A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 12 de 30 · parte 1/2

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A Manilha e o Libambo

10. No reino do Congo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

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No reino do Congo

 

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Correu a voz: baleias enorm es tinham sido vistas ao longe, no m ar. Outros, porém , corrigiram : não eram baleias, m as grandes barcos de asas brancas,

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brilhantes com o lâm inas de faca — conform e repetem os pendes de Angola. Dizem tam bém que os hom ens que baixaram das em barcações tinham a pele

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desbotada, falavam um a língua que não se entendia e foram tidos com o vum bis ou espíritos. Talvez tenha sido assim . E talvez os congos da foz do Zaire tam bém tenham tom ado os recém -vindos por seus antigos m ortos ou por entes sobrenaturais das águas ou da terra. Haviam surgido do oceano — o oceano que bem podia ser o calunga, ou as grandes águas que ninguém j am ais atravessara

em vida e que separavam o m undo dos vivos do m undo dos m ortos. 4 Ao falecer um hom em , sua alm a cruzava as águas e assum ia um a nova form a num corpo novo, de cor branca. Mudava de nom e e talvez tam bém de língua.

Os que desem barcaram das caravelas, trazendo com o presentes obj e-tos dantes nunca vistos, m ostravam -se de pele clara, com o os espíritos dos ancestrais, que eram alvos com o o caulim . Daí que os congos tivessem os albinos com o os interm ediários por excelência entre eles e o além e os considerassem , j untam ente com os anões, os gêm eos e os aleij ados de nascença, com o

encarnações dos espíritos das águas, 5 com o inquices ou fetiches de carne e osso, e os venerassem , fazendo deles — conform e anotou o inglês Andrew Battel, quando esteve, no fim do Quinhentos, no Congo e em Angola — os sacerdotes

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dos reis.

Sugerem alguns autores 7 que, se os habitantes da foz do Zaire receberam tão bem e com tam anha reverência os portugueses, foi porque os confundiram ou relacionaram com ancestrais divinizados ou com espíritos da água, “quase com o deuses terrenos”, com o escreveu Filippo Pigafetta, a repetir o que lhe narrou, em

Rom a, em 1589, um em baixador do rei do Congo, o português Duarte Lopes. 8 Quiseram , depois, ser em tudo com o aqueles seres de aparência sobrenatural, o que explicaria a rapidez e o fervor com que procuraram cristianizar-se e adotar o que podiam da cultura lusitana.

Desconfio dessa tese. Minha desconfiança deriva da insistência com que os europeus, após o sucedido a Cortez no México, passaram a se im aginar com o deuses na m ente dos naturais de quase todas as terras a que foram ter — nas Am éricas, na África e na Oceania. Convencidos de sua superioridade, procuravam atribuir ao outro a im agem que de si próprios haviam construído e se punham a crer que o nativo os tinha por sobre-hum anos. Confundiam as vênias da hospitalidade com gestos de adoração. E fechavam os olhos e o entendim ento ao que no outro era repulsa e reprovação à m aneira im própria, descortês ou até blasfem a com o podiam algum as vezes com portar-se. Ainda que os congueses, num prim eiro m om ento, tenham tom ado os recém -chegados por seus heróis

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fundadores ou por espíritos das águas — e há quem isto negue —, pronto m udaram de opinião. Desde o início, aliás, não devem ter faltado os cépticos, os que viram antes dos outros que os portugueses não eram brancos de verdade, com o os espíritos dos antepassados, e sequer descoloridos com o os albinos. Eram , os m orenos, am arelados — lem bro que ao m ulato lhe cham am y ellow, na Nigéria —, e os nortenhos, averm elhados. Aos cépticos não lhes escapou tam pouco que esses m ortos m orriam novam ente. E m orriam com facilidade, um após outro, atacados pelas febres. Não passavam , pois, de hom ens, com todas as

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necessidades e carências. Com o insistiam os próprios portugueses. E com o verificaram e devem ter contado, na volta, a um público curioso, os reféns —

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“gente de tão bom entendim ento”, conform e João de Barros — que Diogo Cão

levou para Portugal.

O navegador ancorara em Pinda (ou Mpinda), na m argem sul da em bocadura do Zaire, em 1483. Foi acolhido pelo m ani ou senhor de Sônio

(Sonho, Sono, Soio ou Soy o), a província de noroeste do reino do Congo.12 Com unicou-se com o pôde com a gente da terra, tanto por m ím ica quanto por palavras — é possível que algum de seus línguas algo com preendesse e falasse

quicongo 13 —, e, talvez por conselho do m ani-sônio, enviou alguns m ensageiros, com presentes, a Banza Congo (Mbanza, Um banza ou Am basse Kongo), onde vivia o grande rei. Com o aqueles tardassem em regressar — a curiosidade do soberano, o rei do Congo, antitola ou m anicongo, os detivera —, Diogo Cão tom ou por reféns quatro congueses que visitavam , atentos para todas as novidades, um de seus navios e os levou consigo para Portugal. Antes de partir, indicou, por gestos e, possivelm ente, palavras, que os traria de volta dentro de

algum tem po: 15 luas. 14

Cum priu o prom etido, quem sabe se com pequeno atraso. Em 1485, estava de volta, com os reféns em boa saúde, vestidos à europeia e falando português. Diogo Cão m andou um deles ao m anicongo, com ricos presentes, a m ensagem de am izade do rei de Portugal e a proposta de troca dos brancos que haviam ficado em Banza Congo pelos congueses que levara consigo.

O m anicongo Nzinga a Nkuwa 15 ouviu cuidadosam ente o que lhe narraram os quatro súditos que tinham passado vários m eses em Portugal. Não só de seus relatos, das entrevistas concedidas a Diogo Cão e dos m im os que recebeu, m as tam bém do que vieram os seus dizer-lhe sobre as bom bardas, os arcabuzes, os m achados, as bestas e o tam anho dos barcos portugueses, é provável que tenha concluído que aqueles estrangeiros dispunham de recursos técnicos m uito m aiores e m ais eficazes do que os conhecidos pela sua gente. E que contavam com um deus poderosíssim o. Se os congos pudessem captar tudo aquilo, tornar-se-iam m uito m ais fortes do que os dem ais reinos vizinhos e teriam condições de fazer face aos novos desafios que certam ente surgiriam da presença dos que haviam chegado do oceano.

