A Manilha e o Libambo
25. Escravo igual a negro
25
Escravo igual a negro
No fim do século XVII, ao se falar de escravo, pensava-se em negro. Ficara para trás o tem po em que nas listas da escravaria do sul da Europa tinham destaque árabes, arm ênios, berberes, búlgaros, circassianos, eslavos, gregos e turcos, e em que os negros eram m inoria nas populações escravas das Am éricas. Quase duzentos anos antes, j á se tornara incom um encontrar-se nos espaços dom inados pela Europa um escravo branco que tivesse vindo de terras cristãs ou, m elhor, que fosse europeu. Assim , ao m orrer, em 1512, Am érico Vespúcio tinha em sua casa cinco escravos: dois negros, um guancho e dois m estiços de canários. Entre 1514 e 1522, dos 420 batizados na igrej a de Nossa Senhora do Ó, em Sanlúcar de Barram eda, 220 figuravam com o pretos, seis com o am eríndios, três com o guanchos e os dem ais com o brancos, porém m ouros. Em suas propriedades no México, Hernán Cortez possuía, em 1554, 169 escravos am eríndios contra 68 africanos, provenientes sobretudo da Senegâm bia e dos Rios da Guiné. E oito anos m ais tarde, em Évora, um a certa Dona Maria de Vilhena alforriou, por testam ento, dez escravos: três am eríndios, dois m ouros, um
eslavo, um negro, um pardo, um m ulato e um chinês. 1
Além de negros, não era invulgar, no Portugal quinhentista, encontrarem -se em cativeiro árabes, berberes e turcos. Havia tam bém , ainda que em núm ero bem m enor, indianos, m alaios, chineses e am eríndios. Estes últim os eram poucos, porque adoeciam com facilidade ou, deprim idos, se suicidavam . Quanto aos asiáticos, a Coroa lhes lim itava a im portação, para não ocuparem um espaço que seria m ais bem -em pregado, nas naus da Índia, com pim enta, canela, cravo, sedas, lacas e outras m ercadorias m ais valiosas. Apesar disso, não deixavam de nelas viaj ar, na equipagem de funcionários de alto nível ou integrados na
tripulação do navio.2 Às vezes, form avam m ais do dobro dos tripulantes e dem ais passageiros, se eram , com o tudo indica, indianos e m alaios os escravos que acom panharam os seus senhores nos naufrágios de navios vindos da Índia, descritos na História trágico-m arítim a. Dos que foram dar em terra, após a perda do galeão São Bento, em 1554, por exem plo, m ais de cem eram escravos, e
3
apenas 44, portugueses. De década em década, porém , os negros se faziam m ais visíveis nas cidades portuguesas, até porque não cessavam de aum entar.
Tal qual sucedera, a partir do século X, no m undo islâm ico, o negro foi-se tornando, ao avançar o Seiscentos, no sul da Europa e na m aior parte das Am éricas, o escravo por excelência. De um “outro” entre os “outros”, passou a ser considerado um a espécie hum ana distinta, inferior à branca e predestinada a servi-la. Repetiram -se entre os europeus — e não com o enredo de farsa, m as novam ente com o urdidura de tragédia — todos os argum entos que os árabes haviam esgrim ido para j ustificar a escravidão dos pretos. Ressuscitou-se, possivelm ente a partir da versão m uçulm ana, o falso anátem a de Noé contra os filhos de Cam — falso porque lançado claram ente contra apenas um deles,
Canaã, 4 e não contra Cuxe, de quem descenderiam os africanos. Noé os am aldiçoara: os seus descendentes seriam escravos e negros — e escravos porque negros. Foram reforçando-se, um a um , os estereótipos a partir dos quais se construiria toda um a ideologia racista: os pretos eram curtos de inteligência, indolentes, canibais, idólatras e supersticiosos por natureza, só podendo ascender à plena hum anidade pelo aprendizado na servidão. Esses chavões saíam da boca ou da pena até m esm o daqueles que, na África, conviviam com os africanos e que não se m ostravam m ais diligentes nem m enos crédulos do que eles. Se não, leia-se o padre Cavazzi, que viveu tanto tem po no Congo, em Matam ba e em Angola. Lá pelas tantas, ele reclam a da preguiça dos negros, que gastavam frequentem ente de cinco a seis dias num percurso que em qualquer parte duraria dois, m as não se esquece de dizer que, nesse traj eto, levavam às costas, em redes ou de outra m aneira, os brancos, que não costum avam andar a pé. Estes últim os, coitados, sequer se atreviam a queixar-se da pena e do aborrecim ento causados
pela lentidão da viagem — lentidão devida à m olícia dos pretos.5 E m ais adiante, depois de indignar-se com as crendices dos africanos e de ridicularizá-las, aceita piam ente que Kuilu sej a “ocupado por fantasm as ou por dem ônios que atem orizam os transeuntes”, e conclui que esses seriam facilm ente vencidos se
houvesse quem levasse até lá o estandarte de Cristo.6
Assim com o, entre os islam itas, se tinha por um ato pio a escravização — pois só por m eio dela poderia ser salvo quem não se convertera ao prim eiro cham ado —, assim tam bém , entre os cristãos, passou-se a considerá-la o m étodo m ais eficaz de conduzir os negros à verdadeira fé. Daí que Gom es Eanes da Zurara, quando ainda ia a m eio o século XV, se regozij asse, no penúltim o capítulo de sua Crônica, com o núm ero de cativos, em sua m aioria azenegues, trazidos da África para Portugal: 927 alm as “tornadas”, em sua m aior parte, “ao verdadeiro
7
cam inho da salvação”. Foi esse o tom geral nos séculos seguintes, dele não se afastando até m esm o alguns que não pouparam críticas ao tratam ento dado aos escravos africanos, com o os padres Alonso de Sandoval e Antônio Vieira. Este últim o, nos Serm ões XIV e XXVII do Rosário, chegou a considerar “o m aior e m ais universal m ilagre” da m isericórdia de Nossa Senhora “a transm igração im ensa de gentes e nações etíopes” da África para a Am érica, porque os nela envolvidos tinham passado, no cativeiro, a ter acesso à verdade de Cristo e à
8
salvação eterna.
Esse tecido ideológico vestia a necessidade que tinha a expansão europeia de m ão de obra abundante. Já no com eço do Quinhentos, em m uitas partes da Am érica, os aborígenes dim inuíam rapidam ente de núm ero, vitim ados pelas guerras e razias, pelo excesso de trabalho e pelas doenças trazidas pelos conquistadores, e se m ostravam difíceis de escravizar, ou porque podiam facilm ente refugiar-se nas funduras dos sertões e ali resistir pelas arm as, ou porque se abrigavam sob a proteção dos j esuítas e de outras ordens da Igrej a. As regiões balcânicas e à volta do m ar Negro, até então a m aior fonte de escravaria para a Europa e o m undo islâm ico, tinham sido fechadas aos europeus pelos otom anos, na m etade do Quatrocentos. Dali e de suas bordas continuariam a sair para o Ocidente alguns cativos — em pleno século XIX, Sam uel Baker ainda conseguiu com prar, num m ercado da Hungria, quem foi, prim eiro, sua escrava,
depois, am ante e, finalm ente, esposa, Florence Sass9 —, m as com o contadas exceções.
Em contraste, as costas da África subsaariana apareciam com o um a fonte quase inesgotável de escravos. Que podia ser utilizada am plam ente, um a vez que
— assim pensa Im m anuel Wallerstein10 —, sendo elas m arginais ao espaço econôm ico da Europa, o crescim ento desta não se veria afetado pela drenagem de m ão de obra e de consum idores africanos para as Am éricas, ao contrário do que sucederia se houvesse um a grande m igração europeia para o Novo
11
Continente. David Eltis, no entanto, sustenta que havia abundância de m ão de
obra disponível na própria Europa, durante todo o tem po que durou o tráfico negreiro. As populações do continente aum entavam de form a tão rápida — a da Inglaterra cresceu sete vezes entre a m etade do século XVI e a m etade do século XIX— que, se a Europa tivesse sofrido na m esm a intensidade a sangria a que foi subm etida a África, não teria atrasado significativam ente o crescim ento de sua produção nem de seus m ercados. Nas ilhas britânicas, na França, na Itália, na Espanha e nos estados alem ães, havia um grande núm ero de pessoas fora do circuito econôm ico, que quase nada produziam e pouco consum iam : indigentes, vagabundos e ciganos, bem com o condenados por crim es com uns. Uns e outros poderiam ter sido encam inhados às Am éricas — e vários deles o foram , com o degredados e com o indentured servants, engagés ou trabalhadores presos a contrato, sendo os seus braços vendidos por determ inado período. Podia-se tam bém ter feito escravos os rebeldes e os prisioneiros de guerra — uns e outros abundantes, num a Europa sem pre em conflito. Os preços desses escravos postos nas Caraíbas e na Am érica do Norte teriam sido possivelm ente m ais baratos do que os do tráfico africano, um a vez que, encurtado o tem po de viagem , os custos de transporte seriam bem m enores. As conveniências econôm icas não devem , no entanto, ter sido sequer seriam ente sopesadas, porque, segundo David Eltis, j á não passava pela cabeça de um francês ou de um holandês que se pudesse escravizar um branco cristão. Um inglês podia m andar torturar, decapitar, queim ar e verter chum bo fervente na goela de um irlandês, colocá-lo num a prisão com água até os j oelhos ou condená-lo às galés ou ao desterro com trabalhos forçados, m as não conceberia escravizá-lo. Só se escraviza o outro, o estranho que está fora de nossa sociedade, e esse outro, com a expansão oceânica dos portugueses e espanhóis, tornara-se o não europeu, de cor, feições e cabelos diferentes, que se m ultiplicara nas populações das Ásias, das Am éricas e das Áfricas. E de todos esses outros — acrescento eu —, aquele que se m ostrou fisicam ente m ais dessem elhante aos europeus foi, aos olhos destes, o negro africano.
