII Dinastia, por exem plo, são hom ens todos os cativos negros que se veem de cócoras, com
grandes argolas nas orelhas, vigiados por guardas de açoite na m ão. 4
Essa m udança foi talvez ditada pelas conveniências ou necessidades m ilitares. Os escravos incorporados aos exércitos egípcios — de início, em pequenos grupos — revelaram -se bons guerreiros. Eles j á se faziam notar nas tropas dos
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faraós da IV Dinastia. E com o tem po, aum entaram em núm ero e im portância. Tanto que figurinhas de m adeira, com o as de Assiut, e estelas com em orativas do Prim eiro Período Interm ediário (c. 2181 a.C. – c. 2040 a.C.) revelam a
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existência de contingentes inteiram ente negros: os fam osos arqueiros núbios. O que não nos dizem é se eram escravos, m ercenários ou aliados. Nos dois últim os casos, não se deve excluir que os chefes núbios inchassem as suas coortes com escravos seus.
Os prisioneiros hom ens seriam tam bém destinados, da m esm a form a que as m ulheres, às labutas nos canteiros de pedra e nas m inas de ouro. As que ficavam próxim as ao uédi Alaqui e ao seu afluente, o uédi Cabagba (ou Cabgaba), j á eram exploradas em 1552 a.C. e se tornaram fam osas pelo rigor do trabalho em pleno deserto. Sabe-se que tanto Seti I quanto seu filho Ram sés II, da XIX Dinastia, procuraram m elhorar as duríssim as condições sob as quais ali se extraía o ouro. Os escravos m orriam em grande núm ero, sobretudo de sede, a escavar sob o sol do deserto e com a água racionada. Para rem ediar essa situação, Seti I m andou cavar um poço no leito do uédi Alaqui, sem conseguir, contudo, um bom resultado. Ram sés II insistiu na em presa e logrou obter um poço com água, a m eio cam inho entre as m inas e a cidade de Kubban. Isso, na m etade do século
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XIII a.C.
Por m uito tem po, coube ao faraó dividir entre os deuses, o clero e a nobreza
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os “m ortos-vivos” — este o nom e dado aos escravos — que não reservava para o seu serviço. Era, porém , relativam ente pequena a proporção dos cativos que,
não ficando à disposição do rei nem dos tem plos, iam ter a m ãos privadas. 9 Desses, a m aioria, form ada por m ulheres, executava tarefas dom ésticas — apanhar água, cortar lenha, lim par salas e pátios, cozinhar, cuidar do gado m iúdo e da capoeira, atender aos am os, banhá-los e vestilos, velar pelas crianças, vigiar a casa, fiar, tecer e costurar. As m oças escravas eram tam bém obrigadas a deitar-se com o senhor ou com os rapazes da casa, pois esta é um a das regras m ais antigas do escravism o: o escravo não é dono de seu corpo nem de sua sexualidade.
Ainda que não se descarte o uso da escravaria nos cam pos, isso só deve ter ocorrido de m odo lim itado ou nos períodos de escassez de m ão de obra. Para os suores agrícolas, durante os num erosos séculos de história do Egito faraônico, bastaram os felás. A afirm ação vale até a época dos Ram sés, quando, ao que parece, escravos foram em pregados em grande núm ero nos trabalhos de
irrigação e beneficiam ento das terras. 10
Não seria de estranhar-se que os escravos, após serem repartidos por ordem do soberano, fossem obj eto de troca entre seus novos donos, nem tam pouco que o próprio faraó, a partir de um certo m om ento, considerasse oportuno colocar no m ercado alguns dos cativos que recebera em excesso — os capturados em recentes cam panhas m ilitares na Líbia, na Palestina ou na Núbia, por exem plo. Para executar a transação, deve ter utilizado interm ediários, corretores que agenciavam entre particulares as trocas de escravos por outros bens e que não tardaram em transform ar-se em com erciantes por conta própria. Estes pronto descobriram que entre a com pra e a venda do escravo podiam ter um ganho líquido — e, se assim foi, o escravo talvez tenha sido, conform e aventurou, a
pensar nos rom anos, Giuseppe Salvioli, 11 a prim eira m erce a ser com ercializada com fins lucrativos.
