A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 23 de 30

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A Manilha e o Libambo

21. Ao sul do Save

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Ao sul do Save

 

À m edida que se descia a costa ao sul de Inham bane, iam -se esgarçando os vínculos com o universo com andado pelas m onções. Raram ente, e quase sem pre por acaso, chegava um barco suaíli, árabe ou indiano aos litorais inóspitos que ficavam , no m apa, abaixo de Inhapula. As costas entre a foz do Save (ou Sabi) e o cabo das Correntes recebiam , porém , de vez em quando, zam bucos, pangaios ou luzios, que iam adquirir m arfim , abundante naquelas plagas, e âm bar, e cornos de rinoceronte, e tam bém , nas ilhas de Bazaruto, pérolas de excelente

qualidade.1 De que assim era dá prova, no início do Quinhentos, um a com unidade m uçulm ana no arquipélago.

Os próprios portugueses instalados nas cidades da Contracosta só de vez em quando estendiam o seu com ércio além da baía do Espírito Santo (m ais tarde, Lourenço Marques, Delagoa ou Maputo). Em bora ao sul do Save j á com eçassem a escassear as enseadas, os litorais passassem a ser agredidos por arrebentações violentas e se tornassem m ais frequentes as tem pestades, os portugueses insistiam em velej ar até aquela grande baía, em cuj as m argens encontravam populações m ais densas do que no resto do litoral, se criava um bom gado e havia fartura de tubérculos, legum es e cereais. Até lá talvez tam bém descessem ferro, cobre e ouro dos planaltos entre os rios Lim popo e Vaal. Mas era sobretudo para recolher m arfim que, por volta de 1552, a baía do Espírito Santo recebia, vindo de Sofala,

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um navio por ano. Nas décadas seguintes, diz-nos frei João dos Santos, o capitão da ilha de Moçam bique enviava, cada 12 m eses, um a naveta para a baía, e um a outra, ou um pangaio, para Inham bane e o cabo das Correntes. Além de m arfim , obtinham -se, nesses lugares, âm bar, m el, m anteiga, cornos e cascos de

rinocerontes e dentes e unhas de hipopótam os. 3

Outros barcos, de m enor porte, com o batéis e luzios, deviam percorrer, vez por outra, aquela parte do litoral, a m ercadej ar com os cocas e os tsongas. E alguns poucos não hesitavam em avançar pelas costas de Natal, ainda m ais para o sul. Não seria, portanto, um a figura isolada o Sim ão Dote que em prestou o

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nom e a um rio daqueles lados, por lá ter ido com prar presas de elefante. Tanto assim que, em 1589, os náufragos do galeão São Tom é foram acolhidos, nas

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m esm as bandas, por negros acostum ados a com erciar com os portugueses.

Os tsongas, 6 que habitavam as m argens da baía do Espírito Santo e os vales férteis dos rios que nela desem bocam , j á haviam então expelido do sul do Lim popo inferior os cocas ou bitongas, ou os absorvido. Distribuíam -se por conj untos habitacionais (com pounds ou hom esteads), a guardar distância entre si. Em cada um deles, protegido por um a cerca alta, vivia o chefe da fam ília com , em distintas cubatas, suas m ulheres e filhos, as esposas destes, os netos e uns poucos agregados. As m oradas dispunham -se em arco, havendo no centro deste um curral redondo. Cada cabana fem inina possuía um pátio, envolvido por um a cerca m ais baixa. Em m édia, o conj unto abrigava as fam ílias de sete hom ens

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casados. Se aum entava m ais do que convinha de tam anho ou em seu seio surgiam desavenças, um ou m ais filhos podiam , com m ulheres e filhos, dele se separar e ir estabelecer, geralm ente nas proxim idades, um novo com pound.

A principal atividade era a agricultura. Da terra os tsongas tiravam sorgo, arroz, feij ões, m eixoeira, banana, cana-de-açúcar, abóbora, cítricos e algodão. Cultivavam tam bém o m bangue ou m aconha, provavelm ente introduzida na África Oriental, alguns séculos antes, pelos árabes e indianos, e obj eto de um bom com ércio, não só entre o altiplano e a costa, m as tam bém entre os bantos,

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de um lado, e os cóis e os sãs, de outro. E a partir da m etade do Quinhentos,

m as sobretudo no século XVII, foram -se am pliando os recursos agrícolas da África Índica, graças à difusão das plantas trazidas do Brasil pelos portugueses, com o o m ilho, a m andioca, a batata-doce, o ananás, o caj ueiro, o abacateiro, a

goiabeira, a m am ona, o am endoim e o tabaco.11

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Ao contrário de seus vizinhos vendas, sotos e angúnis, os tsongas com iam peixes e m ariscos. Eram excelentes pescadores, construindo tanto arm adilhas nos rios quanto cercados de caniço no m ar, para reter o peixe

arrastado pela m aré vazante. 15 E caçavam as baleias que todos os anos vinham parir na baía do Espírito Santo, utilizando para isso canoas capazes de entrar m ar

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adentro, levando 14 hom ens.

