A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 11 de 30 · parte 1/3

Páginas do PDF

A Manilha e o Libambo

9. O Benim e o delta do Níger

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

9

 

O Benim e o delta do Níger

 

Em 1486, João Afonso de Aveiro subiu o rio Benim e chegou a Hugató (Gató, Gwato, Ogatho ou Ughoton). Havia m ais de um a década, os barcos portugueses tinham com eçado a com erciar nos golfos do Benim e de Biafra, a frequentar o delta do Níger e os rios que lhe ficavam logo a oeste. Para a foz desses rios passara a alongar-se o itinerário das caravelas, que lá iam adquirir escravos, a m elhor m oeda para obter-se ouro na Costa da Mina. Num a só viagem , em 1479, elas trouxeram daquela região, cham ada sintom aticam ente Rios dos Escravos

pelos portugueses, 400 cativos, que se escam baram por ouro com os acãs.1

Ainda que m ercadej assem sobretudo com os ij ós e os itsequiris que habitavam a região costeira, a notícia dos hom ens brancos deve ter subido os rios e alcançado, no interior, a cidade do Benim , cabeça do grande reino edo do

2

m esm o nom e. E dessa grande urbe os portugueses, desde cedo, certam ente tiveram conhecim ento.

Talvez tenha sua base de verdade a história segundo a qual teria sido o obá Euare (que se estim a tenha reinado entre c. 1440 e c. 1473) quem introduziu o coral e o pano verm elho de flanela na roupagem solene dos reis do Benim , havendo furtado os corais do palácio de Olocum , o deus do m ar. À m orada de Olocun tinha-se acesso por Ughoton, e não é de excluir-se que a esse porto houvesse chegado, antes de João Afonso de Aveiro, algum com erciante português, nem m uito m enos que contas de coral, panos de flanela escarlate e outras m ercadorias vendidas pelas caravelas dali seguissem para a cidade do

3

Benim .

Foi à sua procura que João Afonso velej ou cerca de 65km , por águas difíceis, até atingir Ughoton. Não sabem os com o e por quem foi recebido. Possivelm ente pelo olughoton, o chefe da vila, o qual, obtida a perm issão do obá, teria acom panhado ou m andado acom panhar os estrangeiros até a corte, a uns 30km de cam inhada.

Qual terá sido a prim eira reação de João Afonso de Aveiro e seus cam aradas, quando viram a cidade, enorm e para os padrões europeus da época? De surpresa, certam ente. E, talvez, de pasm o. A Benim a que chegaram não devia ser diferente da que nos descreveu, no fim do século XVI, um visitante holandês,

possivelm ente Dierick Ruy ters: 4 um a vasta urbe, cortada por um a avenida sete ou oito vezes m ais larga do que a Warm oes, em Am sterdã, e m uito reta, apesar de longuíssim a. Dela saíam num erosas ruas laterais, tam bém largas e com pridas, nas quais se alinhavam , coladas um as às outras ou separadas entre si por pequenos espaços, casas de barro socado, com a superfície finam ente polida, e cobertas de palha. Quanto ao palácio do obá — com posto por num erosos prédios, nos quais viviam o rei, suas m ulheres e um a porção de nobres, com suas fam ílias, agregados, servidores e escravos —, esse pareceu a Ruy ters interm inável, e a outros holandeses, que transm itiram suas im pressões, 60 anos

m ais tarde, a Olfert Dapper, do tam anho da cidade de Harlem .5 As colunas em m adeira das varandas e galerias do palácio — escreveu Dapper — cobriam -se de placas de cobre: as placas esculpidas em relevo com cenas de corte, festas, ritos, batalhas e caçadas, que deram fam a ao Benim . De nada disso, porém , há reflexo nos escritos portugueses da época, a não ser nas breves palavras com que Duarte Pacheco Pereira nos inform a de que Benim era “um a m uito grande

cidade”.6 (Ver o m apa “O golfo do Benim , o baixo Níger e o golfo de Biafra”.)

