A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 21 de 30

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A Manilha e o Libambo

19. Na região dos Grandes Lagos

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Na região dos Grandes Lagos

 

Éprovável que alguns indivíduos, cativados ao sul dos lagos Alberto (ou Onekbony o) e Ky oga, descessem o Nilo para ser vendidos nos bazares do Egito. E é possível que alguns outros fossem ter a Berbera e Mogadixo. Eram longos os percursos que costum avam percorrer, e m uitos iam m udando de dono ao longo do cam inho. Assim tam bém se dava com a contaria da Índia, as conchas m arinhas, os tecidos de Cam baia, os obj etos de cobre e vidro e todos os bens que chegavam de longe à região dos Grandes Lagos e que a arqueologia com eça a ali desenterrar, sem pre em depósitos posteriores ao fim do século XVI: passavam de m ão em m ão e de m ercado em m ercado, desde o litoral até as funduras dos sertões. Pois só uns 150 anos m ais tarde é que com eçariam a se estabelecer vínculos diretos entre o Índico e aquela parte do interior da África. Datam , com efeito, de m eados do Setecentos as prim eiras notícias de viagens com erciais entre a Contracosta e os Grandes Lagos.

A região devia produzir m uitos cativos, pois, desde algum tem po, era teatro de sucessivas m igrações de povos de distintas culturas, assim com o da form ação,

consolidação e expansão de vários estados. 1 Na m aioria dos casos, não deve ter sido sem hostilidade e conflito que se avizinharam os diferentes grupos de cuxitas, sudânicos, nilóticos e bantos, tão num erosos em sua diversidade, que a sim ples relação de seus nom es ocuparia um a página ou m ais.

Nos séculos XVI e XVII, a lenta m ovim entação de povos provavelm ente acentuou-se, com o resultado de um a sequência de grandes secas, das piores que j á assolaram essa parte do continente e que foram particularm ente graves nos períodos de 1588 a 1590, de 1601 a 1602, de 1613 a 1614 e de 1617 a 1621. Com exceções localizadas (o m onte Quênia e as terras que bordej am o norte do lago Vitória, por exem plo), todo o interior da África Oriental foi afetado pela ausência de chuvas. As tradições repetem por toda parte o queixum e da fom e — da fom e

que foi o m aior desafio enfrentado pela região, durante aqueles dois séculos. 2 E não só pela região, pois sabem os que, tendo as águas do Nilo baixado, em 1621, a níveis sem precedentes havia m ais de dez séculos, tam bém o Egito padeceu sob a seca, que se afirm a lhe m atou a m etade dos habitantes. A essa provação

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cham aram os luos Ny arubanga, que significa “o que foi m andado por Deus”.

Daqui se fugia e lá se chegava, com m enor ou m aior esperança. Agricultores, pastores e coletores foram -se rearrum ando no alto e nas encostas das m ontanhas, nos vales que as interrom piam , ao longo dos rios e nas m argens dos lagos, em busca de um idade e pasto. Este expulsou aquele grupo; este outro j untou-se ao prim eiro ou com ele até m esm o se fundiu. É de im aginar-se que as secas desm oralizaram , em m uitas com unidades, chefes cuj o poder derivava do controle das chuvas, e fizeram com que fossem substituídos por um novo tipo de líder, o guerreiro, o caçador, o condutor de gente pelo desconhecido. O certo é que aqueles dois séculos assistiram ao surgim ento de num erosos novos estados e m icroestados.

Alguns vinham de antes. Com o Bunioro — o reino de Quitara dos Cuézis, que, após a tom ada do poder pelos luos, m udara de nom e. Alargava-se a sudeste do lago Alberto até o rio Katonga. E tinha a cercá-lo um a série de estados tributários, bem m enores, e dirigidos, em sua m aioria, por subdinastias da estirpe

