Amazônia: expansão do capitalismo
O ciclo da borracha
mais aquela atraída à civilização que se implantava. No final dos
oitocentos, “a população civilizada regional (não ultrapassava) os
100.000 habitantes”. 11 12 Outra fonte assinala para 1808 uma
população de 97 mil pessoas. Assim, realmente, em torno de 1800,
a Amazônia não alcança 100 mil habitantes; excetuam-se, é claro,
as tribos não vinculadas ao sistema português de dominação.
O ciclo da borracha
Se o “ciclo” das drogas do sertão fez parte de uma economia que
nasceu como uma reserva e participou como uma peça da pré-
história do capital, a época da expansão do sistema capitalista em
escala mundial, o ciclo da borracha nasce e se desenvolve tendo
como objetivo baratear, via imposição de preços coloniais à
borracha, o capital constante utilizado nos empreendimentos
industriais das novas potências mundiais13.
A capacidade de comprimir os preços do produto – que no limite
levará à quebra do processo extrativo mediante a produção inglesa
na Ásia – residia, mais uma vez, na forma de trabalho compulsório.
Os ganhos da intermediação comercial e financeira internas –
realizados pelas casas aviadoras (comerciantes) – relacionavam-se
ao curto espaço de tempo da volumosa demanda externa. Os altos
preços pagos em Belém e Manaus refletiam o interesse externo em
empresariar nacionais para o devassamento da floresta em busca
do látex. Entre o trabalho e o produto obtidos mediante relações
econômicas quase escravas e o financiamento e a comercialização
realizados por capitais estrangeiros, situavam-se os ganhos dos
empresários nacionais.
O controle da realização externa da borracha – ao Estado
interessava captar os impostos sobre o volume exportado, ademais
de estar voltado sobretudo para o café – configurava-se,
praticamente, como um monopólio do excedente, com fortes semelhanças com o “exclusivo” comercial português do tempo das
drogas do sertão.
Dada a forma de trabalho adotada – num contexto de um ciclo
econômico extrativo de relativamente curta duração, que apenas
produziu uma pequena camada social que vivia da intermediação –,
não ocorreram na Amazônia as profundas alterações de que foi
palco o centro-sul do país, com a produção de café baseada nas
novas relações de produção de tipo salarial, das quais resultaram
uma maior divisão social do trabalho e a expansão do mercado
interno. Ocorreu, no entanto, uma modificação extraordinária no
volume da população amazônica.
Em 1823, a atual Região norte contava com uma população em
torno de 127 mil que, em 1872, passa a ser de quase 340 mil; em
1900, soma quase 700 mil e, 20 anos mais tarde, algo mais de
1.400.000. Como se nota, o aumento a partir de 1872 foi sensível.
Essa população, movida pelos interesses econômicos ligados à
extração do látex, devassa a floresta tropical brasileira, incorpora um
território de quase 200 mil km 2 retirado da Bolívia, extermina parte
da população indígena, miscigena-se parcialmente com eles e
provoca o crescimento urbano de Belém e Manaus.
O extraordinário crescimento populacional resulta de dois processos
fundamentais. Em que pesem as tentativas do governo de Londres
de desenvolver-se o plantio das mudas da Hevea em suas colônias
asiáticas (Ceilão e Malásia), os preços internacionais da borracha
elevaram-se enormemente a partir dos anos 70 do século passado:
de 45 libras esterlinas a tonelada, em média, na década de 1840/50,
passam a 118 libras na década seguinte, atingem 182 libras no
decênio 1870/80, alcançando 389 libras em 1900/1910. Tais preços
são expressão da enorme demanda industrial, a relativamente curto
prazo, sobre uma área natural potencialmente fornecedora do
produto, já que as tentativas de plantio na Ásia não tiveram êxito.
Por outro lado, uma prolongada seca na região nordestina, entre
1877 e 1880, dizimou entre cem a duzentas mil pessoas e praticamente todo o rebanho da área, deixando um quadro de
miséria acabrunhador. Ao mesmo tempo dificultou a reação dos
grupos dominantes da região à emigração induzida (pela
propaganda e incentivos oficiais) para os Estados amazônicos de
algo como meio milhão de pessoas14.
A conjugação desses fatores responsáveis pelo maciço incremento
da mão de obra levará a produção de borracha a saltar de suas
modestas 3.700 toneladas anuais, em média, na década de
1850/60, para quase 35 mil, na década 1900/10. Tudo isso graças
às levas de nordestinos, cujos custos de migração foram obtidos
pelos seringalistas comerciantes a preços, em boa parte,
subsidiados pelo poder público. Além disto, os migrantes eram
obrigados a ressarcir o seringalista dos adiantamentos
(instrumentos de trabalho, despesas de instalação e suprimento).
