A Manilha e o Libambo
6. A Costa do Ouro
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A Costa do Ouro
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Tom buctu e Jené eram cidades-irm ãs. Ou, quando m enos, sócias. Desde o século XII, tinham os seus destinos vinculados. Com plem entavam -se: a prim eira, porto do com ércio transaariano; a segunda, centro produtor e arm azenador de produtos agropecuários e entreposto de trocas com a savana, o cerrado e a floresta. De m odo m uito esquem ático, Tom buctu recebia o sal, e em Jené com erciava-se o ouro, conform e se registrou com nitidez nos m anuscritos de
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Valentim Fernandes. Em Tom buctu, parte dos com erciantes eram berberes, árabes e j udeus, vindos da África do Norte, do Oriente Médio e do Saara. Em Jené, predom inavam os soninquês e outros m andês. Nos m ercados de Tom buctu, via-se gente de todas as origens — tucolores tratando com tuaregues, iraquianos lidando com m ulatos, egípcios m ostrando tecidos a m alinquês. Nos de Jené, quase só se viam rostos negros, os diulas ou uângaras controlando inteiram ente as trocas.
Jené tornara-se, desde o declínio de Gana, a m etrópole do ouro do Sudão. Para ali os m ercadores m andês dirigiam parte do que iam buscar, rio acim a, em Buré ou, passando por terra para a bacia do Senegal, em Bam buk, endereçando o resto a outros entrepostos e portos caravaneiros, com o Uadam e Ualata. Do ouro de Zam fara e Kangom a, só um a pequena parcela iria ter, após cruzar a savana e subir o Níger, a Jené; o grosso sairia das cidades hauçás e de Bornu diretam ente para Agadés ou Bilm a. Mas, do que se extraía em Lobi e nas florestas acãs, a quase totalidade era levada para Jené, um pouquinho apenas sendo encam inhado para o Gâm bia.
Desde talvez o século XIV e, com quase certeza, a prim eira m etade do Quatrocentos, os diulas se foram instalando ao longo dos cam inhos que entravam pela futura Costa do Ouro e pelo leste do que viria a ser a Costa do Marfim . É possível que, nesse processo de am pliação das fronteiras com erciais, tenham
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sido, em certos m om entos, apoiados m ilitarm ente pelo m ansa do Mali e que até tenham agido sob suas ordens. Se assim tiver sido, com preenderem os m elhor André Álvares d’Alm ada, quando afirm a que os m ercadores de ouro m andingas eram acom panhados em suas longas viagens por “capitães e gente de guarda”, e
que esta podia som ar, em alguns casos, “m ais de m il frecheiros”. 4
Os diulas de Jené deslocavam -se para o sul, atrás do ouro que se catava na região de Lobi, no Volta Negro, e, sobretudo, da noz-de-cola das florestas. Foram -se estabelecendo em vilarej os alheios, criando feitorias e fazendo, de aldeias, cidades. Com o, a uns 300km de Jené, Bobo-Dioulasso. E, a 225km m ais ao sul, Kong. E para sudeste, ainda na savana, porém quase na fím bria da
floresta, Begho, Bew, Be’u, Bighu ou Bigu — talvez a Bitu5 de onde, segundo o
Esm eraldo De Situ Orbis6 7 e o Tarikh al-Sudan, se saía a com prar ouro, a m esm a
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Bitu onde findavam , conform e o Tarikh al-Fattash, os territórios sobre os quais exercia algum tipo de controle o rei do Mali.
Não tinham rosto nem rabo de cão, ao contrário do que registra Duarte Pacheco Pereira, os habitantes da terra de Toom . Não guardo dúvidas, porém , de que fornecessem ouro à gente de Bitu, que o passava, por sua vez, aos m andingas. Porque é isto o que Pacheco Pereira escreve claram ente: que as pessoas de uns lugares cham ados Beetuu, Habanbarranaa e Bahaa iam a Toom adquirir ouro, e que, depois, os m ercadores m andingas se dirigiam às feiras de
Beetuu, Habanbarranaa e Bahaa, a fim de com prar o ouro obtido em Toom . 9 O que significa que, pelo m enos no início, os diulas não com erciavam diretam ente com o Toom (ou sej a, com os acãs, pois tõ é o nom e que lhe dão os m andês), m as se valiam da interm ediação dos m oradores daquelas localidades.
Na m etade do século XV, Bigu com punha-se de quatro bairros: um deles era
ocupado pelos donos originais da cidade, os brons,10 que falavam um dialeto acã; no segundo, m oravam os diulas; no seguinte, viviam os ferreiros, tam bém m andês, e outros artesãos; e o quarto seria com posto por gente de várias
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origens. Ainda que Bigu não fosse a Bitu de Pacheco Pereira e de Al-Sadi, os
brons possuíam todas as condições, até m esm o a facilidade do idiom a, para atuar com o terceiros nas transações entre os m andingas e os acãs da floresta, com prando de uns e vendendo aos outros, m ediando as trocas ou servindo de árbitros. Com o tem po, é provável que se tenha, porém , m inguado esse papel. Pois não só os diulas ganharam a confiança dos acãs da floresta e passaram ao trato direto, com o estes foram saindo de seu relativo isolam ento.
Bigu, que se tornou um im portante centro têxtil, de produção de ferro e trabalho no m arfim e no cobre, talvez representasse a fronteira m eridional do m undo m andê, o lim ite da área de influência do m ansa do Mali. Em bora os m andingas de Bigu tivessem um chefe, o diulam ansa ou shehu wangara, não significa isto que a cidade-estado estivesse sob o seu com ando. Era dirigida por
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um régulo brom , que — assim dizem as tradições — desfilava a cavalo nas grandes cerim ônias e festivais, não passando os diulas de hóspedes influentes. Isso não im pede que se considere Bigu a m ais m eridional das colônias com erciais m andingas e, por um bom tem po, o m ais afastado de seus entrepostos na direção dos cam pos auríferos entre os rios Com oé e Volta.
A m eia centena de quilôm etros a sudeste de Bigu, o ouro seria a base sobre a qual se assentaria o poder e a riqueza de um im portante Estado brom , Bono. Sua
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capital, Bono Mansu, parece que j á existia no século XIV. Ou talvez no XIII.
Esse reino, o m ais antigo que se conhece entre os acãs, não foi apenas um im portante m ercado do ouro, m as um grande produtor do m etal am arelo, cuj a extração e tráfico seria apanágio dos reis. Estes deixaram fam a de riqueza e poder, um poder que parece ter-se infiltrado pela espessura das m atas tropicais, com o controle dos cam inhos que levavam aos garim pos e às m inas e com a conquista de m uitos dos cam pos auríferos. Dessa expansão resultou possivelm ente o difundir do m odelo político praticado em Bono. E não som ente j ângal adentro até o oceano, m as tam bém ao longo da borda oriental da floresta e espraiando-se além do rio Volta. (Ver o m apa “A Costa do Ouro e a bacia do Volta”.) Em toda essa am pla área, foram m uitos os pequenos reinos cuj as elites reivindicavam ter por origem Bono.
A busca do ouro deve ter estim ulado o desbravam ento das m atas pelos acãs das savanas e favorecido a sedentarização dos grupos acãs que, caçadores, recolhedores e m ineradores, nom adizavam na floresta e acabaram por render-se à agricultura. O ouro, ao ser trocado por escravos — e Duarte Pacheco Pereira
deixa claro que os diulas usavam a m oeda hum ana para obter ouro dos acãs15 —, perm itiria aos chefes de linhagem e aos hom ens m ais em preendedores — os birem pons ou abirem pons, os big m en, os m aiorais, os que tinham vocação de m ando e se iam apossando da riqueza e do poder — desbastar as densas m atas pluviais, a fim de nelas instalar novas aldeias com suas glebas, para as quais procuravam atrair colonos livres e aum entar, assim , a produção agrícola e o núm ero de seus seguidores. O escravo teria sido essencial nesse processo, posto que foi a derrubar árvores im ensas (m uitas delas tão grossas que sobre seus
troncos caídos um hom em tinha dificuldade de subir16), e a cortar m oitas e lianas, e a vencer todas as form as de um a vegetação espessíssim a.
