A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 25 de 30 · parte 1/3

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A Manilha e o Libambo

23. A África Atlântica, ao norte do equador

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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A África Atlântica, ao norte do equador

 

Ao findar o século XVII, com erciar na África, para m uitos brandem burgueses, ingleses, dinam arqueses, espanhóis, franceses, holandeses, por tugueses e suecos, tornara-se sinônim o de com prar negros, para revendê-los na Am érica. Os barcos europeus recolhiam cativos nos m ais diferentes pontos dos litorais africanos, m as cada nação europeia tinha suas áreas de m ercadej o preferidas. Os portugueses, por exem plo, na costa norte de Angola. O que não significava, porém , que não continuassem a parar de vez em quando nos portos da Senegâm bia e até nos m esm os lugares de onde tinham arrancado os prim eiros escravos africanos.

O quadro político da região se havia alterado, em parte com o consequência da atlantização de um a parcela considerável de seu com ércio. No m undo j alofo, m udara-se a correlação de forças em favor dos reinos litorâneos, sobretudo de Caior, que vendia couros, gom a, índigo, m arfim e escravos aos europeus, e m andava para o interior o sal que produzia localm ente, os artigos que baixavam dos navios oceânicos e as nozes-de-cola, o ferro, a m alagueta e os panos que chegavam da Petite Côte em caravanas de burro e cam elos ou nos barcos dos

lebus1 do cabo Verde e dos niom incas. Estes últim os, ao aprenderem com os portugueses o uso das velas e ao colocá-las em suas alm adias (que, assim m odificadas, se tornaram conhecidas na região pela palavra caraíba “piroga”), passaram a poder navegar contracorrente, ao longo do litoral entre o cabo Verde

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e a foz do Senegal.

Em bora m ais poderoso do que os dem ais reinos, Caior não logrou restabelecer a unidade j alofa. O m áxim o que o dam el Am ari Angune (ou Am ary Ngoone) conseguiu foi ser a cabeça de um a espécie de união pessoal, na qual ele era rei de Caior e tenhe de Baol. A sua atividade política — e não só a dele, m as tam bém a dos outros soberanos j alofos — concentrara-se em neutralizar as aspirações autonom istas dos chefes locais, os lam ans ou senhores da terra. Para isso, os reis apoiaram -se cada vez m ais nos conselheiros, escrivães, adivinhos e fazedores de am uletos m uçulm anos e nos escravos reais, sobretudo na guarda de elite de tiedos. Estes últim os, fiéis à religião tradicional, eram , ao que parece, adversários dos islam itas e tinham por aliados os griots, depositários da história e dos valores culturais do reino. De que m uitos de seus conselheiros e servidores m oslins não eram confiáveis, o burba, o dam el e o tenhe teriam ciência segura, na segunda m etade do século XVII, ao se reacender, na m argem norte do rio Senegal, o puritanism o islam ita.

No sudoeste do Saara, dois grandes grupos de cam eleiros conviviam e conflitavam . Um deles, form ado pelos árabes hassans, havia-se instalado na região desde o século XIV. Pastores aguerridos, tinham com o segunda e terceira atividades o saque e a cobrança de proteção (ou gharam a) às caravanas e às com unidades nôm ades e sedentárias. Com punham o outro as tribos azenegues

com andadas pelas confrarias de m arabus ou zauaias, 3 que haviam renunciado às arm as, se regiam por um islam ism o arraigado e estrito e se sentiam prej udicadas em suas atividades pastoris e com erciais pelas ações predatórias dos hassans. Foi entre esses zauaias que surgiu, na m etade do século XVII, andraj oso e de cabeça raspada, um pregador m ilenarista, a exigir a purificação das práticas islâm icas e a regeneração dos costum es. Não dem oraria para que Awbek ibn Ashfaga, que ganhou o nom e de Nasir al-Din (Nacer Eddin ou “Protetor dos Fiéis”), se

declarasse im am e e am ir al-m u’m inin (em ir ou “com andante dos crentes”). 4 Nesta condição, ele convocou um a guerra santa contra os soberanos da m argem esquerda do Senegal, para ele falsos m uçulm anos, pois, além de continuarem a praticar ritos politeístas e de não seguirem a xariá ou lei de Deus, oprim iam e escravizavam os islam itas e vendiam aos cristãos um a grande quantidade de hom ens, im pedindo, assim , que estes tivessem , por m eio do cativeiro, acesso à verdadeira fé. O j ihad pronto assum iu as características de um grande levante popular. Mas não deve ter faltado, no espírito de m uitos dos que a ele aderiram , m otivações econôm icas: controlar a região produtora de gom a-arábica e devolver ao com ércio saariano o que dele se apartava na direção do Atlântico, sobretudo depois que os franceses, em 1659, ergueram um forte na ilha de Saint-Louis, defronte da boca do rio Senegal. A com petição francesa encarecia o acesso dos m ouros aos cereais de que tradicionalm ente se abasteciam nas áreas ribeirinhas e tam bém aos escravos de que dependiam , desde m uito, para produzir nos oásis e para m ercadej ar com a África do Norte.

