Amazônia: expansão do capitalismo
IX. A ação do Governo: A Transamazônica e a política rodoviária
IX. A ação do governo: a
transamazônica e a política rodoviária
Ao lado da política de colonização, dos incentivos fiscais e dos
possíveis projetos industriais (especialmente de exploração
mineral), sobre os quais algo se dirá nas partes conclusivas deste
estudo, o outro grande instrumento de que o governo dispôs na
Amazônia foi a política rodoviária.
Não cabe, para os fins deste estudo, e nem é competência
específica de seus autores, fazer a análise da política rodoviária.
Limitar-nos-emos a constatar que ela se baseou no reforço às
rodovias já existentes e no aprimoramento da ligação entre áreas de
fronteira, bem como entre os núcleos povoados. Mas destacou-se
especialmente pelo traçado de rodovias de penetração na floresta. E
este último aspecto da política rodoviária que vai interessar-nos, na
medida em que ele implica numa política audaciosa de ocupação da
área.
Como já se cuidou na seção correspondente dos núcleos de
colonização, aqui serão feitas apenas considerações adicionais,
especialmente sobre a rodovia Transamazônica que, junto com a
rodovia Cuiabá-Santarém, constituem os esforços mais significativos
na direção assinalada.
Grosso modo pode-se dizer que o primeiro projeto de impacto no
que diz respeito à penetração na selva amazônica foi a Belém-
Brasília, aberta na administração Kubitschek.
Não obstante cruzar a mata amazônica no sul do Pará, esta rodovia
apenas tangenciava a região propriamente selvática e tinha seu
traçado no sentido longitudinal. A Transamazônica compõe-se de
dois eixos, a Cuiabá-Santarém (entregue para sua abertura
principalmente aos batalhões de engenharia militar) e a estrada que acabou sendo chamada com exclusividade de Transamazônica, que
faz a ligação entre o nordeste (saindo de Picos, no Piauí) e os
Estados do Maranhão (onde entronca com a Belém-Brasília na
cidade de Estreito), Pará, Amazonas, Território do Rio Branco e
Acre, na fronteira com o Peru (vide mapa anexo).
Trata-se, portanto, de uma estrada que penetra na região selvática,
especialmente no trecho que vai de Marabá, Altamira, Itaituba, no
Pará, a Humaitá, no Amazonas, onde entronca com a estrada Porto
Velho-Manaus. Cortando latitudinalmente a bacia amazônica, a
estrada une povoados – como os antes referidos – localizados nas
bacias dos afluentes do rio Amazonas e que, embora relativamente
próximos (isto é, a apenas centenas de quilômetros), estavam
separados pela selva e necessitavam para sua intercomunicação,
por ligações fluviais, viagens de dias e mesmo de semanas, dando
voltas de milhares de quilômetros.
Não cabe discorrer sobre os lances – sem dúvida grandiosos – que
marcaram a abertura da estrada. Nem cabe insistir sobre o caráter
de impacto da obra, no duplo sentido de que, por um lado, aguçou a
imaginação e significou uma espécie de choque nacional pela
conscientização de uma série de problemas pouco advertidos
(problema do índio, da colonização, da exploração do trabalho, da
ecologia amazônica, das alternativas econômicas etc.) e, por outro,
de propaganda de um governo. Entre as manchetes de jornal, os
discursos, as inaugurações e a realidade, o abismo sempre foi
grande 125. Não obstante, em termos da penetração na selva
amazônica, a política rodoviária posta em prática terá sido o maior
esforço já feito até hoje para penetrar, por terra, na selva.
Apesar disto, não é fácil determinar os motivos e o sentido deste
esforço. Desde a divulgação do plano, dúvidas e discussões sobre
estes tópicos transpareceram pela imprensa, apesar do controle
cerrado que os órgãos de comunicação sofriam por parte da
censura.
Encarada pelos discursos de 1970, a decisão de construir esta
estrada parece ter sido motivada por duas razões distintas e
complementares, que não se situam diretamente a partir de
considerações econômicas: as razões estratégicas de uma
geopolítica preocupada com os “vazios territoriais e demográficos” e
o excesso de população pobre no nordeste.