Ivor Wilks propôs esse enredo para explicar o surgim ento dos prim eiros estados na floresta acã, um enredo no qual os colonos se transform aram em súditos de quem pusera a escravaria a dom ar a floresta. O pioneiro e distribuidor de terras passava a receber dos colonos parte da colheita e de tudo o que retiravam das m atas (o ouro, o m arfim , a cola, as peles), bem com o outros tributos, que se foram m ultiplicando com o tem po. Quanto ao escravo, m etam orfoseou-se no serviçal e hom em de confiança, o gy aasefo de quem se
fazia régulo: seu guarda-costas, cam areiro, m úsico, m ensageiro ou m ercador. 17
Essas estruturas de poder consolidaram -se e am pliaram -se, a partir de Adanse e Am ansie, à m edida que alguns régulos acrescentavam aos que j á tinham novos contingentes de trabalhadores, tanto livres quanto escravos, para abrir e povoar áreas virgens da floresta, para carregar à cabeça, pelas difíceis trilhas da m ata, os artigos do com ércio, para caçar elefantes, para colher e em balar as nozes-de-cola, para batear o ouro de aluvião e para escavar novas m inas. Muitas dessas m inas eram form adas por poços estreitos, que não
ultrapassavam , em geral, os nove m etros de profundidade,18 m as podiam
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alcançar até 30m , e se ligavam uns aos outros por galerias horizontais.
Os diulas abasteciam os acãs de cativos trazidos de longe. De sereres, j alofos, tucolores, bam baras, dogons, songais, grunces ou gurúnsis, fulas, sossos, hauçás,
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m ossis, baribas e gente de incontáveis pequenos grupos, alguns dos quais foram
de tal m odo desarticulados que até m esm o os seus nom es se perderam . O núm ero dos escravizados deve ter crescido, e m uito, na segunda m etade do século XV, em decorrência do prolongado conflito que opôs os m ansas do Mali aos sonis de Songai e ao prim eiro ásquia, e das guerras que, por causa dessa disputa, lhe corriam paralelas. Mesm o assim , a dem anda não se via satisfeita. E teria ainda pior atendim ento no extrem o m eridional da floresta, que se estendia até o oceano ou dele se separava por um a faixa de cam pinas ressequidas. Fim de cam inhos, ali possivelm ente só chegavam , e a alto preço, os escravos que não encontravam com pradores m ais ao norte. Por isso que a gente do litoral, dos reinos de Asebu, Fetu, Aguafo e Fante e dos pequenos estados que se estendiam do rio Ankobra ao estuário do Mono, perguntou logo aos tripulantes das caravelas portuguesas, que chegaram àquelas costas em 1471, se, além de artigos de cobre e de ferro, de tecidos, conchas e contas de vidro, não tinham tam bém escravos à venda.
Quando souberam dos barcos portugueses, os grandes de Sam á (ou Sham a) foram até a praia. Com um pano a passar por entre as pernas e a am arrar-se, enrolado, à cintura (o tradicional danta dos axantes), traziam , de ouro, vários colares ao pescoço, e grossas argolas nos braços e nos tornozelos, e arriéis nas orelhas, e uns cilindros pequeninos a prender as pontas dos cabelos e das barbas. Talvez o língua segurasse o seu bastão cerim onial recoberto de ouro e tam bém trabalhado com invenção e beleza. Os m úsicos tocavam tam bores, gãs, aguês e olifantes. E os dem ais, quase que inteiram ente nus, com “as vergonhas cobertas por peles de bugios” ou um a tanga de palm a, portavam escudos, azagaias, arcos e alj avas.
Os hom ens de cútis enferm a que desceram dos escaleres vinham apertados em panos, enrolados do pescoço aos pés, talvez porque não pudessem m ostrar nem olear o corpo. É possível que desse m odo se traj assem para a guerra e para apresentar-se diante dos reis, m as, se assim era, essas vestes “m ais m oviam a
riso que a tem or” ou respeito. 21 Em terra, só tinham olhos para os obj etos de ouro, e gestos e vozes para trocá-los pelo que carregavam nos barcos. Os da terra trouxeram -lhes ouro em pó e os estrangeiros indagaram de onde vinha. E se puseram , possivelm ente, a figurar, logo ao lado, um a grande m ina e a supor que aquele era o país da abundância do ouro.
Que ali havia ouro, havia. Os portugueses colocavam os pés na borda da região aurífera m ais rica da África Ocidental. Muitíssim o m ais rica do que Buré, que, por sua vez, j á produzia oito vezes m ais do que Bam buk. Incom paravelm ente m ais rica do que os pequenos cam pos da Serra Leoa, apesar da pureza do m etal (frequentem ente de 23 quilates) que deles saía. Mas, em bora relativam ente abundante, o ouro em Sam á era apreçado. Era apreçado porque era difícil de obter-se e custava grandes trabalhos e m uitas vidas. E estim ava-se ainda m ais, quando tom ava as form as de belos ornatos, que eram ao m esm o tem po em blem as de poder, m arcas de condição, am uletos ou outros testem unhos de entendim ento com o sobrenatural.
Os da terra traziam suas pequenas balanças e pesos de cobre ou latão, aj ustados provavelm ente (com o os que André Álvares d’Alm ada vira no
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Gâm bia ) pelo sistem a de m edidas m uçulm ano, que atravessara o Saara.
Talvez j á os fizessem lindos, esses pesos, com figurinhas de bichos e de gente, com o os dos axantes, nos séculos seguintes. E com eles m ediam cada m itical de ouro que se dispunham a trocar por m ercadorias de que tinham necessidade ou a
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que davam enorm e valor. Com o os alam béis de grossas listras verm elhas, verdes, azuis e brancas, que se teciam em Orã, Tenez, Túnis e outras cidades do Magrebe. Com o os alquicés ou alvas capas m ouriscas. Com o as túnicas de m eia-m anga e capuz, cham adas alj arabias. Com o os linhos brancos e as lãs azuis ou verm elhas. Aos forasteiros entregavam ouro em pó, em pepitas ou até na form a de j oias, desde que essas, obtidas pelo m étodo da cera perdida, não fossem das m ais requintadas nem tivessem sido subm etidas aos ritos que as transform avam em talism ãs. De volta, queriam receber m anilhas, e bacias de borda larga, e bacias de barbeiro, e baciazinhas, e penicos, e j arras, e bandej as, e panelas, e caldeirões — tudo de cobre ou latão. Quase sem pre esses artefatos eram derretidos para o fabrico de outros obj etos e instrum entos de uso prático (até m esm o de novos recipientes sem elhantes aos que tinham sido desm anchados, m as com a parte exterior profusa e artisticam ente trabalhada), pois toda um a im portante atividade m anufatureira dependia, entre os acãs, da im portação de cobre e de suas ligas. Algum as das peças que perm aneciam inteiras eram utilizadas por seus com pradores com o vasilhas com uns. Outras acom panhavam nos seus túm ulos os m ortos ou tinham por destino os santuários religiosos e os tesouros dos reis. Pois, se o ouro tinha toda a nobreza entre os acãs, o cobre e suas ligas não lhe ficavam atrás. Mágicos e raros, eram indispensáveis a certos
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sacrifícios e determ inadas cerim ônias.
Tam bém de grande prestígio por sua força sobrenatural — entre outras propriedades tinha a de afastar os raios — eram um as grandes conchas verm elhas, tão estim adas entre os acãs quanto os rubis ou os brilhantes na
Europa.25 Crê-se que eram das Canárias, onde os portugueses iam buscá-las com tam anha gana, que se foram fazendo cada vez m ais escassas, até que de todo desapareceram . Usavam -se possivelm ente penduradas ao peito e, com certeza, com o ornato dos gorros (um a de cada lado do barrete) e das bainhas das
espadas, pois assim as viu, no fim do século XVII, William Bosm an.26 Cerca de cem anos antes, um outro holandês, Pieter de Marees, j á havia topado a m esm a concha verm elha, “grande com o a m ão de um hom em ”, a decorar estoj os de
arm as brancas,27 e um terceiro, Albert Eckhout, pouco depois a pintou, logo abaixo da em punhadura da espada, num quadro em que m ostra um guerreiro acã, usando um danta listrado, segurando um a azagaia e tendo m ais cinco às
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costas. O quadro, provavelm ente feito no Brasil (pois não consta que Eckhout
tenha estado na África29), reproduz com fidelidade danta, azagaias e espada, o que nos faz crer que a concha estava lá, na bainha da arm a que lhe serviu de m odelo.
Essas grandes conchas verm elhas não eram , contudo, as únicas com m ercado certo. Outras havia, bem o sabem os. Na África, com o em outros continentes. Na Rom a antiga, por exem plo, se acreditarm os em Ovídio, quando, no terceiro livro da Arte de am ar, coloca no m esm o plano o ouro e as conchas raras trazidas de praias distantes. Muito valorizadas na África Atlântica eram as que se catavam nas ilhas de Cabo Verde e que um a lei de 1480 reservara (do m esm o m odo que as das Canárias e de outras procedências) para o com ércio da Coroa
portuguesa. 30 O governo lusitano da época estim ava de form a correta o valor
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das conchas, e tanto que, em outro texto legal, de 1514, castigava com açoites
ou degredo por cinco anos para as ilhas de São Tom é ou de Santa Helena quem possuísse conchas que tivessem ou viessem a ter valor na Mina, ou com elas com erciasse, citando expressam ente os cauris.