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real Bito, a m enos que entre eles e o Bunioro não houvesse propriam ente um a

relação de vassalagem , m as tão som ente vínculos form ais e rituais. 5 A noroeste, logo ao sul do Nilo Vitória, ficava Bugungu. A nordeste, Buruli. A leste, Bugerere. A sudeste, a beirar o lago Vitória, Buganda e, logo adiante, Busoga, com vários m icroestados: Bukoli, Bulam ogi, Bukono, Bugabula e Bugueri. Ao sul, Buddu e, m ais abaixo no m apa, Bwera. A sudoeste, Kitakwenda e Ky ala. Se havia um a relação de dependência, esta se afrouxava ou se apertava, conform e estivesse cada um desses reinos, em determ inado m om ento, ao alcance do braço arm ado nioro. Este podia chegar, e m ais de um a vez chegou, até Kiziba, que estava sob um rei bito, até Ihangiro, até Ancolé (ou Nkore), até Ruanda. Mas m uitas vezes viu-se obrigado a encolher-se.

De qualquer m odo, no início do século XVII, o om ucam a, m ukam a ou rei do Bunioro era o poder predom inante na região dos Grandes Lagos. E continuava a expandir-se, sobretudo para o sul, talvez em busca de pastagens m enos afetadas pela Ny arubanga e de gado que pudesse arrancar de outros povos, para recom por os seus rebanhos, dizim ados pelas secas e pelas doenças que as

acom panhavam . 6

Na m etade do Seiscentos, os seus exércitos atravessaram Ziziba e Ancolé, para atacar Caragué e Ruanda. A cam panha andava a m eio, quando, ao que parece, Cua (Cwa ou Chwa) tom ou o poder, após m atar quem era o rei do Bunioro, Niarua (ou Ny arwa). Não tardou m uito e o novo om ucam a perderia, por sua vez, a vida, durante um a batalha. Desanim adas, suas tropas recolheram -se a Ancolé, onde foram batidas pelo rei local, Ntare IV, que ficou conhecido por haver organizado os seus súditos em regim entos bem treinados, sobretudo no uso do arco. (Ver o m apa “Os Grandes Lagos”.)

Com a m orte de Cua, abriu-se no Bunioro um a nova crise sucessória, que culm inou com o assassinato da princesa regente. Matou-a quem se tinha por filho de Cua, Winy i. Nem todos, porém , o aceitaram com o om ucam a, um a vez que não fora gerado em m ulher luo, e desatou-se a guerra civil.

As repetidas dissensões dom ésticas não podiam deixar de afetar o prestígio do Bunioro, que foi perdendo a influência sobre os reinos vizinhos. Os problem as internos im pediam as ações externas — o que j á se interpretou com o o início de sua decadência. Não há nada, porém , que nos autorize a afirm ar que o Bunioro tenha então com eçado a perder a força. Em bora recuasse da aventura im perial, ele continuou a ser o estado m ais poderoso da região. Retraiu-se para fronteiras

m enores, m as dentro delas, ao que tudo indica, se robusteceu.7

Continuou, por sinal, a fornecer m odelos e sím bolos para novas form ações políticas. Assim se deu ao norte do Nilo Vitória, onde não havia sequer pequenos reinos, m as tão som ente chefes de clã e de aldeia. No fim do século XVII, ou j á no século XVIII, dois grupos paluos, que não aceitavam que se tornasse om ucam a quem era filho de m ãe banta, viram -se, ao perder o seu candidato a disputa pelo trono, obrigados a abandonar o país. Atravessaram o Nilo Vitória e se fixaram onde hoj e é o Acholi oriental. Ali criaram estados, a im itar em tudo o Bunioro, até nos tam bores reais com o em blem as do poder. E, nessas áreas onde se falavam , a ocidente, o m adi e, a oriente, o carim onj ong-teso, o idiom a

predom inante passou a ser o luo.8

O retraim ento do Bunioro abriu espaço para o surgim ento e o expansionism o de Um pororo (ou Mpororo). Os seus dois e únicos reis, Kahay a ka Murari e Kahay a Rutingangy ezi, anexaram pelas arm as vários m icroestados a um pequeno território inicial e se im puseram sobre um a área que com preendia desde partes do atual Ruanda até as fronteiras do Bunioro. Breve seria, no entanto, a vida desse reino. Repartido, após o falecim ento de Rutingangy ezi, entre diferentes príncipes, Um pororo deu origem a vários pequenos reinos, com o