Foi certam ente esse o raciocínio que anim ou o m anicongo a em barcar nos navios de Diogo Cão um a em baixada ao rei D. João II. Nela ia um dos antigos

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reféns (Chrachanfusus, conform e Rui de Pina, Caçuta, para João de Barros ),

que se tornou pelo batism o João da Silva. Um a outra fonte18 assegura-nos que a chefiava o quitom e m anivunda (ou m ani Cabunda) de Banza Congo, o qual, por ser o sacerdote dos espíritos da terra e das águas, tinha — digam os assim — j urisdição sobre o que ficava do outro lado do m ar. Com o presentes, levaram dentes de elefante, obj etos de m arfim e panos de ráfia congueses, que eram com o brocado, dam asco, seda acetinada ou tecido de Orm uz, conform e

escreveu Pigafetta, 19 ou com o veludos, e “tão ferm osos”, que Duarte Pacheco

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Pereira os com parou ao que de m elhor se fazia na Itália.

Im portante era o que se requisitava ao rei de Portugal: prim eiro, que acolhesse e m andasse educar rapazes do Congo, a fim de que estes, depois de form ados, repartissem entre os seus o aprendido na Europa; segundo, que enviasse ao rio Zaire padres católicos, para instruir os congos na religião, e m estres de ofícios, para que lhes ensinassem as técnicas desej adas. Uns e outros expediu-lhes D. João II: frades, pedreiros, canteiros, carpinteiros, agricultores e até m ulheres para treinar as conguesas no m anej o de um a casa à lusitana. Com essa gente, seguiam , em três navios, petrechos litúrgicos, instrum entos de trabalho e m uitos presentes: cavalos com seus arreios, contaria de Veneza, sedas, dam ascos, veludos.

O m onarca português — repito — aspirava a com por, ao sul do Saara m uçulm ano e a cam inho da Arábia e da Índia, um a sólida aliança com um rei poderoso, que fosse ou se tornasse cristão. O m anicongo bem podia ser esse soberano. Por seu lado, intuiu Nzinga a Nkuwa o que o seu sucessor adotaria com o prioridade política: que por m eio da aj uda portuguesa poderia levar a cabo o que hoj e cham aríam os de m odernização do país, im portando novas técnicas, alterando os processos produtivos, m odificando com portam entos sociais e inserindo o Congo na econom ia do Atlântico. Parte das elites congas aderiu ao proj eto, procurando adaptar a seus costum es os m odos de vida portugueses e antecipando em três séculos e m eio, com o escreveram quase que com as

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m esm as palavras Georges Balandier e Charles R. Boxer, a experiência j aponesa. A do Japão deu certo; a do Congo m alogrou-se.

No início, poucos deixaram de contagiar-se pelo entusiasm o. E receberam em festa os três navios. Estes haviam feito um a viagem sofrida, com calm arias que a alongaram , desavenças entre os com andantes e m uitos óbitos, causados pela peste que então devastava Portugal. Entre os m ortos contavam -se o com andante da expedição, Gonçalo de Sousa, e dois dos enviados congueses, um

deles, Caçuta ou João da Silva,23 24 e o outro, o quitom e m anivunda, se é que não eram a m esm a pessoa.

Mal soube da chegada das caravelas, o m ani-sônio acudiu a vê-las. E os portugueses, sob o com ando de Rui de Sousa, sobrinho daquele Gonçalo que m orrera na travessia, saíram ao encontro dele. De um lado, bandeira à frente, a rufar tam bores e a soprar trom betas, os estrangeiros vestidos de gala, com arcabuzes, bestas, lanças e alabardas. De outro, a gente de Sônio, nua do um bigo para cim a e pintada de branco e de outras cores, com cocares de penas e belos panos de ráfia am arrados à cintura, a tocar atabaques, gonguês, chocalhos e trom pas de m arfim . O m ani trazia um a carapuça na qual vinha bordada um a

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serpente.

Ou porque se tivesse de fato convertido à fé dos portugueses — a história está repleta dessas conversões súbitas e arrebatadas —, ou porque os visse com o representantes dos espíritos das águas ou dos antepassados, ou porque intuísse ser isto um pré-requisito à aliança pretendida, o m anisônio pediu o batism o. Recebeu-o, com o nom e de Manuel, em m issa cantada, num a igrej a de m adeira construída para a ocasião. Depois, ordenou que se queim assem todos os fetiches

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e, possivelm ente, as im agens dos ancestrais.

Não foi m enos festiva a acolhida que tiveram em Banza Congo os hom ens de Rui de Sousa. Ainda estavam a m eio cam inho, e j á vinham ao encontro deles cinco batalhões bem arm ados, com num erosos m úsicos e “bem -ordenados em fieiras e m odo de cantar”, pois três ou quatro guerreiros entoavam um verso e a

tropa inteira lhes respondia. 27 Certo, o rei não os veio receber. Concedeu-lhes, porém , pronta entrevista. Viram -no no alto de um estrado, num a cadeira entalhada de m adeira e m arfim . De peito nu, usava, am arrado à cintura, em honra ao rei de Portugal, um dam asco recebido de Diogo Cão. Ostentava suas insígnias de m ando: um barrete especial, branco, alto com o um a m itra e com lavores em relevo, qual se fosse de cetim aveludado; um espanta-m oscas de rabo de zebra ou de cavalo, guarnecido de prata; um bracelete de cobre no braço esquerdo; e, no om bro do m esm o lado, um saquinho com relíquias dos

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antepassados (pedaços de unhas, m echas de cabelos etc.).

O m anicongo deu ordens para que se aj udassem os portugueses a erguer um a igrej a de pedra e cal. Nela pretendia batizar-se. Com o, entretanto, tivesse que

partir de urgência em cam panha m ilitar contra os angicos, tios ou tequês 29 do lago Malebo (ou Stanley Pool), não esperou a conclusão da obra e recebeu o sacram ento, j untam ente com seis de seus validos, num altar im provisado em dependências do palácio. Passou a cham ar-se João — D. João I. Sem anas depois, nos m esm os côm odos, foram batizados, com os nom es de Leonor e Afonso, a principal esposa do rei e seu filho Mbem ba Nzinga (Um bem ba Anzinga,

Mvem ba Nzinga ou Nzinga Mvem ba). 30 Para a guerra, da qual saiu vitorioso, o m anicongo levou, benta pelo papa Inocêncio VIII, um a bandeira de cruzado que

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lhe m andara o rei de Portugal, além de barcos e arcabuzeiros portugueses.