Im agino que, ao desatar a guerra santa contra os reinos do terço inferior do rio Senegal, Nasir al-Din lançasse o seu olhar estratégico para dois lados, para o deserto e para a savana. Caso tivesse êxito, não só assum iria o m ando sobre os sedentários produtores de grãos, com o tam bém cortaria o acesso dos hassans aos portos m eridionais do deserto, castigando-lhes o com ércio e im pedindo que lhes chegassem as arm as de fogo e as arm as brancas europeias, que outros m uçulm anos, com o os diacanquês, iam com prar aos franceses.

Aj udado pelos tucolores, que, m aciçam ente m uçulm anos, se haviam rendido ao fervor de suas palavras e desej avam livrar-se do dom ínio dos Denianquês fulas, Nasir al-Din conquistou sem m aior luta o Futa Toro, obrigando o satigi a refugiar-se no estado soninquê de Gadiaga (Gaj aaga ou Galam ), que ficava m ais para leste, a lim itar com o rio Falem é. Em seguida, expulsou de seu reino o burba e colocou em seu lugar um clérigo local. Logo avançou contra Ualo, onde o esperava um a forte resistência, que só teve fim com a m orte do braque Fara Kum ba. Infladas de m uçulm anos j alofos, suas tropas m archaram , então, contra Caior. Muitos dos súditos do dam el, por fervor religioso ou por descontentam ento com o peso dos tributos cobrados pela aristocracia e com os abusos e os m aus tratos dos tiedos, a elas se uniram , encabeçados por um ulem á, Ndiay e Sal (N’Diay e Sall ou Nj aay Sall). O dam el, de nom e Detié Maram (ou Decce Maram Ngalgu), foi derrotado e m orto. Substituiu-o form alm ente seu irm ão, Mafali (ou Mafaali Gey ), m as o poder efetivo ficou nas m ãos de Ndiay e Sal. Este, ao sentir que Mafali com eçava a escapar de seu controle e a ceder aos griots, m andou-o assassinar e assum iu ele próprio a condição de dam el. Nela não durou m ais do que a fortuna dos zauaias, pois, tão pronto foram estes derrotados no deserto pelos hassans, os tradicionalistas o derrubaram do poder.

Nasir al-Din lograra form ar um estado islâm ico. Quando, contudo, quis atuar com o califa e requereu o pagam ento do tributo (ou zakat) que lhe seria devido, os hassans, apoiados num a fatua de um j urista zauaia, retrucaram que não o tinham com o tal. E saíram em guerra contra ele, sob o com ando de um chefe do Trarza, Haddi ibn Ahm ad ibn Dam an. Nasir al-Din derrotou-os em cada um a das três grandes batalhas do que se cham ou a guerra de Bubba (Shurrbba ou Sharr Bubba) ou dos tubenans (“convertidos” ou “penitentes”), m as, na últim a, em 1674, em bora suas tropas saíssem vitoriosas, perdeu a vida. Os cinco im am es que o sucederam ou foram depostos, por m ornos e conciliadores, ou m orreram a pelej ar contra os hassans ou os tradicionalistas j alofos. Ao ver-se finalm ente derrotada, a m aioria dos zauaias resignou-se a pagar proteção aos hassans e, possivelm ente, voltou ao regim e de suj eição de antes da guerra santa: os guerreiros árabes tinham o direito de beber o leite dos rebanhos zauaias, bem com o o acesso a um terço da água de seus poços; e cada grupo hassan passou a

ter com o clientes os seus zauaias. 5

De fora da tem pestade tinham ficado os reinos, m ais ao sul, de Sine e Salum , que, em bora pertencessem ao universo político j alofo, eram form ados por populações m aj oritariam ente sereres e possuíam um a aristocracia m andinga, da qual saiu a dinastia Gueluar. Esses dois reinos não foram , ao que parece, afetados pelo j ihad, cuj os ganhos pronto se desfizeram . Os hassans vitoriosos criaram dois em irados — o de Trarza e o de Brakna — no sudoeste da atual Mauritânia. Quanto aos rem anescentes da m ilitância tubenan, abrigaram -se no Futa Toro, onde passaram a ser fustigados pelos hassans, pelos j alofos de Ualo e pelas tropas do satigi, que iniciava a reconquista. Em pouco tem po, as antigas linhagens reais voltaram ao poder e a guerra santa de Nasir al-Din se transform ou em m em ória e exem plo.

