Amazônia: expansão do capitalismo
Outros produtos e processos em curso
Todos os agricultores japoneses de Tomé-Açu são cooperativados.
A cooperativa adquire a pimenta e a vende; o mesmo faz com
outros produtos que eventualmente formam o excedente; por outro
lado, adquire gêneros, insumos e máquinas (os produtores
beneficiam a pimenta em suas propriedades), bem como fornece
assistência médica. Ainda através da cooperativa, os agricultores
recebem financiamentos do Banco do Brasil.
O BASA afirma que esse “cooperativismo é um exemplo eloquente
de como se pode vencer o sistema tradicional de crédito e
comercialização”56. Sem dúvida isso é verdade; contudo, deve-se
situar esse feito como ocorrendo num contexto assaz específico: o
produto em questão é de alta densidade econômica, houve ajuda
financeira governamental57 e ocorreu pequena expansão
demográfica: em 1966 a colônia contava com 300 famílias, isto é,
seguramente menos de 2 mil pessoas. A repercussão externa à
colônia, em termos de assalariados, tende a cair, já que a mão de
obra familiar é toda ela movimentada e, recentemente, vêm sendo
utilizadas debulhadeiras mecânicas.
O Brasil concorre com cerca de 5% da produção mundial; a quase
totalidade dessa produção de pimenta provém do Pará e, nele, de
Tomé-Açu. De fato, das 8943 t produzidas no Brasil, a Região norte
participa com 8446, podemos dizer 95%, toda ela do Pará; e a
produtividade dos pimentais dessa região é bem superior à das
outras áreas produtoras, pois enquanto o país todo cultivou 4 426 ha
para produzir 8,9 t, no Pará, podemos dizer, Tomé-Açu produziu 8,4
toneladas em 2 104 ha. 58 Em 1969 (somente dispomos de dados
para o Brasil), o país produziu mais de 14 mil t em 5,5 mil ha.59
Conservando-se as proporções de 1965, pode-se ter uma ideia da
evolução do produto na Colônia Agrícola de Tomé-Açu – cuja
repercussão na demanda de mão de obra tende a cair em termos
relativos.
Outros produtos e processos em curso Além das atividades extrativas, agrícolas e pecuárias descritas,
“recentemente, um novo produto – o manganês – é ativamente
explorado no Amapá, cujo território vem obtendo alguns benefícios
de sua exploração. A existência de petróleo foi reconhecida em mais
de um ponto da região e as sondagens continuam a ser feitas (…) A
atividade industrial começa a adquirir alguma importância local em
Belém e Manaus. Nesta última já funciona uma refinaria de petróleo
que trabalha com o produto oriundo dos campos de Ganzo Azul, no
Peru. Na região de Belém, ao lado de algumas indústrias antigas,
estão surgindo novas fábricas, construí das dentro das mais
rigorosas exigências técnicas (indústrias de aniagem, vidros,
bebidas etc.)”.60
Sucintamente podemos afirmar que o panorama mais recente,
1967/70 em diante, está marcado sobremaneira pelas políticas do
Governo Federal; internamente a repercussão maior está recaindo
sobre a terra; disputam-se a legitimidade das posses, a legitimidade
de certas propriedades e, nesse processo estão, de um lado,
grandes empresas do sul e internacionais, incentivadas pelo
governo, desejosas de centenas de milhares de ha e, de outro, as
tentativas do INCRA de organizar a frente de pequenos e médios
proprietários e posseiros que desordenadamente vão entrando na
região, bem como criar núcleos, formando colônias de povoamento,
como se analisará nos Capítulos VIII, IX e X.
Os interesses das grandes empresas estão voltados para a
mineração (estanho, bauxita e ouro em Rondônia, manganês no
Amapá), extração e beneficiamento dos diversos tipos de madeira,
pecuária de corte e rizicultura, soja e cana-de-açúcar 61. A tendência
governamental é de apoio a grandes projetos, tendo em vista
acelerar o processo de ocupação efetiva da Amazônia. 62
Em resumo, pode-se dizer que do império dos aviadores e
seringalistas do ciclo da borracha passa-se, atualmente desde os
anos 60, com a abertura das estradas, o que ocasionou a elevação
do preço das terras e, notavelmente, desde os primeiros anos 70,
com a decidida política governamental de penetração na Amazônia –, para o império dos grandes grupos econômicos do centro-sul
brasileiro juntamente com grupos estrangeiros, numa verdadeira
repetição ampliada e atualizada do papel desempenhado pela terra
e pelos homens que nela trabalharam durante a época da “mais
criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o mais
desacirrado egoísmo”, na opinião de Euclides da Cunha em À
Margem da História.63
Sem nos adiantarmos ao que será analisado nos Capítulos VI e
seguintes, referente aos mecanismos atuais de integração da
Amazônia ao movimento geral do capital nucleado no sul, é
suficiente, por enquanto, registrar a aurora desse novo
devassamento.