Ao autor do Esm eraldo não escapou tam pouco o tam anho do reino,

calculando que se estendesse por 80 léguas de com prido e 40 de largo 7 — ou uns

8

385km de oeste para leste e cerca da m etade disto do sul para o norte. Dentro desse território, tudo girava em torno do palácio e de um m onarca poderoso, árbitro da vida e da m orte. Um soberano — e isto era m ais im portante ainda para João Afonso de Aveiro — que detinha o m onopólio ou, quando m enos, o controle do com ércio exterior. Para os portugueses, ali estava o parceiro ideal que buscavam — e com a vantagem de, ao contrário dos reis j alofos e do m andim ansa, não se tratar de um islam ita. Podia ser até que tivesse contatos com cristãos. Pois, pelas vozes de João Afonso de Aveiro e de um em baixador que lhe m andou o obá, soube um alvoroçado D. João II que no Benim se venerava, com o se fora o santo padre em Rom a, um a grande personagem , o Ogané. Este vivia noutra terra, para o oriente, e dele o rei beninense recebia as insígnias de m ando, entre as quais figurava um a cruz de latão. Um a cruz com o m esm o form ato da

de Malta, para “trazer ao pescoço, com o cousa religiosa e santa”9 .

O Ogané era provavelm ente o oni (a quem os edos cham am oguene) ou rei de Ifé, a cidade sagrada, o um bigo do m undo, o lugar de onde viera Oraniã, o pai do prim eiro dos obás do Benim . Era ao oni que cada novo obá solicitava a confirm ação ritual no poder. Para o m onarca português, porém , o Ogané não podia ser outro que o Preste João, até porque, com o este, aquele cultuava a cruz e j am ais se m ostrava aos súditos, resguardando-se de seus olhares atrás de cortinas. Se o Ogané era o Preste, j á então identificado pelos portugueses com o o negachi ou negus etíope, a notícia era alvissareira: não só D. João II encontrara o aliado de seus desej os, com o se via a poucos m eses da Índia. Pois não devia estar distante do Benim o prom ontório que se tinha de vencer para velej ar no Índico.

O que os portugueses talvez não tenham percebido, no prim eiro m om ento, é que o Benim , em bora os edos m al soubessem rem ar um a canoa, tinha um a sem elhança básica com Portugal: os dois reinos tiravam do com ércio a riqueza e a força. Viviam do que com pravam de uns para vender a outros. Pelo Benim passavam o peixe seco e o sal, da costa para as savanas. Do interior para o litoral, baixavam o inham e, o dendê, os feij ões, os anim ais de corte. E de leste para oeste, e do oeste para leste, pelas trilhas na m ata e pela série de lagoas, furos e canais costeiros, que se estende do rio Volta ao Im o, iam e vinham não só esses produtos, m as tam bém as contas, os tecidos e o cobre. O Benim era um grande em pório de todos esses artigos — do inham e de consum o quotidiano ao cobre que chegava de m uito longe, talvez da foz do Zaire, e só acessível aos grandes da terra. O Benim com prava e vendia o que os outros produziam : o pescado seco dos ij ós, as contas de cornalina do alto Benué, as segis ou contas azuis de Ifé, os couros e tecidos das cidades hauçás e os panos de Ij ebu-Ode e de outras partes do Iorubo e da Ibolândia. A sua gente, no exercício do com ércio, ia fundar em pórios em terras próxim as e distantes. Assim , por exem plo, diz-se dos gãs, que vivem na atual República de Gana, que têm por antepassados im igrantes do

Benim . 10

Quem acolheu Aveiro foi, segundo as tradições, 11 o obá Ozolua. Ele deve ter visto com curiosidade a chegada daqueles estrangeiros de pele descolorida e observado com interesse as arm as que traziam . Desde que assum ira o reino, Ozolua tinha estado em guerra — recebera o epíteto de “Conquistador” — e, com o bom m ilitar, não lhe passou despercebida a eficácia dos arcabuzes dos portugueses (ou será que nenhum deles disparou um só tiro contra um passarinho pousado num a cerca ou num a árvore?). Teve cuidado em saber m ais sobre os forasteiros e, para isso, fez com que João Afonso, no regresso a Portugal, fosse acom panhado por um em baixador, provavelm ente com instruções sobre a abertura do com ércio direto entre os dois países e um pedido de arm as de fogo. No m esm o navio, seguiu um a pim enta que havia no Benim , com um pedúnculo que não se desligava da frutinha — daí o nom e que tom ou, “pim enta-de-rabo” —, um a pim enta (Piper clusii ou Piper guineense) negra e forte com o a da Índia, só que de grão liso em vez de enrugado. Dela m andaram -se am ostras para Flandres, onde foram aprovadas, ainda que não a tivessem com o da m esm a