Convém ressaltar que a Transamazônica não estava prevista no
Plano Nacional de Viação, aprovado em 1967, e elaborado pelo
governo Castelo Branco. Foi decidida depois de viagens do General
Médici ao nordeste para visitar zonas assoladas pela seca. Segundo
exposição do então Ministro dos Transportes, Coronel Mário
Andreazza, feita ao Congresso nacional (01/07/1970), os estudos
relativos à “ocupação dos grandes vazios da Amazônia” e à
construção das duas rodovias (Cuiabá-Santarém e Transamazônica)
foram determinados pelo presidente aos Ministérios do
Planejamento, Interior, Agricultura e Transportes em março de 1970,
quatro meses antes da exposição ministerial ao Congresso. Ainda
segundo a mesma autoridade, “a ideia original para a construção
desta obra fundamentou-se no conceito de integração nacional,
ligando o nordeste à Amazônia”. Assim, “a Transamazônica seria
uma ampla vereda oferecida ao nordestino para a conquista e
colonização da Amazônia” ( 126 O Estado , 02/07/1970).
A obsessão com o deslocamento de populações para permitir a
“utilização ordenada e racional da mão de obra excedente na região
semiárida, mediante um vigoroso plano de colonização”, repete-se
sempre nas falas oficiais. Por um lado, os “sertões semi-áridos”, por
outro, as “extensas e férteis áreas” no Pará e Maranhão, incitavam a
imaginação para abrir estradas e promover a “adequada fixação,
sob intensiva assistência social, técnica e financeira”. Embora com
destaque mais modesto ao lado dessas exigências de integração
nacional e solução de problemas sociais, aparecia também a
necessidade de promover o “aproveitamento das áreas de solo mais
favoráveis para a colonização e o estabelecimento de atividades
agropecuárias”, bem como a garantia de “acesso às regiões de ocorrências minerais com exploração econômica (O Estado,
02/07/1970).
Da mesma forma que ocorreu com a ocupação da área, quando o
INCRA se esforçava por dar a imagem de que o governo ia assentar
colonos em propriedades reduzidas, enquanto o Ministro do Interior
assegurava sempre a preeminência da grande empresa, até à
vitória final desta, na discussão sobre a Transamazônica notam-se
também nuanças importantes quanto à justificação apresentada
pelos vários ministérios.
O Ministro da Fazenda, então todo-poderoso, sempre foi homem de
cautela no ajuizamento do significado da Transamazônica. Quase
ritualmente, quando da assinatura dos editais de concorrência para
a abertura da estrada, referiu-se, mais do que à “integração
nacional” – tema caro especialmente aos militares, como se verá
adiante –, à “abertura de fronteiras que mudará a cara do País (…);
todos os recursos minerais e naturais da Amazônia terão uma saída
natural pelo sistema hidro-rodoviário, formado pelas estradas
Cuiabá-Santarém e Transamazônica, em conexão com as vias
navegáveis da região” (declaração de Delfim Neto, in O Estado,
19/06/1970). A ideia de que a Transamazônica abriria acesso a
“recursos minerais” repetiu-se sempre, tanto pelo Cel. Andreazza
(declaração do mesmo dia), como pelos demais ministros. Um dos
repórteres que mais se ocuparam da Transamazônica, Alberto
Tamer, desde agosto de 1970, quando visitou a região e constatou
as imensas dificuldades de ocupação pela colonização, bem como
por causa do isolamento das cidades à beira dos grandes afluentes
do Amazonas, como as cidades de Itaituba e Altamira, insistia em
que “a colonização, mesmo bem sucedida, poderá significar a
ocupação parcial do território despovoado, mas não trará, sozinha, a
redenção da economia regional” (O Estado, 02/08/1970). Apostava
mais em “operações surpresa” que descobrissem jazidas de ouro,
diamantes, ferro, estanho. Um novo Eldorado, enfim.
Sabia-se já do minério de ferro da serra dos Carajás, no Pará (400
milhões de toneladas, segundo informações iniciais), que havia sido descoberto na década de 1960 pelos militares, e que fora objeto de
cogitação para a exploração pela Companhia Vale do Rio Doce em
acordo com a “United States Steel Corporation”. Além disso, a
cassiterita (minério de estanho) ocorria em Rondônia e no Pará
(vale dos rios Aripuava e Sucunduri, afluentes do Madeira). Próximo
a Itaituba havia garimpagem desde 1959, com ouro e cassiterita, às
margens do Tapajós. E no alto Xingu (trecho de 130 km) e no rio
Fresco (trecho de 450 km, neste afluente do Xingu) havia ocorrência
de cobre (cf. Alberto Tamer, na reportagem já citada).