Os tsongas criavam galinhas. Mantinham cabras em todos os currais e, em alguns deles, quando a tsé-tsé o perm itia, algum as vacas. Tal era o caso na baía, onde os bovinos eram num erosos. A principal fonte de carne era, contudo, a caça. Dela retiravam tam bém os artigos de seu com ércio com o Índico: as presas de elefante, os cornos de rinoceronte e os dentes de hipopótam o.

Na m aioria das áreas, predom inavam pequenas chefias, constituídas por vários conj untos habitacionais e com preendendo, todos som ados, entre seis m il e

oito m il pessoas. 17 Na baía do Espírito Santo, a posse pelos chefes de grandes rebanhos e o controle da produção e do m ercadej o do m arfim — cabia-lhes um a presa de cada anim al abatido — favoreceu o desenvolvim ento de chefias

poderosas, que se tornaram reinos.18 Em alguns lugares, as tradições afiançam que os grandes chefes vieram de outras terras: de Natal ou do noroeste, e estes

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últim os seriam xonas carangas.

As influências xonas carangas ao sul do Save não se restringiram aos tsongas. Muito antes da chegada dos portugueses, grupos xonas j á se tinham im posto com o elites sobre diferentes populações, sobretudo cocas ou bitongas. O zim babué de Manicuene, a apenas 50km do litoral, seria um a indicação de quão

próxim o da costa haviam chegado os xonas.20 E eram várias as aristocracias de reinos e chefias ao sul do Save que reclam avam ascendência caranga. Assim , a dos Va-Lengues, na m argem esquerda do Lim popo, a de Inham pura, na planície

de Bilene, a de Gam ba, 21 a sudoeste de Inham bane, a de Danda (ou Ma-Danda), a de Sono, sobre o trópico de Capricórnio, e a de Tem be, no norte da baía do

Espírito Santo. 22

Os portugueses, ao entrarem em contato com Tem be, não tiveram dúvida em cham ar-lhe reino. Em bora o seu soberano se arrogasse a suprem acia na baía, na verdade não a detinha. Nem ele nem seus rivais, com o Inhaca, que ficava na m argem m eridional do golfo. Durante os séculos XVI e XVII, nenhum desses estados tsongas logrou dom inar todos os ancoradouros da baía e, m uito m enos, o curso inferior dos rios que nela desem bocam . Os portugueses logo com preenderam isso e procuraram com erciar com todos, ainda que, no início, privilegiassem Inhaca. Tanto ali quanto na ilha Xefina, em território tem be, m antinham acam pam entos sem iperm anentes, conj untos de palhotas que lhes serviam de depósito e abrigo. Neles ficavam por algum tem po (em geral, quatro

m eses), a m ercadej ar, em seus batéis e luzios, por toda a área. 23

O com ércio com os portugueses fortaleceu esses reis. Cada um deles esforçava-se para atrair os navios europeus e, assim , obter os bens de prestígio com que presenteava seus apaniguados e aum entava os rebanhos com que ostentava riqueza e poder. Graças ao tratam ento preferencial que lhe outorgaram os portugueses, Inhaca pôde entregar-se a um a aventura expansionista, tendo por obj etivo o controle das rotas com erciais. O seu dom ínio estendeu-se, então, para

oeste, até a cordilheira dos Libom bos e, para o sul, até a baía de Santa Lúcia.24

A partir de 1621, quando o rei de Inhaca se indispôs com os portugueses, Tem be tornou-se o parceiro preferido, e a ilha de Xefina, o centro das operações m ercantis lusitanas na baía do Espírito Santo. Em consequência, Inhaca m inguou de im portância e veio a dividir-se em dois pequenos estados, o segundo dos quais

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recebeu o nom e de Machavane.

Quase desde o com eço de seus contatos com os tsongas, os portugueses referem algum as com pras de escravos. Seriam estes em núm ero reduzidíssim o, sobretudo m ulheres e crianças capturadas em encontros arm ados, m as só raram ente provinham do sul ou do interior, um a vez que os angúnis e os soto-

tsuanas não vendiam seres hum anos.26 O que os tsongas iam adquirir no planalto eram outros produtos: ferro, cobre, ouro, estanho e m arfim . Pois de tudo isso tornaram -se grandes com erciantes, explorando as oportunidades m ercantis existentes num enorm e arco que ia do reino de Teve, ao norte, até Natal, ao sul, passando pela terra dos vendas, no Zoutpansberg (ou Soutpansberg), a oeste, e pelo território pedi, no high veld, a sudoeste. E não se restringiam a m ercadej ar com os portugueses. Tornaram -se tam bém fornecedores dos navios ingleses e de outros países europeus, beneficiando-se de um a com petição de dem anda, que