O Estado de São Paulo de 2/11/1975 assim concluía seu editorial
que dava início à publicação de nove artigos sobre a Amazônia:
“Após 10 anos, os resultados da política de colonização são
desoladores, senão para os colonizadores dotados de maiores
recursos, pelo menos para a grande maioria das pessoas envolvidas
nesse processo: os camponeses expulsos de suas terras de origem
e os nativos da Amazônia, virtualmente transformados em
colonizados”.
Os “camponeses”, garimpeiros, seringueiros, lenhadores, sitiantes
etc. desempenharam seu papel: levaram para os confins
amazônicos a população exigida pelas atividades mercantis
atualmente em implantação, dos empresários nacionais e
estrangeiros; mostraram a possibilidade de se viver naqueles
confins: passaram facão, foice, machado, plantaram, colheram e se
aclimataram. Foi o devassamento das frentes pioneiras. Limpo o
terreno, a história muda: de colonizadores passam a colonizados.
Convencidos pela violência, servem ao novo devassamento. A
violência, para espanto dos estudiosos de encomenda, é aqui uma
potência econômica, pois abre caminho ao desenvolvimento, à
acumulação. “… o pioneirismo em Rondônia apresentou nos últimos
cinco anos alguns dos mais dramáticos capítulos da história da
corrida para o norte desencadeada pelo governo – uma história contada por milhares de mortes, violência, total desrespeito às leis,
destruição do meio ambiente, agressões à população nativa,
desmandos administrativos, prepotência, corrupção, crimes de toda
a espécie”64.
Dessa maneira, tendo a violência por parteira, o capital ingressa na
produção agropecuária e mineira amazônica; passa-se para uma
nova etapa histórica em que a Amazônia não apenas serve à
acumulação “externa” mas passa a viver, também, internamente,
para ela.
39 Todas as informações dessa fase estão em A Borracha da
Amazônia e a II Guerra Mundial, de CORRÊA, Luiz de Miranda,
Manaus, Ed. Governo do Estado do Amazonas, 1967; consulte-se
principalmente o Cap. “Seringueiros para a Amazônia”.
40 Apud. Redistribuição Regional etc., op. cit.
41 Que a “batalha da borracha” levou muita gente ao Acre é fato
incontestável; já a relação entre saldo migratório decenal positivo e
aumento dos preços da borracha não é mais tão direta como o foi
durante o ciclo da borracha; no período 1948-50 os preços
aumentaram 28%, no de 1951-54, 30%, no período 195-4-56, 44%,
ao passo que o Acre, entre 1950-60, acusa um movimento
emigratório. Ver Graham e Buarque, op. cit., e BASA, p. 206.
42 BASA, p. 198. Isso é confirmado por Manuel Correia de Andrade
em Paisagens e Problemas do Brasil, Ed. Brasiliense, São Paulo,
1968.
43 Grande propriedade com sede à margem de um rio com milhares
de hectares e de limites imprecisos. Ainda hoje, apenas em
Rondônia, seringueiros e seringalistas detêm 400 mil ha de terra
não titulados.
44 Lei Estadual nº. 913, de 1954; sobre essa lei e a respeito das
frentes agrícola, pecuária, mineradora e extrativa localizadas no Pará, consulte-se Otávio Velho: Frentes de Expansão e Estrutura
Agrária, op. cit. Boa parte das informações no presente estudo
sobre essas frentes foi extraída dessa obra.
45 BASA, op. cit., p. 149.
46 Na área de Imperatriz, centro do triângulo formado pelas cidades
de Bacabal e Carolina (no MA) e Marabá (no PA), encontramos a
associação roçado e algodão-babaçu; vide VALVERDE, Orlando e
DIAS, Catharina V., A Rodovia Belém-Brasília, Rio de Janeiro, IBGE,
1967; no vale do Mearim (MA) roçado-arroz e babaçu: vide
MEDINA, Carlos A., Mão de obra em RN. PE, BA, MA e PI, 1958
(mimeo.).
47 Significativa vitalização econômica e demográfica conheceu a
área de Imperatriz com a abertura da Rodovia Belém-Brasília. Ao
norte desta cidade surgiu uma zona de invernadas onde a pecuária
conta com pastos plantados, propriedades cercadas, melhoria da
espécie bovina, com a introdução do zebu. Consultem-se:
Microrregião Homogênea e a Divisão do Brasil, IBGE, 1968, e
VALVERDE, Orlando e DIAS, Catharina V., op. cit.
