Amazônia: expansão do capitalismo
XI. Resultados e alternativas
Os elementos de avaliação sobre as “políticas de ocupação” da
Amazônia que passamos em revista – desde a análise
socioeconômico-demográfica e a descrição da montagem do
instrumental administrativo-institucional capaz de permitir a
intervenção governamental na valorização e ocupação da área, até
às informações sobre os programas de colonização, os incentivos
fiscais para a exploração agropastoril e a Transamazônica – talvez
permitam uma apreciação mais global e objetiva do estado atual do
“problema amazônico”.
Convém destacar que a ocupação amazônica, como se viu, é um
processo antigo. Tanto nas cidades-chave da região (para começar,
Belém e Manaus) como em pontos estratégicos específicos, o
adensamento relativo da população é processo enraizado. Em 1970,
cerca de metade da população da área era urbana. Deixando um
pouco à margem estas áreas, convém notar que a migração
espontânea, especialmente entre Maranhão e Pará, para atender à
coleta de castanhas e para a pequena produção doméstica e
camponesa, foi significativa desde os anos 20. Especialmente no
Maranhão – Estado que possuía cerca de 3/4 de população rural –
houve incremento populacional forte e espontâneo entre 1960 e
1970. Observando esta tendência e com o mesmo propósito de
corrigir os “excessos populacionais” do nordeste, a SUDENE, em
seu início, também propôs a colonização das terras “férteis e
úmidas” do Maranhão. No começo de 1950, o fluxo de migrantes
rurais começou a transpor o rio Tocantins, na fronteira entre o
Maranhão e o Pará. Mais tarde, a estrada Belém-Brasília alcançou
esta região e a partir de nós de comunicação como Imperatriz, no
Maranhão, ligou esta área de penetração camponesa espontânea
com o sul do país, dando vazão à produção agrícola. Graças a estes
processos de interconexão entre a produção camponesa e os
mercados, bem como graças ao papel complementar daquela
produção frente à do capitalismo agrário do centro-sul a produção camponesa “pareceria estar-se desmarginalizando
gradualmente” 138.
Esta “fronteira móvel” ligou-se à área do sul do Pará, onde, como se
viu, intensificou-se a exploração agropastoril e onde havia terras
“disponíveis” ao redor de Marabá e era possível exercer uma
economia extrativa (a ligação fez-se entre Imperatriz, no Maranhão,
Estreito, em Goiás, e Marabá, no Pará). Pouco a pouco,
maranhenses e outros brasileiros, primeiro passando por Imperatriz
e depois dirigindo-se diretamente ao Pará, começaram a penetrar
na selva e a ocupar terras “livres”. Este processo de ocupação,
caracterizado tanto pelo adensamento de pontos de apoio a beira-
rio, quanto pela penetração no “centro” das terras (com ocupações
de, em média, 100 ha por propriedade), foi significativo nos últimos
dez anos.
Não apenas na região norte-ocidental do Maranhão e sul do Pará
houve fluxo espontâneo de migrações. Também na área de
Rondônia, no Acre, em pontos específicos da fronteira, dinamizados
pela estrada Brasília-Acre, e no interior, pela estrada Porto Velho-
Manaus, constatavam-se os avanços da “fronteira móvel” dos
migrantes. Além disto, em áreas estratégicas, na direção da
fronteira norte-ocidental, os batalhões militares adensavam a
população e criavam condições de infraestrutura para a ocupação
da área.
Se somarmos estes processos espontâneos às informações sobre a
colonização dirigida do passado e ao adensamento de ocupação
urbana na região amazônica, vê-se que a ocupação da área
obedeceu a dinâmica bem mais complexa do que a que se deixa
entrever pela política do governo Médici com seus projetos-impacto
concentrados na Transamazônica.