Assim com eça a história fascinante e controvertida do cristianism o no reino do Congo. Alguns consideram que não houve um a conversão verdadeira, pois

fundada num “m al-entendido colossal”: 32 os portugueses teriam conquistado os ouvidos dos congueses porque eram brancos vindos do m ar e, com o tais, seres sacrossantos. Outros j ulgam que o cristianism o do rei e das elites teria sido

superficial ou apenas de fachada, 33 para ganhar audiência nas cortes europeias, subsistindo entre os congos a religião tradicional, ainda que incorporasse alguns rituais e obj etos de culto católico às suas cerim ônias e aos seus altares. Não falta quem acrescente que a conversão dos m anicongos foi um expediente de política interna: com o o rei não controlava o culto dos antepassados, nem o dos espíritos

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das águas e da terra, nem tam pouco o do cariapem ba, percebeu que poderia

ter no cristianism o um a fonte de legitim idade independente do beneplácito, da sagração ou do apoio dos chefes das candas (ou clãs e linhagens m atrilineares) e

dos “senhores da terra” e sacerdotes conhecidos com o quitom es e gangas.35 Houve tam bém quem j ulgasse que o cristianism o teria sido, desde o início, apropriado pela religião local, que o reinterpretou segundo o seu sistem a de

crenças e o acom odou à sua concepção do universo e do sagrado. 36 Para outros, o cham ado catolicism o dos congos não seria sequer um culto híbrido, pois tinha por base um a visão do m undo que era inteiram ente africana.

Fico com os que pensam que a conversão do reino do Congo não foi distinta, nas suas grandes linhas, do acolhim ento do cristianism o pelos visigodos,

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lom bardos, francos e outros a quem os rom anos cham avam bárbaros. Destes,

alguns foram tocados pela fé cristã; outros a ela aderiram por conveniência; e a m aioria da m assa acom odou à nova crença as suas convicções tradicionais. É difícil duvidar da autenticidade da conversão do príncipe Mbem ba Nzinga. Parece-m e evidente que ele se fez um fervoroso cristão. Já quanto ao seu pai, Nzinga a Nkuwa, talvez se tenha tornado D. João I num im pulso de entusiasm o, ou talvez tenha percebido que, sem a adoção do catolicism o, não haveria aliança com os portugueses nem aj uda para transform ar o país. Daí que se tenha, com o tem po, arrefecido na fé ou dela se afastado, arrependido.

As adaptações conguesas ao catolicism o não seriam m uito m aiores do que as experim entadas pela fé cristã ao se expandir no Mediterrâneo, quando sobre o corpo j udaico se pôs a roupagem greco-rom ana. Nem tam pouco ultrapassariam aquelas que se produziram nos cham ados Ritos Chineses, nos quais o cristianism o se vestia, no que não era essencial, da cultura confuciana, e nos Ritos de Malabar, a traj ar-se de hinduísm o. O espírito de tolerância m ostrado nesses casos pelos m issionários católicos parecia-lhes condição necessária ao ganho de alm as, um a vez que não chegavam eles ao Congo, à Índia e à China com o conquistadores,

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que pudessem im por suas crenças e tentar apagar as de povos dom inados. Na

m aioria dos casos, os congos convertiam -se por iniciativa e vontade próprias, e os portugueses tinham de fazer concessões à cultura local, se queriam ser

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com preendidos e convencer.

Não deviam , aliás, experim entar problem as de consciência. Se a gente do Congo acreditava que as águas separavam o m undo dos vivos do m undo dos m ortos, os portugueses punham o em píreo logo depois do céu das estrelas fixas, um céu que girava em torno de um a Terra plana. E não se diferençavam dos congos, ao m andar benzer as sem eaduras. E ao sair em procissão para pedir chuva. E ao acreditar em m au-olhado. E ao tem er as feiticeiras. O cristianism o popular dos séculos XV a XVII tinha m uitas sem elhanças externas com as práticas religiosas dos congueses. Em am bos os sistem as espirituais, o divino im pregnava a natureza e dirigia o destino das com unidades e dos hom ens.

Por seu lado, os congos não encontravam nas crenças cristãs nada que conflitasse frontalm ente com o que tinham aprendido desde crianças. Tinham a consciência de um Deus Suprem o, em bora a Ele não recorressem . Acreditavam na sobrevivência da alm a e que esta, na m orte, passava de um m undo de lágrim as para a com pleta bem -aventurança. O além -calunga era todo plenitude,

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claridade e ordem . E, se não tinham a noção de inferno, podiam , com algum

esforço, reconhecer a presença do dem ônio no lado destrutor do cariapem ba e em certas m anifestações de espíritos aos quais não se prestavam os rituais devidos. Aceitavam que o divino assum isse a condição hum ana, nascendo de um a m ulher, pois era assim que os espíritos das águas e da terra se encarnavam

nos albinos. 41 E não tinham dificuldade com a ressurreição de Cristo, pois havia

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entre eles gangas especializados em fazer voltar à vida o corpo dos m ortos. Essa alegação dos gangas não espantaria, por sua vez, os portugueses, pois, na sétim a década do século XVII, o padre Antônio Vieira — ninguém m enos do que o grande Antônio Vieira — escrevia, na sua defesa perante o Tribunal do Santo

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Ofício, que colecionara 95 casos de m ortos ressuscitados nos últim os 120 anos. Quanto à veneração a Nossa Senhora, tinham -na por natural, pois, na sua estrutura de poder, havia tam bém , ao lado do m anicongo, um a intercessora e cochefe m ulher, a nzim bu m pangu, investida com o ele de poderes sobrenaturais. No caso m ais conhecido, ela era a tia paterna do rei, provavelm ente a chefe da canda do pai dele, e fazia parte do conselho real, com m ais três m ulheres,

rainhas viúvas ou irm ãs e tias do soberano.44

No Congo, o m issionário católico cham ou-se a si próprio ganga,45 e foi aceito com o tal pelos nativos, que reconheceram nele as m esm as funções sociais daqueles que os padres acoim avam de feiticeiros. Às im agens de santos não lhes deu outro nom e que inquice, com o qual se designava tudo aquilo que continha ou

recebia o sagrado. O batism o equivalia a um a cerim ônia de iniciação. 46 E as pequenas cruzes e m edalhinhas de santos, aos saquinhos m ágicos e talism ãs que tam bém se penduravam ao pescoço.