De fornecedor de ouro, m arfim , âm bar, cera, gom as e m adeiras corantes e de possível freguês para as m anufaturas europeias, o africano não dem orou em ser visto sobretudo com o escravo. E de tal m odo, que, em nossos dias, Fernand Braudel, num a nota de pé de página, após perguntar-se o que faria Sancho Panza de seus vassalos negros, se os tivesse em sua ilha, respondeu sem hesitação:
vendê-los-ia.12
Houve, é bem verdade, algum as vozes — poucas — que se opuseram ao tráfico e à escravização do negro. Não obtiveram , no entanto, a ressonância nem lograram os resultados dos que pregaram contra o cativeiro dos am eríndios. Em geral, os que condenavam o com ércio negreiro eram os m esm os que se insurgiam contra as violências de qualquer tipo de escravidão. Nesse grupo insere-se pioneiram ente o português Fernando de Oliveira, que, na sua Arte da guerra do m ar, publicada em Coim bra, em 1555, declarava com veem ência não haver razão hum ana que j ustificasse o “trato público de com prar e vender hom ens livres e pacíficos com o quem com pra e vende alim árias, bois ou cavalos
e sem elhantes”. 13 Mas não faltaram aqueles, com o o dom inicano espanhol Martín de Ledesm a, que endereçavam as suas críticas explicitam ente à escravização dos negros. Na sua obra Com m entaria in Quartum Setentiarum (editada, cinco anos depois da de Fernando de Oliveira, na m esm a cidade de Coim bra), ele é taxativo: todos os que possuíam escravos adquiridos por m á-fé na África deveriam libertá-los im ediatam ente, sob pena de danação eterna. E esclarecia: não se aplicavam à m aioria dos negros os argum entos de Aristóteles,
pois viviam em geral sob m onarquias organizadas. 14
Da experiência em terras do Brasil sairiam as condenações dos j esuítas Miguel Garcia e Gonçalo Leite, no fim do século XVI, e as restrições de seu
colega de ordem , o grande padre Antônio Vieira.15 Os dois prim eiros recusavam -se a ouvir em confissão os proprietários de escravos trazidos ilegitim am ente da África. E Vieira repreendeu com dureza os senhores e lhes reservou, aos incorrigíveis, o inferno.
Para o grande orador, o escravism o nascia da violência e era um a perversão m oral. Todavia, com o quase todos aqueles que se colocaram , naquela época, ao lado dos que a sofriam , Vieira não advogou a extinção da escravatura. Não apenas por ser ela sancionada pelo direito e aceita pelo papado, m as porque poucos dentre eles eram capazes de im aginar o funcionam ento da sociedade, nas Am éricas, sem escravos. Até porque poucos europeus se disporiam a vir para o Novo Mundo, a fim de trabalhar voluntariam ente e por salário nas plantações de cana e nos engenhos de açúcar, em grupos arregim entados e ao ritm o de um feitor, a cum prir de sol a sol, de form a sistem ática e repetida, determ inada tarefa (os que nela chegaram a labutar, na segunda m etade do século XVII, em Barbados, por exem plo, ou eram prisioneiros de guerra, ou degredados por crim es com uns, ou, sob contrato a prazo, esperavam , vencido este, correr a se ocupar de outras coisas, por conta própria). Por isso, ao com bater a escravização dos am eríndios, Vieira propôs com o alternativa que se trouxessem escravos da África. E não terá sido por recurso de argum entação que afirm ou, no seu Serm ão da Epifania, pronunciado em 1662, na Capela Real de Lisboa, não ser seu intento que não houvesse escravos, m as que estes fossem som ente os surgidos do cativeiro lícito — de um cativeiro lícito cuj os lim ites ele sabia que m udavam de autoridade para autoridade. É certo tam bém que ele se opôs à rebelião dos escravos e que num de seus serm ões, o XXVII do Rosário, lhes recom endou que se conform assem com sua condição, trabalhassem com zelo e obedecessem a seus senhores, a fim de que pudessem alcançar a “alforria eterna”. Mas, se assim fez — o seu discurso era cristão e colocava, portanto, entre as m ais altas virtudes, a hum ildade, a paciência e a resignação —, foi para que os escravos im itassem Jesus, ao aceitar um m artírio que ele descreve com palavras indignadas. E estas são ainda m ais fortes num outro serm ão, o XIV da m esm a série, no qual disse não haver trabalho nem gênero de vida no m undo m ais parecido à Cruz e Paixão de Cristo do que o dos escravos num engenho de açúcar — engenho que, aliás, com parou ao inferno, com suas “fornalhas trem endas, perpetuam ente ardentes”.
Ainda que hoj e nos pareçam com placentes, tím idas e contraditórias, eram subversivas, divergiam da norm a ou destoavam do coro vozes com o a de Vieira, a do carm elita português Am ador Arrais e a de um outro j esuíta fam oso, o padre Alonso de Sandoval, em Cartagena de Índias. Deviam ser então m al recebidas até m esm o as reprim endas qualificadas de papas com o Pio II contra a escravização de negros convertidos ao cristianism o. Essas reprim endas do papa Piccolom ini, na m etade do século XV, derivavam do m esm o tipo de preocupação que faria, quase cem anos m ais tarde, o rei português D. João III proibir a venda na fortaleza da Mina de cativos trazidos do Benim ou do Congo, a fim de evitar que essas alm as, ao tornarem a m ãos pagãs ou ao caírem em poder
de m uçulm anos, se perdessem , num e no outro caso, para a verdadeira fé.16 Não há esquecer: na m esm a época — estam os na passagem do século XVI para o XVII — em que D. Pedro Brandão, bispo do arquipélago de Cabo Verde, atacava com dureza o com ércio negreiro e propunha que todos os africanos
trazidos da Costa fossem im ediatam ente batizados e libertos, 17 os j esuítas de
Angola defendiam por escrito o direito de possuir e vender escravos.18 Era o bispo quem saía da regra de seu tem po, do m esm o m odo que era de todo heterodoxo aquele seu contem porâneo francês, Jean Bodin, que procurara refutar com veem ência e rigor os principais argum entos dos que legitim avam filosoficam ente a escravidão.
O pensam ento europeu da época alim entava-se na Bíblia, na doutrina da Igrej a e na antiguidade greco-rom ana. Nos Antigo e Novo Testam entos, a escravidão aparece com o um fato natural: não é j ustificada nem condenada. São Paulo, dem ais de aceitá-la (em bora ressalvasse que diante de Cristo não se
19
distingue o escravo do hom em livre ), conform ou-se, ao devolver um cativo fugido a seu dono, com o fato de que cristãos pudessem possuir escravos da
m esm a fé.20 Para os seus correligionários dos prim eiros séculos, era irrelevante o ser-se escravo ou livre. A questão não os preocupava, a não ser quanto à form a com o cada qual m anej ava, na alm a, a sua condição: quem vivesse a experiência do cativeiro para a glória de Deus, Dele ganharia a verdadeira liberdade.
Doutores da Igrej a, e dos m ais ilustres, procuraram explicar e j ustificar a escravidão. Santo Agostinho tinha-a com o consequência do pecado — não havia escravo que não m erecesse ser escravo — e a inscrevia no grande esquem a ordenado do m undo. Santo Isidoro de Sevilha iria m ais longe: a escravidão tinha
21
origem divina e se destinava a resgatar o cativo de sua perversidade genética. Já para Santo Tom ás de Aquino, que teorizou dem oradam ente sobre a escravidão, ela, em bora dolorosa, era útil e necessária ao cum prim ento dos propósitos da natureza.
Não m e esqueço de que a Igrej a, sobretudo durante o Im pério Rom ano e a Idade Média, estim ulou a m anum issão dos cativos — as paróquias arrecadavam dinheiro para com prar a liberdade de escravos, e os proprietários que os alforriavam eram apresentados com o exem plos de virtude —, m as ela própria não libertava os que possuía, por considerá-los patrim ônio divino. Se um escravo se fizesse cristão, tinha, contudo, os m esm os direitos de um hom em livre e podia até ser ordenado sacerdote, depois de liberto. Um deles chegou a papa, Calixto I.
Excluídos alguns sofistas, cínicos e estoicos, os autores gregos e latinos não fizeram m aiores reparos à escravatura nem a ela se opuseram com o instituição. E até alguns dos m ais críticos, com o Sêneca, possuíram escravos. Platão não só lhes garantiu espaço na sua República, m as tam bém advogou a adoção de leis duríssim as para enquadrá-los. A Aristóteles, a escravidão apresentava-se com o natural, concorde com a razão e essencial à boa ordem do m undo. Não só o Código Justiniano a validava, m as tam bém a lição da história, pois, pelo que se sabia, a sociedade e o Estado rom anos, tidos com o paradigm áticos, assentaram -se sobre o escravo: era este quem liberava os cidadãos para o m anej o do Estado e as criações da sensibilidade e da inteligência.