A Cy praea m oneta dos atóis das Maldivas, pequenina (a m aioria entre 12 e 16m m ), delicada m as resistente, lisa, com um a estreita fenda serrada na parte de baixo e de um louçado leitoso a que não falta um suavíssim o quê de am arelo, era apreciadíssim a na m aior parte da Costa. Levada do Índico para o Egito, a Síria, o Líbano e Veneza, distribuía-se, depois, pelos portos caravaneiros, onde as punham
nos drom edários, para atravessar o deserto. 32 Al-Bakri, escrevendo no século XI,
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j á as incluía entre os bens im portados pelo Sudão Ocidental. E o m esm o faria
Al-Zuhri, cem anos m ais tarde. 34 Pouco m enos de um século depois, Al-Um ari
nos afirm ará que os cauris eram usados com o m oeda no Canem e no Mali,35 o
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que Ibn Batuta confirm ou com autoridade. No Mali e tam bém em Gaô. E, com o se não bastasse, contam os igualm ente com os testem unhos do Tarikh al-
Fattash,37 38 39 de Leão Africano e de Cadam osto. Tinha o cauri, aliás, todas as propriedades da boa m oeda: provindo do exterior, a quantidade dele disponível tendia a ser lim itada, e era durável, pequeno, leve, fácil de ser m anuseado e transportado, próprio para servir de unidade de pequeno valor e praticam ente im possível de ser falsificado.
Será que das m argens do Níger não se propagou para os confins acãs o em prego do cauri com o m oeda? É possível que sim . Com o é tam bém possível que os acãs só o usassem com o adorno — um adorno que era um poderoso fetiche propiciatório da fertilidade e da longevidade e um a forte proteção contra o m au-olhado. E não se exclui tam pouco que j á se adotasse com o dinheiro, no que viria a ser a Costa do Ouro, algum a outra concha m arinha (tal com o sucedia no reino do Benim , com o igô ou iguou, e com o zim bo, no reino do Congo), e que essa concha, depois que os portugueses passaram a com erciar no Índico, tivesse
sido substituída pela Cy praea.40
Outros produtos de grande aceitação entre os acãs eram o vinho branco, as pim entas e outras especiarias, o coral, o âm bar, as ágatas e a cornalina, sobretudo na form a de contas, e estas tam bém de vidro, especialm ente as m arm oreadas e com listras m ulticores, que se faziam em Veneza, e as am arelas, brancas e azuis-pavão provenientes do golfo de Cam baia. Essas e outras contas e m içangas chegavam à África Ocidental desde pelo m enos o início do tráfico transaariano. De que a im portação era antiga, a arqueologia tem obtido provas claras: em Igbo-Ukwu, por exem plo, em depósitos que têm sido datados do
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século VIII ao XI.
As contas de coral vinham do Mediterrâneo (no início, foi a Tunísia o principal m ercado exportador, m as cedeu o posto, no século XV, para
Barcelona). 42 E havia outras contas, m uito apreciadas, originárias da própria África Atlântica. Com o as de pedra cinza ou am arela, ou ekans, que se adquiriam nos rios que iam ter ao reino do Benim . E com o as cham adas coris (“um as contas azuis com uns riscos verm elhos”), que Duarte Pacheco Pereira cita entre
os produtos preferidos dos africanos que m ercadej avam na Costa da Mina.43 Apesar de m encionadas e descritas com insistência por cronistas e viaj antes, hoj e não sabem os identificá-las. As descrições, e até as cores, m udam conform e o lugar e o século. Os textos m ais antigos dizem que as akoris (aigris ou aggrey beads) eram contas translúcidas, vítreas, de um azul-celeste ou um pouco m ais escuro, que se esverdeava contra a luz, cortadas de um a pedra recolhida da água
e da terra m olhada, e polidas num a form a oval ou cilíndrica.44 Há quem pense que seriam feitas de vidro natural, de tectitas sem elhantes às m oldavitas da
Europa Central,45 e quem sugira que sua m atéria-prim a seria um a, ou m ais de um a, das várias pedras sem ipreciosas (ágatas, águas-m arinhas, am etistas,
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granadas e olivinas) abundantes na África Ocidental.
De Ifé, onde se encontraram , em depósitos do fim do século XI ao XIV,47 cadinhos cobertos de pasta vítrea, provinham as disputadas segis, de vidro azul e em form a tubular, assim com o m içangas verdes, verm elhas e castanhas e contas
de cornalina, quartzo, ágata e j aspe. 48 E de num erosos outros centros produtores espalhavam -se contas de pedra, cerâm ica e estanho, passando de m ão em m ão e de feira em feira. A enorm e variedade de tipos favoreceu o desenvolvim ento de um m ercado extrem am ente com plexo, exigente, volúvel e seletivo, no qual um a conta que aqui era produzida ou corriqueira, acolá se fazia rara — e usar contas pouco vulgares era um sinal de distinção, poder e riqueza. Para atender a diferenças de gosto, certas contas eram subm etidas a transform ações: em alguns lugares, por exem plo, cortavam -se em duas as contas tubulares venezianas e se raspavam as suas pontas, para que ficassem m ais arredondadas. E não faltavam consum idores que pagavam m ais por contas que tivessem cores m ais vibrantes ou que se destacassem das outras do m esm o tipo pelo tam anho, brilho ou algum desvio de form a.
Algo sem elhante passava-se com os tecidos. Por quase toda parte, fiava-se e tecia-se. Em certas áreas, os tecelões form avam um a casta. Mas, em outras, havia teares na m aioria das m oradas. Teares quase sem pre estreitos, dos quais saía um a tira de fazenda, que se ia coser a outras sem elhantes para form ar o pano. Na África Ocidental, um pano forte, grosso, durável, bonito. Que se exportava para o Magrebe e a Europa (onde as palavras m andês bouracan e
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bougran designavam um certo tipo de fazenda ), m as que era sobretudo obj eto
de um intenso com ércio regional. As elites queriam usar não apenas as fazendas que se produziam localm ente, m as sobretudo as que vinham de fora e tinham o prestígio de ser diferentes. Alguns tipos de tecido, com o, por exem plo, os que se faziam em Ij ebu-Ode e outras cidades do Iorubo, de um intenso anil ou de listras azuis e brancas (podendo, ou não, correr entre elas um fio de verm elho), gozavam de grande voga nessa banda da África que ia do Senegal ao Gabão. Por todo lado, os consum idores não se contentavam com facilidade: escolhiam os panos m ais resistentes, m ais bem tingidos, com desenhos m ais bonitos e m ais originais, e com m isturas de fios e até bordados.
Os tecidos, as contas, as conchas, as j oias de cobre, latão, ouro, estanho e prata eram bens de luxo, bens conspícuos cuj o alto valor com pensava o transporte a grandes distâncias. Alto preço alcançava tam bém , no Senegal, nas savanas, no Sael, no deserto e na África do Norte, a noz-de-cola — sobretudo a cola nitida, que cresce nas m atas desde o sul da Guiné-Conacri até o rio Volta. No rio Gâm bia, escreve André Álvares d’Alm ada, era um dos bens m ais estim ados:
valia fazendas, escravos e ouro. 50
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Mastigada, a cola refresca a boca, reduz a fadiga, a fom e e a sede. No
m undo islâm ico, apreciavam -se suas propriedades m edicinais — contra a dor de cabeça, a dispepsia e a im potência. Sendo um estim ulante não condenado pelo m aom etanism o, sua dem anda não cessou de aum entar. No início, era um artigo de consum o restrito aos aristocratas e hom ens de posse, que podiam distribuí-la aos dem ais, nas solenidades e nos grandes m om entos. Com o andar dos tem pos, foi-se popularizando: tornou-se praxe, nas casas da gente com um , oferecê-la aos visitantes, com o sinal de hospitalidade, e dá-la de presente nos casam entos, nos funerais e em outras festas e cerim ônias.
Depois de colhidas, m ergulhadas em água (para am olecer a casca) e secas, as nozes-de-cola podem durar m ais de um ano. Mas tanto a arm azenagem quanto o transporte dem andam trabalho e cuidado. Em brulhadas em largas folhas de caboupa (Mitragy na stipulosa) ou de bananeira, é necessário exam iná-las com frequência, pois um a só que se estrague ou dê bicho, pode com prom eter
um fardo inteiro.52 Não espanta, por isso, que fossem tão caras, no fim de um dem orado percurso.