48 PIAZZA, Paulo Della, Santarém, 1962, mimeo.
49 Ainda é, basicamente, uma atividade extrativa, mas que, aos
poucos, recebe elementos técnicos que permitem organizar a
produção. Tais elementos são fornecidos pela escola agrícola de
Vila Batista, no município de Paratins.
50 BASA, op. cit., pp. 170-171.
51 BASA, op. cit., p. 166. Os números são de 1960.
52 Se a produção aumenta em função da área cultivada e da massa
de mão de obra, o aumento da primeira de 39 mil t em 1960 para 51
mil t em 1965, concomitante ao aumento da área cultivada de 28 mil ha para 42 mil, – é de sugerir, pois, que a mão de obra, nesse
quinquênio, quase que dobrou.
53 BASA, op. cit., p. 170. “Aqui é assim: durante seis meses a gente
só vive pra juta. Semeando, colhendo e plantando. O resto do ano?
Bem, o resto do ano é pra pegar peixe, olhar pra água e esperar a
vida. Não é trabalho pequeno, não, meu compadre, porque daqui a
10 anos já sou um velho imprestável (Raimundo tem 30 anos) pro
mergulho. Mas não me queixo, não, porque na minha terra eu colhia
borracha, e a seringa é que é trabalho de cão. É o dia inteiro no
meio da selva, almoçando malária e jantando impaludismo. No fim,
você não vê nada: nem dinheiro, nem terra, nem borracha, e nem
nada”. BORBA, Marco A., Opinião, 5/12/75, nº. 161.
54 Sobre esse assunto consulte-se A Rodovia Belém-Brasília, obra
citada. Dado o extremo cuidado requerido pelas várias fases do
cultivo, a cultura da pimenta-do-reino foi chamada cultura de vasos
por Dirceu Lino de Mattos em As Regiões Geoeconômicas, in Brasil:
A Terra e o Homem, São Paulo, Cia. Editora Nacional/Ed. da USP,
1970, p. 447.
55 Consulte-se PENTEADO, Antônio R., O Uso da Terra na Região
Bragantina-Pará, Instituto de Estudos Brasileiros, USP, São Paulo,
1.967, Cap. 3, pp. 50-58.
56 BASA, op. cit., p. 181.
57 Por exemplo, a indenização para erradicar os pimentais
contaminados em 1972. Consulte-se o Boletim do Banco do Brasil,
Ano VII, 1971, nº. 4, p. 21.
58 Dados de Microrregiões Homogêneas, op. cit., e Anuário
Estatístico do Brasil, IBGE, 1967, p.101.
59 Anuário Estatístico do Brasil, IBGE, 1973, p. 179.
60 MATTOS, D. Lino de, op. cit., p. 445.
61 Cinco grupos, nacionais e estrangeiros, dividem entre si a
“Província Estanífera” que vai do Pará às terras bolivianas; se bem
que as 4 mil t anuais de cassiterita representem apenas algo cerca
de 3 ou 4% da produção mundial, os depósitos permitem aumentos
significativos. A partir de 1971 as lavras foram mecanizadas e o
“Governo fechou os garimpos e removeu os garimpeiros da Região”.
No Amapá a ICOMI, criada com a associação da Bethlehem Steel
(EUA) com o grupo Azevedo Antunes, que agora conta também com
a Brumosa, ao explorar o manganês (em 1965, 953 mil t) alterou a
feição do Território. Nos limites dessa Unidade da Federação com o
Pará, “o milionário americano Daniel K. Ludwig planta o maior
arrozal do mundo, numa área de 1,5 milhões de hectares, de acordo
com as últimas lições de tecnologia”: – Informação de Visão,
07/10/1974, pp. 25 a 38. No Maranhão implanta-se a siderúrgica de
Itaqui (subúrbio da Capital maranhense). “A usina de Itaqui receberá
minério de ferro do Pará, da serra dos Carajás, com teor de 69,5%,
e cujas reservas são calculadas em 18 bilhões de toneladas,” Visão,
04/11/1974, p.80.
62 Com esse objetivo expresso foi criado o Programa de Pólos de
Desenvolvimento Agropecuários e Agrominerais da Amazônia
(Polamazônia), outubro de 1974.
63 CUNHA, E. da, À Margem da História, Porto, Lello e Santos,
1909, apud Prado e Capelato, op. cit., p. 298.
64 O Estado de S. Paulo, 5/11/75. Os nativos, que “eram mais de um
milhão quando o primeiro colonizador pôs os pés em terra
amazônica, hoje podem ser até 60 ou 70 mil, não mais que isso”.
Idem, 12/11/75. Veja-se, também, RIBEIRO, Darcy, op. cit., Parte
Três, Cap. XII.