Por tudo isso, quando nos situam os intelectualm ente no século XVI, não nos devem os surpreender com a postura de Lutero, ao considerar que o reino deste m undo não se sustentaria sem hom ens livres e escravos, nem estranhar que Thom as Morus m antivesse a escravidão com o necessária à sua Utopia, nem que Erasm o silenciasse sobre o assunto, nem ainda que, j á no Seiscentos, Descartes, Pascal ou Spinoza não em itissem um a só palavra contra ela. John Locke qualificou-a de vil e m iserável, m as não só a teve por útil à ordem social, com o tam bém foi acionista da Roy al African Com pany, que se dedicava ao com ércio de negros. É verdade que os protestantes holandeses condenaram , inicialm ente, a escravatura, m as, tão logo se defrontaram com a necessidade de abastecer de m ão de obra as plantações de açúcar do Brasil, encontraram autores com o Godfridus Cornelisz Udem an e o pai do direito internacional, Hugo Grotius, que,
com argum entos elaboradíssim os, a j ustificaram .22
De início, nem todos os europeus olharam o negro com arrogância e desdém . Mas, até m esm o quando tiveram de com ele conviver num plano de igualdade, ou quando necessitaram de seu apoio, ou se inclinaram diante de seu poder, puseram nele olhos cheios de m ais do que estranheza. Não esconderam a aversão pela cor deles, pela carapinha, pelos lábios grossos e narizes achatados, um a aversão que j á aparece clara nos prim eiros encontros registrados por Zurara (“tão desafeiçoados assim nas caras com o nos corpos, que quase parecia, aos hom ens que os esguardavam , que viam as im agens do hem isfério m ais
baixo”, 23 isto é, do inferno), um a aversão que, seguram ente, era retribuída pelos africanos, a quem os portugueses surgiriam feíssim os, com sua pele descolorida, seus cabelos lisos, seus lábios finos e narizes pontudos. Os europeus não m ostraram tam pouco com preensão pelos costum es africanos. E hesitaram , desde o prim eiro m om ento, em aceitá-los com o gente igual a eles. Não tardaria a desenvolver-se um sentim ento de superioridade, se é que j á não existia desde o com eço. E de superioridade ligada à cor da pele. Disto ficaram m uitas pegadas. Até nos textos que não eram críticos nem queixosos. Em João de Barros, por exem plo, ao escrever que o príncipe j alofo Bem oí fora recebido em Portugal não com o um bárbaro nem com o um “hom em de suas cores”, porém com o
“um príncipe a que se devia todo o acatam ento”.24 Ou naquele texto de 1608, no qual os m em bros do Conselho de Portugal inform avam o rei, a propósito do príncipe D. Dom ingos, de Oere (ou Warri), que fora estudar em Coim bra e
Lisboa, de que “para a cor que tem está bastante ensinado”.25
Enquanto se punham de lado as im agens positivas do negro que haviam frequentado o im aginário m edieval europeu — a rainha de Sabá, o rei m ago Baltasar e sobretudo o Preste João, a quem tanto e com tam anha ânsia se buscara —, outras, e não só negativas m as tam bém m edonhas e assustadoras, foram revitalizadas, para dem onstrar não haver o africano atingido a plenitude da hum anidade. Negros, na Idade Média, eram os dem ônios, os íncubos, os que queim avam no inferno. Na sim bologia europeia, a própria cor negra indicava infortúnio, tristeza, im pureza, m aldade, perversão, terror e m orte, enquanto que o branco se associava à inocência, à virgindade, à bondade e à vida. Branco era o dia; negra, a noite, com sua cegueira, seu m istério, seus pavores e trevas, que as tochas, as velas, os fogões, os brasidos e as fogueiras não chegavam a atenuar. Daí que, em seu com bate ao abusos da escravidão e ao racism o, o padre Antônio Vieira, no Brasil do século XVII, após sustentar que o “dom inarem os brancos aos pretos, é força, e não razão ou natureza”, tivesse procurado inverter o valor das cores. A cor preta, afirm a no seu Serm ão XX do Rosário, “encobre m elhor os defeitos, os quais a branca m anifesta e faz m ais feios”; só aquela “não se deixa tingir de outra cor, adm itindo a branca a variedade de todas”; acrescentando que “bastavam só estas duas virtudes para a cor preta vencer e ainda envergonhar a branca”. E lem bra que, em suas igrej as, os etíopes pintavam os anj os negros e os diabos brancos.
Ao term inar o século XVII, j á se havia avançado tanto no processo de desum anização ideológica do negro, que certos autores o consideravam com o um ser entre os anim ais e os hum anos, ou, para usar as expressões de um m édico inglês, William Petty, com o um a espécie separada, diferente dos brancos na cor,
“nas m aneiras naturais e nas qualidades internas do espírito”. 26 Essas ideias conflitavam , claro, com a doutrina da Igrej a sobre a unidade adâm ica do hom em , m as se exprim iam abertam ente, num vocabulário que, traduzido, era sim ilar, ou m esm o idêntico, ao utilizado, alguns séculos antes, por autores árabes e persas para definir os negros, estigm atizá-los com o seres inferiores, próxim os da anim alidade, e, assim , legitim ar sua escravização. Os europeus do Seiscentos tinham os africanos por fisicam ente disform es e culturalm ente bárbaros, porque obedeciam a costum es diferentes dos que consideravam norm ais e certos; e por incapazes, individual e coletivam ente, de dom inar suas paixões e de se governarem pela boa razão; e por idólatras e renitentes em suas superstições, porque não se rendiam à evidência da verdade do cristianism o (as exceções, no Congo e em Oere, confirm ando a regra); e por sacrificadores de seres hum anos e, m uitos deles, antropófagos. Não faltava sequer quem afirm asse que não tinham alm a. No m elhor dos retratos, apareciam dóceis, pouco inteligentes e inclinados por tem peram ento à servidão. Incluíam -se sem dificuldade, portanto, naquela categoria de sub-hom ens que Aristóteles considerara com o escravos naturais.
No fim do Seiscentos, nos territórios coloniais das Am éricas e em suas m etrópoles europeias, “escravo” e “negro” tinham passado a ser sinônim os. No Pará, os defensores da escravização dos am eríndios chegaram a argum entar que
estes eram negros, razão suficiente tam bém para que fossem escravos. 27 E não seria à toa que aos índios os colonos portugueses cham avam “negros da terra”.
Para um capitão de navio que fizesse sua prim eira viagem à África, os m oradores daquele continente eram todos sem elhantes: negros. Quem afeito aos negócios na Costa os distinguia, contudo, em grandes grupos — m andingas, congos, am bundos etc. — e tinha suas preferências, conform e o m ercado de destino. Aqui, o que se queria era quem soubesse lidar com cavalos e bois; ali, quem conhecesse as técnicas de m ineração; acolá, quem tivesse a fam a de aguentar as fadigas dos canaviais. Já os que viviam nos litorais africanos ou os frequentavam assiduam ente, com o um André Álvares d’Alm ada ou um Francisco Lem os Coelho, não ignoravam quão diferentes em organização social, m odos de vida e sistem as de valores eram , ainda que vizinhos, um bam um de um felupe e um j alofo de um serere. Muitos desses cristãos se fam iliarizavam com as form as de olhar os outros predom inantes no grupo africano j unto ao qual viviam , e adotavam os seus estereótipos. Eles sabiam que os aladás não vendiam seus sem elhantes em Ofra e em Jakin, m as indivíduos que tinham por inteiram ente distintos deles, estrangeiros, adversários, inim igos, bárbaros ou m ais que bárbaros, pois não se com portavam com o gente, e com etiam abom inações, e eram indolentes, e supersticiosos, e, pior que tudo, m uitos deles, canibais. De vez em quando, entre os vendidos, figuravam alguns que podiam ser tom ados por aladás, m as esses, por crim e ou falta grave, j á haviam sido despidos de sua condição e expulsos da grei. Os aladás vendiam o outro, do m esm o m odo que os europeus com pravam um outro — um outro que os europeus consideravam de todo diferente, com o se fosse parte de um a outra hum anidade ou, m elhor, de um a sub-hum anidade.
O que fora o habitual na Rom a antiga e na Idade Média europeia e sucedera algum as vezes na África tornar-se-ia im pensável nas Am éricas: alguém ter um escravo branco. Em bora por m uito tem po ainda se cativassem am eríndios, ser negro acabaria por tornar-se precondição para ser escravizado. O escravism o tornara-se rácico — racializara-se, se m e perm item o neologism o. O escravo que fosse um m ulato tão claro que quase pudesse passar por branco era obj eto de um a com iseração que raram ente se estendia aos seus cam aradas de desdita — vej am -se os reflexos literários disto em personagens com o a escrava Isaura, de Bernardo Guim arães, e a Lúcia de Rei negro, de Coelho Neto — e, no Brasil, não
faltaria quem se dispusesse a alforriá-lo.28 É possível que até com um a pressa indignada, pois se quebrava a nitidez do sistem a — branco, senhor; negro, escravo —, que os forros e os m ulatos não chegavam a esm aecer, pois os prim eiros eram ex-escravos, e os outros, escravos ou, se livres, filhos ou netos de escravas.