qualidade que a indiana. 12

João Afonso voltou ao Benim , com o em baixador e os m eios hum anos e m ateriais para a instalação de um a feitoria. Cum priu as suas ordens, m as m orreu algum tem po depois, antecipando o destino de outros feitores, vitim ados pelas

febres. 13 Aos edos devia causar estranheza a fragilidade daqueles forasteiros, que adoeciam e faleciam à toa, m al chegados ao país. Quanto aos portugueses, a terra lhes parecia — e era — tão insalubre, que aceitar um em prego no entreposto de Ughoton equivalia a sentar-se no colo da m orte. Por isso, a feitoria durou tão pouco — só até 1506 ou 1507 — e, enquanto durou, esteve sem pessoal por alguns anos.

Tudo com eçara com os escravos, indispensáveis para alim entar o com ércio de ouro na Mina. Vendiam -se aos portugueses os capturados nas guerras, os condenados pela j ustiça e uns poucos que se iam com prar aos ij ós, aos

14

urrobos, aos igalas, aos iorubás e aos ibos, ou os que esses traziam para os

m ercados edos. Am arrados no fundo das alm adias ou cam inhando em fila, presos um a outro por um a corda ou um a forquilha ao pescoço, vinham às vezes de m uito longe e depois de passar por vários donos e várias feiras. A grande m aioria em barcava para São Jorge da Mina. Não m uitos, no início: m enos de 250

por ano.15 Os acãs só os queriam j ovens, robustos e sem qualquer defeito ou enferm idade. Não aceitavam sequer quem tivesse m ancha na pele. Para lá encam inhavam -se, portanto, os m elhores. Os outros eram m andados para Portugal e para as ilhas de São Tom é e do Príncipe, onde a produção de açúcar, em bora recentíssim a, j á se m ostrava esfaim ada de m ão de obra. Um rapaz

vendido na Mina dava o dobro do lucro de um colocado em Lisboa.16 Servir de interm ediário entre vendedor e com prador africanos era, assim , o m elhor negócio que se podia fazer na África e o m enos arriscado, pois na longa viagem para a Europa aum entavam as possibilidades de que o escravo viesse a falecer.

Mas não foi apenas no com ércio de escravos que os portugueses se tornaram interm ediários entre africanos. Graças aos seus barcos a vela, m ais velozes e com m aior capacidade de carga do que as alm adias da gente da terra, podiam eles m ercadej ar com vantagem as coris, as segis, as contas cinzentas e de cor am arela (ou ekans) e os panos de algodão azuis ou listrados que adquiriam no Benim e trocá-los por ouro na Mina ou por outros produtos ao longo do litoral. Só a pim enta-de-rabo, que se dirigia sobretudo para os Países Baixos, e alguns outros produtos, com o o m arfim e as peles, é que tinham obrigatoriam ente de em barcar para a Europa.

Os portugueses pagavam o que adquiriam no Benim com dinheiro. Com dinheiro edo. Pois j á antes da chegada dos europeus, possuíam os edos um a econom ia m onetizada e usavam com o m eio de troca e reserva de valor m anilhas, barras e aram es de cobre, uns pequenos arcos de ferro e um búzio um

pouco m aior do que os zim bos de Angola, o igô.17 Os portugueses pronto copiaram o m odelo africano das m anilhas, fazendo delas um dos principais artigos com que m ovim entavam o com ércio. E, a partir de 1517, com eçaram a

18

trazer em grande quantidade, com o lastro de seus navios, cauris das Maldivas — os cauris que, no Benim , com o em outras partes da África e da Ásia, eram a m oeda divisionária por excelência.

Com o tem po, os cortes de fazendas com uns, em tam anho padronizado, passaram tam bém a ser dinheiro. Os de m elhor qualidade, fossem europeus ou do golfo de Cam baia, e os de cor verm elha — o verm elho que era ou se tornara apanágio da aristocracia edo — eram vendidos com o m ercadoria de luxo, j untam ente com a contaria italiana e indiana, os barretes e os rabos de cavalo, quando com eles não se pagavam os tributos nem se presenteavam o obá e a nobreza. O coral tinha destino ainda m ais restrito, pois só o obá podia ostentá-lo.