faria subir os preços do m arfim .27 Na verdade, durante o século XVII, a baía de Lourenço Marques recebeu m ais barcos de outras bandeiras do que os que hasteavam a portuguesa. Num a determ inada sem ana de 1686, por exem plo,

estavam ali ancorados nada m enos do que cinco navios ingleses.28

O m arfim provinha de toda parte: dos planaltos do interior, de Natal e de bem perto, pois nas proxim idades da costa peram bulavam grandes m anadas de elefantes. Rita-Ferreira estim a que, entre 1500 e 1900, só na região entre o rio Save e a baía Delagoa e entre a orla m arítim a e a cordilheira dos Libom bos, se

abateram acim a de um m ilhão daqueles anim ais. 29 Com o increm ento da dem anda externa e, portanto, da im portância econôm ica da caça ao elefante,

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esta, um a atividade coletiva, podendo envolver um as 150 pessoas, tornou-se

obj eto de crescente controle pelos reis, régulos e chefes, que passaram tam bém

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a governar o transporte das presas e sua com ercialização. Consequentem ente,

aum entou o prestígio dos grandes caçadores nas com unidades tsongas. E do próprio elefante. A tal ponto que j á se sugeriu que aquele anim al tivesse entre os tsongas um a centralidade sem elhante à do boi entre os nilóticos, os fulas e os angúnis, pois tornou-se obj eto de canções épicas, de adivinhações e de práticas

m ágicas. 32 Corria longe a fam a dos caçadores m ais audazes, daqueles que conseguiam aproxim ar-se dos m achos m aiores e lhes desferir a m achadada que cortava os tendões da pata. O anim al ficava, assim , im possibilitado de andar, e o próprio peso do corpo lhe quebrava a perna. Quando um rapaz abatia o prim eiro elefante, o pai m andava m arcá-lo com um sinal que o identificava com o

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pertencente à elite dos caçadores.

O m arfim tinha m uitas origens. Já os artefatos de ferro eram obtidos em grande parte no Zoutpansberg, um a cadeia de m ontanhas coberta de densas m atas, ao sul do Lim popo e a oeste do rio Pafuri. Nessa região, instalar-se-iam , com o aristocracia dom inante, no fim do século XVII ou talvez antes, os vendas, originários, segundo sua história oral, das bandas do oriente, de um a região cheia de lagos. Teriam eles logrado im por-se sobre a gente que ali vivia, os angonas, graças a um tam bor m ágico que traziam , o ngom a-lugundu, o qual, ao ser tocado, prostrava no sono os adversários, perm itindo que fossem m ortos ou reduzidos sem resistência. Antes de chegar ao Zoutpansberg, os vendas teriam

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vivido por m uitos anos entre os xonas carangas.

Com os vendas teria vindo um grupo de lem bas,35 a m enos que estes os tivessem antecedido no Zoutpansberg. Os lem bas eram habilíssim os artesãos do ferro, cobre e ouro. E tornaram -se igualm ente renom ados com o tecelões e poteiros. Mas, se eles e os vendas com erciavam os artigos de cobre, não controlavam as suas m inas em Messina (ou Musina). Estas estavam nas m ãos de um a linhagem proveniente do país tsonga, que cavava os poços com trabalhadores vendas, sotos, xonas e angúnis, e vivia do cobre, que trocava por

alim entos, pois não cultivava o solo nem criava gado. 36

Os vendas erguiam suas aldeias em lugares pouco acessíveis, no alto das m ontanhas. Cercavam -nas com m uros de pedra, e de pedra construíam escadarias e socalcos, para sustentar, nas encostas, os seus cultivos. Há sinais de

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que conheciam o regadio, o que abona a tese de que eram bons agricultores. Em com pensação, tinham pouquíssim o gado, um a vez que o Zoutpansberg estava envolvido por áreas infestadas de tsé-tsé. A carne que com iam era dos anim ais

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que caçavam , auxiliados por cães enorm es, que m ais pareciam bezerros.

Possuíam os vendas estruturas sociais e m odos de vida sem elhantes aos dos tsongas e sotos. O com portam ento em relação aos chefes tam pouco discrepava do que se tem por predom inante na África Oriental. Assim , quando um rei m orria, apagavam -se todos os fogos existentes em seu dom ínio, e só se reacendiam na ascensão do sucessor. Os vendas conheciam a m orte ritual do chefe, por estrangulam ento ou asfixia. E desidratavam o seu cadáver, para só lhe

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enterrar os ossos, acom panhados por um a vaca.