Houve naturalm ente quem rej eitasse o cristianism o e a ele se opusesse. A hostilidade provinha não som ente dos sacerdotes e dos devotos das crenças tradicionais, m as tam bém das linhagens m atrilineares. As estruturas políticas do Congo assentavam -se num delicado equilíbrio de forças, no qual o rei tinha o poder vigiado pelos grandes da terra, os m uxicongos ou m uissicongos, um a aristocracia dentro da aristocracia, form ada pelas 12 candas da região central do reino, onde ficava Banza Congo. (Ver o m apa “Congo e Angola”.) Era nessa elite da elite que se elegia o m anicongo, podendo qualquer m uissicongo ser o escolhido, desde que descendente de rei, de preferência por um a de suas filhas. Com o o m anicongo tinha m uitas m ulheres e pelo casam ento se vinculava à

m aioria das candas, o poder tendia a circular entre as várias linhagens.47 Ora, a religião e os novos costum es trazidos pelas caravelas alteravam isso. Ao opor-se à fam ília polígam a e ao exigir que cada converso, fosse rei, nobre ou plebeu, tivesse um a única m ulher, o catolicism o quebrava um dos alicerces da harm onia da sociedade e do estado. Com o se não bastasse, os portugueses traziam a noção da prim ogenitura — e o príncipe Mbem ba Nzinga, ou D. Afonso, agarrou-se a ela. Era o filho m ais velho de seu pai, m as, com o sua m ãe não pertencia a um a

linhagem m uissiconga,48 ele não tinha direito a participar da disputa sucessória. Segundo as regras dos cristãos, era ele, porém , com o prim ogênito, o herdeiro natural ao trono.

É provável que D. João I tenha voltado a ser Nzinga a Nkuwa, por força da necessidade de preservar suas alianças com as candas. Ele não podia repudiar suas esposas sem insultar as linhagens a que pertenciam . Pelo m atrim ônio, forj ara, antes de ser rei, as alianças que o levaram ao poder, e era graças a elas que nele perm anecia. Diante da insistência em que tivesse um a só rainha, viu-se obrigado a afastar-se das práticas católicas, ainda que não haj a sinais de que haj a apostatado. Quanto a seus filhos, pelo m enos um deles não se fez cristão: Mpanzu a Kitim a (ou Panso Aquitim o), o que tinha m elhores condições de tornar-se rei. E foi em torno dele que se arregim entaram os adversários das novidades.

Com o falecim ento, em 1506, de Nzinga a Nkuwa, abriu-se a disputa. Não apenas em torno de candidatos, m as das próprias regras sucessórias. Cham ado pela m ãe, D. Afonso apressou-se a seguir da província de Sunde (ou Nsundi), que governava, para Banza Congo. Ali, auxiliado pelos m anis de Sônio e de Bata (ou Mbata), enfrentou o irm ão. Este era sustentado por um enorm e exército, pois contava não só com o quitom e m anivunda (ou m ani Cabunda), m as tam bém com a m aioria dos aristocratas. Em bora em inferioridade, D. Afonso venceu e m atou Mpanzu a Kitim a, graças ao socorro, na m elhor tradição ibérica, do apóstolo Santiago e dos ginetes que o acom panhavam — provavelm ente

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portugueses com arm as de fogo e a cavalo.

Se D. Afonso usou o cristianism o com o instrum ento político para conquistar o poder, nele consolidar-se e am pliá-lo significativam ente, isto não significa que não fosse um católico piedoso. Os testem unhos da época m ostram -no lendo, noite adentro, vidas de santos e livros da doutrina cristã, doutrina que conhecia,

segundo os padres que viviam no Congo, m ais do que eles próprios. 50 Era um católico devoto e tam bém um europeizador. Sua am bição parece ter sido a de fazer de seu país um a cópia de Portugal. O m ais depressa possível, em tudo que dizia respeito aos conhecim entos e à técnica; devagar e com prudência, no tocante às estruturas sociais, a fim de não as desestabilizar nem provocar reações incontroláveis. Para levar adiante o seu proj eto, não cessava de pedir ao m onarca português que lhe enviasse sacerdotes, e m édicos, e m estres dos m ais diferentes ofícios, e professores que ensinassem a sua gente a ler e a escrever, além de m andar para Lisboa, às custas do Estado conguês, rapazes escolhidos para lá estudar. Entre eles, um de seus filhos, Henrique, que seria ordenado padre e se tornaria bispo em 1518.

Durante todo o seu reinado, de 1506 a 1543, o m anicongo católico trabalhou incansavelm ente para m udar o país. Se conseguiu, por instância e orientação portuguesas, alterar o cerim onial da corte, a m aneira de vestir e os títulos dos fidalgos, não logrou o que m ais queria: que se im pusessem e difundissem fora da capital a casa de tij olo e telha, a ponte de pedra, o arado, o carro de roda, os m oinhos de água e vento, o barco com várias velas, o serrote, a broca e todos aqueles im plem entos que fizeram a Europa, sobretudo no correr da sua Idade Média, adiantar-se à África. Colheram ele e seus sucessores alguns bons resultados no plano do ensino, em bora, no correr do tem po, esses êxitos viessem a puir-se e a esgarçar-se, acabando por desfazer-se. Graças, por exem plo, ao devotam ento de alguns m issionários e m estres-escolas e à constância dos m anicongos, as escolas católicas ensinaram rapazes da nobreza a ler e a escrever e lhes transm itiram rudim entos de m atem ática e até de latim . Vários desses rapazes fizeram -se, por sua vez, professores, de m odo que, no fim do século XVI, não eram poucos os m em bros da elite conguesa capazes de com unicar-se por escrito em português e registrar por escrito as suas contas. Com isso, a adm inistração do estado ganhou m em ória — o Congo teve um arquivo público —, agilidade e rigor.