Orlando Patterson 12 não nos deixa esquecer que a história do com ércio, sobretudo do com ércio a distância, confunde-se, em quase todo o m undo, com a história do tráfico de cativos. Nas sociedades m ais sim ples, o escravo era am iúde a única m ercadoria que se podia perm utar pelos produtos raros e de prestígio, os artigos de luxo que constituíam a razão de ser do intercâm bio entre grupos hum anos distantes, um a vez que só bens de grande valia j ustificavam viagens dem oradas, incôm odas e cheias de perigos. Há sinais, por exem plo, de que os escravos se incluíam entre os m ais antigos itens de escam bo da Europa
neolítica. 13 Eram eles tam bém o principal m otivo das trocas intertribais que praticavam os índios do Noroeste norte-am ericano. Vários m ercados de escravos distribuíam -se ao longo da costa do Pacífico e neles a preferência ia para os cativos provenientes de lugares rem otos. Os prisioneiros sulistas eram vendidos para o Norte; e os nortistas, para o Sul. Quanto m ais longe da casa do com prador tivesse origem o escravo, m aior o seu preço, pois não só seria m ais difícil a fuga, para de novo j untar-se aos seus ou a grupos da m esm a língua e cultura, com o
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tam bém se tinha por m ais fácil o processo de desenraizá-lo. Num a sociedade
que possui m uitos escravos, convém que eles venham de lugares distantes, com idiom as e costum es diferentes, a fim de que se reencarnem para a escravidão em solo em tudo estrangeiro, com o qual não tenham o m enor vínculo e no qual sej am obrigados a reaprender a falar, a com er, a com portar-se e até m esm o a orar a novos deuses.
Não devia ser m uito num erosa a escravaria no Antigo Im pério egípcio. E tinha origem local grande parte, se não a m aior parte dos que se viam de cabelos tosados e com um rabicho — pois era assim que se m arcava o escravo. Na
época, escravizava-se sobretudo o indigente.15 Tinha-se o cair na extrem a pobreza com o um sinal de repúdio dos deuses ou prova de que se era inatam ente incapaz de organizar a própria vida. A penúria absoluta excluía o indivíduo da com unidade, exilava-o internam ente, fazia dele um desonrado, um “m orto-vivo”, que tinha de ser apropriado por um a outra pessoa e, de certa form a, dom esticado.
O volum e de escravos, e de escravos capturados no exterior ou adquiridos nos m ercados fronteiriços, cresceu no Médio Im pério, com a conquista da Baixa Núbia, e se m ultiplicou rapidam ente a partir de 1550 a.C., graças à expansão m ilitar do Novo Im pério até a Quarta Catarata. É tam bém no Novo Im pério que os m ercadores de alm as se tornam para nós m ais visíveis. E eram m uitos — a
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prom over contratos de venda “por toda a eternidade”.
Sabem os que os egípcios, m esm o sem guerra declarada, filhavam escravos na Núbia, pois de suas razias deixaram relatos e im agens. Com o as do tem plo de Beit-el-Wali, nas quais soldados arrebatam as crianças de um a aldeia. O que não sabem os é com o funcionavam a com pra e a venda de escravos nos territórios
núbios controlados por Querm a, Napata e Méroe. 17 Pode-se im aginar, porém , que os soberanos do Cuxe (nom e que se deu ao estado ou estados de que aquelas cidades foram capitais) tenham , para evitar as agressões, passado a pagar ao faraó um tributo em escravos — e isto pelo m enos desde a XVIII Dinastia. Nos Anais de Tutem ósis III, lê-se que do im posto pago pela Baixa Núbia e pelo Cuxe constavam cativos e bois. O volum e de escravos era, porém , pequeno: só
ultrapassou a centena num único ano.18
Mais num erosos seriam aqueles que periodicam ente os núbios vendiam aos egípcios. No início, seria um com ércio entre reis, pois provavelm ente o tráfico de escravos entre o Egito e a Núbia era prerrogativa do faraó, se é que dele não era m onopólio, e bem assim dos reis de Cuxe. Para garantir os fornecim entos, os núbios passaram a ir buscar pelas arm as a m ercadoria hum ana Nilo acim a, e no Cordofã, e no Darfur. A m udança não deixava de apresentar vantagens tam bém para os egípcios, pois quase sem pre foi m elhor negócio com prar o escravo do que correr os riscos de capturá-lo.
As terras do sul da Núbia, do Cordofã e do Darfur tornaram -se para os egípcios um reservatório de escravos em potencial. Dali podiam receber de m odo côm odo e sistem ático cativos que, além de virem de terras distantes, tinham aparência distinta da de seus futuros senhores, sendo fácil identificá-los com o escravos pela cor m ais escura, o cabelo pixaim , o nariz largo e os lábios grossos.