Desses artigos, apenas os de cobre e latão não eram supérfluos e atendiam a necessidades locais. Na m aior parte das vezes, derretiam -se as m anilhas, as bacias e os bastões, para fazer novos obj etos utilitários e tam bém para a execução, pelo m étodo da cera perdida, das extraordinárias esculturas e placas em relevo, os fam osos “bronzes” do Benim , que se m ultiplicaram a partir do contato com os portugueses, graças à súbita abundância de m atéria-prim a. É possível, porém , que só então essas esculturas com eçassem a ser feitas, pois, em bora as tradições afirm em que, desde o reinado de Oguola, cento e tantos

19

anos antes, os edos j á as m oldavam em latão, nenhum a das que conhecem os

foi datada de antes do século XV. 20 Isso pode dever-se, contudo, ao fato de serem poucos os sítios com depósitos pré-europeus até agora localizados e

escavados.21

Em m uitas dessas obras, aparecem portugueses vestidos à m aneira do século XVI. Alguns com barbas. Todos de nariz com prido e afilado. Um deles, de bigodes longuíssim os e cabelos a derram ar-se do gorro sobre os om bros, segura duas m anilhas. Um outro, de cabeleira sem elhante, tem na m ão um a espada. Um terceiro em punha o arcabuz, de m orrião à cabeça e a trazer no cinto o chifre de pólvora, o espadim e a pistola. Este, tendo ao pé um cachorro de coleira, olha para o alto, a observar a caça, e levanta a arm a. E aqueles dois, encarapitados num a caixa a sim ular o telhado do palácio do obá, um de cada lado de um a torre e de costas para o outro, dobram levem ente os j oelhos, a fim de m elhor disparar as lazarinas.

Era por essas espingardas que se interessava o Benim . E tam bém pelos canhões. Deve ter sido em pós das arm as de fogo que o obá — talvez o m esm o

22 23

Ozolua, talvez seu filho, Esigie — m andou, em 1514, um a nova em baixada a Portugal. Aconselhado possivelm ente pelo pequeno grupo de portugueses que viviam no Benim , instruiu os enviados a que pedissem m issionários, e não apenas arm as, pois estas não podiam , por decreto papal, ser fornecidas a pagãos e infiéis. Em barcados o em baixador, que figura nos docum entos portugueses com o D. Jorge, e o seu segundo, D. Antônio, pagou-lhes as passagens (quatro escravos) e deu-lhes, com o se fossem traveller’s checks, m ais 12 cativos, para que os fossem vendendo consoante as necessidades. Os dois dignitários foram esbulhados pelo capitão do barco, que lhes tom ou seis cativos, e chegaram a Lisboa com pouco para se sustentarem . Providenciou, porém , a Coroa portuguesa para que nada lhes faltasse. De m odo que regressaram ao Benim de boa saúde e com m uitos presentes, acom panhados por m issionários, m as sem os arcabuzes e os canhões.

Insatisfeito — D. Manuel lhe escrevera que só forneceria canhões e outras arm as, depois que abraçasse a fé de Cristo —, o obá quase que im ediatam ente m andou a Portugal um outro representante, um edo de nom e Pero Barroso, possivelm ente um daqueles intérpretes ou “faladores” que prestavam serviços

aos navios e m ercadores portugueses.24 Dessa em baixada restam vestígios num a carta de resposta que um certo Duarte Pires escreveu, em 20 de outubro de 1516,

ao rei lusitano. 25 Esse Duarte Pires, que talvez fosse um funcionário da Coroa — o que explicaria a m issiva de D. Manuel, a m enos que o m onarca a ele tivesse recorrido, por saber do prestígio de que gozava j unto ao obá —, vivia na cidade do Benim , na com panhia de um m orador da ilha do Príncipe, João Sobrinho, e de um africano de nom e Gregório Lourenço. Na carta, Duarte Pires confirm a que era tido em grande favor pelo soberano beninense, que com ia com o príncipe e que tinha abertas todas as portas do reino. É possível que prestasse, j untam ente com João Sobrinho, assistência ao obá em assuntos m ilitares, pois nos diz que am bos acom panhavam o rei nas cam panhas guerreiras. E talvez fossem os dois aqueles europeus a quem a história oral atribui o terem , em certa batalha, ao

26

protegê-lo com seus arcabuzes, salvo a vida do rei. O povo lhes cham ava Ava

e Uti, e são tidos por antepassados da confraria denom inada Iwoki, cuj os

27

m em bros cuidam dos fuzis e dos canhões do obá.