D. Afonso ansiava pela cooperação externa, m as esta sem pre se m ostrou inconstante e coxa. Não era fácil conseguir quem se dispusesse a ir para um a região onde boa parte dos recém -chegados m orria poucas sem anas após o desem barque. Aos aventureiros encandeavam as riquezas do Índico. A pilhagem . O com ércio. Um bom m estre de letras ou um hábil m arceneiro recrutado para o Congo enroupava-se, logo à chegada, de excelências e, caso fosse um artífice, punha-se acim a da vileza do trabalho m anual, que, para o português no ultram ar, se tornara coisa de negros. Se não o abatiam as m aleitas, a febre am arela ou as diarreias, corria para o m ercadej o. E passava a com prar e a vender escravos. Os próprios m issionários aderiam , quase todos, ao tráfico de gente, pois padres e frades, por cobiça ou até m esm o para sobreviver, um a vez que não tinham frequentem ente de que sustentar-se, nele tam bém se envolviam .

O rei era o grande redistribuidor de riqueza. Boa parte do que recebia com o tributo, destinava aos governadores provinciais, que, por sua vez, a repartiam entre os chefes de distritos, e estes, entre os líderes das aldeias e os cabeças de linhagens. Quem , por exem plo, pagava im posto com as peles que tinha em abundância, recebia de volta o sal de que carecia, além de búzios, m arfim e panos de ráfia. Contrapresenteando com liberalidade, o m anicongo aum entava sua ascendência sobre as aristocracias regionais e delas ganhava fidelidade e

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respeito. E com o os grandes e pequenos senhores esperavam receber do rei

m ais e m ais artigos adquiridos aos portugueses (até m esm o para transferi-los a seus dependentes políticos), da capacidade de fornecê-los passou a depender o prestígio do m anicongo.

Nesse sistem a de tirar e dar, o escravo deve ter sido um a peça im portante. Era provavelm ente trazido para Banza Congo da periferia do reino e das áreas de conflito. Muitos ficavam na capital; outros eram redistribuídos entre os notáveis provinciais, e por estes, entre os seus caudatários, o m ais longe possível dos locais onde tinham sido obtidos.

Na m aior parte do país, a escravidão seria do tipo dom éstico. Já se escreveu, por isso, que não havia um a classe escrava no Congo, antes da chegada dos portugueses, m as, sim , um grupo servil transitório — gente de origem estrangeira, capturada na guerra ou em razias, crim inosos proscritos ou retirados da sociedade, pessoas que tinham perdido a proteção dos seus ou incorrido em fortes dívidas. Eram “escravos”, m as os seus filhos ou netos tinham por destino

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ser absorvidos na sociedade, ainda que de m odo parcial, pois form ariam um

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ram o inferior, de ex-escravos, da linhagem do antigo dono. Nas aldeotas, esses

cativos viveriam com a fam ília do am o e lhe acrescentariam força de trabalho e descendência, os hom ens fazendo tam bém as tarefas pesadas, cansativas e repetitivas das m ulheres (cuidar das roças, do plantio à colheita, cozinhar, apanhar água no rio, varrer o terreiro e carregar lenha), um a vez que, escravos ou “escravos”, a eles não se aplicavam as norm as de divisão do trabalho por sexo. Tal qual sucedia no século XIX, é possível tam bém que escravos fossem enterrados vivos com um chefe m orto, que outros fossem sacrificados quando da ascensão de seu sucessor, e que um hom em im portante pudesse m andá-los em seu lugar para serem subm etidos ao ordálio por veneno, num j ulgam ento por

feitiçaria. 54

Ao redor de Banza Congo — um a cidade na qual viviam , no fim do século XVI, entre 60 m il e cem m il pessoas, e onde só o palácio do rei tinha 2.400m de

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circunferência — a situação seria provavelm ente distinta. E tam bém nos

lugares de residência dos governadores provinciais e dos grandes fidalgos. Desde a época da form ação e consolidação do reino, os prisioneiros de guerra eram escravizados e postos a trabalhar nas roças ao redor da capital, num regim e

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possivelm ente sem elhante ao prevalecente em Songai. Esse novo tipo de escravism o deve ter-se dissem inado nas áreas m ais controladas pela nobreza, num a sociedade que se caracterizava, j á antes da chegada dos portugueses, por sua rígida hierarquização e seu extrem o autoritarism o. As distinções de origem e fortuna eram m arcadas. Até m esm o na dieta dos distintos grupos sociais. Assim , enquanto a elite com ia bacorinhos, cabritos, galinhas e até, de vez em quando,

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carne de vaca, a plebe alim entava-se som ente de verduras, legum es e ovos. E

tam bém , quando havia, de peixe e algum a caça.

O escravo era, num a sociedade quase sem bens de capital, um a das m aiores riquezas, se não a m aior, que se podia ter. Em bora circulasse dentro do sistem a de tributo e redistribuição que prevalecia no Congo, provavelm ente não o passavam adiante, depois que se j untava a um a fam ília. Sendo assim , só se vendiam , em princípio, os recém -aprisionados. O que explicaria por que ali, nos prim eiros anos do século XVI, os navegadores não resgatavam cativos, a não ser “em pouca quantidade”, conform e anotou o m eticuloso Duarte Pacheco

Pereira.58

No início, o m anicongo pagava os navios portugueses em m arfim , panos de ráfia, peles, cera, m el e cobre — um cobre de excelente qualidade, produzido provavelm ente na região de Mindouli e Boko-Songo, logo ao norte da província

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de Sunde, do outro lado do rio Zaire. Em bora tam bém lhes desse, de vez em

quando, alguns escravos, procurava reservá-los para os presentes que rem etia ao rei de Portugal. Aos portugueses residentes em Banza Congo ou em Pinda, ele lhes rem unerava os serviços tam bém em cobre, escravos, panos ou zim bos — as conchinhas espiraladas de um m olusco m arinho (Ovancillaria nana Lam arck), cinzentas ou cor de pérola, que as m ulheres recolhiam nas praias da ilha de Luanda e que eram tão estim ados pelos congos com o, entre os europeus, as

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m oedas de ouro ou prata. Os que recebiam búzios em pagam ento procuravam

com eles adquirir cativos, que depois revendiam em réis aos seus patrícios.61 Usavam , portanto, o escravo com o m eio de conversão da m oeda nativa para a portuguesa, na qual acum ulavam suas poupanças, e, ao fazê-lo, obtinham geralm ente um lucro adicional. Na falta de indivíduos recém -capturados, não devia ser difícil encontrar algum conguês disposto a transferir ao estrangeiro algum de seus escravos dom ésticos, ainda que com isso não só infringisse a regra costum eira, com o arranhasse o m onopólio do com ércio exterior que o m anicongo tinha por apanágio.