Aceitando-se que fosse este o “estado de conhecimento” das
riquezas minerais amazônicas antes do Projeto Rondon, é pouco
crível que a Transamazônica tivesse propósito específico de
aproveitamento das riquezas minerais. O transporte destas exige
investimentos específicos e um nível técnico muito mais alto do que
os despendidos no “planejamento” e na construção da
Transamazônica.
A motivação mais consistente na época pareceu ser mesmo a de
“ocupar vazios” e solucionar a pressão demográfica. Entre estes
dois objetivos (cuja melhor articulação e justificação acham-se nas
exposições do General’ Rodrigo Otávio, então comandante militar
da Amazônia) inseriu-se, naturalmente, o aproveitamento da
Transamazônica como um “projeto-impacto”, no estilo
propangandístico do governo Médici, ativado pelo Ministério dos
Transportes. E não deve ser deixado para plano menor o interesse
que as empreiteiras do sul tiveram para, somando-se aos esforços
pela “integração nacional”, construir uma estrada de custos
desconhecidos e praticamente sem limites de financiamento.
Antecipando-se às criticas emanadas por interlocutores de maior
peso político (pois a imprensa criticava desde o início a
improvisação e a falta de planos de viabilidade econômica do
empreendimento), o Ministro dos Transportes,127 antes mesmo do
início efetivo das obras, rebelava-se contra as exigências
“ortodoxas”, à luz de cujos critérios jamais se teria feito a Belém-
Brasília (que ipso facto era absorvida e incorporada às glórias nacionais pelo ministro) e talvez nem sequer o Brasil tivesse sido
descoberto… (O Estado, 23/07/1970). Na Belém-Brasília, calculava
o Cel. Andreazza, que viviam às margens cerca de 2 milhões de
pessoas; que predizer, então, quanto à Transamazônica, que iria
“tangenciar áreas de terras boas, zonas favoráveis a novos pólos de
mineração ouro, diamante, cassiterita e outros –, zonas favoráveis à
pecuária e outros pólos de desenvolvimento econômico”? (O
Estado, 23/07/1970). E acima de tudo, o argumento demográfico: o
nordeste terá um aumento de população de 1 milhão de pessoas
por ano, para as quais se precisa pelo menos de 300.000 novos
empregos. Tudo isso justificaria a criação do PIN e a transferência
de recursos fiscais para a SUDAM. Quanto ao argumento de que
nas terras devolutas do Maranhão seria possível assentar 15.000
famílias, o ministro considerou este número muito pequeno, em face
das potencialidades amazônicas (ver seção anterior sobre o número
atual de colonos para aquilatar o exagero da imaginação
ministerial).
Quando a polêmica sobre a Transamazônica se orientava para esta
direção (ou seja, o realismo e a “ortodoxia” financeiro-administrativa
dos críticos versus a ideia de “Brasil Grande” a qualquer custo), o
General Rodrigo Otávio, recém-nomeado chefe do Departamento de
Produção e Obras do Exército e ex-comandante da Amazônia,
entrou nos debates levando a eles um grão de sal: “Só a
Transamazônica não é solução” (O Estado, 23/08/1970). O general
tinha, por um lado, uma visão histórica da ocupação da Amazônia.
Desde o governo Hermes (1912), passando por Epitácio Pessoa
(1918) (com a criação da SPVEA), até à SUDAM e SUDENE),
houve esforços, embora “quase sempre descontinuados .em
fracassos e desconcertos pela versatilidade contumaz de uma elite
política oportunista” (O Estado, 23/08/1970). A superação deste
estado de coisas (a “causação circular da pobreza amazônica e
nordestina”, escreveu o general, em linguagem de Myrdal) deveria
ter dois móveis básicos:
1. melhorar as condições de vida do caboclo e do nordestino;
2. atender à segurança nacional.
Queria o general que a “assistência e valorização continuada do
homem amazonense” não fosse postergada e que a
Transamazônica não pusesse à margem os esforços de colonização
da zona de fronteira (incentivada pelo exército) e a ação centrípeta
de Manaus, que requeria várias intercomunicações terrestres para
efetivar-se.