O obá não se converteu ao catolicism o. Mas perm itiu que os padres pregassem a fé e ensinassem algum as crianças nobres a ler em português. Entre elas, um de seus filhos. Escreve Duarte Pires que o rei deu ordens para a construção de um a igrej a na cidade, m as há dúvidas se este tem plo e outros a

que se referem as tradições chegaram a ser erguidos. 28 Ainda que neles se tivesse chegado a rezar m issa, seria breve esse pequeno êxito de catequese e sem m aiores consequências, pois, em fins de 1516 ou início de 1517, o obá foi m orto, durante um a de suas cam panhas m ilitares, pelos que nela o acom panhavam , e o seu sucessor, o príncipe que estudara com os sacerdotes, teve necessariam ente, para ascender ao m ando, de realizar todos os ritos da religião tradicional, pois era

nela que se fundava o poder do obá. 29

Ignora-se com o term inou a m issão. Talvez os padres tenham m orrido no Benim . Talvez tenham regressado à Europa. Com o quer que tenha sido, a presença deles reforçou o cristianism o num pequeno núm ero de edos e escravos convertidos pelos com erciantes e conduziu para a fé alguns m ais. E foram esses os apoios com que contou, em 1538, um novo grupo de pregadores. Na cidade, encontraram um punhado de cristãos, entre os quais o j á citado Gregório Lourenço e um edo de nom e Afonso Anes, que o obá m antinha com o professor

30

de leitura. O próprio obá — talvez Esigie, talvez Orhogbua, pois de am bos

dizem as tradições que sabiam ler e falar português31 — havia sido batizado em 1515 ou 16. Mas não se fizera cristão, nem favoreceu os novos m issionários, conform e estes evidenciaram num a carta queixosa a D. João III, em 30 de

agosto de 1539.32 O obá vedou a Afonso Anes a utilização nas aulas de leitura dos catecism os trazidos pelos m issionários, e proibiu que as m ulheres e os filhos de Gregório Lourenço recebessem o batism o. O rei concedeu audiência aos padres, m as fechou os ouvidos às palavras que disseram contra as práticas religiosas dos benins e os sacrifícios hum anos. Foi claro: não pretendia trocar as crenças dos seus ancestrais por ideias abstrusas. E lhes cerrou a porta.

Sem conversão, D. João III não autorizava a venda de m aterial de guerra. E, sem arm as, dim inuía o interesse do rei do Benim pelo com ércio com as caravelas. Com o esse com ércio tinha im portância relativam ente reduzida no conj unto do sistem a m ercantil beninense, o obá não teve dificuldade em responder ao em bargo de arm as: passou a fechar e a abrir os m ercados a seu bel-prazer. Inesperadam ente, cessava toda e qualquer transação com os portugueses ou apenas o fornecim ento de escravos ou de pim enta, para retom ar os contatos, quando os preços e outras condições lhe pareciam favoráveis. E foi além em seu desígnio de controlar o tráfico: em 1516, separou a oferta de hom ens da de m ulheres. Estabeleceu dois m ercados distintos: um de m achos e outro de fêm eas. Podia abrir um e fechar o outro. Em geral, tornou-se m ais difícil para os portugueses obter perm issão para adquirir escravos do que para com prar escravas. E, em bora os europeus preferissem aqueles a estas, viram -se frequentem ente obrigados, por terem prazos para carregar os navios, a enchê-los de m ulheres em vez de hom ens. Ou a adquirir alguns rapazes por preços exorbitantes. Com isso, o obá procurava conter o derram e de m ão de obra m asculina para fora do Benim , possivelm ente convicto de que lhe poderia dar m elhor em prego nas suas plantações e nos seus exércitos. Não m ais lhe parecia um bom negócio o desfazer-se de soldados em potencial ou deixar de exibir um a fam ulagem num erosa, para em troca receber m anilhas e cauris que não lhe faziam falta e que só contribuíam para aum entar a inflação e para reduzir o valor do cobre e das conchas que tinham em seus tesouros. Não dem orou m uito, e o obá interditava a venda aos europeus de escravos hom ens, interdição que esteve

33

em vigor até o final do século XVII.

O obá acabou por conseguir as arm as desej adas. Não só os navios franceses e de outras nações europeias não tinham escrúpulos em m ercadej ar com arcabuzes e pólvora, com o os próprios m oradores da ilha de São Tom é não hesitavam em contrabandear m osquetes para obter escravos.