Todos esses produtos custosos, suntuários ou exóticos eram com ercializados entre o litoral e Songai pelos m andês e, entre a costa e além do lago Chade, pelos hauçás, que haviam adotado as práticas dos uângaras e form ado as suas próprias redes m ercantis a leste do Volta. Nem uns nem os outros tinham , no entanto, o controle de ponta a ponta dos negócios. Tecidos, contas, j oias e m uitos outros produtos m udavam de m ãos de m ercado em m ercado ou viaj avam de canoa ao longo da costa e pela rede de lagos, furos e canais que se estende desde o cabo São Paulo, no atual Gana, até o delta do Níger. Os bens iam possivelm ente passando de grupo em grupo, ao longo do percurso, num m ercadej o em que
estavam envolvidos ibos, ij ós, edos, itsequiris,53 54 55 iorubás, guns, huedás,
gãs, 56 57 58 59 acãs, crus, xerbros, sapes, bulons, banhuns, beafadas, bij agós, niom incas, m andingas, vais, sereres, j alofos e m uitos m ais. A noz-de-cola, por exem plo, era levada desde o rio Volta até as desem bocaduras do Gâm bia, do
Sine-Salum e do Senegal.60 Com o as correntes m arítim as não perm itiam que as alm adias niom incas subissem o litoral ao norte do cabo Verde, a cola, para chegar ao baixo, ao m édio e ao alto rio Senegal, passava, na Petite Côte ou nos
rios Salum e Sine, para o lom bo dos burros ou o dorso de cam elos. 61
Tanto no oco das canoas, quanto nos cestos e fardos que os carregadores levavam à cabeça terra adentro, ou que punham no lom bo dos asnos ou dos bois, seguiam tam bém produtos de baixo preço e sem aura de prestígio, m as que alim entavam o com ércio a curta e m édia distâncias: arroz, inham es, sorgo, m ilhetes, azeite de dendê, bananas e outras frutas, peixe seco, gado m iúdo e galináceos. A suportar o peso das m ercadorias, a rem ar o barco ou m anietados, peados ou am arrados pelo pescoço, os escravos com pletavam a carga.
Mal chegados, os portugueses deram -se conta da im portância desse com ércio de cabotagem , do qual, ao contrário do que sucedia com o que entrava pelo interior, podiam participar com eficiência e vantagem , pois as caravelas (e até os barcos m enores a que tiveram de recorrer em certas passagens do litoral) venciam os espaços em m uito m enor tem po do que as canoas. Cedo com preenderam tam bém que, na Costa do Ouro, os escravos correspondiam aos cavalos no Senegal. Não constituíam o grosso dos negócios — vendiam -se m uito m ais tecidos, obj etos de cobre, contas e conchas, e nesses produtos concentravam -se os m aiores ganhos —, m as sem o cavalo entre os j alofos e sem
o escravo entre os acãs — e tam bém entre os adangbés 62 e os gãs que os substituíam no m apa, antes de chegar-se ao rio Volta — não se encam inhavam as transações com os reis e os grandes chefes. Ali, entre o Com oé e o Volta, os portugueses podiam , ao contrário do que sucedia no Senegal e na Gâm bia, obter ouro sem a interm ediação dos diulas. Podiam trocá-lo diretam ente com os representantes dos reis. Sendo o escravo, porém , a m ercadoria m ais prezada pelos poderosos, era o escravo o que abria o com ércio.
Rapidam ente, os portugueses passaram de com pradores de escravos a interm ediários de um com ércio intra-africano de m ão de obra. De que isso se deu quase que im ediatam ente, há um bom testem unho: o do flam engo Eustache de la Fosse, que, no fim de 1479 e início de 1480, andou a fazer o tráfico na Costa da Mina, e viu, ancorados, dois barcos portugueses a com erciar m ais de 200 cativos. Ele próprio havia com prado escravos na Libéria e os revendera aos acãs
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com facilidade e bom lucro.
Devia ser norm a para os navios portugueses o pararem , na viagem para a Mina, em vários pontos do litoral, a fim de recolherem os cativos que iam revender aos acãs, adangbés e gãs. De quebra, com pravam m alagueta, desde o Gâm bia até o leste da atual Libéria. E, na volta, adquiriam novam ente escravos, para os m ercados da península Ibérica e das ilhas atlânticas.
Essa ávida procura por cativos, até então desconhecida pelos povos costeiros da região entre a foz do Gâm bia e o cabo Mount, a que se dava o nom e de Rios da Guiné (ou Rios do Sul ou Rios da Guiné de Cabo Verde), não encontrou dificuldade em ser satisfeita. Coincidiu com a aventura im perial dos fulas ou fulanins de Dulo Dem ba, Tenguelá e Coli Tenguelá, os quais, entre 1450 e as prim eiras décadas do século XVI, ocupariam o Futa Jalom e o alto Gâm bia e acabariam por dom inar o Tacrur e fundar um grande reino, que passou à história
com o o im pério do Grão-Fulo. 64 Coincidiu tam bém com os conflitos entre um Mali em decadência e um Songai em ascensão. A m aioria dos prisioneiros m alienses e songais era levada para os portos saarianos, do m esm o m odo que os produzidos pelas cam panhas anuais de Bornu, no sul do lago Chade. Os que se faziam nos com bates entre os fulas e os m andingas passaram , entretanto, a ser conduzidos pelos diulas para o litoral e vendidos aos portugueses. Estes podiam contar tam bém com os cativos derivados das desavenças entre os vários povos que dividiam a área. Num espaço relativam ente pequeno, sucediam -se e intercalavam -se, em m osaico, os diolas ou j olas, com preendendo felupes e
baiotes,65 66 67 68 69 os banhuns, os casangas, os balantas, os bram es, os pepéis, os
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m anj acos, os beafadas, os bij agós, os nalus, os landum as, os m andingas,
os bagas, os conianguis,73 os sapes, abrangendo os xerbros, os tim enés, os
lim bas 74 75 76 77 e os quissis, os krim s, os sossos, os corancos, os vais e os fulas. Alguns, com o os diolas e os balantas, não adotavam estruturas políticas centralizadas; outros faziam parte do im pério do Mali, sendo os seus régulos vassalos do farim do Braço (ou Brasu), com o os casangas, ou do farim do Gabu, com o os beafadas; e outros, enfim , form avam um grande núm ero de m icroestados independentes.
Os grandes traficantes de escravos eram os m andingas. Em pouco tem po, porém , os beafadas se fizeram tão eficientes, que os vizinhos acreditavam que
eles tivessem inventado o cativeiro. 78 Os casangas — com o os beafadas, vassalos e agentes dos m andingas — não lhes ficaram atrás. Mas a todos os do litoral superavam , com o preadores, os bij agós.
Em suas belas alm adias de guerra, tendo na proa a cabeça esculpida de um
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boi, os bij agós navegavam no m ar alto que separava o continente das ilhas
onde viviam . Suas em barcações, escavadas num só tronco de árvore, podiam ter m ais de 21m de com prim ento, e com algum as pranchas, que aj untavam aos
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lados, am pliavam -lhes a capacidade de carga. Em cada um a dessas alm adias,
podiam viaj ar dezenas de guerreiros, e ainda havia espaço para os cativos e o gado que trouxessem da pilhagem . Nus, só de virilhas cobertas, e pintados de alm agre e gesso, com penas de aves presas aos cabelos entrançados e rabos de cavalo pendurados ao pescoço, e m uitos guizos e sinetas, e arm ados de escudos de verga, azagaias de ferro, espadas curvas, arcos e flechas, em cuj as pontas
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punham as espinhas peçonhentas de um bagre, saíam a saquear as aldeias do
continente. Viviam da pirataria e pronto transferiram sua cobiça, do saque das tulhas de arroz, da pim enta e do gado, para a captura de seres hum anos, que vendiam aos portugueses. Não que, antes das caravelas, eles não fizessem prisioneiras algum as m ulheres e crianças dos vilarej os que atacavam no litoral, para com elas aum entar as suas hostes. Mas seriam poucas e não o m otivo principal das razias.
Havia povos da Alta Guiné que não traficavam com escravos. Nem
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praticavam a escravidão. Com o os diolas e os balantas. Para Walter Rodney, esta seria a situação, antes da chegada dos portugueses, em toda a área conhecida com o dos Rios da Guiné. Ali não haveria um a classe escrava, e as instituições escravistas ter-se-iam desenvolvido em decorrência da dem anda europeia. Prova disso seria, segundo ele, o não m encionarem os prim eiros navegadores portugueses a existência na região de elem entos que se pudessem identificar com a escravidão. Se, na Senegâm bia e na Costa do Ouro, os testem unhos eram no sentido oposto, isto se devia ao contágio m ais antigo do tráfico negreiro transaariano, à ação de bixirins, diacanquês, uângaras ou diulas.