Convém portanto esclarecer que seria simplista acreditar que a
Transamazônica se abriu “por causa da segurança nacional”. Os
homens preocupados profissionalmente com este problema tinham
uma visão mais complexa quê aquela expressa pelos
propagandistas da estrada 128. O General Miranda Jordão
aconselhava prudência para que não se mergulhasse “novamente
na senda da aventura e só iniciar o projeto concluído entre trechos
definidos, mudar populações após o estabelecimento de condições
sociais e econômicas adequadas a uma vivência digna e humana e
produtiva dos deslocados”. Além disto, o general parecia favorecer
uma política de “concentração e não dispersão de investimentos e
de núcleos populacionais, seleção de pontos de germinação e uma
estreita coordenação entre as atividades dos setores públicos e
privados”. Defendia, inclusive, a imigração estrangeira – a exemplo
da japonesa – para povoar e valorizar a Amazônia.
Por certo, o general era sensível à ideia de que um “vazio”, quando
no dobrar do século a população mundial, segundo cálculos da FAU,
estaria por volta de 6 a 7 bilhões de habitantes, requeria uma
ocupação célere da Amazônia. Mas, repetia, não ao preço de
frustração do homem amazônico. Reconhecia a importância dos
temas ideológicos (Destino Manifesto, Nova Fronteira etc.) para a
unidade nacional, mas ponderava a necessidade “de dar dimensões
objetivas, com racionalidade, honestidade e patriotismo a essa
problemática” 129.
Por fim, na visão da importância relativa da Transamazônica, o
General Rodrigo Otávio Jordão enfatizava que a aventura do
presente possuía exemplos no passado na Madeira-Mamoré, na
Cuiabá-Porto Velho, na estrada entre Porto Velho-Abuã-Guajará-Mirim e Alecrim-Rio Branco, estas últimas construídas pelos 5º, 6º e
7º Batalhões de Engenharia e Construção do Exército. Estes
batalhões ocupavam-se ainda da estrada entre Manaus-Caracarai-
Boa Vista – Marco BV8 e da estrada entre Boa Vista e Normândia.
Ou seja, a Amazônia ocidental e a zona de Fronteiras (inclusive com
a valorização de um Fundo de Áreas Estratégicas) deveriam
continuar a cargo do Exército.
A Transamazônica, na visão dos homens encarregados da
segurança territorial, era portanto parte – e modesta – do conjunto
de medidas necessárias para povoar a região, com segurança e
sem prejuízo do povo.
O Ministro dos Transportes, um mês depois, voltou a usar a
argumentação de que não se pode quantificar a Transamazônica e
que tudo vale para salvar os 300.000 nordestinos excedentários a
cada ano…
Dentre os críticos que prosseguiram a polêmica (sem continuidade,
por certo), convém destacar dois: o Senador José Ermírio de Morais
– grande industrial do sul, usineiro no nordeste e senador por
Pernambuco – que se opôs abertamente à “aventura” quando havia
terras no Maranhão e possibilidades de povoá-las e que se insurgiu
contra uma estrada que poderia abrir perspectivas de exploração de
minérios por grupos estrangeiros sem que se os obrigasse a arcar
com os custos de infraestrutura; e o General Juarez Távora.
Este último, sem estar preso a funções militares ou públicas, depois
de visitar a Amazônia em companhia dos Generais Miranda Jordão
e Albuquerque Lima, fez declarações francas. Apoiava a ideia da
Transamazônica para ocupar espaços vazios, através da
colonização, absorver os excedentes do nordeste e favorecer a
exploração de minérios. Mas, ponderava, a urgência da obra é
discutível; ela não deve ser feita em desmedro de outras estradas
mais vitais; as colônias corriam o risco de não encontrar
escoamento para suas produções dadas as distâncias; dever-se-ia
começar a ocupação “a partir da fronteira econômica que fica a
leste, mas precisamente entre o Araguaia e o Tocantins” (in O Estado, 18/11/1970) e, como alertara o Senador Ermírio de Morais,
seria melhor aprofundar as experiências de colonização a partir do
Mearim, no Maranhão, já povoado e mais próximo aos mercados.