Monica Wilson sugere, baseada no relato do piloto árabe de Vasco da

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Gam a, que parte do ouro que se com erciava naquela parte da costa viesse do

país dos vendas. 41 Pelo m enos foi assim de 1719 a 1730, período durante o qual os holandeses m antiveram um entreposto na baía de Lourenço Marques: o reino dos bveshas, isto é, dos vendas, era um a das fontes do pouquinho de ouro que

logravam obter.42

De que o ouro chegava ao litoral ao sul do Save, não há dúvida. Ao Lim popo os portugueses cham aram por algum tem po rio do Ouro. E em Tenge, o padre André Fernandes, ao descrever, em 1560, os penteados em chifres da gente da terra, diz que na ponta dos cornos de cabelo punham um pequeno enfeite daquele

m etal. 43 Talvez tam bém o tivessem do planalto do Zim babué. Ou do norte do Transvaal, onde, desde m uito antes da chegada dos portugueses, j á se exploravam m inas auríferas.

Em 1498, os m arinheiros de Vasco da Gam a, ao desem barcarem j unto à foz do que talvez fosse o Inharrim e, encontraram tantas argolas de cobre nas pernas, nos braços e nos cabelos dos locais, que deram àquele rio o nom e do m etal. Ali

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tam bém viram estanho nas guarnições de punhais com bainhas de m arfim . O

cobre que não provinha de Messina tinha por origem o nordeste do Transvaal. Para ser m ais preciso, Phalaborwa ou Paraotte, entre os rios Letaba e dos Elefantes (ou Olifants), um a área tam bém de solos pobres e cuj os habitantes, pertencentes ao grande grupo linguístico e cultural dos soto-tsuanas, dependiam , para adquirir alim entos, dos lingotes de cobre e das enxadas de ferro que produziam . Com o sucedia entre outros grupos sotos, dessa gente de Phalaborwa devia fazer parte um bom núm ero de artífices, que trabalhavam com esm ero e requinte o cobre, o estanho e o ferro. No que se diferençavam dos dem ais era na pouca relevância que tinha entre eles, num a terra sáfara, a agricultura; e tam bém , a pecuária, por causa da tsé-tsé que abundava nos arredores. Ao contrário do que se passava em Phalaborwa, os sotos do Transvaal e do Orange,

do m esm o m odo que os seus parentes tsuanas, 45 que viviam m ais para oeste, tinham no am anho do solo e no cuidar dos bois a base de seu bem -estar.

As m inas de cobre explicariam por que os sotos se instalaram em Phalaborwa, um a vez que, sendo criadores de gado, se afastavam em geral das áreas onde grassava a doença do sono. Quando tinham de passar por regiões infestadas, ou nelas parar, sabiam com o proteger os seus rebanhos: evitavam os m atagais onde se escondiam as m oscas; durante o dia, acendiam fogueiras com m uita fum aça, ao redor das boiadas; e procuravam viaj ar à noite, pois à noite a tsé-tsé não pica. Além disso, em certa época do ano, queim avam os capinzais, a

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fim de evitar o crescim ento de m oitas nas quais o inseto se m ultiplicava.

A riqueza entre os soto-tsuanas contava-se por cabeças de gado bovino. Não as queriam para abate, obtendo da caça a carne de que necessitavam . Das vacas aproveitavam o leite e as usavam no transporte de gente e de carga, pois é possível que tivessem aprendido com os hotentotes a m ontar em bois. Ao contrário de outros grandes criadores de gado, m antinham os seus rebanhos de hastas longas (diferentes, portanto, dos de chifres curtos dos xonas, angúnis e cóis) em currais e pastagens a boa distância de suas cidades e aldeias.

Estas localizavam -se quase sem pre no alto das m ontanhas ou em suas encostas. E eram bastante grandes, podendo abrigar m ilhares de pessoas. Os soto-tsuanas discrepavam , assim , de seus vizinhos tsongas e angúnis, que m oravam em com pounds fam iliares, isolados na paisagem .

Ao redor das aglom erações urbanas soto-tsuanas, nas quais havia, ao que

parece, m uros e pequenas cabanas de pedra, 47 estendiam -se os cam pos cultivados com sorgo, feij ões, abóboras, m elões, cabaças e m aconha. Das plantas am ericanas, só um a teria tido pronta aceitação: o tabaco. O m ilho e a m andioca dem oraram m ais de dois séculos para serem adotados.