É provável que grande parte dos prisioneiros feitos pelas tropas de Querm a ficasse no Cuxe. Seriam eles m ultidão, caso, com o se pensa, fosse de escravos a m aioria dos esqueletos achados (400 num só caso) nos túm ulos dos reis querm ianos. Essa gente teria sido enterrada viva, e seus restos prolongam até hoj e a angústia com que encontraram a m orte. Alguns têm as m ãos a se apertarem e torcerem ; outros, a agarrarem a garganta; estes, a cobrirem o rosto;
e aqueles, a puxarem os cabelos.19
Napata, que sucedeu a Querm a, depois que os egípcios, com a derrocada da XX Dinastia, se retiraram da Núbia, foi, ao que tudo indica, um im portante centro com ercial. Seu grande parceiro deve ter sido o Egito. A ele fornecia não só escravos, plum as de avestruz, peles de leopardo e outros produtos que ia buscar ao sul de suas fronteiras, m as tam bém am etistas, berilos, rubis e ouro, m uito ouro, que retirava das m inas do deserto. Os m aiores desses depósitos auríferos ficavam próxim os à Quarta Catarata e na região entre Abu Ham ed e o m ar Verm elho. Neles, cabia aos escravos a extração do m inério. (Ver m apa “A Núbia”.)
Quando, talvez no fim do século VI a.C., Méroe substituiu Napata com o capital do Cuxe, j á era um grande porto caravaneiro. E talvez recebesse escravos de toda a vasta região que se estende das m ontanhas etíopes até o rio Níger ou, pelo m enos, o lago Chade. Com os Ptolom eus a dom inarem o Egito e o m ar Verm elho transform ado num lago com ercial grego, os m eroítas tornaram -se os seus principais fornecedores de gom as, resinas, peles, plum as, m arfim , chifres de rinocerontes e carapaças de tartarugas. Boa parte desses artigos descia o Nilo até o delta, m as o resto se endereçava às feitorias que os Ptolom eus haviam criado nas praias do m ar Verm elho, com o Arsínoe, Kosseir, Berenice, Ptolom ais Theron, Soterius Lim en e Adúlis.
Os m eroítas não tinham de ir buscar no interior da África os produtos de luxo que alim entavam o com ércio, pois esses lhes eram trazidos, de tribo em tribo e de m ão em m ão, das m ais distantes paragens. De m uito longe, para onde não pudessem voltar, chegavam tam bém , e pelo m esm o processo de escam bos sucessivos, as fieiras de escravos. Os prim eiros a serem vendidos no m ar Verm elho eram , contudo, aqueles derivados das frequentes guerras com os povos vizinhos.
Da ferocidade dessas guerras e da captura de escravos há num erosos testem unhos nas paredes dos tem plos. Num a inscultura em Jebel Queili, vê-se um punhado de cativos sob o pé do rei, enquanto outros caem ou são j ogados do alto de um penhasco. No santuário ao Sol, em Méroe, vários cativos sentam -se no chão, com os cotovelos atados aos tornozelos. Pertinho, m ulheres, crianças e bois são conduzidos com o saque. Mais adiante, soldados m eroítas m assacram outros prisioneiros. Aqui, o rei recebe de um deus um a penca de escravos; ali, ele pisa um friso de inim igos vencidos e am arrados uns aos outros.
Muitos dos prisioneiros de guerra e dos infelizes que se preavam nas razias eram doados aos tem plos. Outros endereçavam -se à construção de pirâm ides, tem plos e palácios ou dos canais de regadio e dos enorm es açudes (ou hafires) de que há ruínas em Méroe. Vendiam -se os excedentes não só ao Egito, m as tam bém à península Arábica e ao Mediterrâneo, e j á antes do período rom ano. De que era assim , há o claro depoim ento de um a estatueta grega, em esteatita, da época alexandrina, de um rapazola negro, de cócoras, com os tornozelos
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am arrados.
