Amazônia: expansão do capitalismo
III. A Amazônia de hoje
Nos capítulos anteriores esboçou-se o quadro histórico do processo
de povoamento da Região norte junto com um apanhado dos
desenvolvimentos econômicos dos últimos trinta anos. Cabe, agora,
aprofundar a análise da Amazônia atual, sempre pelo prisma
econômico-político do fenômeno demográfico.
Os mais de três milhões e meio de km 2 contavam, em 1940, com uma
população de 1400 mil; dez anos depois, aumentava em. 450 mil;
entre 1950 e 60, passa de pouco mais de 1,8 milhões para 2,6
milhões; em 1970, a população ultrapassa a casa dos 3,6 milhões,
constituindo-se a Amazônia em área de imigração.
Essa evolução quantitativa será a seguir detalhada para que se
analisem os movimentos populacionais em sua relação com a divisão
social do trabalho pelo ângulo do rural e do urbano. Nos capítulos
seguintes, será apreciada mais minuciosamente como elemento da
dinâmica do setor rural e do setor urbano.
O rural e o urbano. Divisão do trabalho
O processo de urbanização da região amazônica nos últimos 20 anos
foi acentuado, como ocorreu em todo o país. Concentrou-se, porém,
em praticamente todas as unidades da região, quase só nas Capitais.
Em 1950, apenas cerca de 500 mil pessoas habitavam núcleos
urbanos com dois mil e mais habitantes. Dez anos depois, esse
número gira em torno de 900 mil. Em 1970, chega a um milhão e
meio. Observe-se que a distinção entre o urbano e o rural assenta-se
nos critérios censitários, i.e., administrativos.
Assim, entre 1950 e 1970, a taxa de urbanização da região elevou-se
de 26 a 41%. Excluindo-se, no entanto, as Capitais, a população dos
núcleos urbanos representava apenas 13,5% da população total em
1970. Em quase todas as unidades da Federação da região o quadro é semelhante: a taxa eleva-se de 10 a 30% em 1950 a cerca de 40 a
50% em 1970; excetuando-se as Capitais, as taxas não atingem 10%
a não ser para a última data. A principal exceção é o Estado do Pará,
onde a proporção de população urbana (sem Belém) é de 15%,
seguido por Rondônia, com quase 14%, refletindo as crescentes
levas de ocupação e formação de pequenos núcleos urbanos. O Pará
é a única unidade da região onde se encontram núcleos urbanos de
mais de 10 mil habitantes (em número de 8) em outras microrregiões
que não a da Capital.
II – Taxa de urbanização,* Unidades da Federação, Região norte
1950-1960-1970
Unidades da Federação 1950 1960 1970
Rondônia 30,4 37,5 50,3
(7,0)** (10,1) (13,5)
Acre 11,4 16,5 25,4
(3,2) (5,7) (9,4)
Amazonas 21,1 28,9 39,3
(3,7) (7,6) (9,6)
Roraima 28,3 34,5 40,3
(0) (0) (0)
Pará 27,0 35,7 42,7
(6,9) (11,8) (15,2)
Amapá 26,0 40,0 45,0
(0) (0) (0)
Região norte 26,1 32,8 41,0
(8,4) (9,7) (13,5)
Fonte: Censos de 1950, 1960 e 1970.
* Proporção da população residente em núcleos de 2 mil habitantes
ou mais.
** Taxa de urbanização computada excluindo-se a população das
Capitais.
Tal fato reflete a maior densidade da população rural neste Estado, ao
mesmo tempo que revela estar em constituição aí, principalmente na
parte leste do Estado (Marabá, Jatobal, Tucuruí, Itinga, Paragominas,
entre outras cidades), uma rede de núcleos de mais de 2 mil
habitantes que estão a denotar o avanço da frente pioneira
agropecuária provinda do nordeste e do sul (Goiás e Maranhão).
O crescimento urbano tendeu a ser maior nas Capitais menores da
região (em geral em ritmos bem superiores a 10% a.a.); Belém
cresceu 60 a 59% entre 1950-60 e 1960-70, enquanto que Manaus,
72 a 86%; este ritmo excepcionalmente alto de crescimento de
Manaus na última década deve estar ligado à sua situação de Zona
Franca (1967), à instalação de algumas empresas, como, por
exemplo, a partir de 1958, de uma refinaria da Petrobrás.
O crescimento relativo urbano/rural apresentou fortes diferenciais,
mostrando a continuação dos fluxos do campo para a cidade. Os
crescimentos por decênio constam na Tabela III.
III – Crescimento percentual da população total, rural e urbana,
região norte 1950-60 e 1960-70
1950-60 1960-70
População Total 41% 39%
População Rural e Semi-urbana 28% 22%
População Urbana 77% 74%
Fonte: Censos de 1950, 1960 e 1970.