Ao term inar o Seiscentos, tornara-se m ais que clara, no espírito dos europeus e dos europeus transplantados para o continente am ericano e seus descendentes, a diferença de destinos determ inada pela cor da pele, a textura dos cabelos e a form a dos lábios e do nariz, os negros sendo pensados pelos brancos com o escravos em potência. Ainda havia quem se espantasse com o tam anho, a ordem ou a lim peza de um a cidade africana e a com parasse favoravelm ente com um a urbe europeia, ou louvasse a riqueza ou o bom critério de seu rei, ou a beleza de um a j oia de ouro ou de um a trom beta de m arfim , m as as vozes prevalecentes eram as que anatem atizavam a vida na África — inaceitavelm ente prim itiva, bárbara e cruel, tão irredutível à reform a, com o provava o caso do reino do Congo, que a transplantação forçada para as Am éricas podia ser considerada com o um a bênção para a sua gente.
A um ou outro observador europeu não escapou decerto que o Congo era precisam ente o m elhor exem plo dos desastres causados pelo tráfico de escravos. Os portugueses ali não se interessaram senão em capturar corpos e alm as: corpos para os trabalhos forçados em São Tom é e nas Am éricas e alm as para a sua Igrej a. Não despenderam qualquer esforço consistente para responder à insistência com que sucessivos m anicongos pediram m estres das m ais diversas profissões, e práticos, e artífices, para tentar vencer o fosso tecnológico entre a Europa e a África, um fosso que não cessava de am pliar-se, pois, durante os séculos XVI e XVII, a Europa não parara de inventar e de fazer seus os inventos dos outros. Se, na passagem do Quatrocentos para o Quinhentos, um m arinheiro alentej ano ou algarvio não hesitaria em assem elhar a sua vila natal às urbes suaílis do Índico, e se, na prim eira m etade do século XVII, um holandês podia com parar, pelo tam anho da cidade e pela largura de suas avenidas, a capital do Benim a Am sterdã, a um hom em das Beiras não passaria despercebido que, apesar de não ser m uito distinta a sua póvoa de vielas estreitas e casas cobertas de colm o das aldeias que via nas duas m argens do rio Mono, nestas últim as faltavam os poços d’água com roldanas, a ponte de pedra sobre a ribeira, o m oinho de vento ou a azenha, além da igrej inha rom ânica, que num a cidade próxim a j á fora substituída por um tem plo gótico, de dim ensões e altura desproporcionadas ao tam anho da congregação local e dos lugarej os vizinhos.
O desnível tecnológico, que se m ostrava nas próprias caravelas e naus, com seus canhões e os tripulantes arm ados de bestas, arcabuzes e m osquetes, não bastava, porém , para im por os term os de com ércio aos africanos. Em quase toda parte, os europeus tinham de contar com a anuência e a boa vontade dos reis e dos chefes locais, ainda quando os desprezavam , para obter os produtos que lá iam buscar. A com eçar pelo ouro de que dependeram para a cunhagem de suas m oedas, até a descoberta de m etais preciosos nas Am éricas. E a m alagueta. E a pim enta-de-rabo. E o m arfim . E o alm íscar. E a gom a-arábica. E a cera. E as m adeiras. E os panos de algodão. E, cada vez m ais, as peles e os couros, e não apenas de anim ais silvestres, m as sobretudo de bovinos. E, finalm ente, os escravos para os trabalhos no continente am ericano.
Não há dúvida de que a exportação de gente pelo Atlântico aum entou sem cessar ao longo dos séculos XVI e XVII. Dos 15 m il, ou entre 17 m il e 20 m il, ou, ainda, 29 m il indivíduos, estim ados para o terceiro quartel do Quatrocentos, teria passado para 42.500, entre 50 m il e 56.700, ou 75 m il, nos prim eiros 25 anos do
29
século XVI. Triplicara, portanto. Durante os séculos XVI e XVII, as
transferências forçadas de africanos, pelo Atlântico, teriam continuado a crescer aos saltos, com a pequena exceção do quadriênio de 1646-1650, quando houve
30
um pequeno recuo. Se nos ativerm os às cifras de Paul Lovej oy, os núm eros,
no período de 1576 a 1600, j á ficariam entre 132.100 e 149.700. No quartel seguinte, atingiriam entre 308 m il e 349.100; e de 1651 a 1675, entre 436.700 e 494.900. No últim o quadriênio do século, a sangria de gente j á alcançaria entre 728.100 e 825.200. Durante todo o Seiscentos, a África teria exportado cerca de 1.868.000 indivíduos pelos portos do Atlântico, e m ais um m ilhão pelo Saara, o m ar Verm elho e o Índico. Um a enorm idade de gente, ainda que distante dos núm eros ainda m ais trágicos do século seguinte: cerca de 6.133.000 pelo Atlântico e de 1.300.000 pelo Saara, o m ar Verm elho e o Índico.
As perdas com o tráfico hum ano seriam , no entanto, bem m aiores. Muitos dos escravizados eram prisioneiros de guerras políticas, cuj os m ortos não cabe, nesse quadro, com putar. Mas teríam os de incluir com o vítim as do tráfico, se o conhecêssem os, o núm ero daqueles que perderam a vida durante razias e cam panhas m ilitares com o fim específico de produzir cativos. Para cada grupo dos que eram nelas capturados correspondia um certo núm ero de m ortos, abatidos durante a luta ou após o com bate, por não haver para eles dem anda externa, um a vez que tinham passado dos 40 anos, apresentavam defeito físico, encontravam -se enferm os ou eram bebês de colo que tinham perdido as m ães. Com forquilhas ou cordas a ligá-los uns aos outros pelo pescoço, m uitos dos cativos deixavam a vida a cam inho dos m ercados, por desespero, cansaço ou enferm idades que contraíam em áreas epidem iológicas distintas daquelas em que haviam até então vivido, ou ao virarem os barcos em que viaj avam , m anietados, ou em rebeliões e tentativas de fuga, ou em ataques de bandidos ou de inim igos daqueles que os conduziam . Um a caravana de pom beiros podia dem orar m eses para vencer a distância entre o Cuango e Luanda. Alguns de seus chefes, cientes do valor do que tinham sob seus cuidados, faziam paradas de repouso, j unto a roças m antidas especialm ente para alim entar a escravaria de passagem , e cuidavam para que esta não experim entasse fom e nem desgaste excessivo. Com o, porém , não se pratica o ofício de com prar e vender gente sem o endurecim ento da alm a, outros, provavelm ente a m aioria, m ais interessados em chegar depressa ao destino, não poupavam de sofrim ento e até de m aus tratos os cativos e contabilizavam no preço final as baixas que se produziam no cam inho. Novas m ortes — por subnutrição, diarreias derivadas de m udança de dieta, contágio de enferm idades, esforços para escapar do cativeiro, revoltas e outros atos de insubm issão — dar-se-iam durante a espera nos portos. Já se calculou que as m ortes, desde a com pra ou a captura no interior até o em barque
no litoral do que hoj e é Angola, fossem de cerca de 40%. 31 Estim ou-se que, nas últim as décadas do século XVIII, cem anos depois do térm ino de nosso período, em cada cem pessoas, dez perdiam a vida durante a operação de captura, 25 na
viagem para o litoral e dez a 15 nos depósitos das cidades costeiras. 32 Angola, contudo, seria um caso lim ite: desde a segunda m etade do século XVII, a m aioria dos cativos vinha de m uito longe, o que aum entava as perdas. Na África com o um todo, essas talvez fossem , no Seiscentos, bem m enores: na casa dos
33
20%.
Tanto aqui quanto no cálculo das exportações de seres hum anos pelo continente africano, estam os diante de estim ativas, de aproxim ações, a partir de dados m uitas vezes insuficientes e fragm entários. Mas, ainda que possam os duvidar da possibilidade de virm os algum dia a obter os núm eros reais do tráfico
para cada século,34 sabem os que o m ercadej o de escravos se estava revelando um grande negócio para os europeus, no correr do Seiscentos.
Houve, aliás, quem afirm asse que os escravos superaram em valor as
exportações de ouro da África Ocidental, no fim do século XVII.35 E quem sustentasse que isso j á se dera m uito antes, na passagem do Quinhentos para o Seiscentos, quando o valor do com ércio de gente teria ultrapassado o de todos os dem ais produtos som ados, nas transações entre a África Atlântica, de um lado, e,
36
do outro, a Europa e as Am éricas. Mesm o aqueles que puseram essa virada
som ente a partir de 170037 não deixaram de ressaltar que o escravo, ainda que representando m enos da m etade do valor dos em barques no século XVII, era o prim eiro item da pauta global, ou de advertir-nos de que, desde m uito, ele se m ostrara, em Angola, na Costa dos Escravos e na baía de Biafra, com o a m ercadoria por excelência, correspondendo a m ais de 80% das vendas aos europeus. Em com pensação, na Costa da Malagueta, o tráfico de gente seria inexpressivo. E na área da fortaleza de São João da Mina, até m eados do Seiscentos, im portavam -se escravos, que os europeus traziam em seu barcos de outros pontos do litoral.