No exem plo ter-se-ia inspirado o pregador ou wali Malik Si. 6 Nascido no Futa Toro por volta de 1637 e educado no sul da atual Mauritânia (ou talvez no Caior), é quase irresistível a tentação não só de fazer dele um seguidor de Nasir al-Din,

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m as tam bém de pô-lo entre os que lutaram em suas hostes. Por volta de 1680, Malik Si instalou-se, com m uitos outros tucolores pios, na parte m eridional do reino soninquê de Galam ou Gadiaga, que crescera com o estado graças à sua posição privilegiada no alto Senegal, pois ficava não só próxim o a Bam buk e Burê, m as tam bém num a zona de encontro entre distintos sistem as de transporte com ercial: o do norte, baseado no cam elo; o do leste, no cavalo; e o do sul, no

asno;8 sem esquecer a canoa, em todas as direções dos rios. Tanto Malik Si quanto os tucolores que, por terem form ado entre os tubenans, fugiam da desforra do satigi e da aristocracia fula, foram bem recebidos pelo tunka, o soberano de Gadiaga. Na área que este lhes designou para residência, o Bundu (ou Bondu), Malik Si fundou um novo estado, de feição islâm ica, assum indo o título de alm am i, elim an ou im am e.

A tentação de fazer de Malik Si um seguidor de Nasir al-Din é forte, m as j á se

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m ostrou que este não é citado nas tradições orais sobre aquele. Malik Si nelas aparece com o um ulem á a viaj ar de reino em reino, a vender os am uletos islâm icos que fazia e que tinham a reputação de serem poderosíssim os. Teria sido graças à eficácia desses grigris que o tunka de Gadiaga lhe teria cedido as terras nas quais surgiria o reino de Bundu. Em vez de um adepto da guerra santa, Malik Si, em bora m uçulm ano fervoroso, ter-se-ia inclinado à tolerância em relação aos pagãos, até para não estim ular fricções entre os distintos grupos (fulas, m andingas, soninquês e j alofos) que form avam a população m ista de Bundu.

Outra coisa era prestar vassalagem a um pagão. Não correu, por isso, m uito tem po, e os m oslins com eçaram a se sentir incom odados em ter por suserano um gentio com o o tunka de Gadiaga. Ou para rom per a vassalagem , ou porque Malik Si desej ava am pliar os seus dom ínios para o norte, irrom peu a guerra entre o protegido e o protetor. No conflito, aquele perdeu a vida. O Bundu só se separaria definitivam ente de Galam no governo de seu filho, Bubu, que derrotou o tunka, graças à aj uda dos fulas do Futa Jalom . Confiante em sua força, Bubu resolveu, porém , conquistar a região aurífera de Bam buk e m orreu na em presa. Os m andingas retaliaram , invadindo Bundu e obrigando suas lideranças a se refugiarem no Futa Toro.

Nem todos os fulas alinharam -se com o satigi contra Nasir al-Din e seus seguidores. Muitos haviam aderido aos j ihadistas zauaias e se viram perseguidos. Fugiram para o sudeste, para a região m ontanhosa do Futa Jalom . A área j á era habitada pelos sossos e pelos dialonquês, uns e outros concentrados em aldeias agrícolas nos vales ribeirinhos, e tam bém por fulas, que, havia m ais de dois séculos, dem andavam com seus rebanhos as excelentes pastagens do planalto. Os foragidos do Futa Toro a eles se j untaram , bem com o a outros fulas, recém -chegados de Bundu, Macina e vários outros lugares, islam izando os anim istas e renovando o fervor religioso nos m oslins. Vincularam -se tam bém a seus correligionários m andingas e às redes com erciais de que esses dispunham , desde o Sael até o Atlântico. E tornaram -se grandes fornecedores de couros bovinos, para os quais parecia insaciável a dem anda europeia.