Igara, ao norte, e Ruj um bura, a oeste. 9

Muitos estados da região possuíam soberanos luos, que pertenciam ao clã real dos Bitos. Ou que arrogavam essa condição. Outros ligavam -se a um a outra linhagem de reis, os Hindas, que se tinham por descendentes dos Cuézis. Nesse caso, figuravam , entre os lagos Eduardo e Kivu, a oeste, e o Vitória, a leste, Ancolé, Caragué, Gisaka e Ky am utwara, e, m ais abaixo no m apa, Busubi, Buzinza e Burúndi. Desses, o m ais im portante, desde o início do século XVII, era Caragué. E terá sido do Caragué que, no início do Seiscentos, saiu Ruganzu

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Andori (ou Ndori), possivelm ente um m em bro de estirpe hinda, para apossar-

se do poder em Ruanda.

Dataria dessa época o início do derram am ento para o sul dos tútsis com o seu gado. Enquanto as fraldas dos m ontes continuaram a ser cultivadas pelos que

conhecem os com o hutus, e os pequeninos tuas11 caçavam e apanhavam frutos, sem entes e tubérculos onde podiam , os vales se foram transform ando em pastagens para os rebanhos. O entrecho foi sem elhante em Burúndi e tam bém em Ancolé. Em Ancolé, porém , os pastores conservariam o nom e de “him a” ou “hum a”, e os agricultores seriam cham ados “iru”. Chefias hutus lim itavam com chefias tútsis, m as, à m edida que se foi aprofundando a interação entre com unidades com vida econôm ica distinta, os tútsis foram assum indo posição preponderante, graças não só ao poderio m ilitar, m as sobretudo a um sistem a hábil de em préstim o do gado, até estabelecer-se um regim e de desigualdade, no

qual pouco faltou para que os hutus se assem elhassem a servos. 12

Esse processo foi acom panhado pela expansão do pequenino reino de que se assenhoreara Andori. Chefias e m icroestados tútsis e hutus foram sendo conquistados por Ruanda. Aos seus titulares, o rei ruandês não retirava de todo o poder: m antinha-os com o vassalos e fazia de cada um deles o guardião de algum a das insígnias do ubuiru, o conj unto de segredos religiosos sobre os quais se assentava a realeza. Trazia, porém , os filhos desses chefes para a corte e ali os treinava para soldados. Para soldados de um corpo de elite, que era a guarda pessoal do soberano. Proibiu-se aos líderes locais que tivessem tropas e recrutassem guerreiros sem a perm issão do rei, que foi, pouco a pouco,

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centralizando o com ando dos exércitos.

No rei, ou m uam i, a quem se considerava de origem divina, personificava-se o próprio Ruanda. O m uam i era m ais do que um m onarca absoluto. Teoricam ente era o senhor de todos os hom ens, e dos anim ais, e da terra, e das coisas. Tudo o que fazia — esta era a crença — se replicava no país: assim , se dobrasse os j oelhos, o território de Ruanda perderia tam anho. No plano da realidade política, contudo, ele não podia deixar de levar em conta os interesses

das linhagens tútsis m ais im portantes.14

A grandeza de Ruanda ainda se punha no futuro. Bem m ais próxim a no tem po estava a de Buganda.

No início do século XVI, o kabaka, ou rei dos gandas, ainda tinha de cuidar-se, para evitar qualquer ação que pudesse ser tom ada com o desrespeitosa ou ofensiva pelo om ucam a. Várias décadas m ais tarde, na passagem para a centúria seguinte, Buganda j á se m ostraria capaz de repelir um forte exército

nioro. Talvez com o apoio dos m oradores das ilhas lacustres de Sese,15 que deviam ter interesses coincidentes com os de Buganda.

Buganda ficava às m argens do lago Vitória e, por isso, não seria de estranhar-se que nele se houvesse desenvolvido, desde o início, o com ércio por barcos, no qual os ilhéus podem ter exercido um im portante papel, não só com o interm ediários, m as tam bém com o construtores de em barcações. Buganda oferecia ao m ercadej o não apenas bananas e a cervej a que delas se fazia, m as tam bém um reputadíssim o pano de entrecasca de árvore e, depois que conquistou áreas com depósitos de ferro, utensílios desse m etal.