Os sotos destacaram -se tam bém com o entalhadores de m adeira e m arfim e, principalm ente, com o curtidores. Suas peles de chacal e gato selvagem , que cosiam cuidadosam ente um as às outras, para form ar grandes m antos, tornaram -se fam osas pela flexibilidade e m aciez. Muitas delas eram vendidas para longe, da m esm a form a que as enxadas de ferro e os braceletes e outras m anufaturas de cobre. O curioso é que, apesar de altam ente urbanizados, os soto-tsuanas não conheceram as feiras ou m ercados regulares, com uns no resto da África. Nem

eles nem os outros povos ao sul do Lim popo.48

Já ressaltei que não vendiam gente. Não conheciam tam pouco a escravidão, ainda que os seus grandes pudessem ter grupos inteiros de clientes obrigados a

servi-los. Os saruas, 49 que falavam um idiom a cói, m as se com portavam socialm ente com o sãs, tinham , por exem plo, de caçar e coletar produtos silvestres para os seus senhores tsuanas, que os tratavam com o m aior desprezo, com o se não fossem gente — não aceitavam sequer que lutassem em seus exércitos —, m as não podiam aliená-los.

As elites soto-tsuanas desenvolveram tam bém um regim e de clientela por m eio da cessão de gado. Um hom em rico entregava a pessoas sem recursos algum as vacas, para que delas cuidassem ; e o pobre retinha para si, com o paga, um bezerro dos quatro, cinco ou seis que nascessem . Algo sem elhante se passava com os caçadores. Os tsuanas cediam cães aos clientes, em geral bosquím anos, e, em troca, esses eram obrigados a entregar-lhes as peles dos anim ais selvagens

que abatessem .50

A partilha e o em préstim o de gado eram im portantes alavancas políticas. Com a prom essa ou a efetiva cedência de bovinos, um príncipe inconform ado com a derrota num a disputa sucessória, ou insatisfeito com sua condição de irm ão ou filho de rei, conseguia arregim entar seguidores para ir fundar um novo estado, no qual se reproduziam as estruturas políticas daquele que deixava. Na nova corte, o príncipe que se fazia rei era de todo independente e soberano, m as reconhecia a precedência ritual de quem se apartara.

Cada pequeno estado soto-tsuana com preendia um a capital, com vocação para transform ar-se num a cidade am pla e populosa, algum as aldeias vizinhas, cam pos lavrados e currais de gado, além de um certo núm ero de bandos de clientes, caçadores e coletores. É provável que prevalecessem , j á então, as regras de governo que se conheceriam no século XIX. Se assim tiver sido, a principal atribuição do régulo seria, em tem po de paz, a de conciliar interesses em disputa. No Oitocentos, era, aliás, a prevalência da arbitragem na solução de controvérsias entre linhagens e indivíduos o que caracterizava o regim e político dos soto-tsuanas. Em vez de m antida pela força, a autoridade era assegurada pela negociação e o com prom isso. Nas assem bleias populares, havia grande liberdade para criticar o chefe, que não estava acim a da lei e podia ser j ulgado pelos seus

conselheiros.51

Lado a lado com a continuada fissão dos pequenos estados, processava-se a integração de alguns deles em entidades políticas m aiores, sobretudo nas áreas bem dotadas de água e ricas de pastagens. Com o no sul e sudoeste do Transvaal, onde, no fim do século XVII, desenvolveram -se os grandes reinos de Kgatla,

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Hurutshe, Kwena e Rolong.

A sudeste dos sotos ou, m elhor, a leste da cordilheira do Drakensberg, entre o rio Pongola (ou Phongolo), ao norte, e o Fish, ao sul, m as, em geral, afastados da beira-m ar, viviam e vivem os que falam os idiom as angúnis e se distinguem em

várias nações, entre as quais a suázi,53 54 55 56 a zulu, a tem bu, a pondo, a

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pondom ise e a xosa. Sendo boiadeiros, explica-se que não se instalassem na faixa costeira, onde os pastos só eram bons quando novos, pois, logo em seguida, de pouco serviam ou danavam os rebanhos.

Quando, após as chuvas, a relva despontava neste cham ado sourveld, ou pasto azedo, os angúnis levavam os seus anim ais para com ê-lo. Depois, o traziam de volta para o sweetveld, ou pasto doce do interior, que era nutritivo o ano inteiro.

Praticavam , assim , um a transum ância sazonal, m as não eram nôm ades.59 Viviam em conj untos habitacionais perm anentes, só abandonados quando o

cabeça da fam ília m orria.60 Esses com pounds situavam -se nas encostas das m ontanhas, próxim o a rios, ribeiras, riachos e regatos, pois, m ais do que a qualidade do solo, era a presença da água o que determ inava a ocupação do território. Idealm ente, entre os xosas, cada chefia dom inava o seu curso d’água,

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do qual só podiam beber a sua gente e o seu gado.