O silêncio dos textos não seria suficiente para m ostrar que não havia
escravidão na Alta Guiné.83 Ela poderia ter passado despercebida a observadores pouco interessados na arraia-m iúda, ou se confundido, a seus olhos, com outras form as de servidão, ou ainda, e m ais provável, ter sido vista e identificada com clareza, deixando de ganhar espaço, porém , nos relatos dos viaj antes e com piladores, por ser coisa norm al, vulgar e tida por evidente, para europeus que conviviam com ela desde o nascim ento. Esse silêncio, contudo, j á
foi negado. J.D. Fage,84 que defende o ponto de vista de que a escravidão, a estratificação social e os sistem as políticos centralizados foram desenvolvidos internam ente na África, em bora possam ter sofrido influências do Saara ou dos oceanos, passou em revista a literatura europeia dos descobrim entos, relativa aos litorais que se estendem do Senegal a Angola. E anotou m enções a escravos até m esm o na área sobre a qual se concentrou a pesquisa de Rodney : as costas que vão da foz do Gâm bia ao cabo Mount. Em Duarte Pacheco Pereira, Valentim Fernandes e Álvares d’Alm ada há referências a escravos entre os banhuns, beafadas, pepéis e tim enés. Fora da região dos Rios, para o norte e para leste, Diogo Gom es m enciona escravos entre os j alofos e sereres, Cadam osto, entre os m andingas do Gâm bia, e Pacheco Pereira, no Tacrur, em Ij ebu-Ode, no Benim , no delta do Níger e entre os congos. Nenhum desses autores ou de seus inform antes tinha dificuldade em distinguir, num m eio que desconheciam , um conj unto de traços que caracterizavam , nas sociedades de onde vinham , a escravidão. É possível, e até m esm o provável, que, aqui e ali, tom assem por escravo o adotado, a esposa por quem se pagava um preço, ou aquele que entregava o corpo e o trabalho com o penhor de um a dívida. Essas situações lim ítrofes podiam confundir o inform ante de Valentim Fernandes, os olhos de Cadam osto ou a perspicácia de Duarte Pacheco Pereira. Mas não os im pediriam de ver escravidão onde havia escravidão, à luz do conceito e da experiência que dela tinham .
Seria, aliás, difícil explicar com o e por que esses povos litorâneos tão prontam ente atenderam à dem anda portuguesa, se j á não conhecessem a escravidão e não vendessem e com prassem , ainda que em pequeno núm ero, prisioneiros de guerra. As caravelas gastaram 16 anos (de 1444 a 1460) para conhecer da costa do Senegal à Serra Leoa. E, em cada parada, im ediatam ente com eçaram a adquirir cativos. Dos j alofos e dos m andingas do Gâm bia. Dos sereres, no rio Salum , de onde, em 1455, saíram 40 escravos. E nos rios Cacheu e
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Geba, um ano depois. Com o duas décadas m ais tarde, Eustache de la Fosse adquiriria m ulheres e crianças na Costa da Malagueta, ou o pequeno contato com os europeus j á havia corrom pido os costum es do grupo que as vendeu, ou este j á
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conhecia a escravidão.
Tudo isso contrapõe-se à tese de Rodney e im pede que sej a aceita com o por ele form ulada. Mas não a invalida em sua essência. Ainda que houvesse escravidão em proporcionalm ente grande núm ero e com feições m ais com plexas entre os j alofos, no Tacrur, na hinterlândia da Costa do Ouro, no Benim e onde quer que reis e aristocratas fossem poderosos — e nisto concordam Walter Rodney e J.D. Fage: onde se punham de pé, arrogantes, o rei e o nobre, havia escravos, e o tráfico de seres hum anos se tornava apanágio dos grandes da terra —, a regra, ao longo da costa, seria a da escravidão fam iliar, para engrossar a linhagem e dividir com os senhores os trabalhos caseiros e no cam po. Trazia-se de longe, se tanto, m eia dúzia de cativos, para vender num a aldeia. E é possível que um diula os com prasse, e fossem eles, após dem orada viagem e talvez várias m udanças de dono, acabar na travessia do deserto. Não passava, contudo, na m aioria dos lugares, de um com ércio pequenino. Já a dem anda das caravelas tinha outro vulto. E sua contrapartida, nas trocas, eram artigos de grande prestígio, com os quais os poderosos reforçavam o núm ero e a fidelidade de seus seguidores. Vender cativos tornou-se, na costa, a receita rápida para aum entar o renom e, a influência, a riqueza e a força m ilitar de um rei ou do cabeça de um conj unto de aldeias. O com ércio com os europeus reforçou o poder dos chefetes am biciosos, um poder que se assentava no escravo, tanto com o produtor quanto com o produto, e crescia com o escravo. Foi-se alterando, assim , o sistem a de cativeiro existente nas aldeias, ao m esm o tem po que se criavam estruturas centralizadas de poder, onde elas não eram conhecidas, ou estas se fortaleciam , onde apenas se esboçavam .
De que esse tráfico, que sequer sonhava com o volum e sinistro que assum iria m ais tarde, foi precoce em corrom per os costum es locais e alterar com portam entos, dar-nos-ia um bom exem plo, no fim do século XVI, André
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Álvares d’Alm ada. Diz-nos ele que os felupes não tinham nem queriam ter
com ércio com os portugueses. Alta noite, cortavam as am arras dos navios destes, para que, sem governo, encalhassem . E assim os atacavam . Não cobravam resgate pelos portugueses e outros adversários que capturavam . Matavam -nos todos. Com o tem po, porém , algum as de suas com unidades foram -se entendendo com os pepéis e, por interm édio desses, passaram a resgatar os prisioneiros. E houve até uns poucos felupes que atravessaram o rio de São Dom ingos (ou Cacheu), se estabeleceram em novas terras e dali com eçaram a negociar com os portugueses, que deles iam tirando, pouco a pouco, o seu punhado de escravos. Parece, no entanto, que o tráfico ficou reduzido a esses e a outros grupos de felupes, pequenos e isolados no espaço e no tem po. Pois a esm agadora m aioria não se rendeu ao com ércio de escravos. Sem poder centralizado e excelentes agricultores, pescadores e criadores de gado vacum e caprino, os felupes não acolhiam estrangeiros em suas aldeias, em bora frequentassem com assiduidade
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os m ercados dos grupos vizinhos, aos quais iam oferecer os seus produtos. E, se
alguns outros diolas sofreram o contágio da escravidão no século XIX,89 dos felupes afirm a categoricam ente o experim entado africanista Henrique Augusto Dias de Carvalho, que viveu na Guiné-Bissau em 1898 e 1899: “Nunca fizeram
escravos, nem venderam o seu sem elhante.”90
Os felupes não estiveram sós na sua recusa a alienar cativos aos europeus. O m esm o fizeram os balantas e os bagas. E os crus da atual Libéria. E vários outros povos sem reis, aristocratas ou m andachuvas am biciosos, povos para os quais não fazia sentido trocar gente por bens supérfluos, quando a gente era a verdadeira riqueza.
Os acãs sabiam disso, em suas florestas subpovoadas — e com pravam hom ens e m ulheres com ouro. Viram com bons olhos a chegada das caravelas, porque isto significava rom per a dependência dos uângaras e abrir na m argem oposta da floresta novos centros receptores e distribuidores de escravos e outras m ercadorias estrangeiras. Dos m ais satisfeitos com a nova situação m ostravam -
se os acãs do litoral, os fantes91 e seus vizinhos, os adangbés e os gãs. Com punham , entre os rios Ankobra e Volta, um a fieira de pequenos reinos, cuj os governantes perm itiram aos recém -vindos que baixassem de seus grandes barcos e se instalassem entre eles, com o j á faziam com erciantes m andingas e de outros grupos acãs, e com eçavam a im itá-los os hauçás.
É bem verdade que os brancos eram gente estranha, bárbara e insensata, sem tem or ou respeito aos deuses e aos antepassados, capaz, por ignorância ou dureza de inteligência, de erros graves de com portam ento e até de abom inações e ignom ínias. No que tam bém se com paravam aos uângaras. Ao contrário destes, porém , nem sem pre sabiam ser bons hóspedes. Com portavam -se abusadam ente, com o se fossem os donos da terra. Não pareciam com preender que os presentes que davam ao rei e a toda a escala de com ando correspondiam , ainda quando houvesse troca de regalos, a im postos de ancoragem , de cedência e uso da terra, de passagem pelos rios e de autorização para com erciar, bem com o a taxas e com pensações por serviços j á recebidos, contratados ou que poderiam vir ou não a ser prestados no futuro. Por outro lado, as variações de valor e a falta de regularidade na entrega ou troca de presentes confundiam m uitas vezes o estrangeiro e não o deixavam perceber que as dádivas faziam parte de um sistem a de tributação e eram até, em certos casos, um sinal claro de que se suj eitava politicam ente ao rei quem as oferecia ou perm utava. Tom avam os portugueses por hom enagem e gentileza o que era obrigação — o pagam ento de licença para descer em terra, nela com erciar e nela erguer casas e depósitos. Essa falta de com preensão levava-os a reclam ar indevidam ente, quando um desses chefes deles retirava o que lhe cabia e não fora pago. Alguns desses chefes abusavam , é certo, ao confiscar, com o se fosse a título de m ulta por atraso de pagam ento, m uito m ais do que era devido. Mas os portugueses não ficavam atrás em seus descom edim entos, ao insistir em cercar seus pequenos bairros de tranqueiras e em transform á-los quase em cidadelas.
