Amazônia: expansão do capitalismo
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (INCRA)
As origens do INCRA remontam a 1934, quando a questão referente
à colonização no Brasil passou a ser tratada, definitivamente, pelo
Ministério da Agricultura. Neste ano foi criado o Serviço de Irrigação,
Reflorestamento e Colonização103 e desde então os problemas de
colonização oficial estiveram sempre sob a responsabilidade de um
órgão diretamente vinculado a este ministério.
Em 1938 surgiu a Divisão de Terras e Colonização – DTC – que foi
o resultado prático de preocupações a nível político com a fixação
do homem à terra e o abrandamento das tensões sociais com a
ampliação da fronteira agrícola, tendo sido a primeira tentativa de
realização de um trabalho sistemático em colonização. Tinha como
objetivo principal a fundação de núcleos populacionais estáveis,
com distribuição de terras a trabalhadores rurais brasileiros.104 A
DTC deixou, em seus dezesseis anos de trabalho, vários núcleos de
colonização, sendo os mais importantes as Colônias Agrícolas
Nacionais, em vários Estados.105
A Divisão de Terras e Colonização foi substituída, em 1954, pelo
Instituto Nacional de Imigração e Colonização – INIC –,106 que ficou
encarregado da elaboração e execução de um programa de
colonização de âmbito nacional, com a formação de pequenas
propriedades agrícolas. Uma diferença importante entre a política do
DTC e do INIC é que o primeiro órgão deveria restringir suas
atividades aos cidadãos brasileiros, enquanto que o segundo
cuidaria também da fixação de imigrantes. O INIC durou oito anos e
como resultado maior de seu trabalho deixou implantados alguns
núcleos coloniais no nordeste (Piauí, Ceará, Pernambuco, Alagoas
e Bahia). 107
Em 1962 houve outra mudança administrativa; foi criada a SUPRA –
Superintendência da Política Agrária –, 108 que reuniu o Instituto
Nacional de Imigração e colonização, o Serviço Social Rural e o Estabelecimento Rural dos Tapajós. Suas realizações foram tão
pequenas quanto sua duração: extinta em 1964, a SUPRA limitou-
se a fazer alguns estudos sobre o problema de colonização e a
entregar alguns títulos de posse definitiva da terra em núcleos já
estabelecidos.109
Com a promulgação do Estatuto da Terra 110, foram criados o
Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário e o Instituto Brasileiro
de Reforma Agrária. O IBRA ficou encarregado dos Estados do Rio
de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Sul e Distrito Federal; partes de
Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Pernambuco e Paraíba, áreas
declaradas prioritárias para a reforma agrária. O IBRA tentou
reformular as políticas até então adotadas, mas somente em
núcleos já estabelecidos nessas regiões. Chegou a iniciar alguns
projetos, enfrentando grandes dificuldades quanto a recursos e
apoio político. O INDA ficou encarregado das colônias localizadas
fora das áreas prioritárias, o que incluía a região amazônica. Em
1968, com nova reforma, todos os núcleos de colonização ficaram a
cargo do IBRA. Em 1969, sob recomendação da FAO (em missão
no Brasil) e do GERA (Grupo Interministerial de Trabalho sobre a
Reforma Agrária), começou a ser estudada a fusão dos dois órgãos,
que se concretizou em 1970, com a criação do Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária. 111
O INCRA nasceu, assim, tanto de uma necessidade de simplificação
administrativa quanto de uma reformulação de políticas de
colonização no Brasil. Por esta época, o então Presidente Emilio G.
Médici fez uma viagem ao nordeste, onde pôde constatar
pessoalmente os problemas gerados pela forte seca de 1970. Como
solução para a diminuição das tensões sociais existentes na área,
decidiu-se a abertura de estradas na Amazônia, com o
aproveitamento da mão de obra nordestina e sua subsequente
fixação ao longo destas rodovias. Isto está claramente explícito nas
declarações de José Francisco de Moura Cavalcanti, então
presidente do INCRA: “Damos uma ênfase maior à colonização,
principalmente da Transamazônica, porque não compreendemos
como num mesmo país possa constituir problema de inquietação o excedente demográfico de determinadas áreas e o vazio de
outras” 112.
O INCRA tem como objetivos principais a realização da reforma
agrária no Brasil, a promoção da colonização particular e a
execução da colonização oficial e do desenvolvimento no campo,
através do cooperativismo e da eletrificação rural. Para tanto,
metodologicamente, deve proceder a uma divisão do país em
regiões homogêneas, classificando-as segundo características
sócio-econômicas, sendo a estrutura fundiária uma das variáveis de
maior peso nesta classificação. Isto permitirá a definição de políticas
agrícolas adequadas a cada região, assim como a seleção de áreas
a serem consideradas prioritárias, portanto passíveis de
desapropriação com fins de reforma agrária, conforme se julgue
necessário. O INCRA mantém um serviço de Cadastramento de
Imóveis rurais, de arrendatários, de parceiros e de terras públicas,
alimentado através de levantamentos periódicos, inquéritos e
pesquisas de documentação e que fornece os dados indispensáveis
à caracterização das propriedades, tais como forma de ocupação e
exploração.
Em abril de 1971 foi possibilitada à iniciativa privada a implantação
de projetos de colonização em áreas consideradas prioritárias para
a reforma agrária e nas terras devolutas da União na Amazônia,
mas somente para projetos aprovados pelo INCRA. A participação
do capital privado deve concentrar-se, basicamente, no setor de
infraestrutura necessária à formação dos núcleos. Quando o projeto
se localiza em terras do INCRA, este conserva o direito de
propriedade, transferindo-o diretamente ao colono estabelecido,
mas garantindo ao empresário o retorno do investimento com base
no contrato previamente aprovado. O INCRA se reserva, ainda, o
direito de definir as obrigações de ambas as partes, colonos e
colonizadores.
Em dezembro de 1972 o governo decide abrir ao capital privado o
desenvolvimento de projetos agropecuários de pequeno porte na
Amazônia. O INCRA abre à concorrência pública, inicialmente, 500 mil hectares em Rondônia e 250 mil em Marabá (Estado do Pará),