Havia várias costas atlânticas da África. E contracostas. Os navios europeus eram equipados conform e as áreas onde iam m ercadej ar. E não eram poucos os que seguiam viagem inteiram ente desaparelhados para o tráfico negreiro, porque tinham por obj etivo adquirir couros na Senegâm bia, m adeiras tintórias (sobretudo a bafia nitida ou cam wood dos ingleses) no estuário do Sherbro, m arfim em Loango ou cobre na foz do Zaire. Não só eram diferentes os bens que recolhiam em cada pedaço da costa, m as podiam ser tam bém distintos, em cada trecho do litoral, os produtos que os exigentes consum idores africanos aceitavam em troca. As preferências variavam ao longo da extensíssim a linha litorânea e se alteraram no correr do tem po, não sendo raras as flutuações repentinas de gosto e de m oda. Na segunda m etade do século XVII, os têxteis, que sem pre tinham sido o principal item dos carregam entos com que se com erciava na África Atlântica, ocupavam m ais da m etade de seu valor. Entre os tecidos im portados de fora do continente africano, os prediletos eram os algodões indianos, tanto os em branco, para serem tingidos na África, quanto os estam pados: esses panos eram tidos por
m ais duráveis, e suas cores resistiam m elhor a repetidas lavagens.38 Aqui, gozavam de boa aceitação os tecidos da Silésia e os linhos de Flandres; ali, as m antas do Alentej o; acolá, as lãs inglesas ou do Magrebe; e por quase toda parte, os panos de Cabo Verde, de Ij ebu, do rio São Dom ingos e de outros num erosíssim os pontos da África. Não faltavam sequer áreas, com o a Costa dos Escravos, onde os cauris eram a principal m oeda — e m ais de um representante da Roy al African Com pany da Inglaterra advertiu os seus patrões de que não
havia m elhor m ercadoria para com erciar naquela parte do litoral 39 — e onde os
tecidos com preendiam apenas um pouco m ais de 1/4 do valor total do que descia dos barcos europeus. Ou com o a baía de Biafra, na qual os têxteis m al chegavam a 1% do que se trocava pelos escravos e os dem ais produtos da região, enquanto que as barras e os produtos acabados de ferro, cobre, estanho e latão respondiam
40
por cerca de 80%. Na Senegâm bia, os cavalos e seus arreios eram itens
im portantes; no Congo, não. E entre os m andingas da área do Gâm bia, Cacheu e Geba, acentuou-se a dem anda, no fim do século XVII, pelas m oedas de prata,
41
com as quais se faziam pulseiras e outras j oias.
Durante o Seiscentos, novos produtos entraram no circuito. Nos últim os anos do século, por exem plo, os pacotes de m ercadorias com que se com pravam braços na cham ada Costa dos Escravos passaram a ter com o item im prescindível o tabaco em rolo da Bahia, em bebido em m elaço, sem que se aceitassem substitutos ou im itações. Curiosam ente, esse m esm o tabaco baiano, que reinou sem com petidor na Costa dos Escravos, não conseguiu im por-se nos sertões angolanos, onde os consum idores continuaram a preferir as variedades de fum o
produzidas localm ente. 42 Na m aior parte da costa atlântica, a farinha de m andioca dificilm ente seria trocada por escravos. No entanto, j á na segunda década do Seiscentos, o holandês Dierick Ruiters registrou esse tipo de operação
com negreiros brasileiros, em Luan-da. 43 E ali, e ao longo do Cuanza, e em Caçanj e e na Matam ba, a j eribita ou cachaça brasileira iria, a partir de 1650, prevalecer sobre os vinhos portugueses, que tinham m enor teor alcoólico, eram m ais caros e se estragavam facilm ente nos trópicos, se é que j á não desem barcavam deteriorados. De tal m odo a cachaça conquistou os habitantes da região que, no período entre 1679 e 1695, durante o qual, para proteger as bebidas m etropolitanas, a Coroa portuguesa proibiu sua im portação em Luanda, os traficantes de escravos tiveram de contrabandeá-la sistem aticam ente, um a vez que os m ercados do interior se recusavam a fazer negócios sem tê-la com o
parte do pagam ento.44
Não foi, porém , som ente em Angola que a cachaça se im pôs. Tornou-se tam bém apreciada na Costa do Ouro e na Costa dos Escravos. E nessas duas áreas teve por com panheiro o rum antilhano, que, a partir de 1680, delas deslocou o brandy europeu. Não parece, contudo, que tanto o brandy quanto as aguardentes portuguesas gozassem de grande m ercado na África Atlântica, nas décadas anteriores à m etade do século XVII. Ao m enos na Senegâm bia e na Alta Guiné, predom inava o gosto pelas bebidas ferm entadas, de m enor teor alcoólico, sem elhantes ao vinho-de-palm a e às várias cervej as africanas. Antes da irrupção da cachaça e do rum , o grosso das im portações de bebidas era form ado por vinhos, brancos e tintos, secos e doces, por cervej a europeia e por
cidra.45 Na segunda m etade do século, porém , j á não se faziam negócios na Goréa e no resto da Petite Côte sem aguardentes, fossem de uva, de cereais ou de cana — pelo m enos é isto o que indicam os depoim entos dos capitães de navio
holandeses e franceses que andaram a m ercadej ar na área. 46 Na baía de Biafra, no entanto, as bebidas europeias e am ericanas não tiveram relevância no com ércio, porque ij ós, ibibios, efiques e ibos perm aneceram fiéis ao vinho-de-palm a.
Esses produtos novos que podiam ser prontam ente aceitos e se transform ar em itens im portantes e até indispensáveis para o bom encam inham ento das trocas acom panhavam m uitas vezes os últim os recém -chegados a um a parte dos litorais da África. No caso do tabaco em rolo e da cachaça, teriam sido introduzidos ou difundidos pelos traficantes de escravos que aparelhavam as suas em barcações no Brasil e que se foram tornando frequentadores tão habituais da Costa, que talvez tenham ficado apenas atrás dos ingleses, entre os m aiores com erciantes de gente no Atlântico, entre 1650 e o fim do século XVIII. Nos barcos que saíam dos portos brasileiros, a aguardente e o tabaco, e m ais a farinha de m andioca (que tanto podia ser vendida na África, quanto servir de alim ento para os escravos, na viagem de regresso), os búzios da costa baiana, a pólvora e produtos m enores oriundos do Brasil com punham boa, se não a m aior parte da carga, que se com pletava com os artigos europeus e asiáticos que os navios portugueses desem barcavam , para transbordo, no Recife, em Salvador ou no Rio de Janeiro. Já o rum antilhano chegara à África nos barcos que velej avam diretam ente das colônias inglesas na Am érica. A prim eira notícia de um deles, a sair de Boston, data de 1644. Muitos outros largaram , nos anos seguintes, dos portos da Nova Inglaterra, e m ais ainda, nas duas últim as décadas do século, de Barbados e de outras ilhas das Caraíbas, calculando-se que, num conj unto de sete viagens sob bandeira inglesa para adquirir escravos na África, um a com eçava na
47
Am érica, prom ovida pelos colonos. Desses portos, tanto no continente quanto
nas ilhas, não partiam em direção do continente africano apenas barcos de com ércio, m as tam bém piratas, com o aqueles que usavam Madagáscar com o refúgio e base de operações.
Além do afam ado com ércio triangular, tendo por lados a Europa, o continente africano e o Novo Mundo, estabeleceu-se, portanto, um com ércio bilateral entre a África e as colônias inglesas e portuguesas das Am éricas. E havia tam bém , em bora m enos com um , um com ércio poligonal, com , por exem plo, navios portugueses que saíam da Europa com a prata e o ouro com que com pravam tecidos e contaria na Índia, e podiam ir antes a Cabo Verde para se abastecer de panos, ou parar em portos africanos da Costa e da Contracosta, para adquirir o m arfim que iam vender nos em pórios indianos e chineses, ou aportar nas Maldivas ou em Bengala, a fim de recolher os cauris que levavam , de torna-viagem , para a Costa dos Escravos, passando, ou não, antes pelo Brasil, onde deixavam tecidos do golfo de Cam baia ou os som avam às barras de ferro suecas, às m anilhas e ao vasilham e de cobre e latão, à cutelaria alem ã e holandesa, às contas e m içangas de Veneza e da Índia, às arm as de fogo inglesas, aos têxteis e aos outros bens que tinham sido trazidos por outros barcos da Europa, e à cachaça e ao tabaco brasileiros, para depois seguir para os litorais atlânticos da África, onde obtinham escravos, que desciam no Brasil, j untam ente com pequenas cargas de panos caboverdianos, de Ij ebu e do Benim , de nozes-de-cola, de sabão da costa e de azeite de dendê, para em seguida encher os porões com açúcar e m adeiras e regressar a Portugal.