Quando os navegadores portugueses chegaram , no início da oitava década do século XV, às ilhas atlânticas ao sul do delta do Níger, som ente a que tom ou o nom e de Fernando Pó (e hoj e se cham a Bioko) estava, por m enos distante do continente, habitada. As dem ais, a que cham aram São Tom é, Santo Antônio (ou Santo Antão e, depois, do Príncipe) e Ano Bom (atual Pagalu), tinham ficado fora do alcance das em barcações africanas. Qual sucedera com o arquipélago do Cabo Verde, essas ilhas despovoadas foram vistas, de início, principalm ente com o plataform as para o com ércio, com o em pórios protegidos pelo oceano, com o pontos seguros de aguada e refresco para os navios que com erciavam na Costa da África ou, depois, fariam a carreira da Índia. A ninguém escapou, contudo, e igualm ente desde o início, que, ao contrário das ilhas de Santiago e do Fogo, as de São Tom é e do Príncipe não prolongavam o deserto no m eio do Atlântico, m as, ao contrário, pareciam — e eram — ubérrim as. A de São Tom é, tendo ao m eio altas m ontanhas — o pico de m esm o nom e eleva-se a 2.024m , e o de Ana de Chaves, a 1.636m —, cobria-se do “m ais form oso arvoredo (...) que

se sabe em toda a Etiópia de Guiné”.34 Era um não term inar de árvores gigantescas, grossas, direitas e tão altas que, tanto para o m arinheiro Gonçalo

35

Pires, que ditou suas lem branças a Valentim Fernandes, quanto para um piloto

anônim o português que visitou São Tom é no final da prim eira m etade do século

36

XVI, pareciam tocar no céu.

Antes de m ais nada, im punha-se povoar as ilhas. E a Coroa portuguesa repetiu o que havia dado certo no arquipélago de Cabo Verde: por foral de 1485, concedeu aos que fossem m orar em São Tom é, entre outros privilégios, o de com erciar “nos cinco rios além ” (isto é, a leste) “da fortaleza de São Jorge da

Mina”. 37 Oito anos m ais tarde, a área sobre a qual podiam m ercadej ar foi am pliada, passando a incluir “toda a costa do Manicongo”. E em 1500,

disposições sem elhantes com eçaram a ser aplicadas à ilha do Príncipe.38

As prim eiras levas im portantes de colonos chegaram à capitania de São Tom é em 1493, com o novo donatário, Álvaro de Cam inha. Boa parte era constituída

por cerca de duas m il 39 crianças j udias de m enos de oito anos de idade, arrancadas de seus fam iliares e batizadas. Ao m andá-las para São Tom é, D. João II tinha por obj etivo apartá-las “dos pais e de suas doutrinas, e de quem lhes

pudesse falar na lei de Moisés”.40 A m aioria m orreu em pouco tem po, vitim ada pelo im paludism o e outras m azelas. No entanto, na época em que o inform ante de Valentim Fernandes esteve na ilha, ainda havia, desses m eninos e m eninas, cerca de 600 sobreviventes, e m uitos tinham form ado fam ílias, tanto com parceiros brancos quanto com negros. Predom inavam nas uniões as m ancebias entre senhores e escravas. Mas contratavam -se tam bém casam entos na Igrej a entre brancos e pretas, pois, com o esclarece o piloto anônim o português, havia “habitantes negros de grande inteligência e ricos”, que criavam “as filhas no nosso m odo, tanto nos costum es, quanto no traj e”. E acrescenta: “Os que nascem

41

destas tais negras são de cor parda e lhes cham am m ulatos.”

Entre esses negros ricos haveria seguram ente forros, m as m uitos deles teriam vindo com o colonos livres e seriam africanos em preendedores, atraídos, antes m esm o da chegada de Álvaro de Cam inha, pelas perspectivas com erciais que se abriam nas ilhas para os que, com o eles, tinham ligações estreitas com o continente. E, assim com o havia colonos pretos, é provável que nesses prim eiros tem pos houvesse tam bém escravos brancos (árabes? berberes? guanchos?). Do contrário, com o explicar que, em carta de 1499 a Fernão de Melo, capitão de São Tom é, D. Manuel I lhe tenha expressam ente concedido alçada j udicial “sobre os