Na Grécia clássica, de num erosa escravaria — dos 315.500 habitantes que se presum e teria a Ática em 431 a.C., 115 m il seriam escravos, e estes som ariam 70 m il entre as 155 m il pessoas que viviam então em Atenas e no seu porto de
Pireu21 —, os núbios, etíopes e outros cativos pretos seriam , porém , raros, ainda
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que, talvez, com longa história. Lem bra-m e Frank M. Snowden, Jr. que, num fresco em Minos, figuram soldados negros, possivelm ente escravos adquiridos pelos cretenses no Egito ou nos litorais da Líbia. E se, na Odisseia, se podem achar evidências de que barcos gregos e fenícios, desde pelo m enos os cham ados tem pos hom éricos, cruzavam o Mediterrâneo, a em preender razias para capturar escravos e a com prá-los, vendê-los e revendê-los, j untam ente com outras m ercadorias de grande valor unitário — o próprio Ulisses, por duas vezes, foi, no poem a, ao Egito, capturar m ulheres e crianças —, não há afastar que recolhessem no delta do Nilo ou nas enseadas líbias alguns cativos negros.
Até as vésperas do século VI a.C., quando se m ultiplicaram , no Mediterrâneo, as trocas com erciais a longa distância, o núm ero de escravos em barcados devia ser pequeno. Tinha-se o escravo (ou, m elhor, a escrava, pois a predom inância fem inina devia ser a regra) com o artigo de alto preço. A partir de 600 a.C., o grosso de um a escravaria em processo de constante crescim ento deixou de ser obtido pelas arm as e passou a ser adquirido no m ercado externo. Provinha m aj oritariam ente da periferia do m undo grego, sobretudo da Ásia Menor, expandindo-se m ais tarde a área de captação para o m ar Negro e os Bálcãs.
A escravidão floresceu principalm ente nas cidades de grande ativida-de com ercial, com o Quios, Atenas, Corinto e Egina, que contavam com m ercados
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de escravos. O m ais fam oso de todos viria a ser, no Im pério Rom ano, o de
Delos, no qual os piratas cilicianos e cretenses — piratas que procuravam , segundo Estrabão, disfarçar-se em m em bros da prestigiosa e bem -conceituada
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profissão de com erciante de escravos — podiam despej ar diariam ente,
durante a segunda m etade do século II a.C., 10 m il cativos. Nunca saberem os se Estrabão exagerava nos núm eros. Com o tam pouco tem os indícios sobre quantos desses escravos seriam pretos. Do que não tem os dúvida é de que poucos se acanhavam de confessar-se traficantes de gente: havia até quem disso se j actasse, com o aquele Aulus Kapreilius Tim otheus, em cuj o m onum ento funerário, além de ter, após o seu nom e, a indicação de que era “com erciante de escravos”, se m ostra um m ercador, possivelm ente ele próprio, a conduzir um a
fieira de oito cativos acorrentados.25
Ainda que fossem pouquíssim os os escravos negros, eles provavelm ente não causavam surpresa. No Saara Central, há sinais de que j á se praticava a caça ao hom em desde pelo m enos a m etade do prim eiro m ilênio antes de Cristo. Do alto de pequenos carros puxados por cavalos — os carros que se encontram às
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centenas desenhados nas rochas do deserto —, hom ens de túnica dórica e
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plum as na cabeça (os garam antes de Heródoto ) perseguiam “negros
trogloditas”, possivelm ente a fim de escravizá-los, tanto para as labutas dom ésticas, pastoris e agrícolas nos oásis do Fezzan, quanto para suprir os
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m ercados do Mediterrâneo. Desse com ércio, só tem os testem unho claro em
alguns versos do fim do século V d.C.29 Mas devia ser m uito antigo.
É de crer-se que Cartago contasse com negros adquiridos dos garam antes em sua num erosa escravaria. Graças a ela, puderam os cartagineses construir e m anter um com plexo sistem a de irrigação, bem com o desenvolver vastos estabelecim entos agrícolas, com trigais interrom pidos por olive-dos, figueiras, rom ãzeiras, colm eias de abelhas e pastagens. Há quem , no entanto, disso discorde e sustente que as plantações cartaginesas não eram m antidas por escravos, m as por trabalhadores berberes, e que as fam osas revoltas da escravaria seriam na realidade levantes dos nativos contra os colonizadores fenícios.
Após a conquista da África do Norte, Rom a enviou pelo m enos duas
expedições ao sul do Fezzan.30 A prim eira, chefiada por Septim us Flaccus, no ano 20 a.C. A segunda, logo depois, a cargo de Julius Maternus, avançou além de Garam a (ou Jarm a) até as estepes sudanesas, se é que não chegou ao lago
Chade. 31 A partir de então, os garam antes fizeram -se fornecedores de Rom a de produtos que iam buscar ao sul do Saara. Entre essas m ercadorias figuravam
seguram ente alguns escravos.32 33 E há quem pense que esses seriam m uitos, o
que é bem possível, pois, tendo aprendido a selar o drom edário, os berberes com eçaram a organizar, no início de nossa era, as grandes cáfilas capazes de atravessar o deserto. Os escravos cam inhariam ao lado dos cam elos, que carregavam a com ida e a água necessárias à duríssim a viagem .