Em longa entrevista concedida a O Estado de São Paulo, em
22/11/1970, o marechal repisava seus argumentos, alegava que as
terras amazônicas não eram tão boas quanto se espalhava, que a
fixação do homem à região era problemática, que para fins de
segurança nacional o importante era o conjunto Transamazônica-
Cuiabá-Santarem-Perimetral Norte e, nele, o deslocamento
longitudinal possibilitado pela Cuiabá-Santarém; que o importante,
nestes termos, era reforçar os núcleos de colonização da fronteira e
que seria conveniente estabelecer prioridades de colonização na
Transamazônica, especialmente a oeste de Itaituba (Tapajós), para
ligar as explorações de cassiterita a um porto do rio Madeira.
Frente às ponderações do Congresso, da imprensa e de militares
conhecedores da região, a resposta oficial foi direta: “A
Transamazônica é obra irreversível, estando as obras correndo
dentro dos cronogramas e de acordo com os estudos previamente
realizados (Cel. Andreazza, O Estado, 27/11/1975)”. Comparou-a
com a Belém-Brasília, que fora chamada de “estrada das onças” e
em 1970 tinha um tráfego de 600 veículos diários e foi feita “sem
estudos sobre sua viabilidade e sem um planejamento adequado e
rigoroso, como o que agora estamos adotando” (sic)130.
Assim, apesar das ponderações de altos chefes militares, a
Transamazônica foi transformada pelo governo em “vital para o
desenvolvimento e a segurança de uma vasta área brasileira, que
estava totalmente abandonada”. Mais explicitamente ainda, o
diretor-geral do DNER, engenheiro Elizeu Rezende, declarava: “A
Transamazônica é uma decisão política do governo brasileiro; as
regras clássicas da análise econômica não podem ser adotadas
num projeto de tal vulto,” do qual o desenvolvimento econômico da
Amazônia dependeria (O Estado; 17/09/1970).
De 1971 até 1974, quando se fez a “inauguração final” da
Transamazônica, os mesmos reparos eram feitos pela imprensa e
por personalidades, mas o coro oficial do “Brasil Grande”
transformou em sussurros as ponderações sobre a “dimensão
objetiva, com racionalidade, honestidade”, Não cabe avaliar neste
estudo os efeitos da Transamazônica (é necessário maior
perspectiva no tempo para julgá-los). Mas parece óbvio, à luz do
que hoje se publica na imprensa e dos dados que coligimos, que o
sacrifício dos colonos foi grande, os resultados da produção local
ainda são modestos, a população atraída por colonização dirigida é
pequena e a estrada não é facilmente transitável.
Resta enfatizar que, pelo material exposto, deduz-se que a ideia de
“ocupar vazios” e de deslocar populações do nordeste para a
Amazônia serviu de estímulo à imaginação de quase todos que
encaravam a construção da Transamazônica. Nem a segurança
nacional, por si, nem a exploração de minérios e muito menos a
colonização foram expressas e avaliadas nos planos (quais?) da
construção da estrada.
Antes, parece que o grão de verdade que havia em cada um destes
estímulos diluiu-se frente ao interesse maior que, no caso, foi o
casamento de uma vocação de grandeza de certos setores
governamentais com o interesse dos empreiteiros, mas mesmo este
último expressou-se em cifras relativamente pequenas (US$ 100
milhões). Por certo, houve divisão de trabalho entre os batalhões de
engenharia e a engenharia civil, mas àqueles coube a tarefa que já
tinham programado antes, na Perimetral Norte, na Cuiabá-Santarém
e nos trechos ocidentais da Transamazônica, junto à fronteira, e que
obedeciam aos propósitos do exército.
A Transamazônica propriamente dita ficou como área reservada
para o Ministério dos Transportes e para as empreiteiras, dando-se
ao INCRA o osso difícil de roer que consistiu em improvisar uma
política de colonização.
125 A Transamazônica – embora os editais de concorrência tivessem
sido assinados em 18/06/1970 – teve seu início formal no dia
09/10/1970. O trecho entre Estreito e Itaituba foi entregue pelo
General Médici à circulação em 27/09/1972 e o trecho entre Itaituba
e Humaitá foi inaugurado pelo mesmo presidente em 30/01/1974.