A expansão ganda tom aria im pulso a partir da cam panha desastrosa do om ucam a Cua no Caragué e em Ruanda. A retração do Bunioro perm itiu a Buganda am pliar um território que, no início do século XVI, não se estendia além

de um raio de 40km . 16 É bem verdade que o reino teve início em terras de tal m odo privilegiadas, que não há referências a secas nem a fom es na sua história oral. Se o gado bovino, por causa das doenças, nelas não prosperava, em com pensação os bananais se alastravam , quase sem exigir trabalho.

As tradições destacam três kabakas, no processo de afirm ação do estado: Kim bugwe, Kateregga e Mutebi. E um grande conquistador, Mawanda, que teria

reinado entre 1674 e 1704.17 Já com Kateregga, Buganda havia praticam ente dobrado de tam anho, ao se apossar de territórios, para oeste e para o norte, que

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dantes estavam sob suserania nioro. Ao entrar no século XVIII, após as cam panhas de Mawanda, o reino estendia-se por 250km de praias lacustres e por

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uns 100km para o interior.

Ao m esm o tem po que am pliava o território, Buganda se ia convertendo num a sociedade m uito m ais hom ogênea do que a de Bunioro e num estado m uito m ais centralizado. Em Bunioro, o poder dos clãs de distintas origens continuou sem abater-se. Já em Buganda, os elem entos him as e luos da sua população não dem oraram em ser assim ilados e absorvidos pela m aioria banta. Se algum as chefias antigas continuavam a ser hereditárias, os kabakas apressaram -se em criar outras, preenchidas na base da confiança e do m érito, e que acabaram por ser m ais num erosas do que as prim eiras. Com isso, o rei foi desm ontando a força dos clãs. Além disso, Kateregga passou a nom ear pessoas de seu agrado, geralm ente com andantes m ilitares, para gerir os territórios conquistados. Rom pia, assim , a norm a de deixar no m ando, na condição de tributários, os que deles tinham sido chefes antes da conquista. As novas terras eram sim plesm ente anexadas a Buganda.

Tebandeke, que foi kabaka entre cerca de 1644 e 1674, j á atuava sem dar atenção aos chefes tradicionais. Ele tam bém m inou o poder dos sacerdotes, desligando a m onarquia do sobrenatural. Seu sucessor, Mawanda, foi além : chegou a designar plebeus — os cham ados “hom ens do rei” — para altas posições e a nom ear estranhos com o dirigentes de aldeia, não hesitando tam pouco em dem itir chefes tradicionais. Talvez j á então, com o sucederia com os futuros kabakas, se apoiasse num corpo de guarda-costas que era, de fato, um

pequeno exército pessoal.20

O estado tornou-se, por assim dizer, um a m eritocracia. Todas as posições estavam abertas aos que se destacavam a serviço do rei. Mal se aproxim ava da corte, um j ovem am bicioso procurava ligar-se a determ inado príncipe, de cuj o destino o seu passava a depender. Pois, ao contrário de Ruanda, não havia em Buganda um clã real. O m onarca podia ser sucedido por qualquer dos filhos, que não pertenciam à sua linhagem , m as às das m ães. Eram m uitos, portanto, os clãs dos quais podia sair o próxim o soberano, um a vez que cada kabaka possuía um núm ero enorm e de m ulheres. Não havia, com efeito, clã que não procurasse dar-lhe um a esposa, na esperança de fazer o futuro rei.

As lutas sucessórias, à m edida que se avançou no tem po, foram -se tornando m ais agudas. Antes m esm o da m orte de um kabaka, os clãs dos diferentes príncipes j á se digladiavam . E não só os clãs, m as tam bém aqueles grupos de j ovens atrelados a determ inados pretendentes. A conspiração tornou-se tarefa de dia inteiro. E o rei passou a poder ser deposto ou assassinado a qualquer m om ento. As guerras civis entre irm ãos e entre pai e filhos fizeram -se seguidas.

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Quase contínuas.