Outros cativos negros sairiam para Rom a de portos no m ar Verm elho e no Índico, pois o autor anônim o do Périplo do m ar Eritreu, escrevendo possivelm ente no fim do prim eiro século de nossa era, diz que no em barcadouro
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de Malao se vendiam “ocasionalm ente” escravos, m as que os de Opone (a atual Ras Hafun) eram de m elhor qualidade e se endereçavam sobretudo ao
Egito.35 Plínio, o Velho, por sua vez, afirm a que de Adúlis se exportavam
negros. 36 O principal provedor desse porto — e, nos séculos seguintes, de Dahlak
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e Zeila — seria o reino de Axum .
Desde a sua entrada na história, os axum itas reduziam à escravidão os inim igos derrotados. Poucos, de início, pois de início raram ente os poupavam da espada. Sacrificavam os cativos aos deuses, usavam -nos nas fainas dom ésticas e, com o não tinham para eles, ao que parece, outras ocupações econôm icas,
punham à venda os excedentes nos seus portos do m ar.38 Em breve tem po, porém , Axum tornou-se um grande em pório do m arfim e de outras m ercadorias africanas e, dos altos planaltos do Tigrê, a dom inar os vales dos rios Mareb e Tacazé, que descem para o Nilo, passou a controlar o tráfico do interior para o m ar Verm elho.
De rival de Méroe, Axum fez-se sucessor. E os escravos devem ter aum entado entre os seus produtos de exportação. Muitos desses escravos, a crer-se em Cosm as Indicopleustes (um m ercador de Alexandria que andou pela
Etiópia no século VI e escreveu um relato de viagem fam oso 39) eram trazidos de Sasu e Barbaria, isto é, do leste da atual República do Sudão e da Som ália ou
do sudeste da Etiópia. 40 Em Axum , os escravos j á não trabalhavam apenas nos serviços de casa, m as tam bém nos cam pos e nas construções dos grandes
palácios e das altas estelas. 41
Rom a adquiria negros dos portos axum itas do m ar Verm elho, com o os com prara de Méroe no delta do Nilo. Mas os obteve, ao m enos um a vez, pela
força das arm as. Em 23 a.C., desatou-se a guerra entre Méroe e Rom a.42 Petrônio, prefeito do Egito, invadiu a Núbia com dez m il infantes e 800 cavaleiros e chegou a Napata, que destruiu, aprisionando a m aior parte de seus habitantes. Enviou um m ilhar deles a Augusto e vendeu os dem ais com o escravos, provavelm ente aos m ercadores que costum avam acom panhar os exércitos rom anos.
Muitos desses m ercadores com eçaram provavelm ente suas carreiras a recolher nas ruas das cidades rom anas as crianças enj eitadas, para criá-las e, depois, vendê-las. Na Grécia e em Rom a, abandonavam -se nas portas das casas ou em logradouros públicos os recém -nascidos indesej ados, os rebentos de escravas ou de casais pobres, os frutos de uniões ilegítim as e até m esm o a criança que o pai decidia não aceitar, ou porque do sexo fem inino, ou porque seria um peso adicional no orçam ento fam iliar, ou porque lhe diluiria o legado. Para firm ar o repúdio, o pai só precisava deixar de erguê-la do chão onde a
punha a parteira. 43 Os enj eitados destinavam -se à m orte — e havia pais que, em vez de expô-los, os lançavam no Tibre. Ao recolhê-los, os m ercadores substituíam pela escravidão a m orte física de quem não fora acolhido pela com unidade e ficara, por isso, sem laços de fam ília e sem história. O m esm o destino podiam ter crim inosos, devedores, hom ens livres que se vendiam a si
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próprios e os filhos alienados pelos pais.