Examinando-se o crescimento demográfico por unidade da
Federação, nota-se que ele foi maior, tanto para a população total
como para a urbana, nos territórios que são áreas de ocupação mais
recente: a população total mais que triplicou no Amapá e Rondônia, o
que se deve, certamente, à exploração do manganês, do estanho, do
ouro e ao processo de colonização. O crescimento da população de
Roraima vincula-se ao desenvolvimento da exploração das madeiras
e peles, da pecuária e de alguns pontos de colonização 65. Nos
Estados o crescimento já foi bem menor Diferenciais semelhantes observam-se para o crescimento da
população rural nas várias partes da região, nos dois últimos
decênios.
Um exame um pouco mais preciso do crescimento das populações
rurais e urbanas pode ser feito com base na tabela do Censo
Demográfico que indica o crescimento das populações rurais e
urbanas por microrregião e por unidade da Federação, entre 1950 e
1970.
De importante observa-se que o crescimento da população rural já
não se mostra muito elevado nos anos 50, o que indica certa
emigração para as cidades da região ou mesmo para fora da região;
o crescimento diminui ainda mais nos anos 60, já que o êxodo rural
se intensifica. Algumas microrregiões apresentam, nos anos 50,
crescimento mais elevado, ao redor ou superiores a 50%.66 É o caso
dos Territórios de Rondônia, Roraima e da Microrregião 27 do Amapá,
onde a ocupação econômica é recente (extração do manganês,
projeto agrícola “Grão”)67, o que provocou, inclusive, um aumento da
população rural.
Crescimentos semelhantes ocorrem também no Estado do
Amazonas, principalmente na Microrregião 10, do médio Amazonas, e
8, vinculados à juta. As Microrregiões 12 e 13 68, em boa parte
continuação paraense da Microrregião 10 do Estado do Amazonas,
tiveram um crescimento de 36%; elas compreendem um terço da área
do Pará. Se dispuséssemos de dados para áreas menores
poderíamos precisar melhor tais modificações demográficas e sua
vinculação com a juta, de um lado, e o gado com a extração da
castanha, de outro.
Em todos os casos, exceto o do Amapá e o da área das Microrregiões
19 e 20 do Pará, frente de expansão agrícola-extrativa-pecuária, o
crescimento no decênio 1969-70 foi bem menor.
O crescimento urbano, retratado na tabela sobre crescimento
percentual da população, repete o que já observamos: ele é
acentuado durante ambos os decênios. Frequentemente é maior o dos núcleos menores que o das Capitais. Mesmo crescimentos
elevados de pequenos núcleos representam taxas de urbanização – e
níveis de divisão social de trabalho – pouco elevadas, conclusão a
que não se pode fugir quando se deixam de lado as concentrações
populacionais das Capitais.
A distribuição da população entre urbano e rural expressa a divisão
social do trabalho segundo a massa de mão de obra requerida pela
dinâmica da organização econômica e política da região. No fim do
ciclo da borracha (1920), contando como urbanos os núcleos de
Manaus e Belém, 28% da população amazônica residiam nos
municípios destas cidades e mais de 1 milhão no meio rural. Essa
divisão refletia as exigências sociais de obtenção e beneficiamento do
látex nos seringais e de comercialização e financiamento nas cidades.
Com a penetração das frentes pioneiras, notadamente a partir das
décadas de 1950 e 60, começaram a surgir numerosos pequenos
núcleos que repetiam sua organização de base agropecuária ou
mineradora à medida que, contando com disponibilidade de terras e
veios mineradores, aumentava o número de seus habitantes. Estes
núcleos criaram, sem dúvida, uma diferenciação na divisão do
trabalho, mas embrionária, já que, na realidade, cada núcleo repetia a
organização do outro, que consistia no trabalho familiar voltado para o
autoabastecimento e para pequenas feiras locais.
Durante essas mesmas décadas, expandem-se, extensivamente, os
setores da juta e da castanha que, igualmente, criam pequenos
núcleos urbanos. Note-se, no entanto, que essa diversificação
produtiva – exceção feita às áreas mais puramente agrícolas –
atendia a demandas externas à região, que eram canalizadas via
centros urbanos, reproduzindo o papel de intermediação desses
centros reiterando, assim, a divisão entre o urbano e o rural. O
domínio do transporte fluvial era um dos componentes estratégicos
dessa reiteração, processo que, em grande parte, ainda persiste
atualmente. Mas, à medida que frentes se afastam das vias fluviais
navegáveis e se apossam da terra firme, surgem as estradas,
vicinais, municipais etc., até atingir o eixo da Belém-Brasília, que as
conecta com mercados regionais do centro e do sul. A comercialização de excedentes agrícolas, mas, principalmente,