Com o aum ento dos rebanhos, os fulas acercaram -se das aldeias agrícolas dos sossos e dialonquês. E com eçaram as contendas pelo uso da terra, com os bois a invadirem as lavouras ou a serem expulsos da beira dos riachos. Subprodutos desses conflitos, logo os escravos se som aram aos couros, no com ércio com os m andingas, que m ercadej avam com os europeus. E não tardaria para que os fulas passassem a atacar as aldeotas, com o obj etivo precípuo de capturar gente. Muito em bora os sossos fizessem o m esm o com os dialonquês e os fulas, a balança da riqueza e do poder desequilibrar-se-ia em favor destes últim os e, entre eles, dos grupos m ais zelosam ente m uçulm anos, que possivelm ente continuaram a guardar a m em ória da guerra santa zauaia. Esse estím ulo de um passado recente pode ter sido um dos acicates para que os fulas desatassem , no Futa Jalom , o seu próprio j ihad, no segundo quartel do século XVIII.

Já no espírito e no coração dos j alofos, as lem branças da pregação e das lutas de Nasir al-Din tom aram form as diferentes, conform e fossem eles tradicionalistas ou m uçulm anos. Os prim eiros as tinham por am argas e qualificavam de odioso o curto período de dom ínio dos tubenans, só não procurando esquecê-lo, porque possivelm ente desej avam ter viva o que a aristocracia j alofa qualificava de traição dos m oslins. No m eio do povo, parece que a catequese islam ita perdeu, por algum tem po, im pulso. No seu entusiasm o m ilenarista, os m arabus haviam pregado que a conversão e a penitência eram tão gratas a Alá, que dos cam pos brotariam os cereais, sem que houvesse necessidade de sem eá-los. Teve-se com o ato ím pio o cultivar a terra. E veio a

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fom e. E, com a fom e, a desilusão.

Entre os m aom etanos, sobretudo naqueles que pertenciam às cam adas populares, ficou a m em ória de um grande m ovim ento feito em nom e de Deus, para pôr fim à opressão dos aristocratas e dos tiedos. Essa m em ória alim entaria um a persistente resistência m oslim contra os regim es aristocráticos e m ilitaristas, um a resistência que acabaria por seduzir as m assas deserdadas, favorecendo, a longo prazo, a sua conversão. A um olhar m oderno, a guerra santa de Nasir al-Din poderia, aliás, assum ir os contornos de um a enérgica reação ao tráfico de

escravos 11 — ou, m elhor, penso eu, ao tráfico transatlântico de escravos, ou, em outras palavras, ao com ércio de escravos pelos cristãos.

De que o j ihad dos m arabus era contrário a seus interesses, os franceses disso tiveram pronta consciência, até porque o prolongam ento da luta paralisou o com ércio ao longo do rio Senegal. Porque não lhes deve ter escapado que a vitória dos j ihadistas lhes cortaria o acesso ao interior, não ficaram alheios à luta contra Nasir al-Din e seus sucessores, aj udando m ilitarm ente, ou, quando m enos, com o fornecim ento de arm as de fogo, os adversários dos tubenans.

Após se apropriarem de m uitas das pontas costeiras da rede m ercantil dos diacanquês, diulas, lançados e luso-africanos, os franceses procuraram não depender inteiram ente deles para com erciar nos sertões. Foram subindo o Senegal e instalando às suas m argens entrepostos com o os de Ualo, Coq e Terrier Rouge. E não se despediriam do século sem antes levantar o forte Saint Joseph, em Gadiaga, no alto rio. Com o se não bastasse, tornaram -se, em 1677, senhores da ilha da Goréa, e de lá saíam para os seus entrepostos de Rufisque, Portudal e Joal, respectivam ente no Caior, no Baol e no Sine. Não se pense, no entanto, que navegavam tranquilos pelo rio Senegal ou desem barcavam onde e com o queriam na Petite Côte: na realidade, só se sentiam seguros dentro de suas fortalezas e feitorias. Fora delas, m andavam os grandes da terra. E estes estavam , desde a guerra dos m arabus, em perm anente conflito, cada rei procurando im por-se sobre os dem ais e, dentro de cada estado, vários pretendentes a disputar o poder.