Raram ente aparecem escravos nas tradições referentes a essa época. Sabem os, por exem plo, que um a das inovações do rei de Buganda foi a de estabelecer um grupo de escravos artesãos em sua corte. Mas nisto ficam os, em bora possam os im aginar que houvesse um , dois ou três escravos em cada casa e que fossem em m aior núm ero nas m oradas dos poderosos. É possível que, a cum prir tarefas m enos nobres, alguns escravos acom panhassem os pastores, e não só na região dos Grandes Lagos, m as tam bém nas vastas áreas que se estendem entre eles e o litoral. Em certos grupos, eles podiam até receber a

doação de bois.22

Nas terras sáfaras do interior do Quênia e da Tanzânia, fracam ente povoadas — o português Gaspar Bocarro, durante todo o longo traj eto que percorreu, em 1616, de Tete até Quíloa, encontrou pouquíssim a gente entre o Rovum a e essa últim a cidade —, o escravo seria m uito bem -vindo para reforçar as linhagens que a fom e e as enferm idades, de seca em seca, desfalcavam . Havia, certo, alguns enclaves de solos férteis e forte pluviosidade, com o a cordilheira de Ny andarua e os m ontes Pare, Digo, Kilim anj aro e Quênia. Mas, na m aior parte da região, após três ou quatro colheitas, era necessário derrubar a m ata, fazer a coivara e plantar em terreno novo, o que requeria para cada aldeia um am plo espaço ao derredor e a possibilidade de m over-se, de tantos em tantos anos, para terras virgens. Isto, que era válido para os cultivadores de sorgo, m ilhetes e inham es, pouco se alterou com a introdução, no correr do século XVII, dos vegetais am ericanos, com o o m ilho, a batata-doce, o am endoim e a m andioca, em bora esses tenham dim inuído as carências alim entares da região.

Tam bém de am plos espaços necessitavam os caçadores e coletores, alguns dos quais continuaram fiéis às suas práticas, nas áreas m ais ríspidas do planalto, até quase os nossos dias, recusando-se a adotar a agricultura ou a pastorícia. E bons m otivos tinham para isso, por exem plo, os hadzas da Tanzânia, pois é provável que fossem dos que m enos padeciam durante as longas estiagens. Mesm o quando os antílopes m igravam , os lagartos, os passarinhos, as larvas e os insetos continuavam nos carrascais e nos cerrados; dem oravam a desaparecer as frutinhas silvestres, os coquinhos e as nozes; e sem pre era possível desencavar alguns tubérculos da terra ressequida ou encontrar m el nas colm eias.

Não eram m enos vastos, num a paisagem de estepe, os horizontes de que careciam os rebanhos. Aqueles grupos hum anos que tinham no boi o centro da vida ocupavam , desocupavam e reocupavam grandes faixas de território e pareciam estar em perm anente viagem .

Terá sido no século XVI que vários grupos de nilóticos orientais (ou nilóticos da planície) conhecidos com o m assais com eçaram a sair dos arredores do lago Turcana (ou Rudolf) e a cam inhar com o gado para o sul. Suas tradições falam de um ancestral, Maasinda, que construiu um a enorm e escada, para subir a

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escarpa e ganhar o planalto do Quênia. Dali, eles chegaram , pelo Rift Valley,

até o centro de Tanganica.

Os m assais nunca form aram um estado territorial. Dividiam -se em confederações de tribos, com nom es próprios (sam buru, wuasinkishu, kisonko etc.), estruturadas em grupos de idade e com língua, costum es e tradições com uns. Ao descer o m apa, eles se foram desviando de outros povos que eram tam bém pastores, com o os nandis e os tatogas, ou que praticavam um a agricultura que não dispensava a criação de gado. Isto, quando não os em purravam m ais para o sul. Os m assais expandiam -se, na realidade, por um am plo bolsão de estepes im próprias para a agricultura, m as propícias ao pastoreio, e que j á eram o hábitat de outros nilóticos e de cuxitas.