Se as ilhas, as em bocaduras dos rios, as enseadas e as baías da Contracosta com punham , havia séculos, a fronteira oeste da grande rede m ercantil do Índico, a linha de litoral da África Atlântica passara a fazer parte de um novo sistem a de com ércio oceânico. Este tinha por núcleo a Europa Ocidental, com preendia o m ar do Norte, o m ar Mediterrâneo, os litorais atlânticos da África e das Am éricas, alongava-se às praias am ericanas do Pacífico e se ia infiltrando, no Índico, até o m ar Verm elho e o golfo Pérsico, ao norte, e o Japão, a leste, a esforçar-se para rom per, substituir e absorver — ou, quando m enos, com ela coexistir — a antiquíssim a e forte teia de interesses m ercantis existente no oceano Índico e da qual os m uçulm anos eram os diretores m ais ativos. Nesse sistem a, o escravo africano tornara-se um a peça im portante, porque essencial à expansão de um de seus setores m ais dinâm icos, o dos produtos tropicais. Sem o escravo não havia açúcar nem Am érica, o escravo que se fazia sinônim o de negro.
Desde o início, na África Atlântica, as elites africanas m ostraram -se dispostas a trocar ouro e escravos pelos produtos oferecidos pelos navios europeus, a repetir o que se dava, desde havia m uito, com os caravaneiros nas m argens do deserto. Ao entregar-lhes ouro, elas esperavam receber m etais duros com o o cobre e, em algum as áreas que dele eram carentes, o ferro. E ao ceder-lhes cativos, desfaziam -se de gente inim iga, estranha e perigosa e de indivíduos incôm odos, m andando-os para além -oceano, de onde não acreditavam que pudessem regressar. Se, dantes, os chefes j á punham parte de seus prisioneiros em feiras próxim as ou os vendiam aos diulas, diacanquês, iarses, m arcas ou uângaras, viram -se confrontados com novos com pradores cuj as necessidades pareciam não ter fim . Por num erosos que fossem os recém -escravizados, os brancos queriam quase todos e sem pre m ais, e por eles pagavam com bens de alta valia.
Para os europeus, não era, no entanto, fácil com erciar na África. Ao gosto dos africanos pelo regateio, às regras rígidas que reis, régulos e chefes im punham ao processam ento das trocas, e que podiam variar de em barcadouro a em barcadouro, às diferenças locais na com posição dos pacotes de bens estrangeiros com os quais se adquiriam os escravos e os produtos da terra e à im previsibilidade do ressarcim ento dos bens entregues a crédito, para o escam bo no interior, a autoridades ou a m ercadores africanos, som avam -se variações tão grandes de preço ao longo do litoral, que aqui se podia pagar o dobro por um dente de elefante sem elhante ao que se obtinha acolá. Docum entos contábeis holandeses da década de 1635 a 1645 m ostram -nos, por exem plo, que o preço m édio de um escravo era de 12 a 17 florins em Calabar, de 38 a 44 em Aladá, de 38 a 50 em Luanda, e de 64 a 75 na Mina. O custo do escravo variava tam bém conform e os bens por que era trocado: assim , um adulto adquirido som ente com barras de cobre valia, para o europeu, 11 e m eio florins; com vasilhas de cobre,
48
21 e m eio florins; com contaria, 22 florins; e com barras de ferro, 30 florins. Com o m uitas das transações se davam contra pacotes, de m ercadorias e com o podiam variar não só as m ercadorias que com punham esses pacotes m as tam bém os preços de cada um a delas, conform e a qualidade e a distância de onde eram trazidas, o responsável pela carga de um navio ou por um a feitoria europeia devia passar da incerteza à insegurança, em suas transações com os africanos. E estes eram habilíssim os negociantes — conform e portugueses, franceses, holandeses e ingleses aprenderam desde cedo.
No com ércio de escravos entre os navios europeus e a praia africana, em quase todos os lugares e na m aior parte dos séculos XVI e XVII, o m ercado podia ser classificado com o de vendedor. Era com um que um navio chegasse a um porto e não encontrasse senão alguns poucos escravos disponíveis. Tinha com frequência de esperar sem anas ancorado, para pôr a bordo um a ou duas dezenas, m uitas vezes a adquirir as peças por unidades, dia a dia. Em geral, velej ava de ancoradouro em ancoradouro, ao longo do litoral, a com erciar em cada um deles, nisto podendo gastar m eio ano, antes de com pletar a carga. As grandes exceções davam -se nos dias seguintes às guerras m ais violentas, das quais resultava um núm ero considerável de cativos, que tinham de ser alienados às pressas, porque difíceis de m anter e controlar, e durante as grandes secas, inundações e pragas de gafanhotos, quando não era raro que as lideranças se desfizessem de seus escravos sem regateio e até vendessem suas crianças e adolescentes, para salvá-los da fom e e ao resto da com unidade. Nos períodos norm ais, os africanos, se considerassem necessário ou oportuno levantar os preços, não tinham senão que encam inhar o m ais lentam ente possível e em quantidade restrita os seus cativos até os pontos de m ercadej o. Para os europeus, quanto m ais dem orassem em fechar o carregam ento, m aiores eram as despesas com o navio e m aiores as baixas entre a tripulação e os escravos que j á se encontravam a bordo. Podia valer a pena pagar m ais por peça, desde que não se tardasse em encher o barco. Sabedores disso, era com um que os africanos aum entassem os preços, ao sentir que os com pradores estavam ansiosos para ir-se em bora. Na form ação do custo com que os escravos eram vendidos nas Am éricas, tam anha era a fatia do transporte — a m etade, pelo m enos —, que j á se aventou que, se viaj assem com o os em igrantes europeus — e estes vinham em geral em condições m ais do que desconfortáveis — e não, apertados uns contra os outros, sem quase espaço para m over-se, os altos preços que alcançariam no continente am ericano talvez tivessem desestim ulado o tráfico
negreiro. 49
Ainda que um rei e seus fidalgos e m ercadores estivessem desej osos ou carentes de produtos trazidos pelos europeus — até m esm o porque vários desses artigos, com o os cauris, as m anilhas e barras de latão e cobre, as barras de ferro e diferentes tipos de panos eram , conform e as diferentes regiões, usados com o m oeda —, podia suceder, e com frequência sucedia, que, ao perceber a chegada de um navio, eles se dessem conta de que só dispunham de m eia dúzia de escravos. Tornava-se necessário m andar às pressas adquiri-los no interior ou em preender razias contra aldeias que ficavam na periferia do reino, aldeias habitadas por gente exótica e cuj a função era, aos olhos de quem costum ava preá-las, produzir escravos. Os seus m oradores estavam ali, com o os peixes nos
rios — a m etáfora não é m inha50 —, à disposição de quem fosse capturá-los.
Os textos europeus da época estão cheios de histórias com o essas e de queixas de capitães de navio pelo tem po gasto em diferentes ancoradouros, à espera do regresso dos soldados que tinham ido à preia, ou dos negociantes africanos a quem costum avam ceder m ercadorias a crédito, para que pudessem adquirir cativos no interior. Não faltavam vezes em que as feiras do sertão se fechavam em decorrência de conflitos arm ados. E guerras prolongadas ou sem vencedor à vista dificultavam ou im pediam a descida de cativos para a costa.
Alguns reis e potentados africanos tornaram -se m estres em atrair os m ercadores do interior e em garantir a segurança e o rápido abastecim ento dos navios. Sabedores disso, eram os seus portos os m ais buscados pelos barcos europeus que não pertenciam a com panhias de com ércio donas de fortalezas ou entrepostos na África Atlântica, nos quais se procurava m anter, com aquisições constantes, estoques de ouro, m arfim , gom a, cera, alm íscar, paus de tinta, peles e couros.
Sem pre que possível, os diretores desses estabelecim entos, m esm o sem barco à vista, com pravam escravos e os guardavam dentro de barracões ou paliçadas. Com o cada um desses entrepostos representava um vultoso investim ento, a com panhia europeia podia considerar um bom negócio fazer face às despesas, sem pre grandes, com o arm azenam ento de escravos, para, em com pensação, garantir o pronto abastecim ento dos navios que a elas pertenciam . Em bora alguns dos fortes pudessem ter capacidade para guardar duas centenas de indivíduos, nem sem pre podiam m anter esses núm eros por m uito tem po, não só por m otivos de segurança, m as tam bém por dependerem da gente dos arredores, que cobrava caro para supri-los de água e de alim entos. Já os encarregados de feitorias m enores certam ente hesitariam em acum ular cativos à espera de navios sem data para chegar, pelos gastos que teriam de fazer com água, alim entos, higiene e guarda de, digam os, três ou quatro dezenas de pessoas. Para os chefes e m ercadores africanos, o dispêndio seria, em princípio, m uito m enor, porque podiam colocar os escravos, enquanto aguardavam o m om ento conveniente para vendê-los, a produzir com ida, a apanhar água, a recolher lenha, a am assar o
51
barro, a refazer o teto e as cercas das casas, a fiar e a tecer.
Assim se passava nos depósitos afastados do litoral, pertencentes a reis e m ercadores africanos. Naqueles de onde se podia ver o m ar e, m ais que o m ar, os navios, os escravos tinham de ser m antidos peados, unidos uns aos outros por cordas e correntes e sob severa vigilância, a fim de im pedir que o terror de serem levados pelos brancos para um destino desconhecido, m as que se im aginava m edonho, desatasse os gestos desesperados, as revoltas coletivas e as fugas. Ninguém punha um a enxada de ferro na m ão desses hom ens e m ulheres em que iam m inguando as esperanças. Nem lhes deixava espaço para m aiores m ovim entos. Eram , por isso, abastecidos pelo trabalho de outros escravos, que não ignoravam que j am ais seriam vendidos aos estrangeiros. Esses escravos de confiança não só traziam água para aqueles à espera de em barque, e cuidavam das roças e das capoeiras com que os alim entavam , m as eram tam bém deles os vigias e os guardas.