Por volta de 1692, um usurpador assum iu o m ando no Baol. Cham ava-se Lat Sukaabe (ou Latsukaabe) Faal, e as tradições o fazem o filho aleij ado — andava de m uletas — do rei, e, por isso, m enosprezado pelo pai. Exila-se, cura-se, vagueia por vários países, tom a contato com as arm as de fogo europeias e regressa ao Baol, para em polgar pela força o poder. Em 1695, após derrotar as tropas do burba de Jalofo, faz-se eleger dam el de Caior, com suas tropas a cercar o conclave encarregado da escolha. Recom põe, assim , a união dos dois reinos, que fora lograda no passado por Am ari Angune. Com o este, tornou-se dam el e tenhe. E a ele se atribui o ter tornado realidade efetiva um núcleo de exército form ado exclusivam ente por soldados-escravos — cerca de 200 —, todos

m unidos de arm as de fogo.12 De seu reino datar-se-ia o predom ínio político dos tiedos, os tiedos que a história oral, reelaborada nos últim os dois séculos pelos ulem ás, descreve com o alcoólatras, incréus, pagãos e tiranastros.

Dependente das arm as de fogo e da pólvora europeias, Lat Sukaabe esforçar-se-ia para não deixar o com ércio atlântico escapar de seu controle. E colidiu, com o era de esperar-se, com os franceses. Tam bém nisso repetiu Am ari Angune, ao opor-se ao exclusivo do com ércio m arítim o que os franceses se arrogavam no baixo Senegal e na Petite Côte. Quando, em 1701, o diretor local da Com panhia francesa das Índias Ocidentais, André Brüe, apreendeu alguns navios ingleses que m ercadej avam na costa, Lat Sukaabe m andou prendê-lo e a todo o pessoal francês, e confiscou os bens da com panhia que se achavam em terra firm e. Brüe e seus com panheiros só foram libertados, após pagar resgate, 12 dias depois. O dam el-tenhe sabia que lidava com os franceses de um a posição de força, tanto que os advertiu: “Deviam eles ter sem pre presente de quem os seus entrepostos em Saint-Louis e na Goréa dependiam , pois os podia expulsar ou os reduzir à m íngua, bastando para isso que proibisse os seus súditos de fornecer-

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lhes provisões.”

O j ihad de Nasir al-Din e os repetidos conflitos que a ele se seguiram aum entaram a oferta de cativos, produzidos pelos encontros arm ados, pelas perseguições políticas e tam bém pela fom e decorrente do abandono do cultivo dos cam pos, um a vez que não faltaram fam ílias que preferiram vender suas crianças a vê-las m orrer de inanição. Esse aum ento da oferta coincidiu com um crescim ento da procura, tanto no litoral atlântico quanto nos portos do deserto.

Com a criação de colônias agrícolas nas Antilhas, o escravo não tardaria em com petir com o couro bovino pela posição de item de com pra m ais im portante das feitorias francesas entre os rios Senegal e Gâm bia. A partir do segundo terço do Seiscentos, os seus em barques de africanos não cessaram de aum entar. Tam bém nos caravançarais do Sael deve ter crescido a venda de cativos, pois era com eles que os j alofos, os fulas e os m andingas adquiriam os corcéis do Magrebe e das pastagens elevadas do deserto, indispensáveis à perm anente reposição das cavalarias. Segundo um a tradição local, na guerra santa de Nasir

al-Din não havia guerreiro sem cavalo.14

Do Marrocos, que sem pre se suprira de escravos na região — e os azenegues do sudoeste do Saara, os m esm os em penhados na guerra santa, deviam figurar entre os seus fornecedores —, as solicitações tam bém aum entaram . No fim do século, esse increm ento tornou-se ainda m ais pronunciado, não só porque os m osteiros e as com unidades de m arabus sufis utilizavam crescentes núm eros de escravos com o trabalhadores rurais, m as porque o segundo sultão alauita, Mulai (ou Mawlay ) Ism ail (que reinou entre 1672 e 1727), se em penhava em form ar e engrossar um exército de elite exclusivam ente com escravos negros, até m esm o na cavalaria. Para isso, ele necessitava, além de rapazes, tam bém de m ulheres, pois a instituição m ilitar conhecida com o ‘Abid al-Bukhari (ou Bawakhir) tinha um a de suas bases na fam ília autorreprodutora de escravos. Não só ele recrutou todos os haratins e negros que pôde, reescravizando os que eram livres, com o teve de recorrer a expedições negreiras no Sael e ao tráfico transaariano, para com por um corpo de soldados-escravos negros, que, no seu auge, j á foi estim ado, com suas fam ílias, entre 150 m il e 180 m il pessoas. Mulai Ism ail não se contentou em criar um a com unidade de escravos m ilitarizados; fez de sua enorm e escravaria dom éstica um a afirm ação de grandeza e poder. Seus súditos lhe seguiram o exem plo, e ostentar escravos passou a ser sinal de status — um aristocrata urbano ou um notável tribal não viaj avam sem estar acom panhados por um bom núm ero deles —, com o que cresceu a pressão sobre os

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m ercados.