É certo que o apoio dado à dinamização de Manaus com a criação
do “porto livre” (SUFRAMA) e a localização dos “projetos industriais
estratégicos” indicam que as políticas de ocupação não se limitaram
à valorização das terras virgens. Entre os projetos industriais, o mais antigo – e melhor sucedido economicamente – foi a instalação no
Amapá, na serra dos Navios, de uma área de exploração de
manganês, controlada pela United States Steel Corporation e pela
ICOMI. Também o projeto Jari prevê o aproveitamento de celulose e
com o mesmo propósito instala-se uma fábrica na baía de Marajó,
no Pará. Aparentemente busca-se atualmente fazer acordos
semelhantes (mas com participação de empresas estatais) para
explorar o ferro da serra dos Carajás, no Pará, complementado pela
usina de aço de Itaqui, no Maranhão, e por uma estrada de ferro, e
para a exploração, perto de Belém, de alumínia e alumínio
(ALBRAS). É cedo para julgar os efeitos destes programas (ainda
em fase de planejamento e negociação). O debate está aceso
principalmente quanto à localização e quanto ao tipo de transporte a
ser usado (por estrada de ferro ou fluvial). No caso do projeto
Amapá – único em franca exploração – o número de empregos
diretos gerados foi modesto, as condições de vida dos trabalhadores
e técnicos melhoraram, instalou-se uma espécie de “enclave” e,
simultaneamente, não nas minas, mas no porto, houve a criação de
zonas “inchadas” que atraíram mais mão de obra do que a
economia “moderna” pode absorver.
Diante do tamanho do desafio amazônico e da complexidade do
problema, continua de pé a questão de saber porque o governo se,
lançou na abertura da Transamazônica e na experiência de êxito
presumivelmente decepcionante de colonização em áreas tão
distantes das zonas para as quais se movia a fronteira agrícola (com
exceção de Marabá).
A consciência de que existia um “vazio” no norte – o Inferno Verde –
é antiga no país. Do mesmo modo, a cada certo tempo voltava-se a
falar da “cobiça” estrangeira. Pelas declarações que foram
transcritas em partes anteriores deste trabalho verifica-se que os
mesmos argumentos, apresentados de forma um pouco mais
sofisticada, estiveram em voga nos anos 70139. Cumpre recordar
que houve acesa polêmica nos anos cinquenta, a partir da proposta
feita à UNESCO pelo delegado brasileiro para criar-se o Instituto da
Hiléia Amazônica e que fora utilizada por “especialistas estrangeiros” para sustentar a ideia de “internacionalização da
Amazônia”. Depois de acres acusações contra tal pretensão, e em
resposta a ela, criou-se o Instituto Nacional de Pesquisas da
Amazônia. Posteriormente, em julho de 1968, foi divulgado outro
projeto, o Relatório Hudson, propondo, por sugestão de um técnico
americano, Roberto Panero, endossada pelo Instituto Hudson e por
seu presidente Herman Kahn, “um novo enfoque sobre a
Amazônia”. O novo enfoque consistia em fazer enormes barragens
e alargar partes importantes da região, para produzir energia,
facilitar a interconexão hidrográfica e estabelecer um “centro de
comutação” para informações em algum ponto da Amazônia. Tudo
isto à base de moderna tecnologia e “cooperação internacional” 140.
Novamente a reação nacionalista foi forte e, talvez, este episódio
seja o antecedente mais imediato – embora não necessariamente
causal – para as proposições transamazônicas do governo Médici,
na linha de “ocupar o vazio”.
A geopolítica e a noção de vazio demográfico estiveram sempre
próximas aos enfoques sobre a Amazônia. Durante o governo
Castelo Branco, o governador do Amazonas, Arthur César Ferreira
Reis, estudioso da região e nacionalista convicto, reagiu
violentamente à possibilidade de novo assédio favorável à
“internacionalização da Amazônia”, que teria sido tentado através da
formação de “Centros de Formação de Pessoal”, sugeridos por
missão americana, que seriam compostos por especialistas
estrangeiros. O próprio presidente da República teve de reafirmar
em 14/05/1965 seu apoio ao Instituto de Pesquisas e Experimentos
Agronômicos do norte (IPEAN) e sua decisão de evitar a instalação
de congêneres estrangeiros. A embaixada americana também se viu
obrigada, dados os protestos, a desmentir que a proposta, que fora
referendada pela USAID, tivesse qualquer caráter de intromissão
externa.
De igual modo, a compra de terras por estrangeiros na Amazônia
sempre foi encarada com suspeita (embora nunca coibida)
chegando a dar margem, em 1968, a uma C.P.I. no Congresso. Foi
a partir destes antecedentes que o governo Castelo Branco propôs, em agosto de 1965, as linhas mestras da política de ocupação da
região, depois modificadas, como vimos, pelo governo Médici.