escravos negros e brancos que houver na ilha”? 42

Álvaro de Cam inha fez-se acom panhar tam bém de gente a soldo e de degredados. Mais tarde, para ali se encam inharam outros portugueses, e cristãos-novos, e castelhanos, e franceses, e genoveses, atraídos pela aventura ou pelo sonho de enricar na Costa da África. Não foram poucos, aliás, os que prosperaram às custas da escravaria. Vej a-se o caso dos desterrados. Ao chegar, cada um deles recebia um escravo ou um a escrava, para seu serviço. Não se

passava um a década e j á possuíam 14 ou m ais, a labutar nas roças.43 Valentim Fernandes calcula em dois m il o núm ero de escravos perm anentes na ilha e em

cinco ou seis m il os do resgate44 — o que se tem interpretado com o significando aqueles que eram postos a trabalhar em São Tom é, enquanto esperavam

em barque para a Mina, Lisboa ou as Índias de Castela.45

As estim ativas de Valentim Fernandes (ou, m elhor, de seu inform ante,

Gonçalo Pires) j á foram tidas por exageradas. 46 Sobretudo as que se referem aos escravos do resgate, tendo em vista que São Tom é não se m ostrava capaz de atender à dem anda do forte da Mina. Apesar disso, pode-se arriscar que, no com ecinho do Quinhentos, pelo m enos a m etade da população da ilha era

escrava. Logo depois, porém , a proporção j á superaria os 3/4. Num único ano,

1516, a ilha im portou 4.307 alm as.47 Sem contar o contrabando. Não saía caro um escravo, pois vinha de m uito perto, e o transporte com punha a m aior parte do custo. Havia senhores que chegavam a possuir um a, duas ou até três centenas de

escravos em suas plantações, 48 em sua m aioria a viver em aldeotas próprias e a produzir o seu alim ento. Escravos que faziam de tudo, dentro e fora de casa. Que m oviam com os braços e as pernas as m oendas de cana. Que rem avam e velej avam . Que carregavam as m ercadorias dos navios para os trapiches. Que faziam carvão. Que levavam água para as cozinhas. Que preparavam as m adeiras com que se construíam casas e barcos.

São Tom é m ostrou um rápido progresso. Era todo um êxito com o centro experim ental do que viria a ser a colonização e a explotação europeia nos trópicos úm idos. Ali faziam -se “ensaios” com gente, plantas, anim ais, form as de

trabalho e fontes de lucros.49 Ali testavam -se novas m aneiras de tratar a terra, de adaptar os vegetais im portados, de organizar a m ão de obra servil e dela retirar o m aior proveito possível, de unir num a só classe proprietários de terra e com erciantes, de fazer dos m estiços interm ediários entre senhores e escravos. Tudo parecia dar certo, e, com o sinal disto, a Povoação, fundada por Cam inha e principal núcleo populacional da ilha, tornou-se bispado em 1534 e cidade no ano seguinte. O piloto anônim o português que, por essa época, a visitou, atribuiu-lhe

600 ou 700 fogos; 50 e Alonso de Santa Cruz, ao redigir, um pouco m ais tarde, o

51

seu Islario General, lhe deu quatro m il habitantes.

Parte desse crescim ento devia-se ao com ércio com o continente. Parte, talvez m aior, à produção agrícola, num a ilha de chuvas abundantíssim as, porque situada quase na linha do equador, e com excelentes terras vulcânicas, gordas com o o m assapê do Nordeste brasileiro. Nelas, os prim eiros povoadores com eçaram cultivando trigo, centeio e cevada. Não deu certo. Deixaram , então, que seus escravos usassem as técnicas africanas para plantar inham es, m ilhetes, feij ões e bananas, e lhes ensinaram o cultivo da couve, do rábano, da beterraba, da alface e do aipo. Mais tarde, surgiriam , por influxo brasileiro, os m andiocais e as roças de m ilho m aiz, de batata-doce e de ananás. Vacas e cabras vieram da Madeira. E porcos e aves de Portugal. As m aiores extensões reservaram -se, porém , à cana-de-açúcar, que ali deu de m aravilha. Tanto que Valentim Fernandes j á m enciona

grandes canaviais, com colm os m aiores do que os da ilha da Madeira.52 E Duarte Pacheco Pereira faria coro: em nenhum a outra terra a cana cresce

m elhor.53 Por isso, até o início do últim o quartel do século XVI, o açúcar m andará na ilha, requerendo um a continuada e crescente im portação de m ão de obra servil.