Este régulo e aquele cabeça de aldeia tinham interesse em que os portugueses estabelecessem entreposto em seus dom ínios. Recebiam , diretam ente ou em form a de presentes, im postos e taxas por tudo. Ganhavam o controle do com ércio. E asseguravam -se m enor inconstância nas relações de troca. As variações davam -se, aliás, em geral, a favor da gente da terra. Com o quando, estando um navio na enseada, outro chegava e se sabia que ia abarrotar o arm azém . No caso dos escravos, de m anutenção custosa e arriscada — sem pre podiam adoecer, m orrer ou fugir —, tinha-se por quase inevitável a queda dos preços. Ficando a estacada dos cativos na própria aldeia dos com pradores — não esqueçam os que na Costa do Ouro os portugueses vendiam , em vez de com prar escravos —, era difícil, se não im possível, aos forasteiros dispor dessa m ercadoria com liberdade e lentam ente, conform e as conveniências do com ércio. A m enos que o entreposto se transform asse em feitoria fortificada.
As vantagens, para o africano, de ter um entreposto europeu em suas terras dim inuíam , tão pronto esse se m ilitarizava. O chefe local não m ais sabia com precisão e m inúcia quais os produtos, e em que quantidade, baixavam dos barcos e ali se arm azenavam . Os seus capitães, prepostos e olheiros não m ais tinham acesso livre ao espaço m urado, onde os hóspedes acum ulavam arm as. E estas, em bora não tivessem por alvo declarado a gente da terra, constituíam sem pre um a am eaça em potencial e um travão ao com pleto exercício do governo pelas autoridades locais. Tornavam -se, quase que inevitavelm ente, com o tem po, enclaves de um outro poder.
Paliçadas, trincheiras e canhões eram instalados nas feitorias, tendo em vista precipuam ente outros brancos, que falavam idiom as diferentes daqueles que prim eiro tinham chegado. Mas aos fantes, com o aos dem ais povos do litoral, não incom odava em nada a presença desses barcos de outras nações. Pelo contrário, os navios castelhanos, que eram então os m ais com uns, e os franceses e ingleses só traziam benefício ao com ércio: derrubavam , com a concorrência, os preços dos escravos, dos tecidos, das contas, do cobre e do latão. E forneciam aos africanos as arm as que lhes negavam os portugueses.
A consciência de que não lhes interessava que estes se arrogassem a exclusividade do com ércio tornava os chefes litorâneos ainda m ais relutantes em conceder licença aos portugueses para que fortificassem seus entrepostos. Dessa
hesitação deixaram registros os cronistas Rui de Pina92 93 e João de Barros, quando resum iram num só encontro e num a só troca de argum entos, o dem orado esforço diplom ático que custou certam ente a Diogo de Azam buj a o obter a autorização do caram ansa para que se construísse, em 1482, o forte de São Jorge da Mina, concebido pela Coroa portuguesa, ao que tudo indica, para fazer frente
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às incursões dos barcos castelhanos e de outros europeus na área.
Segundo Eustache de La Fosse, o caram ansa era o chefe da aldeia que se tornaria conhecida com o Mina (ou Elm ina) e vassalo e preposto do verdadeiro
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rei de Com enda, cuj a capital ficava no interior. Não é de afastar-se, porém ,
que fosse o próprio soberano, ou um chefe local que havia crescido em status e
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poder, graças ao com ércio com os portugueses. Havia um a década que negociava com os europeus. Com gente que ali desem barcava, fazia seu escam bo e se apressava em partir. Daí que tenha estranhado — conform e João de Barros — que, de repente, chegassem de um a só vez tantos barcos (dez
caravelas 97 e duas urcas) e deles descessem pessoas cuj a im portância se m ostrava no apuro do vestir e nas j oias que traziam , do que concluía que não podiam “vir senão a grandes cousas”. A desconfiança do cabeceira revelou-se j usta, quando Azam buj a lhe indicou que sua m issão era a de construir um a casa-forte onde pudesse arm azenar suas m ercadorias e onde pudesse m orar com os seus hom ens. E, j á então, indicou-lhe um a vantagem que, depois, seria tom ada m uito em conta pelos reis e chefes praieiros: a de que, do fortim , os portugueses lhes prestariam aj uda m ilitar contra os seus inim igos.
O caram ansa não deve ter logo replicado, com o consta do relato de João de Barros. Se apenas um chefe local, seguram ente teve de enviar um em issário a seu rei, a contar-lhe a em baixada que acabara de receber. Se fosse ele próprio o régulo, seguram ente necessitou de tem po para ouvir os seus conselheiros. O que im porta é que tenha respondido com o respondeu: que iam bem os tratos entre as caravelas e os fantes de Com enda e que era m elhor que tudo continuasse com o até então, sem perigos de conflitos e guerras. “Que os navios” — dou a palavra ao cronista — “fossem e viessem com o soíam , ca per essa m aneira sem pre estariam em paz e concórdia, porque os am igos que se viam de tarde em tarde com m ais am or se tratavam que quando se vizinham .” O argum ento que talvez tenha feito o caram ansa m udar de ideia e concordar com a construção da fortaleza pode ter sido o de que o régulo de Sam á, o de Fetu e outros chefes vizinhos queriam que ela se erguesse em seus dom ínios. Não era boa coisa deixar que os portugueses levantassem um castelo nas praias de Com enda, m as pior ainda era tê-lo em solo de rivais ou inim igos.
Não foram fáceis as coisas. Tanto que Duarte Pacheco Pereira chegou a afirm ar que os da terra não queriam consentir no fabrico da fortaleza, e que esta,
“a seu pesar, se fez”. 98 Não se faria sem a perm issão, ainda que a contragosto, do rei, m as, apesar disso, não correram tranquilos os seus trabalhos. Prim eiro, porque os portugueses com eçaram a quebrar um a grande rocha, sem se dar conta de que era sagrada e sem antes oferecer as dádivas expiatórias. Tam pouco enviaram ao caram ansa e aos dem ais chefes os presentes que correspondiam à cedência da terra. Os negros, diante disso, procuraram im pedir o avanço da construção. Depois, porque as continuadas desavenças entre os locais e os portugueses, levou estes a queim ar a aldeia daqueles, com o a cum prir os
vaticínios do caram ansa.99
Antes desse ato de violência, cuj as possíveis consequências se dissolveram graças ao crescim ento do com ércio, os fantes j á tinham outros m otivos de apreensão. Viram descer dos navios quase seis centenas de hom ens (dos quais, segundo o cronista Rui de Pina, cem eram artesãos, “m estres de pedraria e
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carpentaria” ) e um a carga abundante que não se destinava ao m ercadej o, e
m uitos canhões, e pedras cuidadosam ente cortadas, e um as calhas de barro que só depois aprenderiam que servia para cobrir as casas. Os estrangeiros vinham para ficar, e o sinal m ais om inoso disto é que com eçaram a construir à sua m aneira, em m adeira e pedra. Era fácil com preender que aquela era um a técnica de erguer m oradias e fortificações que não reclam ava reform as periódicas (a substituição da cobertura de palha ou o preenchim ento das fissuras abertas pela chuva e pelo sol no reboco das paredes de barro socado), nem perm itia, pelo trabalho que custava, que se abandonasse um a povoação sem m aiores cuidados. Não eram casas bonitas com o as dos acãs — leves, frescas e de tetos de palha m uito altos, a descerem em ângulo agudo e em cam adas regulares —, m as tinham todos os sinais de perm anência.