Ao contrário do que sucedia com os navios, que recebiam , em diferentes paragens ao longo da costa, escravos de distintos grupos e idiom as, é de im aginar-se que, nos depósitos dos portos africanos, boa parte dos que esperavam em barque tivesse sido capturada em um a só cam panha m ilitar ou em um a, duas ou três razias. Haveria entre eles gente da m esm a aldeia e de vilarej os próxim os. Se não, falavam a m esm a língua. Ou eram vizinhos que, em bora com vernáculos diferentes, conheciam os dos outros, pois se tem por com um na África que um a pessoa possa com unicar-se em m ais de um idiom a, além do seu. Mas devia haver tam bém indivíduos trazidos de m uito longe pelos m ercadores africanos e que só raram ente encontravam quem os entendesse. E que se recusavam a com er inham e, porque acostum ados ao arroz ou ao sorgo. A fom e acabava por obrigá-los a aceitar não só a papa de inham e, m as até a farinha de m andioca, que talvez desconhecessem .
Os da m esm a origem procuravam naturalm ente arrim ar-se naqueles que conservavam a fam a de bons soldados, e as crônicas das tentativas de fuga e das revoltas — não incom uns nos depósitos de escravos — m ostram que a m aior parte delas surgiu entre cativos da m esm a terra ou da m esm a língua, aos quais não faltou a adesão dos dem ais. Não que, nesses espaços onde se com partilhavam a angústia e o pavor, se tenham apagado as anim osidades entre as distintas nações, nem m uito m enos os sentim entos de diferença, com o dão prova as lutas que entre os diversos grupos neles algum as vezes ocorriam , m as talvez j á ali, com o depois, nos navios negreiros, se tenha com eçado a form ar um outro tipo de solidariedade, em que todos se sentiam sem elhantes na desgraça.
Com o seria de esperar-se, os relatos que nos chegaram de levantam entos de escravos nos portos de em barque referem -se a entrepostos europeus. Dos que seguram ente se verificavam nos depósitos dos africanos não se repetem os registros. Nuns e noutros deveria, contudo, ser sem pre arriscado m anter um núm ero grande de cativos, pois se potenciava a resistência. Assim , por exem plo, acabou em sangueira, em novem bro de 1681, a decisão do feitor do forte da ilha Saint Jam es, no Gâm bia, de m anter 105 escravos hom ens em depósito. Os prisioneiros rebelaram -se de m odo organizado, decididos a m orrer — e 34 m orreram , e 40 ficaram feridos, nas quatro prim eiras horas de com bate. Os que guarneciam o forte só lograram vencer os insurretos porque aos brancos, que
eram 19, se som ou a gente da terra, de arm as na m ão.52
Apesar dos altos custos e perigos, era grande a tentação de ter escravos arm azenados, a fim de dim inuir a estadia dos navios europeus. Aqueles em barcadouros onde a existência de um a fortaleza, de um a feitoria ou de um a rede de depósitos do litoral ao interior perm itia com pletar a carga em pouco tem po, tornaram -se os m ais frequentados. Daí que um pequeno núm ero desses lugares — Goréa, Cacheu, Cabo Corso (m ais tarde, Cape Coast), Aj udá, Ofra, Bonny, Old Calabar, Loango, Pinda, Luanda — tenha sido responsável pela m aior parte dos escravos que seguiram , nos séculos XVI e XVII, para as Am éricas.
Não se esqueça de que os escravos eram disputados por pelo m enos três grandes m ercados: o local, o inter-regional e o oceânico, fosse atlântico ou índico, neste se incluindo o m ar Verm elho. Nas savanas abaixo do Sael, a com petição seria entre quatro fortes dem andas: a local, a inter-regional, a oceânica e a transaariana. Por quase toda parte, os europeus e seus prepostos tinham de apresentar-se com m elhores condições de com pra do que as vigentes nas feiras vizinhas e do que as oferecidas pelos diulas e outros m ercadores m uçulm anos; e tanto eles quanto os islam itas necessitavam propor aos reis, régulos, chefes e hom ens fortes da terra com pensações suficientem ente atrativas para convencê-los a se desfazerem de um bem pelo qual se m edia a riqueza e o poder.
Nos séculos XVI e XVII, a m aior parte dos cativos produzidos pelas guerras, pelas razias, pelos sequestros e pelas sentenças penais não era vendida às cáfilas nem às caravelas: ficava com o escravo na África. Não se alienava senão um a fração, em bora grande, deles, conservando-se os que se tinham por m elhores ou m ais adaptáveis. Entre guardar j ovens adultos ou crianças, estas eram escolhidas, porque m ais fáceis de se incorporarem à com unidade e lhe aum entarem os núm eros. Preferia-se vender um hom em a um a m ulher, não só porque esta podia ser m ais produtiva, com o agricultora, oleira e tecelã, m as tam bém por ser reprodutiva e gerar m ais gente para o grupo. No entanto, apesar dessas preferências, um grande núm ero de m ulheres e de crianças era oferecido à venda, tanto aos m ercadores m uçulm anos do Saara quanto aos traficantes cristãos do Atlântico. Que a oferta de m ulheres tivesse o m esm o nível que a de hom ens nos m ercados não seria de causar surpresa, pois m ulheres e crianças form avam a m aior parte dos cativos, após um a guerra ou um a razia. Muitas dessas m ulheres e crianças eram conservadas pelos captores, m as sem pre havia um excesso, que se oferecia à venda — m eninos, coerentem ente, m ais do que m eninas. Nas proxim idades do Sael não havia dificuldade em encontrar com pradores, um a vez que a dem anda transaariana se concentrava no sexo fem inino. Mais custoso era colocar os hom ens. Sem pre havia procura de eunucos, e os m eninotes não eram de todo desprezados. Para dispor, porém , dos adultos do sexo m asculino, os chefes tinham possivelm ente de convencer os negociantes islam itas a levar, em cada grupo de escravas, alguns hom ens. Já o contrário se passava no lado do Atlântico, onde, no transcorrer do século XVII, se teria acentuado a predileção pelos adultos j ovens. Com prava-se, no entanto, o que havia disponível, desde que em boa saúde: hom ens, m ulheres e crianças —
as m ulheres a preço entre 20 e 25% m enor do que os hom ens,53 e as crianças, ainda m ais baratas. Se assim tiver sido (com o parecem indicar um as poucas am ostras), ter-se-ia estado perto de um equilíbrio entre os dois sexos, na venda global de escravos da África às Am éricas. Em duas am ostras, 51,2% seriam
54
hom ens; num a terceira, 58%. Noutra série de dados, correspondente ao período de 1663-1713, a percentagem de hom ens seria de 61,5%. A relação podia ser m uito distinta, conform e as regiões de venda e em barque na África e, tam bém , de desem barque e com pra, nas Am éricas. Assim , nas am ostras relativas ao período de 1663-1713, há prática equivalência, no golfo de Biafra, entre hom ens e m ulheres — aqueles figuram com apenas 50,3% —, enquanto que, em Loango, Malem bo, Cabinda e Luanda, os escravos de sexo m asculino
form avam 64,9%. 55 Mesm o assim , não chegavam à relação de dois hom ens por
56
m ulher, desej ada pelos traficantes europeus.
Nas sociedades nas quais ferreiros, ceram istas, j oalheiros, curtidores, alfaiates, carpinteiros e tecelões pertenciam a castas, não podiam ser eles escravizados e, consequentem ente, vendidos, e só por erro ou deliberado sacrilégio era um deles em purrado para um navio negreiro. Suponho que, m esm o onde não existia esse tipo de castas, não se alienavam os artesãos com petentes, e m uito m enos os artistas (os escultores, por exem plo) que caíam prisioneiros. Um chefe dificilm ente perm itiria que fosse vendido para fora da grei um cativo que se m ostrasse um bom ourives ou um a cativa que fosse um a excelente oleira, a não ser que se revelassem insubm issos ou intratáveis. Ainda no caso de terem por origem um a área próxim a, para a qual poderiam eventualm ente escapar, o tipo e a qualidade do trabalho que faziam com pensava o risco.
O m ercado era geralm ente de vendedor, m as o m anej o dos preços pelas lideranças africanas tinha os seus lim ites. Nas áreas onde se tornaram habituais as transações com os europeus, os reis e os grandes da terra haviam -se acostum ado às m ercadorias que chegavam do oceano e as usavam com o instrum ento político. Nos seus depósitos am ontoavam -se peças e peças de tecidos, j arros e j arros de contaria, cestos e cestos de m anilhas de cobre e latão, e espadas, e chapéus, e pistolas, e espingardas, e espelhos de todos os tam anhos, e barris de bebidas, e relógios, e caixinhas de m úsica, e o m ais que vinha nos navios estrangeiros, a com provar, tudo j unto, a glória, a grandeza e a opulência do rei, do régulo ou do chefe. Deixar de receber o que tinham por m oeda ou por bens suntuários, m as que não eram supérfluos, porque, ao reparti-los, se consolidavam fidelidades, conquistavam alianças e reuniam exércitos, significava enfraquecer-se. Acum ulavam -se coisas para ganhar pessoas, para aum entar o núm ero de súditos, seguidores e dependentes, fossem livres ou escravos. Por paradoxal que fosse, tinha-se, porém , de vender gente a fim de se obterem os produtos de luxo com que se conseguia m ais gente. Não seria de estranhar-se, por isso, que um chefe pusesse à venda um a quantidade inesperada de cativos, para com os proventos adquirir outros, em m aior núm ero e trazidos de longe.