A exclusividade das trocas com os portugueses, que se atribuía o soberano, incom odava alguns grandes senhores congueses, desej osos de ter acesso direto às m ercadorias de prestígio chegadas do m ar. Molestava adem ais os m oradores da ilha de São Tom é, que tinham recebido do m onarca português, em 1493, o privilégio de com erciar livrem ente em “toda a costa do Manicongo”. O que fizeram , aliás, desde cedo. Essa presença m ercantil, lícita ou clandestina, dos são-tom enses no Congo aum entaria ainda m ais, a partir de 1514, quando o rei de Portugal outorgou a Antônio Carneiro o direito de explorar as transações com o Benim e, sobretudo, depois de 1516, quando o obá beninense restringiu a exportação de m ão de obra cativa.

Logo ficou evidente que os m oradores de São Tom é tinham , no trato com o Congo, interesses próprios, distintos dos da Coroa e até, m uitas vezes, com eles conflitantes. D. Manuel I considerava a cristianização e o desenvolvim ento econôm ico do Congo com o indispensáveis à expansão da presença portuguesa na África, e contava com que a ilha fosse um a plataform a de apoio à consecução de seu obj etivo de criar em solo africano um a sociedade em tudo sem elhante à portuguesa. Já os habitantes de São Tom é e o governador Fernão de Melo (que sucedera, em 1499, a Álvaro Cam inha) viam o Congo prioritariam ente com o fornecedor de escravos baratos e em grande quantidade, e tinham a política da Coroa com o prej udicial à expansão do m ercado. A ilha opor-se-á de m aneira sistem ática ao proj eto europeizador, retardando ou im pedindo a passagem para Pinda dos padres, professores e artífices recrutados a custo em Portugal, desviando a correspondência entre o m anicongo e o soberano português, ignorando as ordens e diretrizes deste e retendo em seus portos os em issários e os estudantes a cam inho de Lisboa, quando não os sequestrava e vendia com o escravos.

Essa hostilidade aum entaria com a notícia, recebida com indignação pelos são-tom enses, de que o rei de Portugal resolvera assum ir o exclusivo das trocas com o Congo. A decisão vinha em butida num regim ento datado de 1512, que era

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um a espécie de plano diretor da europeização do reino africano. Nesse

regim ento, no qual se com pendiavam quase todas as reivindicações de Afonso I, acrescentando-se outras de iniciativa do m onarca português, continham -se recom endações de toda ordem sobre a gestão do Estado e até sobre com o devia

desenhar-se a assinatura do m anicongo.63

O regim ento chegou à foz do Zaire nas m ãos de Sim ão da Silva, a quem D. Manuel I havia designado seu residente no Congo, um a com binação de em baixador, conselheiro político, assessor m ilitar e j uiz. Juiz dos portugueses que ali viviam , e com poderes tão am plos que podia expulsar qualquer patrício que j ulgasse nocivo à obra a ser em preendida, pois nela, com o se expressou o rei de Portugal, ou um de seus conselheiros cheio de ilusões, só havia lugar para os m elhores. Gente de qualidade era, por sinal, o que quase não havia entre os portugueses do Congo, do Príncipe e de São Tom é. As condições eram tão duras e os perigos tão grandes, que para lá só iam santos, aventureiros, degredados e foragidos. Os santos eram , com o sem pre, raros. Dos outros, e inteiram ente sem escrúpulos, com punha-se um a com unidade que só pensava em enricar. De qualquer j eito e o m ais rapidam ente possível.

Sim ão da Silva m orreu de febres a cam inho de Banza Congo. Foi substituído por Álvaro Lopes, que acum ulou as funções de residente com as de feitor com ercial do rei português e se revelou um am igo e auxiliar correto e coraj oso do m anicongo. Os seus sucessores não se m ostraram à altura, e, na história do cargo, m arcada pela dissim ulação, o engodo e a perfídia, foram breves os m om entos em que a lealdade, o bom entendim ento e a cooperação prevaleceram . Nessa história há de tudo: conspirações, assassinatos, traições, calúnias. Há até um e outro gesto de integridade e grandeza, de resistência às pressões dos interesses da gente de São Tom é e dos portugueses do Congo que form avam em seu partido. Esses interesses, o dos com pradores e vendedores de escravos, trabalharão consistentem ente contra a política da Coroa portuguesa e em favor dos adversários do m anicongo. Protegidos pela distância, os sequazes de São Tom é m entirão ao soberano português, dele ocultarão fatos essenciais à form ação de um bom j uízo, difam arão os seus prepostos, fugirão aos seus controles e, de abuso em abuso, revelar-se-ão cada vez m ais audaciosos na

desobediência e na fraude. 64

Tam bém D. Afonso I experim entava dificuldades em frear a avidez da aristocracia conga e dos governadores provinciais, que procuravam , por m eio de relações diretas com os traficantes estrangeiros, fortalecer-se politicam ente e ganhar autonom ia em relação a um m anicongo que a m aioria considerava um usurpador. O m onopólio com ercial que se arrogava D. Afonso colidia com os interesses da nobreza, especialm ente da que vivia próxim a às m argens do Zaire ou às praias do Atlântico, da m esm a form a que o exclusivo das transações com o Congo decretado por D. Manuel I feria os dos portugueses que ali m oravam e em São Tom é. Estes últim os passariam por nova onda de indignação, ao saber, em 1519, que, num novo alvará sobre o com ércio com o Congo, o soberano português havia proibido que navios particulares ali tom assem carga: escravos e cobre, para o qual crescera a dem anda europeia, tinham de ser obrigatoriam ente