Já em seu tem po, Duarte Pacheco Pereira destacara ser aquele, “depois de ser dada criação ao m undo”, “o prim eiro edifício” de pedra e cal que se
fabricava “em toda a Etiópia de Guiné”. 101 Não se tratava de um sim ples entreposto, m as, sim , de um a fortaleza, que se erguia a quase quatro m il quilôm etros da pátria dos que a levantavam . Com as m esm as técnicas, os m esm os m ateriais e as m esm as form as que em Portugal. Um feito
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extraordinário — com o, com j ustiça, j á se definiu. Em bora reform ado várias
vezes, tanto pelos portugueses quanto pelos holandeses que os sucederam , o castelo continua de pé, na península rochosa adj acente a Elm ina, tendo ao lado, a correr, o riacho Benj a, que o separava do reino de Fetu. E não falta quem concorde com igo em que é, ainda hoj e, o m ais im pressionante m onum ento
arquitetônico da República de Gana. 103
Term inado o castelo, voltaram as caravelas a Portugal, aj ouj adas de ouro, m alagueta e outros produtos adquiridos durante os m eses das obras. O fabrico do forte fora feito com celeridade, até porque j á tinham vindo cortadas e arranj adas não só as portas, as j anelas e o travej am ento dos telhados, m as tam bém as pedras para as colunas, as quinas das paredes e as m olduras dos abertos. Na Mina, perm aneceram Azam buj a e m ais 60 hom ens e três m ulheres, sem contar
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os que ali se sepultaram , m ortos por febres ou acidentes. Materializavam -se
os receios africanos. Os portugueses tinham vindo para ficar e construir um a nova estrutura de com ércio e poder, com o obj etivo de concentrar em suas feitorias o tráfico oceânico do ouro. Para isso, São Jorge da Mina não bastava. E eles fabricariam outros fortes, em Axim (ou Axem ), na prim eira década do século XVI, em Sam á (ou Sham a), m ais de cinquenta anos m ais tarde, e em Acra, pela m esm a época.
Logo aum entou o núm ero dos que se abrigavam nos fortes, ou ao lado deles punham suas casas. Aos portugueses som aram -se africanos que se fizeram seus clientes, e os escravos de uns e de outros, e os filhos dos europeus com m ulheres da terra. Os chefes africanos não contavam com a fidelidade desses indivíduos, m as, do m esm o m odo que os portugueses, procuravam utilizá-los com o interm ediários entre os seus reinos e os fortes. Mais que interm ediários, eles foram -se tornando pessoas de dois m undos, de duas culturas, e de um a cultura m ista, que era a deles.
O penedo onde se erguia a fortaleza estava perdido para a soberania do rei. Vinculava-se a um outro centro de poder, além -oceano, m uito distante, m as que as caravelas periodicam ente aproxim avam . E, com o se cortara a unidade de m ando, am iudavam -se as fricções e as contendas entre o povo da terra e a gente do forte. Os que dirigiam os dois grupos tinham , no entanto, interesse em acom odar as coisas, em reduzir as diferenças. O rei retirava do com ércio a com pensação pelos incôm odos que lhe causavam o enclave dos bárbaros. E a fortaleza tinha presente que a vida nela se tornaria im possível, se os da terra lhe cortassem a água e os m antim entos. Estava cercada por todos os lados, m enos por um e, em caso de guerra com o rei local, só poderia contar com um a im prevísivel aj uda da banda do m ar. Eram os nativos os que estavam na posição de força. Podiam bloquear os acessos ao castelo, atacá-lo, tom á-lo e pôr-lhe
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fogo. Tal qual sucedeu ao de Acra, destruído pelos gãs por volta de 1570, ou
cinco ou oito anos m ais tarde.106
O rei deixara de deter a exclusividade das transações. Vinham negociantes das m ais diversas partes, com ouro, m arfim , noz-de-cola, m alagueta, corantes e cera, para trocar com os portugueses. De todos eles, fossem m andingas ou de
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outros grupos acãs, com o os brons, os abram us, os etsis, os acanes, os
acroqueres 109 110 e os adanses, o rei cobrava, é bem verdade, pedágio e taxas sobre a entrada, a saída e o com ércio das m ercadorias. Mas lhe escaparia o controle sobre os bens que as alm adias traziam por m ar e desem barcavam no forte. Passavam de contrabando. E seria ainda m enor a sua faculdade de fiscalizar as que chegavam em veleiros ou barcaças portuguesas, enquanto não saíssem para o escam bo em terra.
Os fortes portugueses e as várias feitorias que, ao longo do litoral e entrando por alguns rios, a eles se ligaram , deram enorm e im pulso não só ao com ércio transoceânico, m as tam bém ao de cabotagem . Neste, ao term inar a construção do castelo de São Jorge da Mina, a presença portuguesa j á se estendia da Mauritânia até além do delta do Níger, e pronto atingiria a m argem m eridional do rio Zaire, com petindo com os num erosos povos nativos nele envolvidos. Se não os deslocaram dos m ercados costeiros, destes tom aram um a boa fatia, graças à rapidez com que as caravelas dim inuíam as grandes distâncias. Para cobrir as m enores e navegar bem próxim o às praias, usavam pequenos veleiros e barcos a rem o.
No reino do Congo, no delta do Níger e na reentrância da costa onde hoj e fica a cidade nigeriana de Lagos, os portugueses encontraram novas fontes de escravaria. Adquiriam cativos aos ij ebus, aos ij ós e aos itsequiris. Com pravam escravos e cobre na em bocadura do Zaire e vendiam o m etal ao obá do Benim , com quem esperavam desenvolver o m ais prom issor dos com ércios. A ele forneciam tam bém coral, latão e tecidos de lã e linho, recebendo de volta panos de algodão, coris, segis e outras contas, e um a pim enta que ali havia, e m uitos escravos. A pim enta-de-rabo (assim cham ada porque o pedúnculo ficava preso ao fruto) encontrara rapidam ente um bom m ercado na Europa e com eçou a com petir com a da Índia. Os dem ais produtos não saíam da África: todos eles, m as sobretudo os escravos, lhes rendiam ouro na Mina.
Era m ais um ponto no bordado. Com os j alofos, os portugueses j á escam bavam cavalos, ferro, alam béis, alquicés e alj arabias por escravos, e obtinham por esses escravos ouro, m arfim , m alagueta e noz-de-cola, na Costa da Mina.
A cola vendiam na foz do Senegal ou na do Gâm bia, e ali carregavam cativos para os acãs, e ouro, e m alagueta. Levavam sal, rios acim a, para o interior, e arroz para as regiões que o não produziam ou cuj as colheitas tinham sido insuficientes, e de retorno traziam ouro e cativos. Destes últim os, no fim do século XV e prim eiros anos do XVI, só seguiam para a Europa e para as ilhas atlânticas alguns escolhidos e os que não se colocavam na própria África — e não só entre os acãs, os principais clientes, m as tam bém entre outros povos que,
com o os bagas do rio do Nuno, 111 seriam com pradores em vez de fornecedores.
Se os portugueses com petiam com vantagem nos portos do litoral, bem distinta era a situação do com ércio nos sertões. Na verdade, abstraídas algum as aventuras individuais, eles m ordiam apenas a casca da África e gastariam m ais quatro séculos antes de pôr os dentes na sua polpa. Perlongavam a Guiné e, quando adentravam os rios, era com o se estes continuassem a linha da costa. Não iam além das aldeias que term inavam nas águas. E dependiam , para abastecer-se de ouro, escravos, âm bar, m arfim , cera ou o que m ais fosse — e até de alim entos —, da gente da terra, de seus chefes e reis e, em boa m edida, dos próprios bixirins, diacanquês, uângaras e m ercadores litorâneos de quem tentavam arrancar um a boa lasca do com ércio.
Trocou-se m uito ouro contra cobre, tecidos, contas e escravos, nos fortes da região da Mina. Sem com putar-se o que deve ter entrado de contrabando, os portugueses levaram para o castelo de São Jorge, no período que vai de 1500 a
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1535, entre dez m il e 12 m il escravos. E estim a-se que Lisboa tenha recebido,
anualm ente, daquela fortaleza, nas duas últim as décadas do século XV, cerca de
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400 ou 500kg de ouro, e entre m ais de 410 e 700kg por ano, nos vinte prim eiros anos do Quinhentos. Isto não significa, contudo, que Fernand Braudel estej a correto quando afirm ou que os portugueses conseguiram desviar com tam anha eficiência para os seus fortes e entrepostos no Atlântico o fluxo do ouro, que o tráfico transaariano se desm oronou, disto resultando, no fim do século
XV, um a grande escassez do m etal am arelo no Magrebe. 117 Nem tam pouco Teixeira da Mota, para quem os m ercadores norte-africanos entraram em desespero, ao verificar que as caravanas do Saara “traziam cada vez m enos ouro”, porque este se “esgotava agora para o Atlântico, para bordo das caravelas
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e naus”. Se era m enor a quantidade de ouro sudanês que chegava ao
Marrocos e à Argélia, o fato não se explica apenas pela com petição do tráfico oceânico, m as tam bém pelas guerras expansionistas de Songai e pela insegurança que as lutas pelo controle de Tom buctu causaram nas rotas transaarianas que partiam daquela cidade, fazendo com que o ouro derivasse para os portos da Hauçalândia e ganhasse os cam inhos da Líbia e do Egito. Em 1511, por exem plo, um funcionário português, baseando-se em inform ações prestadas por dois escravos j udeus, escrevia da Índia que chegavam anualm ente
ao Cairo duas caravanas carregadas de ouro do Sudão.119
Muito ouro foi captado, sem dúvida, pelos portugueses. Talvez a m etade do
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que antes, saindo da África Ocidental, atravessava o deserto. Ou ainda
m enos. Jean Devisse insinua que apenas entre 1/3 e 1/4, pondo no prato português
da balança o que era obtido em toda a costa atlântica.121 Os uângaras e seus sem elhantes m ercadej avam o resto. No com ércio do ouro do Sudão Ocidental — Devisse é categórico —, a caravela não venceu os cam eleiros. Julga ele que a produção não só não dim inuiu, em dois séculos de com petição entre o Atlântico e
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o Saara, m as provavelm ente aum entou. Não se pode, com efeito, descartar a
hipótese de que os acãs, na região da Mina, anim ados com os novos clientes surgidos do m ar, tenham expandido a produção aurífera ou am pliado o volum e do que punham à venda.