Nos lugares onde os líderes se tornaram com erciantes de escravos, experim entou-se em geral um increm ento populacional. Não só o prestígio dos bens im portados de além -m ar atraiu novos seguidores, com o ali aum entou consideravelm ente a escravaria, com os cativos que não eram vendidos ou que, por com pra, haviam substituído os entregues aos navios europeus. O próprio com ércio transatlântico tornou necessário o aum ento da escravaria nos pontos de m ercadej o e de em barque: havia necessidade de m ão de obra para garantir alim entos aos depósitos de cativos e para abastecer os navios. Com o, além disso, havia um nítido desequilíbrio em favor das escravas m ulheres, e estas podiam ser incorporadas com o esposas ou concubinas às fam ílias locais, crescia consideravelm ente o núm ero de crianças nascidas na com unidade.
Dava-se o contrário naquelas áreas que eram obj eto de operações de preia. Sofriam elas um esvaziam ento de gente, acom panhado pela inevitável desorganização da econom ia. As aldeias am anheciam em insegurança, e era com m edo que seus habitantes saíam para os cuidados das roças. Sob constante am eaça, não se sentiam eles estim ulados a restaurar o telhado das casas, a fiar e a tecer, a entrelaçar a palha, a am assar o barro e a levar os produtos do trabalho ao m ercado.
Em nenhum outro lugar esse processo com dois rum os contrários m ostrou-se tão claro e de form a tão dram ática quanto nos sertões adj acentes aos estabelecim entos portugueses de Angola. Durante pouco m ais de um século, a voracidade escravista avançara terra adentro, não só despovoando regiões inteiras, m as tam bém consolidando e fortalecendo, inclusive do ponto de vista populacional, não só o enclave português, m as tam bém , na outra fronteira da enorm e área onde, sem cessar, se preava gente, dois reinos africanos que tiravam o seu poder da produção e com ercialização de escravos: Caçanj e e Matam ba.
No curso do século XVII, alteraram -se as relações de força entre os estados que eram sócios do com ércio atlântico e os que dele não participavam . Entre, de um m odo geral, aqueles com acesso a portos m arítim os e os do interior. Mas, até m esm o no correr do litoral, am plas áreas não se viram tocadas pelos europeus ou só o foram superficialm ente. Nos sertões, se excetuarm os uns contadíssim os lugares, com o os frequentados pelos pom beiros e os cursos inferiores de alguns rios cuj as m argens funcionavam com o praias litorâneas — penso no Senegal, no Gâm bia, no Zaire, no Cuanza —, os brancos não chegavam a não ser com o boato, e m esm o assim raram ente. Por quase toda parte, iam penetrando terra adentro — aqui, de form a lenta, e rápida, acolá — o m ilho, a batata-doce, a m andioca, o am endoim , o ananás, o caj u e outros vegetais am ericanos. Não m enos rápida terá sido a difusão de m oléstias trazidas da Europa, da Ásia e das Am éricas, com o a tuberculose, o tifo, o cólera, a sífilis e, sobretudo, novas form as de varíola, que se adicionaram às enferm idades secularm ente entranhadas na África, com o a m alária, a febre am arela, a doença do sono, a xistossom ose, o verm e-da-guiné, a cegueira dos rios, o tétano e as parasitoses intestinais, para aum entar a m ortalidade e reduzir as expectativas de vida no continente africano. No esconso da floresta equatorial, podiam aparecer, por força dos azares de repetidas trocas, um a vasilha de latão, um a catana alem ã, um colar de contas de vidro de Veneza ou vários palm os de tecido indiano, m as chegavam por m ãos africanas.
Em geral, o com ércio dos cristãos era feito nos navios. Ou na praia defronte, para onde se levavam em batéis os produtos de troca. Nas fortalezas e nos entrepostos, tudo se passava com o se os brancos continuassem em barcados. Aqui e ali serviam -se de lançados e de m ulatos; e este e aquele, j á africanizados, podiam em brenhar-se no interior, com seus filhos m estiços, cunhados ou sócios locais, para fazer o seu com ércio. Mas o norm al era que as m ercadorias fossem trazidas até a feitoria pela gente da terra. Os europeus, dentro de suas fortificações, estavam com o em barcos perm anentem ente ancorados — e sob sítio e perm anente am eaça, até m esm o dos aliados, que podiam , de um m om ento para outro, voltar-se em adversários. Estavam suj eitos ao poder e à vontade do rei ou do chefe em cuj as terras se haviam instalado. E sobram exem plos de diretores de fortes e feitorias que foram expulsos, presos ou m andados executar por ordem de um rei ou de um chefe africano. Não se estranhará, por isso, que, tal qual sucedera, séculos antes, com árabes, persas, indianos e indonésios na África Índica, preferissem instalar-se em ilhas, e em penínsulas, e em prom ontórios e cabos. Não lhes era perm itido m uitas vezes sequer ter roças fora de seus m uros de terra ou paliçadas. Para seu serviço e guarda, tinham de am parar-se em escravos vindos de longe. Nos fortes da Costa do Ouro, em soldados e serviçais j alofos, sereres, m andingas, guns ou fons.
Até m esm o nos grandes enclaves europeus, a leitura atenta dos textos da época m ostra-nos que, m al se com eçava a sair da área controlada m ilitarm ente por Luanda ou Massangano, j á se ficava à m ercê dos am bundos, congos, dem bos ou im bangalas, fossem aliados ou contrários. De Muxim a, Cam bam bo, Am baca e da própria Massangano, com o de resto tam bém de Sena e Tete, fica-nos a nítida im pressão de que estavam sob constante cerco. E, sem partirem fortem ente arm adas, as em barcações portuguesas em geral não se atreviam a subir o Cuanza nem o Zam beze. No apurar das contas, o estabelecim ento lusitano de Angola funcionava com o um estado vizinho de outros estados africanos e, apesar de m ais bem -arm ado, via-se constrangido a procurar com por com eles, dentro da região, um sistem a de alianças que lhe assegurasse o predom ínio de poder ou, ao m enos, um equilíbrio de forças — um predom ínio de poder e um equilíbrio de forças que as constantes guerras m ostram terem sido interm itentem ente postos em questão. Onde e quando pôde — e quase sem pre pôde —, o africano im pediu que os europeus chegassem às fontes de suas riquezas — às m inas de ouro e de cobre, por exem plo — ou controlassem um pouco que fosse das produções da terra. Com as exceções em Angola, no cabo da Boa Esperança e em Moçam bique, ele não perm itiu que, descidos em terra, os brancos fechassem espaços para suas plantações ou saíssem a pastorear gado.
Até m esm o num enclave com o o de Luanda, com os estabelecim entos que dela dependiam , seria necessário distinguir entre o poder nom inal português e a
57
hegem onia real africana. Eram os africanos que controlavam a circulação das
m ulheres e, portanto, a vida am orosa e fam iliar; eram eles que regiam as feiras no interior, abrindo-as e fechando-as quando queriam ; eram eles que com andavam os rios e os cam inhos do sertão, deles excluindo os indesej áveis e sobre eles cobrando direitos de passagem ; eram eles que regulavam os preços e a conduta do com ércio; e eram as suas m oedas (sobretudo os diversos tipos de panos de ráfia) que m ovim entavam as trocas e pagavam os serviços no enclave, e não as de Portugal, que, j á nos últim os anos do século XVII, tiveram de ser im postas à força, com o soldo dos soldados, que, brancos ou negros, não queriam recebê-las.
Na África, só se aceitava plenam ente o europeu depois que convertido aos valores da terra. E quando se tolerava a presença do com erciante branco, não devia este ultrapassar a fím bria de um m undo que para ele só se abriria, e com enorm e resistência, a partir da últim a m etade do século XIX. À sem elhança do que se passava nas m argens do Saara, era ele um m ercador que trabalhava principalm ente com artigos que só aproveitavam aos grandes da terra. Se, em alguns lugares, havia sobras para o hom em com um , estas se tinham por poucas e m agras. Im portante para as elites de algum as com unidades, o com ércio de gente não representava m ais do que um a fração ínfim a das econom ias africanas. Se excetuarm os um ou outro produto em determ inada região, com o, por exem plo, na Senegâm bia, as barras de ferro com as quais os ferreiros africanos faziam enxadas, facas, pontas de lança, harpões e anzóis, o que descia dos navios ocupava um a parte m ínim a nos m ercados locais. Mesm o quando se considera apenas o com ércio a distância, as transações com os europeus, nos séculos XVI e XVII, não alcançavam o valor do m ercadej o intra-africano de sal. Nem , provavelm ente, o da noz-de-cola, do peixe seco e dos tecidos de algodão e ráfia.