A ideia correlata à de “perigo externo”, que parece ter estado
sempre presente na problemática da região, diz respeito à “riqueza
fabulosa” da Amazônia. São inúmeros os depoimentos que falam
neste tema. Cobiça externa, riqueza abundante 141 e, por outro lado,
pobreza e excesso de população noutras regiões constituíram a
tessitura do discurso ideológico sobre a Amazônia, não só no último
governo, mas desde há muito.
Quais foram os resultados globais do esforço dos últimos cinco anos
sobre as condições e o modo de vida das populações amazônicas?
Relatório feito por técnico independente quanto ao efeito da
Transamazônica sobre as cidades que ela une descreve uma
situação que, longe de ser auspiciosa, é sombria, corroborando as
inúmeras notícias da imprensa. Para começar, as principais cidades
ligadas na área selvática pela Transamazônica são antigas, de
cerca de um século. Suas populações cresceram sob o impacto do
auge da borracha e adensaram-se mais tarde, com a “batalha da
borracha”. O número de famílias de origem nordestina é grande
nestas cidades (Altamira, Itaituba, Humaitá). Elas constituíram-se
como pontos de apoio para atividades mineradoras (Itaituba) ou
extrativas de seringueira e castanha. Nelas operavam pequenos
empresários explorando algum serviço: pequena cabotagem, carga
e descarga, alguns serviços de diversão e um núcleo de autoridade
local. “A ‘cidade’ é assim constituída essencialmente pelas famílias
ligadas aos serviços em questão e por uma população que oscila
entre atividades de pura subsistência (pesca essencialmente) e os
serviços subsidiários fornecidos aos primeiros” 142.
O equilíbrio precário destas cidades, assentado na estagnação
econômica e na dominação local exercida pelos comerciantes e
autoridades (o padre, o juiz, ou um outro letrado), rompeu-se com a
construção da Transamazônica. Esta provocou “uma alta
desenfreada no custo de vida e aumentou a circulação da moeda”. Entretanto, como os efeitos de demanda por mais e melhores
serviços decorreram da aproximação das frentes e de trabalho e da
instalação dos órgãos federais, sem que surgissem novas atividades
produtivas, à medida que as “frentes” (e os projetos de colonização)
se deslocarem ou diminuírem de intensidade “diminuirá novamente
o fluxo de moeda, a rede de serviços que se estabeleceu para a
construção da cidade voltará à ociosidade”143.
Não obstante, é impossível voltar ao equilíbrio da estagnação
anterior:
No entanto, vários fatores podem impedir o retorno a uma
posição de equilíbrio: o hábito da plena ocupação da mão de
obra local, a aquisição de novas aspirações, o desaparecimento
da antiga relação de clientela para com as famílias tradicionais
e a prefeitura, a transferência do assistencialismo das
autoridades locais para o assistencialismo dos órgãos federais
– mais impessoal e formalizado –, o ingresso numa economia
de mercado em que a relação de assistência é substituída por
uma relação econômica em que há troca de serviços prestados
por moeda e em que os serviços são prestados contra valores
estipulados formalmente (e não mais em termos de troca de
favores) e, finalmente, a simples alteração da composição da
população local, com hábitos alimentares diversos e outros
sistemas de valores; tudo isso faz com que a volta ao equilíbrio
inicial, quando desaparecerem as fontes de alteração da vida
urbana, seja improvável, senão impossível.
O quadro de “desorganização urbana” e anomia parece desabar
sobre as velhas cidades adormecidas na selva. Por certo, a
população aumenta, como se verá adiante, mas também aumentam
a criminalidade, o número de bordéis, a carestia da vida e a
alienação do poder local. Este, despreparado para enfrentar as
exigências da nova situação, estiola-se e é substituído pelo poder
burocrático dos funcionários federais (INCRA, DNER, SUDAM etc.).
Cria-se, também, uma nova camada de comerciantes, migrantes
recentes, que improvisam serviços para atender às necessidades emergentes. A especulação imobiliária é acelerada e permite a
reconstrução de algumas fortunas locais.
A economia agroextrativa tradicional da área era precaríssima:
cultura de mandioca, mineração de ouro e coleta de produtos
florestais, bem como algo de extração de madeira e beneficiamento
de arroz. O comércio fazia-se pelos rios, através dos regatões e
baseava-se nas trocas. A Transamazônica alterou este sistema, que
de orientado pelos rios passou a ser parcialmente polarizado pela
estrada. Assim, Altamira, que se voltava para Belém, agora dirige-se
para Marabá. Itaituba comunica-se com Altamira e Santarém.