Sabe-se que os reis acãs procuravam controlar a extração, o uso e o
m ercadej o do ouro, reduzindo a sua oferta para aum entar-lhe o valor. 123 Há até quem j ulgue que o soberano de Bono tinha, m uito antes da chegada dos portugueses, feito da cata e do com ércio auríferos m onopólio real, conduzido por
seus agentes e escravos. 124 Com boa prática em disciplinar os fluxos do ouro, o norm al seria que os acãs procurassem m anter os preços altos, aj ustando às suas conveniências a quantidade de m etal que punham à disposição dos clientes da savana e da costa.
Do que não tenho dúvida é de que os portugueses operavam , na Mina, com vantagem sobre Jené. Prim eiro, porque os seus fortes estavam m uito m ais próxim os dos cam pos auríferos. Quase ao lado. Segundo, porque as m ercadorias trazidas da floresta para o litoral praticam ente não necessitavam de transbordo. Mudavam um a ou duas vezes, quando m uito, da cabeça dos carregadores para o boj o dos barcos, antes de em barcar nas caravelas, enquanto que as que seguiam para o norte tinham de atravessar, até chegar ao deserto, diferentes paisagens (floresta, cerrado e Sael), cada qual com seu m eio de transporte próprio: carregador, canoa, asno, boi e cam elo.
Os m andingas com pensavam essa desvantagem com a eficiência de sua rede m ercantil no interior. Com preenderam que se abrira, ao longo das praias, um a nova fronteira, com a chegada dos portugueses, nos quais não podiam deixar de identificar diulas com o eles próprios, negociantes que saíam de suas terras para dedicar-se ao com ércio a distância. (Quase um século e m eio m ais tarde, quando Richard Jobson andou em negócios pela Gâm bia, um m andinga lhe disse, solidariam ente, que tam bém ele, Jobson, era um diula, um colega, um m ercador
deam bulante, que passava a vida no estrangeiro.125) Sabiam os m andingas, por provada experiência, ser, em geral, m ais fácil tratar com cam aradas de ofício do que com reis, régulos, chefes, nobres e gerontocratas, os quais, do Senegal ao Benim , eram os únicos que podiam , diretam ente ou por m eio de prepostos,
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exercer o com ércio exterior. Por isso, desde o início, buscaram contatos com
os portugueses. Duarte Pacheco Pereira dá notícias deles a traficar na fortaleza
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de São Jorge da Mina. E os inform antes de Valentim Fernandes o confirm am ,
acrescentando que os m andingas traziam m ercadorias de enorm es distâncias e
eram m uito estim ados tanto pela gente da terra quanto pelos europeus. 128
Nos textos quinhentistas sobram boas palavras para diulas ou uângaras. Os portugueses os adm iravam pela com petência e probidade. Um a adm iração que deve ter nascido da continuidade do trato e que o antagonism o às suas práticas religiosas e ao em penho com que procuravam dissem inar o islam ism o não anulava. Desse respeito e sim patia faz eco André Donelha, quando, escrevendo no prim eiro quartel do século XVII, declara: “(...) os m aiores m ercadores que há em Guiné sãos os m andingas, em especial os bixirins, que são os sacerdotes. Estes (...) correm todo o sertão de Guiné e todos os portos do m ar, e assim não se achará nenhum porto, desde os j alofos, São Dom ingos, rio Grande até à Serra
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Leoa, que neles não se achem m andingas bixirins.”
É possível que os portugueses tenham , ainda que com algum a dem ora, percebido que, a partir da Costa do Ouro, os m andingas alim entavam de ouro, escravos, âm bar, m arfim , cera, alm íscar, índigo, peles e plum as as caravanas do deserto, pois os viam adquirindo na fortaleza de São Jorge e, depois, em Axim , Sam á e Acra, os m esm os produtos — os alam béis, os alquicés, as alj aravias — que os árabes e berberes traziam do norte do Saara. Os m andingas não m ais cruzavam a floresta apenas em busca da noz-de-cola, nem desciam até a costa som ente para com prar sal. Podiam doravante obter ali, na costa, tudo ou quase tudo que lhes vinha dos portos do Sael. Afreguesaram -se dos portugueses. O que deles adquiriam iam trocar, com lucro, nos sertões. No rio Gâm bia, vendiam -lhes escravos e, nos fortes da Mina, os com pravam . Pelos cativos que conseguiam no castelo de São Jorge alcançavam ouro dos acãs, que levavam para Tom buctu ou para o litoral, conform e fosse para eles m ais vantaj oso. E, se perdiam para os portugueses a m etade do ouro acã, com pensavam o dano, aum entando o núm ero de escravos que punham a m archar no deserto, ao lado
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dos drom edários. Isto, sem detrim ento da escravaria que traziam da savana
para vender aos acãs da floresta, pois essa deve ter sido sem pre m uito m ais
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considerável do que a desem barcada dos navios portugueses.
O uângara olhava para o português m ais com o cliente ou parceiro do que com o rival. Ao erguer nas praias do oceano um a série de entrepostos sem elhantes aos que existiam , desde havia m uito, na faixa de encontro do Saara com a savana, os portugueses tinham fortalecido, ainda que involuntariam ente, o sistem a com ercial m andinga, que passara a poder abastecer-se em duas pontas, a do Sael e a do Atlântico, de produtos do Mediterrâneo, do norte da Europa e da Ásia. Quanto aos portugueses, procuraram eles tirar o m aior proveito possível de um a rede m ercantil m uito antiga, a m andinga, cuj a eficiência não ficava atrás de sua extensão, e que tinha agentes que falavam várias línguas, m ascateavam de vilarej o em vilarej o e se distribuíam , com o m oradores ou à cabeça de entrepostos, por quase todos os reinos, chefias, m argens de rio, feiras e com eços, térm inos ou encruzilhadas de cam inhos.
Claro que m andingas e portugueses disputavam o ouro que os acãs punham com cautela e m anha no m ercado, a fim de obter por ele a m elhor paga. E de que os portugueses nem sem pre levavam a m elhor no confronto com os m andingas, vê-se bem em duas cartas de diferentes governadores da fortaleza da Mina. Na prim eira, de 1510, Manuel de Góis reclam a da m á qualidade dos tecidos de Orã que estava recebendo e alega que não podiam concorrer com os oferecidos pelos bixirins. Na outra, de três anos m ais tarde, Antônio Fróis, após queixar-se da falta de m ercadorias no forte, declara que, se dispusesse de um a grande quantidade de escravos e outros bens para oferecer aos acãs, poderia fechar o vazam ento de ouro para os m andingas (isto é, para as cáfilas
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transaarianas), que aum entara e m uito. Dessas cartas poder-se-ia inferir que
os diulas j á não atuavam com o interm ediários no com ércio do ouro entre os produtores da floresta e os portugueses e que estes se entendiam diretam ente com os m ercadores acãs. A concorrência não chegava, porém , a danar, a não ser em algum as circunstâncias, em alguns lugares e em alguns m om entos, o clim a de interesse m útuo e até am istoso que cercava os constantes negócios entre m andingas e portugueses.
A verdadeira com petição dava-se entre o cam elo e a caravela. Por isso que o português esforçou-se com o pôde para trazer para si o diula. Mas este resistiu com igual força, porque só encontrava vantagens num a nova situação em que podia contar e j ogar com duas grandes frentes de com ércio. Convinha-lhe traficar com os portugueses, m as era igualm ente de seu interesse m anter vivas e bem abastecidas de ouro, de escravos, de cola e de todos os dem ais produtos da África subsaariana as rotas caravaneiras do deserto.