transportados em em barcações reais.65

Criara-se nas elites conguesas o gosto pelos artigos que traziam as caravelas. Pelos tecidos de lã, algodão e seda. Pelos bordados e rendas. Pelas contas de vidro. Pelas porcelanas. Pelas espadas, pistolas e outras arm as de luxo. A própria política de europeização, ao estim ular as pessoas a se vestirem e com portarem de form a distinta da tradicional, aguçara a dem anda por bens europeus. Cada cabeça de aldeia que entregava ao chefe de distrito, com o tributo ao rei, um am arrado de peles e que dantes esperava receber, em contrapartida, um a cesta de sal, passara a querer um corte de cetim , um chapéu de abas e um a capa de veludo. O m esm o ocorria entre o chefe de distrito e o governador, e entre este e o m anicongo. O rei tinha agora, ao recolher um tributo de sorgo, gado m iúdo, dentes de elefante ou peças de cobre, de enviar de volta não apenas panos de ráfia ou zim bos, m as sobretudo bens que obtinha dos portugueses. Os produtos exóticos, que de direito só ele podia im portar, tornaram -se o ponto de apoio de sua alavanca política. Conform e os distribuísse e dosasse as quantidades, a qualidade e a rareza, ele exaltava ou enfraquecia os seus validos. E aos notáveis da terra com am bições políticas parecia claro que retirar do m anicongo o exclusivo do com ércio com os portugueses equivalia a m inar-lhe o poder.

Com o crescim ento das im portações transatlânticas, j á não havia com o saldá-las apenas com cobre ou peles. Os próprios portugueses m anifestavam , em voz cada vez m ais alta, o desej o de receber em escravos. Os congos teriam de produzir m ais cativos. Passaram , por isso, em suas cam panhas m ilitares, a poupar a vida não só das m ulheres, m as tam bém dos hom ens, com o fito de reduzi-los à servidão. E viram -se estim ulados, m ais do que antes, a resolver pelas arm as os conflitos políticos com os vizinhos. Sabem os de um a dessas guerras: a

que D. Afonso I com andou, em 1513 ou 1514, contra Munza, rei dos am bundos66 de Dem bo. Dela o m anicongo trouxe 410 prisioneiros, e os portugueses que o acom panharam , m ais 190. Do total, selecionaram -se 320, em barcados para Portugal. Só não seguiram m ais 190 peças no m esm o navio porque o príncipe D.

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Pedro, que até ele as levava, j á não o alcançou ancorado, ao chegar ao porto.

Da m esm a época, tem os a notícia do levante de um grupo de cento e tantos escravizados. Pertenciam eles a um com erciante e a um sacerdote brancos e se encam inhavam em caravana para a costa, quando se rebelaram , m atando o prim eiro dos donos e ferindo o outro. Na fuga, os revoltosos atacaram aldeias, queim aram casas, roubaram feiras e sem earam o pânico, até que foram

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vencidos e m ortos.

O escravo transform ou-se rapidam ente na m ola do com ércio. Cresceu o núm ero dos m ercadores portugueses, se é que cada português, fosse padre, frade ou leigo, funcionário da Coroa ou degredado, não se tornou traficante de seres hum anos. Não se conform avam eles em adquirir escravos do m anicongo e de seus agentes, m as, fingindo-se de cegos ao m onopólio real ou o contrariando velada ou abertam ente, com erciavam com quem tinha peças a oferecer, fosse num m ercado ou no pátio do casarão de um governador de província. Faziam -se guerras fúteis nas fronteiras, para capturar os vencidos. Nobres desentendiam -se entre si e pelas arm as cativavam os vassalos uns dos outros. Condenavam -se pessoas à escravidão por pequenos delitos. Vendiam -se indivíduos que se haviam penhorado por dívida. Meninos eram sequestrados e em barcados às escondidas para São Tom é. O reino, de seguro, encheu-se de perigo. E am eaçava desgarrar-se.

Esses estragos que fazia o tráfico não escaparam a D. Afonso I. O rei via a sua autoridade ser desafiada e o seu m onopólio com prom etido. Não ignorava que perderia, caso não conservasse nas m ãos o controle dos bens im portados, a ascendência sobre a nobreza. Era im perativo, para m anter-se a unidade do reino, que um a só pessoa pudesse fornecer escravos aos portugueses: o m anicongo. Mas este tinha diante de si um quadro que era todo o contrário do que queria: aristocratas obtinham arm as de fogo diretam ente dos estrangeiros, governadores não traziam à capital os seus tributos ou ensaiavam secessões, notáveis desviavam -se da obediência, e todos os que detinham um pouco de poder ou eram fortes de audácia cativavam congueses livres ou libertos, e até m esm o nobres e filhos de nobres, para vendê-los aos brancos. Com preendendo que, a continuar assim , o cim ento social se esfarelaria e que seu reino corria até m esm o o risco de despovoar-se, D. Afonso I m anifestou, em 1526, em carta ao rei de Portugal, o desej o de que do Congo não m ais se exportassem escravos e de que nele cessassem as com pras de m ercadorias estrangeiras. Quanto aos

portugueses, que só viessem sacerdotes e professores. 69

A interrupção do com ércio com os portugueses era um a decisão extrem a. Correspondia a abandonar de todo o proj eto de difundir e enraizar no país os conhecim entos e as técnicas europeias, conform e argum entou D. João III em sua resposta. O Congo só tinha, além do cobre, escravos para pagar o que lhe vinha de fora. Sem os escravos, cessariam as transações externas e o país talvez só continuasse a receber, para repetir expressões da m issiva de D. Afonso ao rei português, o trigo para a feitura das hóstias e o vinho necessário à celebração da

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m issa.

O com ércio de escravos exigia da parte dos reis um a adm inistração

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cuidadosa — aprendia às próprias custas o m anicongo. Quem vendesse m ais

do que devia, deixando de incorporar às linhagens vassalas força de trabalho adicional, reduzia as colheitas dessas e as em pobrecia. Quem vendesse ou deixasse que se vendessem os próprios súditos, rom pia a solidariedade grupal e criava um clim a de ressentim ento, insubordinação e vingança. E quem se envolvesse em guerras politicam ente desnecessárias, só para capturar prisioneiros, tendia a gerar descontentam entos. D. Afonso I não tinha com o estancar o tráfico. Mas podia regulá-lo. E foi o que procurou fazer.