Em Rom a, a escravização dos expostos, sobretudo de m eninas, tornou-se
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rotineira no início do im pério. A prática não foi abrandada pelo grande núm ero
de cativos que as guerras de conquista continuaram a derram ar em seus
m ercados, em bora em proporção m enor do que durante os séculos III e II a.C.46 De Júlio César diz-se que só em suas cam panhas na Gália, entre 58 e 51 a.C., fez
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cerca de um m ilhão de cativos. O volum e de escravos que se produziam no decorrer de um a expedição m ilitar podia ser, aliás, tão grande, que se transform ava em problem a para o com andante do Exército. As dificuldades em conduzir, alim entar e abrigar m ilhares de prisioneiros eram frequentem ente resolvidas pelos traficantes de escravos que acom panhavam as tropas, à espera
de fazer bons negócios.48
Já se estim ou que, nos prim eiros 50 anos do século II a.C., 250 m il prisioneiros foram trazidos com o escravos para Rom a e vários outros m ilhares ali chegaram
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por via do com ércio. Os m ercados de Delos tinham -se por tão bem sortidos
pela pirataria, que eram capazes de oferecer escravos treinados em vários ofícios — m úsicos, escribas, m alabaristas, cozinheiros, ferreiros, carpinteiros,
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atores, ourives ou m édicos. Entre esses escravos especializados não faltariam
alguns africanos, tidos em alta conta com o gladiadores, boxeurs, saltim bancos, dançarinos, cantores, atendentes de banhos públicos, cavalariços e criados pessoais. Com tais ocupações, figuram negros em esculturas de bronze, m árm ore
ou terracota, em m osaicos e em vasos de cerâm ica.51
Os escravos negros não seriam , em Rom a, num erosos com o os gregos, eslavos, iberos, germ anos ou gauleses. Bem m aior, ainda que deixando m enos rastros, seria a quantidade dos que, nos prim eiros séculos de nossa era (ou, possivelm ente, desde antes), atravessaram o m ar Verm elho ou foram levados à força das costas africanas do Índico para a península Arábica. No Périplo do m ar
Eritreu 52 m enciona-se, para ficar num exem plo, que nas m ontanhas próxim as à baía de Sakhalites, escravos reais e degredados recolhiam a gom a do incenso. Talvez fossem negros alguns daqueles que ali labutavam em condições duríssim as — tão duras que quase todos m orriam depois de pouco tem po, de fom e, fadiga e pestilência. É m uito provável que tivessem m elhor destino os poucos negros m andados para o Irã, a Índia, o Ceilão e a Indonésia. E aqueles, curiosidade das curiosidades, que chegavam à China.
O tráfico am pliou-se, a partir do fim do século VI, quando os iranianos se apoderaram da Arábia do Sul e do estreito do Bab-el-Mandeb. Os sassânidas passaram a im portar sistem aticam ente escravos da Etiópia e da África Índica, para lhes servirem de soldados e trabalhadores braçais. (No Irã, era, aliás, antiga
a presença de negros nos exércitos. Relata Heródoto53 que nas tropas de Xerxes, integrando os contingentes árabes, havia pelotões núbios. De aparência feroz, esses guerreiros pintavam o corpo de verm elho e branco e se cobriam com peles de leopardo ou de leão. Tinham por arm as grandes arcos, flechas com ponta de pedra, porretes guarnecidos de pregos de ferro e lanças rem atadas por chifre de gazela. Que ali estivessem não deve espantar-nos, pois o norte da Núbia fora conquistado pelos persas, no final do século VI a.C., e, província do im pério, fornecia-lhes soldados e pagava-lhes tributo em ouro, m arfim , ébano e escravos.)
Há sinais de que barcos indianos frequentavam os litorais da África Oriental e
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suspeitas de que navios de Axum levavam m ercadorias até a Índia. Entre elas,
tendo em vista que os axum itas com erciavam cativos nas costas do m ar Verm elho, deviam figurar pelo m enos alguns escravos. Tam bém os indonésios, que j á haviam instalado colônias em Madagáscar e entrepostos nas praias do
continente,55 nele deviam prear negros, para povoar a grande ilha, levando esse e aquele para o sudeste da Ásia. Um sinal disso é que, em 614, em baixadores de Java presentearam o im perador da China com dois escravos seng chi — zenj ou
zanj es, com o lhes cham avam os árabes. 56
Esse antigo com ércio de escravos africanos tinha dim ensões reduzidas. Em geral, os em barques cifravam -se em poucas dezenas de cativos. E estes, de certo m odo, eram artigos de luxo. Catavam -se os pretos entre a escravaria do Mediterrâneo e do Índico. Só eram eles m ais com uns no Egito e na Arábia. E da Arábia, o entusiasm o de um a nova religião, que transbordou num veloz e triunfante expansionism o m ilitar, viria a transform ar a África subsaariana, de fornecedora m arginal de escravos, num a fonte copiosa, constante e duradoura de m ercadoria hum ana.