O tráfico entre São Tom é e o Benim com eçou em 1494, com três navios

pertencentes a Álvaro de Cam inha.54 A esses logo se acrescentaram vários barcos m ais, adquiridos ou construídos pelos m oradores. Pois, ainda que só no belo im aginar de Jaim e Cortesão tivesse sido o estaleiro naval que ele pôs, na m etade do século XVI, na Ribeira de São Tom é “a base e o instrum ento da

55

expansão dos portugueses no Golfo da Guiné”, não há dúvida de que na ilha se

construíam em barcações de certo porte. Não faltariam para isso carpinteiros hábeis e, m enos ainda, m atéria-prim a. O depoim ento de Gonçalo Pires é claro: de árvores m uito grossas, tão com uns em São Tom é, o capitão Fernão Dias fizera dois navios, grandes com o um a caravela de 30 toneladas, os seus cascos

escavados num só tronco. 56 Um a caravela podia transportar, conform e o seu

57

tam anho, de 30 a 80 escravos; naus e outros barcos m aiores, entre cem e 120.

As necessidades de escravaria farão do com ércio com o continente africano, onde se adquiriam tam bém m arfim , alm íscar, contas e panos, atividade essencial para os são-tom enses. Quando esse com ércio lhes era perm itido ou confiado, eles o praticavam com eficiência e certa vantagem sobre os que vinham nos navios da Europa. Aclim atados e com resistências às febres e às disenterias, adoeciam e m orriam m enos do que os reinóis. Além disso, quando se tratava de tráfico de escravos, era m ais prático levar os cativos, com apenas poucas sem anas de viagem , do litoral africano até a ilha, de onde, após algum tem po de aj uste à nova condição, eram encam inhados a seus destinos definitivos. As vantagens que detinham pareciam -lhes tão óbvias que chegaram a propor que se confiasse à ilha o exclusivo do fornecim ento de escravos à Mina.

Em vez disso, o rei D. Manuel de Portugal outorgou, em 1514, a seu secretário, Antônio Carneiro (em cuj as m ãos j á pusera, em 1500, a ilha do Príncipe), o direito de explorar por quatro anos o com ércio com o Benim , em troca do com prom isso de fornecer regularm ente os escravos necessários ao resgate de ouro na Mina. Aos habitantes de São Tom é não se vedava que fossem buscar escravos no Benim , m as só podiam fazê-lo m ediante licença do concessionário. Este, com o era de esperar-se, as condicionava e restringia. E, com o era tam bém de esperar-se, os ilhéus reagiram com viagens ilegais e o contrabando. E devem ter tido nos Rios dos Escravos, com o tiveram em Angola, os seus lançados. Nessas atividades clandestinas, contaram com a aliança do obá e de seus agentes, felizes por abastecer os navios de São Tom é e encantados em estim ular a concorrência: deixavam esquecido um navio de Carneiro, e iam

58

encher um barco de São Tom é.

Durante a vigência do contrato de Carneiro, este transportou anualm ente m il escravos do Benim para a ilha do Príncipe, dos quais a m etade reem barcou para

a Mina.59 Não fazem os ideia de quantos desceram clandestinam ente em São Tom é. Mas sabem os que, no continente, o preço dos escravos não cessou de crescer, com o resultado do aum ento da dem anda. Ao entrar no século XVI, um

j ovem em boas condições físicas custava entre doze e quinze m anilhas; 60 em

61

1517, não se conseguia um exem plar de qualidade por m enos de 57 m anilhas. Dois anos m ais tarde, a Coroa em itia instruções precisas para que não se adquirisse um só escravo no Benim e nos rios adj acentes por m ais de 40

62 63

m anilhas. E em 1522, o preço m áxim o de com pra subiu para 50 m anilhas.

A concessão de Carneiro expirou em 1518. O privilégio foi outorgado a São Tom é. Mas sua gente, ao priorizar o abastecim ento da ilha, não conseguiu fornecer a São Jorge da Mina o núm ero de escravos a que estava obrigada. De m odo que o com ércio com o Benim voltou, no ano seguinte, a ser prerrogativa real. A Coroa, porém , consciente das vantagens da ilha, fez de São Tom é a base de suas operações com erciais. Não só com os Rios dos Escravos, m as tam bém

com o Congo. 64

De 1519 a 1522, m ais da m etade da m ão de obra servil recebida pelo forte da

Continuar: parte 2 de 3