A disposição desta mão de obra não só resolveu o problema de sua
escassez relativa – pois ela era até então quase inexistente na área
amazônica – como reforçou a tendência ao estabelecimento de
relações de trabalho compulsório. Estas tanto se baseavam na
utilização da única força de trabalho disponível na área – as
populações indígenas – que passaram a ser “compulsoriamente
aliciadas para a produção da borracha e para os trabalhos ligados à
navegação fluvial”,15 como na coação que foi exercida sobre a
população nordestina para que ela se ajustasse ao trabalho no
seringal, onde o “barracão” e os capangas reiteravam ao trabalhador
sua sina. Se notarmos que as condições técnicas de produção para
a obtenção da borracha supunham baixa concentração dos
seringueiros nativos, baixa produtividade do trabalho além dos
perigos oferecidos pela mata; que a produção se fazia em condições
da volumosa demanda a curto prazo; e que tudo se organizava ao
sabor da audácia individual, nessas condições era praticamente
impensável uma mudança nas relações sociais de produção
semelhantemente ao ocorrido na economia cafeeira do sul quando,
através da importação de imigrantes e do início do estabelecimento
de relações salariais, os fazendeiros puderam fazer face ao fim da
escravidão. Na Amazônia a abertura da área à exploração da borracha deu-se depois da extinção da escravidão (o tráfico
terminara em 1850 e o preço do escravo nacional subira muito,
graças à demanda do centro-sul) e sem que fosse possível – pelas
condições apontadas – estabelecer o sistema de trabalho livre
assalariado. Foi nestas condições que se expandiram as relações
de produção quase escravas.
Uma vez explicado o processo de povoamento à época do ciclo da
borracha, convém observar mais acuradamente os aspectos
demográficos.
Como vimos, em 1870 a Amazônia contava com uma população
pouco superior a 300 mil habitantes e, 50 anos depois, avultava a
mais de 1400 mil. Por outro lado, desde 1827, data do primeiro
registro de exportação da borracha (31 t), a produção e a
exportação conhecem aumentos contínuos. Pelos meados do
século a produção monta a umas 1000 t, em 1870, 8 mil t. No
decênio 1891-1900 atinge uma média de 21,4 mil t anuais e o
primeiro decênio do século XX, 34,5 mil; cai para 32,8 mil e depois
para 20,2 mil anuais, nos decênios seguintes. Em 1912 a produção
alcança seu ponto máximo, com 42 mil t. Dai por diante é o declínio,
afirma Caio Prado Jr. 16.
O importante para nosso estudo é a conclusão de Celso Furtado
que relaciona o aumento da produção com o da população: “esse
aumento da produção deveu-se exclusivamente ao influxo de mão
de obra, pois os métodos de produção em nada se modificaram” 17.
A relação entre acréscimos periódicos da população amazônica e a
participação da produção brasileira de borracha na produção
mundial parece um fato insofismável. Senão, vejamos. Em 1878,
cem por cento da produção mundial do produto eram brasileiros. Em
1890 a participação decresce para 90%. Nos quatro quinquênios
consecutivos a partir de 1900, isto é, de 1900 a 1919, a participação
cai de 70% para 53%, 34%, 12%: no quinquênio 1925-29, mal
atinge 2% 18. A inserção no contexto mundial é fundamental. A
exploração da borracha irá passar por três fases: a primeira, com caráter de emergência; a segunda, com produção em bases
racionais, e a terceira, a partir dos anos 40, com a substituição
progressiva do produto natural pelo sintético. Interessam-nos aqui
as duas primeiras. Pois bem, “a primeira fase da economia da
borracha se desenvolve totalmente na região amazônica 19; a
segunda, a partir de 1915/ /19, no sudeste da Ásia. A queda na
participação mundial terá efeitos econômicos enormes, na região,
mas também efeitos demográficos.
Os acréscimos populacionais praticamente refletem essa
participação. Tomando 1872 = 100 (338 mil habitantes) obtemos
para o período 1872/1900 um acréscimo de 40%; no decênio
seguinte o acréscimo alcança 47%! Entre 1900 e 1920, 107%;20
podemos supor, como Celso Furtado, que parcela bem maior tenha
ocorrido no primeiro decênio. Já entre 1920 e 1940, o acréscimo
não ultrapassa 0,2%, quer dizer, há uma estagnação demográfica.
Tudo leva a crer que no ciclo da borracha a expansão populacional
firma-se na imigração, o que, no entanto, não é ponto pacífico entre
os estudiosos21.
Admitindo um crescimento vegetativo anual de 1%, considerando
que “as condições de salubridade são reconhecidamente precárias
na região”, Celso Furtado calcula que o influxo externo alcançou 260
mil pessoas no período 1872 e 1900, das quais cerca de 200 mil
corresponderiam ao último decênio; com base nos censos e ainda
na admissão de um crescimento vegetativo anual idêntico, conclui
que entre 1900 e 1910 um volume igual ao anterior tenha chegado à
região. “Resulta que a população deslocada para a região
amazônica não seria inferior a meio milhão de pessoas”, 22 hipótese
bastante plausível para explicar o sensacional pulo populacional de
quase 340 mil em 1872 para mais de 1400 mil em 1920.
Tal acréscimo dificilmente pode ser atribuído, na sua maior parte, ao
crescimento vegetativo da população residente na região em 1900,
como parecem sugerir H. D. Graham e S. Buarque de Holanda Filho
e até mesmo Tupiassu23. Pelos dois primeiros, através de cálculos