As chefias exerciam -se, portanto, sobre um a área territorial definida. Era a vizinhança e não necessariam ente o fato de pertencer a um m esm o clã o que definia a que estrutura de poder um com pound ou um grupo de com pounds se

vinculava.62

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Cada conj unto habitacional — o um zi ou um uzi dos xosas e zulus —

com punha-se, com o entre os tsongas, de um cabeça de fam ília e seus dependentes. As cubatas, de duas a 15, m as podendo chegar a 40, dispunham -se em sem icírculo, com o kraal, ou sej a, o curral, no interior da m eia-lua, sem pre aberta para o nascente. Havia um a choça por esposa, m as, caso o m arido fosse um hom em rico, isto é, tivesse m uitas cabeças de gado, cada um a de suas m ulheres podia contar com três cabanas: um a para cozinhar e dorm ir, outra para as crianças e visitantes, e um a terceira para depósito. A poligam ia, em bora um ideal, só estava ao alcance de poucos: contavam -se os plebeus com m ais de um a

m ulher, porém um chefe podia ter um a dúzia. 64

As cabanas tinham a form a de pequenos dom os, construídos a partir de um a arm ação de varas, rebocada de argila e bosta de vaca e coberta de palha. O chão, entre os zulus, era um a m istura de form igueiro pilado com esterco bovino, m atéria que se alisava e polia com tam anho cuidado que parecia um m árm ore verde-escuro. Com cerca de três m etros de diâm etro e dois de altura no seu centro, m al podia alguém pôr-se de pé dentro de um a dessas cabanas, que só contavam com um a entrada baixinha. A fum aça causada pelo fogo com que dentro dela se cozinhava não tinha por onde sair, im pregnando as paredes e im pedindo, assim , a proliferação dos insetos. Na realidade, a vida não se passava dentro de casa, m as ao ar livre, nos pátios entre as várias choças, que podiam ser tidas com o salas separadas de um a só casa, o um zi, e não com o m oradas

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distintas.

Nem todos esses conj untos habitacionais fam iliares estavam a distância uns dos outros. Frequentem ente eles se avizinhavam , form ando o que se cham ava um im izi — o plural de um zi —, m ais um agrupam ento de com pounds fam iliares do que propriam ente um a aldeia. Entre os xosas, tem bus e outros angúnis sulistas, não se cercava o um zi de paliçada. Um a espessa sebe de m im osa espinhenta envolvia, contudo, os roçados, que ficavam a certa distância, e o curral, que era o coração do com pound.

Os angúnis, em bora preponderantem ente pastores, praticavam um a agricultura deam bulante. Cultivavam sorgo, cabaças, m elões, abóboras e inham es e parece que não dem oraram m uito em aceitar os vegetais vindos das

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Am éricas. Em 1601, j á plantavam tabaco. E os que viviam ao norte do rio Um zim vubu adotaram o m ilho rapidam ente. A Zululândia, entre o Pongola e o Tugela (ou Thukela), com seus solos férteis e alta pluviosidade, apresentava-se especialm ente propícia ao cereal am ericano, do qual se colhiam duas safras por

ano. 67

A vida dos angúnis girava em torno do gado bovino. Este dom inava todas ou quase todas as esferas da vida e era obj eto daquilo a que j á se cham ou “culto do

boi”. 68 Os hom ens desenvolviam com seus rebanhos um a relação íntim a, em otiva, afetuosa e alegre. Não só era de praxe ter-se um novilho predileto, m as cada anim al era visto separadam ente dos dem ais, com o um ser próprio, individualizado e único. Mal lhe nasciam os chifres, o dono os ia torcendo e afeiçoando, para obter as form as que considerava m ais bonitas. E pelas aspas, pelo tam anho, pela cor, pelas m anchas que tivesse, pelos olhos, pelo focinho e pelos cortes nas orelhas, era capaz de reconhecer cada um a de suas reses e de descrevê-la com precisão, pois era rico o vocabulário que a elas aplicava — havia um a centena de palavras só para as cores do gado. Ainda quando senhor de um grande rebanho — a m aioria dos currais não continha senão um a dúzia de cabeças —, o xosa podia saber qual o boi que lhe faltava. E se definia, entre os zulus, um chefe m uito rico, dizendo-se que não podia reconhecer todos os seus

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anim ais.

O boi convivia com o hom em . E era por este adm iravelm ente dom ado. Os prim eiros portugueses a chegar àquela parte da África espantaram -se com o gado m ansinho, a responder aos assobios do dono. A um silvo deste, um grupo de bois ficava inteiram ente parado. A um outro assobio, com eçava a m over-se ou a andar em círculo. Havia reses treinadas para com petições de corrida. E as vencedoras m ereciam poem as e canções, prêm ios de alto valor em povos que am avam a poesia, a oratória, a m úsica e a dança.

Adem ais de fornecer carne, leite (só raram ente consum ido fresco e quase sem pre em form a de coalhada) e couro para sacolas, escudos e vestim entas, o gado bovino era m oeda e bem de capital, a única com pensação aceita pela cessão de noivas (lobolo), a base do poder dos chefes, que o doavam ou em prestavam em troca de vassalagem , e dos hom ens ricos, que, ao cedê-lo a um pobre, deste faziam um cliente. Entre os angúnis sulistas, tornara-se tam bém um anim al de m ontaria e carga. E, por toda parte, era o grande interm ediário no diálogo com o transcendente, a vítim a sacrificial por excelência no culto dos ancestrais.