Philip D. Curtin calculou as im portações do Marrocos durante o reinado de Mulai Ism ail em cerca de 200 m il escravos, o que daria, num período de 50 anos, um a m édia anual de quatro m il, dos quais um pouco m enos da m etade devia provir da Senegâm bia. Se assim tiver sido, esses últim os núm eros se em parelhariam com os dos em barques realizados, por essa m esm a época, nos

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portos senegâm bios para os m ercados de além -m ar — em barques que teriam

sido, por sinal, m uito m aiores do que os estim ados para o século XVI e os três prim eiros quartéis do XVII, período para o qual Curtin propôs entre 250 e m il

escravos por ano.17 Inclino-m e, contudo, a crer, com Boubacar Barry, que as exportações da área pelos portos do Atlântico, no Quinhentos e prim eira m etade

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do Seiscentos, j á possam ter sido m aiores, um pouco acim a do m ilhar anual.

Pelo m enos, depois de 1550.

Da Senegâm bia e da Alta Guiné (a região entre o Gâm bia e o cabo Mount) saiu a m aioria dos escravos para a Europa, as ilhas atlânticas e a Am érica espanhola, no Quatrocentos e no Quinhentos. É verdade que era um com ércio de pequenos núm eros, m as não há esquecer que as ilhas de Cabo Verde foram povoadas por gente trazida do litoral defronte. Nem tam pouco que na Senegâm bia tinha origem boa parte do contrabando para o arquipélago de negros cuj o destino final eram as Índias de Castela. O com ércio clandestino não deixa registros, porém Antônio Carreira im aginou que as transações ilegais, durante todo o período do tráfico negreiro, correspondessem a entre 40 e 50% do

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m ontante anotado na docum entação portuguesa.

Ainda que as exportações de escravos da Senegâm bia pelos portos atlânticos, durante o século XVI e a prim eira m etade do XVII tenham ultrapassado a casa do m ilhar anual, é provável que ainda fossem m enores do que as vendas transaarianas. Os senhores das savanas senegalesas abasteciam os navios de escravos, em troca de arm as de fogo, e as cáfilas, para obter cavalos altos. Essa devia ser a praxe, ainda que não fosse invulgar obterem -se espingardas dos caravaneiros e equinos dos navegantes. Com o os cavalos eram essenciais às suas m áquinas de guerra e tinham vida curta na savana, os cativos seguiam em m aior núm ero para o norte do que para oeste. Em 1686, por exem plo, o tenhe de Baol derrotou o exército do dam el de Caior, fazendo m uitos prisioneiros. Colocou apenas 80 a bordo de um navio francês; o resto m andou para os m ouros, a fim de

conseguir cavalos. 20

Não afasto que se trate de coincidência, m as os pouquíssim os dados que conhecem os sobre a escravaria na Am érica espanhola durante o Quinhentos nos sugerem que, se a cham ada Alta Guiné foi a prim eira área fornecedora, a Senegâm bia se colocou com o a segunda, posição que só perdeu ao ter início o século XVII. Dados recolhidos dos registros notariais de Lim a e Arequipa, entre 1548 e 1560, indicam , por exem plo, que, de 270 escravos trazidos da África, 45

eram j alofos, 18 sereres, 15 m andingas e um fula. 21 Por sua vez, um inventário do plantel de escravos de Hernán Cortez em 1549, publicado por Aguirre Beltrán, destaca, entre 123 negros nascidos na África, 83 dos quais se conhecia a região

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de origem : destes, 14 eram j alofos, nove m andingas, seis sereres e um tucolor. Nos prim eiros anos do século XVII o padre Alonso de Sandoval identificou em Cartagena de Índias, então o m aior cais im portador de escravos da Am érica espanhola, um bom núm ero de j alofos, sereres, m andingas e fulos, dos quais fez o elogio — eram trabalhadores, inteligentes, bonitos, bem -dispostos e alegres —,

acrescentando que custavam m ais caro do que os dem ais.23 E j alofos eram m uitos dos escravos que, em 1522, se rebelaram na Hispaniola; com o quilom bolas, continuaram a ser m estres da cavalaria e, m ontados, não deram ,

nas duas décadas seguintes, descanso aos engenhos de açúcar.24

Tam bém no Brasil devem ter figurado j alofos, sereres, m andingas e fulas, entre os negros vindos de Portugal e aqueles em barcados no continente africano, no arquipélago de Cabo Verde e na ilha de São Tom é, depois que o país com eçou,