Essa expansão não se deu sem violência. Todos os m assais passavam , entre a puberdade e os 40 anos, pelo grau de guerreiros, e estes form avam , dentro de cada grande grupo, um regim ento pronto para a ação m ilitar. Se estavam sem pre em pé de guerra com os povos lim ítrofes e com aqueles de que se avizinhavam , não os excluíam do com ércio. Recebiam , por exem plo, dos quicuios e chagas m ulheres em casam ento e com eles trocavam leite e couros por arm as e utensílios de ferro, ocre, tabaco, cabaças e outros produtos agrícolas. Mais para o sul, contudo, o escam bo pode ter-se tornado m ais lim itado, porque entre algum as tribos m assais se desenvolveu a proibição de consum ir qualquer alim ento que não proviesse do gado. Era antigo e geral o interdito contra as aves, a caça e o pescado, porém , antes de se difundirem as novas interdições, todos os m assais

cultivavam e com iam m ilhetes e sorgo.24

Essas relações, a oscilarem incessantem ente entre o conflito e o entendim ento, davam -se, na m aior parte dos casos, com povos bantos. Pois estes tinham com eçado, havia quase dois m ilênios, a espalhar-se pelas áreas com

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vocação agrícola de todo o interior da África Oriental. Muitos deles som aram

à agricultura a posse de alguns bois, e quase todos a de cabras, ovelhas e aves dom ésticas. Com isso asseguravam , além do abastecim ento de carne e couros, com plem entado pela caça, o estrum e para suas roças. Hábeis agricultores, os bantos praticavam não só a adubagem — m isturavam corriqueiram ente ao solo os restos de cozinha —, m as tam bém a irrigação, a construção de socalcos nas encostas das m ontanhas, a rotação de culturas e, sobretudo, a m escla de diferentes vegetais num só trato de terra, a fim de garantir, se alguns dos cultivos não dessem certo, que outros não os deixassem na m ão.

Já se escreveu que o interior do Quênia e da Tanzânia era um m ar de

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pastoralism o com algum as ilhas de agricultura. Nessas ilhas, quando em áreas

não desprezadas pelas chuvas, desenvolveram -se sociedades prósperas e estáveis. A m aioria não revelou necessitar, para gerir a vida coletiva, m ais do que a fidelidade às linhagens, aos grupos de idade e aos ritos ligados à terra, ou a obediência às decisões dos que, sendo cabeças de linhagem ou aldeias, não retiravam do tributo sobre os dem ais o sustento próprio, de seus fam iliares e de seus servidores e apaniguados. Cobravam os m ais velhos, e sobretudo os que representavam a fam ília que, real ou sim bolicam ente, prim eiro ocupara a terra e fundara o vilarej o, respeito, hom enagem , oferendas e serviços. Podiam requerer da aldeia a obrigação de reparar-lhes periodicam ente o colm o das casas. E, pior de tudo, açam barcar as m ulheres, retirando-as dos j ovens. Mas esse era um preço bem m enor do que as sociedades pobres pagavam por aquilo a que costum am os cham ar estado. Na m aior parte da região, nos séculos XVI e XVII, até m esm o os m icroestados foram exceções.

Mais para oeste, na parte central da Tanzânia, onde vivem povos aparentados

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(os sucum as, os niam uézis, os conongos e os quim bus ), desenvolveram -se, por essa época, vários pequenos estados, que se foram fragm entando em estados ainda m enores. A região é de difícil geografia. Os solos são paupérrim os e cobertos por carrascais, cerrados e estepes ressequidas. O período pluvial, que devia estender-se por seis m eses, frequentem ente se encurta. E não é incom um que as chuvas se ausentem por m ais de um ano. As capitais dos m icrorreinos, dentro de suas fortes paliçadas, não podiam ser, por isso, m uito grandes, ou, caso contrário, as áreas agrícolas circunvizinhas não teriam com o sustentá-las.

Com seus paus de cavar e suas enxadas de cabo curto e lâm ina pequena — o ferro vinha de longe e custava caro —, sucum as, niam uézis, conongos e quim bus cultivavam m ilhetes, sorgo, inham es e feij ões, antes de receberem o m ilho, a batata-doce e a m andioca. Criavam cabras e ovelhas. E tam bém alguns bois, que tinham grande im portância entre esses povos, porque eram a m oeda com que se obtinham noivas e se pagavam im postos e m ultas. A região era rica em elefantes, e seria graças às suas presas que os niam uézis iriam construir a reputação de grandes com erciantes de m arfim . E, m ais tarde, de escravos. Não é im provável que eles, j á no fim do século XVII, tenham com eçado a viaj ar, com os dentes de elefantes à cabeça, até a costa. E que, desde o princípio, tenham com erciado com o sal que se tirava das fontes da vizinha Uvinza.