A centralidade do boi aparecia claram ente no destaque que tinha, num um zi, o curral. No curral, cavavam -se os poços nos quais se arm azenavam os grãos. No curral, celebravam -se os casam entos — e esta era a única ocasião em que a m ulher lá entrava. No curral, realizavam -se as reuniões do grupo. E era num curral que se abriam as sepulturas dos chefes.

O um zi ou kraal do chefe cham ava-se o Grande Lugar. Era m aior em circunferência e em núm ero de cabanas do que o com um . E suas casas podiam

ser bem m ais am plas: chegar a 6m de diâm etro, entre os zulus. 70 No curral do Grande Lugar, tom avam -se as grandes decisões da grei. A assem bleia era em geral pequena, pois cada chefe ou incose (o ancoze dos portugueses) com andava, quando m uito, m eia dúzia de im izis. Tinha-se, porém , com o um ser sagrado: devia pertencer à linhagem real, com especiais poderes para interm ediar entre os m ortais e os antepassados, propiciar a fertilidade das m ulheres, dos rebanhos e

do solo, convocar as chuvas e curar as enferm idades. 71

Entre os xosas, som ente os que pertenciam à estirpe de Tshawe podiam ser reis, régulos ou chefes. Segundo a história oral, a dinastia foi fundada por um

príncipe do m esm o nom e, talvez no correr do século XVI. 72 A partir do que seria um a pequena chefia, Tshawe logrou aum entar o núm ero de seus dependentes e im por-se sobre os grupos vizinhos, fossem bantos, cóis ou sãs, assim ilando-os e, assim , os tornando xosas. Processos sem elhantes teriam ocorrido entre os que se fizeram tem bus, pondos e pondom ises, com linhagens reais que se cham aram

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respectivam ente Hala, Ny awuza e Maj ola.

A expansão da estirpe Tshawe e, em últim a análise, dos xosas explica-se pela repetida segm entação de suas chefias. Um príncipe m enino era educado e circuncidado com vários cam aradas, geralm ente filhos dos conselheiros de seu pai. Após ingressar no m undo dos adultos, casava-se com um a ou m ais m ulheres e podia, com seus com panheiros de iniciação e com parte do gado controlado por sua m ãe, ir fundar, num território vazio ou pouco povoado, não só um novo um zi, m as um a nova chefia. Nela tinha am plos poderes, porém m antinha com seu pai, ou com o irm ão de quem se apartara, um a relação de respeito ou de dependência form al ou efetiva.

Já entrado na idade m adura, o novo chefe escolhia um a j ovem de sangue

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real, geralm ente um a tem bu, para ser não um a cônj uge a m ais, porém a sua

“m ulher grande”, e nela gerava o seu sucessor, o “grande filho”. Um a de suas esposas anteriores, quase sem pre a prim eira, tornava-se a “m ulher da m ão direita”. Instalada, com seus rebanhos, num um zi a boa distância do Grande Lugar, procurava, então, m ontar um a clientela que lhe fosse fiel. E o rebento m ais velho que tivesse tido com o chefe assum ia a condição de “filho da m ão direita”.

A essa divisão entre duas casas, a da “m ulher grande” e a da “m ulher da m ão direita”, tem -se atribuído a proliferação entre os xosas de pequenas chefias: a cada geração, o “filho da m ão direita”, a quem estava vedado suceder ao pai, saía terra afora, com seus com panheiros de circuncisão e os fam iliares e

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agregados de sua m ãe, para criar um novo centro de poder. Há quem pense,

no entanto, que qualquer príncipe, e não apenas o “filho da m ão direita”, podia, apoiado por sua m ãe, seus parentes m aternos e seus cam aradas de iniciação,

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tom ar a iniciativa de estabelecer um a nova chefia. Essa nova chefia não se

separava de todo da anterior, nem dela se independentizava com pletam ente. Mantinham -se, pela vinculação entre os chefes — todos da m esm a linhagem e, na origem , filhos e irm ãos uns dos outros —, a unidade e a coesão da nação xosa, cuj a estrutura política se assem elhava a um sistem a solar, com planetas e satélites que, por sua vez, tinham satélites com satélites. No centro ficava, para usar a expressão inglesa, um param ount chief, de cuj a casa todos os dem ais tinham saído, um grande rei, o continuador de Tshawe. Antes de 1700, as tradições guardaram os nom es de cinco deles: Ngcwangu, Sikhom o, Togu, Ngconde e Tshiwo.