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por volta de 1550, a im portar escravos, ainda que em pequeno núm ero,

diretam ente da África. Pierre Verger26 27 acom panha Luís Viana Filho, ao

classificar essa prim eira fase do tráfico negreiro para o Brasil, que com preenderia a segunda m etade do século XVI, com o o ciclo da Guiné, definindo a Guiné com o a costa ao norte do equador. Am bos sabiam que a designação “negro da Guiné” então abrangia, no Brasil, tam bém africanos do Congo e de Angola. Mas Luís Viana Filho deixou claro que os superequatoriais, sobretudo os provindos dos pontos onde era m ais antigo o com ércio português de escravos, form avam a m aioria. E não desconhecia o papel de interm ediário das

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ilhas de Cabo Verde e São Tom é e Príncipe.

No com eço do Seiscentos, Angola e a cham ada Costa dos Escravos (que se estendia do rio Volta ao rio Benim ) tornaram -se as grandes fornecedoras de escravos ao continente am ericano. A Senegâm bia e a Alta Guiné perderam posição relativa no côm puto global do tráfico, o que não significa, no entanto, que tenham passado a exportar m enos gente, até porque, a partir do segundo terço do século, os franceses, que operavam sobretudo nessa parte da costa, passaram a atuar com m aior disposição no com ércio de negros, a fim de povoar de m ão de obra escrava as suas plantações nas Anti-lhas. Nelas, a dem anda não cessava de aum entar: do período de 1626-1650 para o de 1676-1700, as im portações de Martinica, Guadalupe, São Dom ingos e Guiana teriam crescido de 2.500 para

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124.500 escravos. A fom e de negros nas Antilhas inglesas não foi m enor: as

im portações passaram de 20.700 no prim eiro daqueles lustros para 173.800 no segundo. Diante dos enorm es contingentes que sairiam da África no século seguinte, as entre m il e duas m il pessoas que eram em barcadas à força, anualm ente, da Senegâm bia, podem parecer poucas. No entanto, representavam um a sangria enorm e e um sofrim ento incalculável.

No fim do século XVII, os franceses tinham entre o rio Senegal e a foz do Sine-Salum sua principal área de captação de produtos africanos, ao norte da cham ada Costa da Malagueta (que com preende os litorais da m oderna Libéria). Os ingleses, no rio Gâm bia e na Serra Leoa. Já os portugueses se concentravam entre o Casam ansa e o canal do Geba, tendo por centros Cacheu e Bissau. Todos dependiam em grande parte da colaboração dos lançados, dos luso-africanos, dos diacanquês e dos diulas, cuj as redes m ercantis às vezes se entrelaçavam e som avam . Eram eles que com erciavam , ao longo da costa e dos rios, a noz-de-cola, os panos, as barras de ferro e os dem ais artigos sem os quais não se conseguiam os escravos, os couros, as ceras, o m arfim , as gom as e o ouro. Quando se sentiam defraudados, abandonavam a área, qual sucedeu, no fim do século XVII, com os luso-africanos, no Caior e no Baol. Ou porque se sentiram hostilizados pelo rei Lat Sukaabe, ou porque inconform ados com a política de m onopólio e preços baixos dos franceses, eles abandonaram Rufisque e Portudal.

A com panhia francesa, que substituíra os holandeses na Goréa, quis, dentro da lógica do capitalism o m ercantil, expelir os concorrentes e m onopolizar as trocas. Procurou até m esm o determ inar as regras do com ércio. O am biente incerto, tenso, quando não abertam ente conflituoso em que se desenrolava a queda de braço entre a Com panhia e Lat Sukaabe, não era propício aos pequenos interm ediários, com o era o caso da m aioria dos lançados e luso-africanos. Por isso, eles se foram do Caior e do Baol. E, com a partida deles, praticam ente se acabou, nos dois reinos, o com ércio do couro e dos panos. A Com panhia concentrou-se na com pra de gom a-arábica, de escravos e de alim entos para

prover as suas feitorias, os barracões de cativos e os navios negreiros.30

Em bora o porto de Joal ficasse dentro da área de influência francesa, os luso-africanos dali não se apartaram . Continuaram ativos, m as a levar as suas m ercadorias para o Gâm bia, a fim de vendê-las a navios particulares ingleses que ali iam com erciar às escondidas, burlando assim o exclusivo que se arrogava a Roy al African Com pany, instalada na ilha de Saint Jam es. No Gâm bia, os luso-africanos continuaram , aliás, a ser num erosos; e alguns poucos, a enriquecer. Com o um certo Antônio Voss ou Vaz, que vivia próxim o à feitoria inglesa de Tancrowall (ou Tankula). Dele dizia-se possuir m ais de dez m il libras esterlinas, além de um a enorm e quantidade de escravos, m uitos dos quais percorriam a