Entre os niam uézis, as tradições atribuem a form ação de vários de seus estados a im igrantes de diferentes origens, que se im puseram sobre os que j á viviam na área. Outros desses m inirreinos resultaram da secessão de príncipes, que se foram instalar, com seus acom panhantes, em terras próxim as.

Em épocas m ais recentes, cada m icroestado cham ava-se butem i ou ichalo.

Seu rei, o antem i (ntem i, ou sej a, “o que lim pa a m ata, cortando-a”31), tinha funções basicam ente rituais. Dele dependiam as chuvas e as colheitas, a fertilidade das m ulheres e do gado, o bom êxito nas guerras e nos saques. Por isso, quando adoecia gravem ente ou perdia a potência de hom em , tinha de ser estrangulado. Enterravam -no com form alidades elaboradíssim as, nas quais se incluíam sacrifícios hum anos. Suas principais funções políticas eram as de j ulgar as pendências entre os vários grupos que com punham o reino e de presidir a um a reunião anual, a que com pareciam todos os grandes chefes subordinados, para determ inar-se o que se faria no ano seguinte. Nessa ocasião, os chefes entregavam ao antem i a parte dos tributos que em seu nom e haviam recolhido. O dia a dia do governo e a condução das ações m ilitares ficavam na m ão desses chefes, cada qual com sua pequenina corte, dentro de sua tranqueira. Herdavam a posição pela via patrilinear. E nenhum deles podia vir a ser um antem i, sem pre

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escolhido, em cerim ônias de adivinhação, entre os filhos das irm ãs do rei.

Tam bém entre os sucum as e os quim bus, a sucessão do antem i era m atrilinear; e patrilinear, a da aristocracia que adm inistrava os vários reinos, por m eio de seus chefes. Os quim bus atribuíam suas instituições políticas e a introdução da agricultura a um clã de im igrantes, os Niisam bas (Ny isam ba), que teriam vindo de Usum bwa (ao oriente do Burúndi e ao sul de Zinza) para o nordeste do lago Rukwa, antes do últim o quartel do século XVII. Os Niisam bas trouxeram com eles os sím bolos de poder: trom pas de m adeira profusam ente

insculpidas, que só se tocavam em honra do antem i e de seus antepassados. 33 Os antem is possuíam outros em blem as sacros: lanças especiais, por exem plo. E m antinham um fogo real, que devia ser a fonte de todos os que se acendiam no reino.

A leste do Rift Valley, ao fechar-se o século XVI, j á existia um m icroestado a cam inho de tornar-se bem m aior e m ais centralizado. Ficava na parte setentrional dos m ontes Pare. Surgira ao redor de um a fundição de ferro, onde um a estirpe de ferreiros, os Shanas, adquiriu tam anho prestígio, que vinha gente de longe, não só adquirir os utensílios que m anufaturavam , m as tam bém subm eter-lhes suas disputas e realizar, sob a orientação deles, as cerim ônias

iniciatórias de seus j ovens. 34 O que era um a pequena chefia viria a sofrer drásticas transform ações, com a tom ada do poder pelos líderes de um outro clã, o Suy ia. Pronto, esses lograram unificar sob seu m ando todo o norte dos m ontes Pare. Nesse reino, que tom ou o nom e de Ugueno (Ugweno), os chefes de clã tornaram -se m em bros de conselhos hierarquizados, os ritos de iniciação clânicos fizeram -se ritos nacionais, e príncipes do que passara a ser a cepa real foram colocados à frente dos vários distritos em que se dividia o estado.

Provavelm ente Ugueno não foi um caso excepcional na região. Mas o quadro que nos ficou, de toda aquela vasta área, foi o de agrupam entos hum anos regidos por conselhos de linhagens, por grupos de idade ou, quando m uito, por chefes de aldeias ou grupos de aldeias. Era assim , entre os quicuios do m onte Quênia. Entre

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os cam bas de Ukam bani. E entre os chagas do Kilim anj aro.