Foi, portanto, obra do governo Médici. O General-Presidente, aliás,
visitou cinco vezes a estrada em seus quatro anos de governo. Não
obstante as inaugurações, repórteres que percorreram
recentemente a estrada (setembro de 1975) não hesitaram em
qualificá-la (com a chancela do jornal) como um “triste malogro”, tais
as dificuldades de trânsito (na época da seca), o abandono, a
qualidade da rodovia (de 3ª categoria, segundo os repórteres) e o
pouco tráfego (10 carros foram cruzados em centenas de
quilômetros). Cf. O Estado de São Paulo, 28/09/1975, p. 64. Não
obstante, em certos trechos, como em Altamira, onde se localizam
as colônias do INCRA, na época da seca o tráfego atinge 300
veículos diários (O Estado, 02/10/1975).
126 Convém registrar que tudo indica que a decisão da construção
da Transamazônica e a proposta do Plano de Integração Nacional
(PIN) com os recursos para fazê-la originaram-se da visita do
presidente Médici, em 1970, aos flagelados pela seca do nordeste.
No avião, de regresso, entre Recife e Rio, para “resolver” o
problema da fome, foi imaginada a Transamazônica. Ouvimos este
depoimento de mais de um repórter. Ele está registrado em
BUARQUE, Sérgio, “A epopéia mal saiu dos planos”, O Estado,
04/02/73.
127 Entretanto, não foi este um gesto isolado do ministro. O próprio
presidente, em reunião da SUDAM, em Belém (08/10/70), defendeu
a urgência da integração da Amazônia, cujo alcance social e política
não deveria medir-se por rigorosos critérios de prioridade
econômica.
128 O Exército preocupava-se, naturalmente, com os aspectos de
segurança da Amazônia. O deslocamento da Capital do país para o
Planalto Central e a diminuição da importância da hipótese de guerra no Prata levaram a um “deslocamento significativo de
unidades do Exército, no eixo Sul-norte”. Em 1970 havia cinco
comandos de fronteira (Rondônia-Acre, Tabatinga, Tapes, Boa Vista
e Amapá) e uma Brigada da Selva. Cada comando dispunha de um
batalhão de “vida, colonização e combate”; o de Rondônia-Acre
dispunha de dois batalhões. A Brigada da Selva era treinada no
Centro de Instrução de Guerra de Manaus e compunha-se de dois
antigos batalhões de caçadores, de Belém e Manaus, além de duas
unidades a serem criadas em Tefé e Santarém. Convém frisar que a
colonização da Amazônia ocidental “se desenvolve a partir de
Colônias Militares que têm por missão (… além das específicas)
fixar e racionalizar as populações locais”. (Informações tiradas de
matéria feita por Antônio Carlos Pereira para O Estado de São
Paulo, 09/04/1970, com base em documentos e informações
oficiais, prestadas também pelo General Rodrigo Otávio.)
129 Além dos “temas ideológicos” influíam provavelmente temas
políticos. O Cel. Jarbas Passarinho, Ministro da Educação, falando
sobre a Amazônia na Academia Nacional de Polícia, refere-se não
só às “ameaças externas” mas aos riscos da pobreza interna,
porque foi graças aos ressentimentos dos povos subdesenvolvidos
da África que a “mensagem comunista, a maior fraude do mundo”,
neles penetrou (O Estado, 28/05/69. “Passarinho defende ocupação
territorial”). Convém acrescentar que na região oriental da
Transamazônica, perto de Marabá e no vale do Araguaia, houve
operações de guerrilha. Trata-se, contudo, de área de povoamento
mais antigo, e seria difícil afirmar que a atividade guerrilheira
motivou a Transamazônica.
130 Houve uma polêmica encoberta quanto ao custo da
Transamazônica. O preço pago diretamente às empreiteiras, por
quilômetro, que se estimava em Cr$ 65.000,00, alcançou, segundo
o Ministro Andreazza (O Estado, 20/12/73), Cr$ 300.000,00. É difícil
saber o custo exato da obra e talvez este aspecto seja realmente
menor no conjunto da problemática amazônica. Tratando-se de
implantação ainda precária, seu custo inicial foi relativamente
pequeno (aceitando-se os dados do ministro, 600 milhões de cruzeiros por 2000 km). A Rio-Santos custou 4 milhões por
quilômetro.