região a m ercadej ar em seu nom e. 31

O m ês a m ês desses interm ediários, e dos capitães de navios, e dos funcionários das com panhias com erciais europeias, e dos nobres africanos, e dos reis e régulos locais e seus prepostos, não se alterara m uito, ao longo do século, em m atéria de queixas. Os europeus insistiam no exclusivo das trocas m ercantis nas regiões onde se haviam instalado. Os lançados e seus descendentes favoreciam o com ércio livre; e m uito m ais ainda, os reis africanos. Estes estranhavam que os europeus se com portassem com o se fossem os donos da terra e quisessem excluir ou expulsar de suas enseadas os navios de outros brancos. Qualificavam essa conduta não só com o oposta a seus interesses, m as tam bém com o ingrata, abusiva e, até, traiçoeira.

Ao contrariar a política m onopolística dos franceses, o dam el-tenhe Lat Sukaabe não destoou dos dem ais soberanos africanos. Nem tam pouco o fizeram os dois potentados pepéis de Cacheu, o rei de Mata e o chefe de Mom patas, ao im pedir que os portugueses am pliassem o âm bito da sua cidadezinha, para nela incluir um regato de água potável. Assim atuando, os pepéis m antiveram o controle sobre a povoação lusitana: podiam , ao negar-lhe água, reduzi-la à obediência. Com o os portugueses dispunham de barcos artilhados, costum avam atacar os navios de outras nações europeias que tentavam m ercadej ar com os locais. Para evitar que o fizessem , os pepéis, m al avistavam um veleiro, ocupavam , de arm as na m ão, o regato e só perm itiam que a gente de Cacheu nele se abastecesse depois de assum ido o com prom isso de que não tentariam im pedir que os estranhos os recebessem a bordo ou baixassem em terra para

com erciar.32

Houve reações m ais violentas. Com o aquela do rei pepel de Bissau, Incinhate, que m andou açoitar e prender o capitão português José Pinheiro, depois que esse reincidiu em tentar expulsar a canhonaços barcos ingleses e holandeses. Em consequência da surra ou dos m aus tratos no cárcere, Pinheiro faleceu em fevereiro de 1698. O incidente torna ainda m ais nítida a oposição africana às pretensões m onopolísticas de cada um a das nações europeias, quando se sabe que a ilha de Bissau sem pre fora um refúgio am eno e seguro para os portugueses e que tanto Incinhate quanto o seu antecessor, Bacom polco, se haviam declarado cristãos e até m esm o concordado com a construção de um a fortaleza lusa em

seus dom ínios. 33

Concordaram de boca, m as devem ter atuado por detrás para evitar que suas paredes se erguessem , um a vez que im pediram que os portugueses tivessem

acesso à m ão de obra e aos m ateriais de que necessitavam . 34 O forte só viria a ser levantado em 1766, e ficou, desde o início, inteiram ente sitiado. Mais de um século depois, um governador português escreveria que, na ilha, a sua autoridade não se estendia além dos m uros do vilarej o. E foi esta a situação que o general Henrique Augusto Dias de Carvalho encontrou, quando lá esteve, em 1898: um a pequeníssim a área de 480m de com prim ento por 240m de largura, perm anentem ente am eaçada pelos pepéis, a cuj o rei os negociantes portugueses

tinham de pagar tributo.35 Graças a essa oposição sistem ática, com repetidos recursos à ação arm ada, os pepéis de Bissau conservaram sua independência até 1915.

Cacheu e Bissau eram , havia m uito, im portantes portos de em barque de escravos. Da área entre o cabo Verde e o cabo Mount, a que os portugueses cham avam Rios da Guiné (ou Rios da Guiné de Cabo Verde) e os franceses, “Rivières du Sud”, saíra, durante os 60 anos do dom ínio filipino, o grosso da escravaria para a Am érica espanhola. Mas desde antes de 1580, as Índias de Castela de lá recebiam os seus escravos prediletos, pois a m aioria das licenças ou registros espanhóis, entre 1562 e 1595, indica a região com o a procedência dos

negreiros.36 Cacheu era a principal praça de em barque, e Cartagena, a de

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chegada. Dos 6.884 corpos im portados pela cidade sul-am ericana entre 1585 e

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