Não creio — e nisto não estou sozinho 72 — que D. Afonso se opusesse à escravidão e ao com ércio de escravos. Escravos, ele os tinha em quantidade, a trabalhar em suas terras e em seu palácio. Com escravos presenteava a nobreza conga, e os portugueses que o serviam , e o governador de São Tom é, e o rei de Portugal. Vendia cativos e não desistira de deter o m onopólio externo desse m ercadej o. O que m uito o perturbava é que se estivesse a fazer dos congos escravos. Pois só era lícito e correto reduzir à servidão hum ilhante o estrangeiro. Só excepcionalm ente e em virtude de um crim e abom inável, podia um conguês ser escravizado, e, ainda assim , depois de ser excluído da grei.

A decisão que tom ou para ordenar o tráfico confirm a o que escrevi. Instituiu ele um com itê de três m em bros, sem cuj a licença escravo algum podia ser em barcado. Cabia à com issão exam inar se cada corpo fora legitim am ente capturado ou adquirido e corrigir os erros, devolvendo a liberdade a quem a ela tinha direito. A necessidade dessa aprovação fez com que as transações entre portugueses e congos, sem pre que envolvessem escravos, se concentrassem em Banza Congo e em Pinda. Assim procurou-se controlar um com ércio que j á se espalhara por todo o reino.

Com erciantes e aventureiros reinóis e são-tom enses, m uitos deles a se africanizarem ao j eito dos lançados ou tangom ãos, repartiam -se com seus entrepostos por todo o Congo e lhe ultrapassavam as fronteiras. Cedo

descobriram que nos m ercados, ou pum bos,73 às m argens do lago Malebo, podiam adquirir cativos. E com eçaram para ali endereçar as suas caravanas. Os que as integravam com o m ercadores, fossem brancos, m ulatos ou negros livres ou escravos — escravos a quem os donos confiavam tarefas de com ércio —, ficaram conhecidos com o “pom beiros”.

Não se sabe se havia feiras de escravos em Malebo, antes de que ali chegasse o prim eiro português. Com o prova de que não existiam , apresenta-se o fato de que se dá ao escravo, em língua tio e em outros idiom as da área, um nom e que

significa “pessoa do zim bo” ou “indivíduo com prado com búzios do Congo”.74 Isto não chega, contudo, a ser prova; é, quando m uito, um indício. Pode ser um vestígio de que o com ércio de seres hum anos aum entou consideravelm ente com os pom beiros, m as não de que antes deles esse com ércio não existisse. Parece até que os portugueses foram para ali atraídos pelas notícias de que os conflitos arm ados entre os angicos e os congos da província de Sunde geravam um bom

núm ero de prisioneiros naquela área de fronteira. 75 Desses, um a pequena parte seria provavelm ente posta à venda nas feiras da região, nas quais não deviam faltar os para-ventos característicos do setor dos m ercados onde se vendiam escravos e que os protegiam do sol e da chuva. Certo dia, num a dessas feiras, apareceu um branco em com panhia de um punhado de congos e ofereceu zim bos, tecidos, vasilhas de latão, facas e contas de vidro pelas m ulheres e os rapazolas. Com prou-os todos. E se foi, prom etendo voltar, para adquirir os que de novo houvesse. A palavra correu e a oferta aum entou. Não só os vendedores traziam os escravos para os pum bos, com o os angicos com eçaram a ir buscá-los fora da região.

As m argens do lago Malebo apresentavam condições ideais para esse com ércio. Ali paravam as canoas que do litoral subiam o Zaire; e as que, vindas do centro do continente, desciam o rio ou provinham de seus tributários — do Cassai, do Cuango, do Cuílo, do Lefini, do Licuala e talvez de ainda m ais distante, do Sanga, do Tshuapa e do Ubangui. À beira do Malebo foram -se dispondo os pontos de encontro, repouso e refrigério. Não só dos que chegavam rem ando pelas águas, m as tam bém dos que traziam à cabeça as suas m ercancias. Com o aum ento das vendas de gente, m uitos pescadores passaram a ter com o ocupação principal o transporte de escravos, colocando suas alm adias a serviço de um novo tipo de m ercador, um m ercador especializado que não só ia à procura de cativos onde quer que houvesse guerra, m as m uitas vezes tam bém acom panhava as tropas em cam panha. Os prisioneiros eram conduzidos para o Malebo, onde o rei do estado tio do Macoco (ou Makoko), que com eçara a controlar esse com ércio, garantia a segurança dos que a ele se dedicavam . Os pum bos do Malebo tornaram -se grandes centros de com pra, arm azenagem e venda de cativos, frequentados pelos portugueses e seus sequazes m ulatos e negros, que cada vez m ais chegavam em grupos, verdadeiras caravanas, de lá partindo com fieiras de dezenas e até de centenas de escravos.

O sistem a de controle criado por D. Afonso I deve ter contribuído para deslocar o com ércio de escravos para o lago Malebo. Conteve-se a sangria de congos. Se alguns continuaram a ser em barcados para São Tom é, eram um a contada m inoria nas cargas hum anas de am bundos e angicos, capturados em

razias e guerras de fronteira, e de bobangis, 76 77 78 79 sucus, ianzis, bom as,

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teges e cotas, adquiridos no lago Malebo. Nos porões, com as m ais diversas gentes do centro da África, não faltaria sequer, de vez em quando, quem tivesse por origem o Lualaba ou os Grandes Lagos.

O m anicongo parece só ter lucrado politicam ente com o desvio do com ércio. Os seus fidalgos deixaram de fazer negócios diretos com os portugueses e voltaram a depender dele, D. Afonso, para receber os bens de prestígio por que ansiavam . Isto, porque os tios ou angicos queriam ser pagos em zim bos, e o rei conguês tinha o m onopólio dessa m oeda tradicional. Todo o zim bo que se recolhia

Continuar: parte 2 de 2