O param ount chief dos xosas não era apenas o prim eiro entre iguais, nem desfrutava som ente de um a precedência ritual. Além de encarnar a nação xosa e de ser raiz do poder de todos os chefes, era a últim a instância j udiciária e o conciliador político. Ouviam -no nas grandes questões da paz e da guerra, e sobre elas o rei consultava os chefes que dele dependiam , em assem bleias realizadas em seu kraal ou por m eio de m ensageiros. O que se ignora é se o rei recebia ou não tributo dos dem ais chefes, ainda que sim bólico.

Não se sabe tam pouco se, j á então, as relações entre o rei e os chefes, e entre os chefes de diferentes estratos hierárquicos (ou, m elhor, de distintas posições dentro da estirpe Tshawe), se desenvolviam , com o se daria séculos m ais tarde, no plano da negociação, da conciliação e da busca do consenso. A própria disposição dos vários grupos no território, com am plos espaços vazios entre as chefias e entre os im izis e os um zis, favorecia o com portam ento autônom o não só dos chefes, m as tam bém dos cabeças de fam ília plebeus. Um a decisão de cim a tendia a ser acatada som ente quando aceita por quem deveria cum pri-la. Por isso, entre os xosas, m ais do que ordenar, um rei procurava convencer. E um plebeu, caso se j ulgasse perseguido ou sob am eaça de vexam e, castigo ou confisco, podia, em seu relativo isolam ento, organizar clandestinam ente a fuga, com a fam ília e o gado, para outra terra, onde se colocaria sob a proteção e o com ando de um outro chefe. Um chefe não podia, por isso, oprim ir os seus súditos. Tinha, ao contrário, de m ostrar-se generoso, sem , contudo, em nenhum m om ento, dim inuir a enorm e distância que o separava deles. Um chefe não consum ia j am ais o leite da vaca de um plebeu. E a este estava defeso reagir fisicam ente contra um a pessoa de sangue real, ainda que esta o agredisse ou lhe

atacasse, para roubar o rebanho.77

Ao contrário dos tsongas e dos sotos, não parece que os angúnis tenham tido m aiores contatos com os xonas e outros grupos do norte do Lim popo. Já as suas vinculações com os coissãs são antigas e fortes, com o m ostra a existência de

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estalidos em seus idiom as — em 20% das palavras xosas e em 14% das zulus. No próprio século XVI, os angúnis estavam , ao que parece, em avançado estágio de assim ilação de m uitos grupos coissãs, sendo habitual que estes se agregassem com o clientes a um um zi ou a um im izi ou que clãs inteiros aderissem a um a chefia tem bu, pondo ou xosa. Não era incom um que angúnis casassem com m ulheres hotentotes. Desposavam tam bém as bosquím anas, ainda que isso fosse m ais raro. E, em bora os coissãs ingressassem nas sociedades angúnis em posição de nítida inferioridade, com o tem po as diferenças se diluíam .

Se havia um a antiga interação entre esses povos, eram tam bém frequentes os choques arm ados, sobretudo por causa de roubo ou m orte de bois. Os sãs os caçavam . Os cóis, tam bém pastores, assaltavam as m anadas pondos, xosas e tem bus, para engrossar as suas. Os conflitos entre os próprios angúnis davam -se tam bém quase sem pre por causa do gado, sendo com uns os ataques de surpresa contra os rebanhos dos vizinhos.

O obj etivo das hostilidades entre diferentes grupos era capturar gado. Ou estender o controle sobre novos territórios. Ou ocupar regatos ou poços, em época de seca. Jam ais, a preia de gente. Pois os angúnis dos séculos XVI e XVII não vendiam prisioneiros nem praticavam a escravidão. Sequer conheciam a penhora de parentes. E, entre eles, qualquer ofensa a um a criatura hum ana (até m esm o um a surra de pai num filho) era um agravo ao chefe, um a vez que este

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se tinha por dono de todos os súditos e considerava cada pessoa um escudo seu.

Os principais itens do com ércio, tanto na direção da baía de Lourenço Marques ou Delagoa quanto no rum o da Cidade do Cabo, eram , de um lado, gado bovino e ovino e os seus produtos, e do outro, cobre e ferro, am bos escassos e valiosos entre os angúnis. Essa carência alongou-se até o século XIX, quando

m uitos xosas ainda usavam paus de cavar em vez de enxadas. 80 De que a fom e de m etais era grande no Quinhentos, deixaram notícias os sobreviventes dos naufrágios portugueses: podiam trocar um punhado de pregos por um a vaca, e com pregos adquiriam com ida e pagavam os rem eiros que os levavam à outra

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m argem de um rio. No fim do século seguinte, podia-se andar pelo país com

com pleta segurança, desde que o viaj ante não tivesse consigo qualquer obj eto ou

enfeite de ferro ou cobre.82 E desde que andasse nu, pois os panos tam bém atraíam a cupidez dos locais, ainda que a gente da terra prezasse cobrir-se de peles, aos chefes reservando-se as de leopardo.