(“Constatou-se linha de ônibus diários de Santarém para Itaituba e
Altamira,” diz o mesmo Relatório de onde extraímos as informações
acima.) Humaitá depende de Porto Velho (o que já ocorria desde
antes da Transamazônica).
A base econômica das cidades continua sendo extrativa, mas sua
polarização é “moderna”, isto é, volta-se para outras cidades e
oferece serviços mais complexos.
A ocupação das terras marginais, feita através da colonização
oficial, padeceu também de lacunas sérias. Para começar, houve
concentração de esforços nas áreas coloniais mais próximas dos
centros urbanos. “Atualmente (1974), em uma faixa de 60 km ao
longo da estrada em direção ao Xingu, há uma única agrovila, uma
única escola ainda não em funcionamento, um posto médico e parte
das casas de colonos não foram construídas” (Relatório Guilhon de
Albuquerque). Perto de Itaituba a situação era algo melhor (18
escolas para 810 crianças). O atraso nas construções devia-se ao
esforço de inaugurar uma rurópolis no entroncamento da Santarém-
Cuiabá com a Transamazônica (Rurópolis Presidente Médici).
Além disto, o INCRA optou pela colonização ao longo das vias
principais (as estradas vicinais são precaríssimas), criando o
problema do deslocamento dos colonos seus filhos para obter
serviços sociais. As agrovilas, que deveriam ser núcleos de serviços
próximos aos lotes, são pouco numerosas. A polarização da vida agrária acabou exercendo-se pelas poucas e distantes agrópolis e
rurópolis, bem como pelas cidades preexistentes.
Outro ponto assinalado por quase todos os observadores foi o
“assistencialismo” e o alto custo da colonização. Guilhon de
Albuquerque calculou em Cr$ 30.000,00 o investimento por um
colono, sem contar os custos da máquina administrativa do INCRA.
Estimativas mais recentes não discrepam deste cálculo144, mas
comparam-no favoravelmente com o custo do emprego rural gerado
pelo sistema dos incentivos fiscais.
Quando se deixa à margem o aspecto “custo de investimento”,
sempre de difícil mensuração e duvidoso alcance para avaliar o
êxito da abertura de uma área pioneira (pois em definitivo o que
dimensiona o êxito do empreendimento são a ocupação e a
rentabilidade futura da região, bem como as condições sociais em
que esta se dá) e tenta-se verificar os efeitos da Transamazônica
sobre a ocupação rural e a população urbana, os dados que
conseguimos são os seguintes:
Colonização da Transamazônica (até setembro de 1974)
Projetos em: Marabá Altamira Itaituba Totais
Famílias 1350 2036 1700 6080
Pessoas 9450 21250 11900 42.600
Casas 314 408 200 –
Famílias sem casa – – – 5160
Pessoas sem casa – – – 36.120
Fonte: Jornal da Tarde, 27/09/1974; dados publicados em
reportagem de Fernando Morais, “De volta à Transamazônica”.
Embora estes números discrepem de algumas cifras oficiais – antes
apresentadas –, não parecem longe da realidade. Ademais, apesar
da óbvia conjetura, por exemplo, quanto ao número de pessoas sem
casa (7 por família), os dados foram coligidos em fontes oficiais
locais145.
Quanto às cidades, as observações e dados coligidos por
repórteres, que haviam visitado a zona antes da abertura da
estrada, permitem o seguinte resumo:
Crescimento Populacional em Algumas Cidades da
Transamazônica
Cidades 1970 1974 1975 *
Marabá – – 40.000 (no município,
inclusive Nova Marabá)
Altamira 5000 18.000 23.000 23.000
Rurópolis – 1000 1600
Presidente
Médici
Humaitá 1500 8.000 12.000 + ou
Nova Marabá – – 4000 (2 anos de
existência)
* Os dados para 1975 foram extraídos de O Estado, 30/09/1975,
01/10/75 e 02/10/75.
A descrição feita pelos repórteres que percorreram a estrada em
1970 e em 1974 mostra que o grande impacto deu-se entre Marabá
e Itaituba (km 257 a km 1374 da estrada) e especialmente em
Altamira (km 826), onde há melhores terras. A colonização rarefaz-
se logo depois de Itaituba. Nas cidades, bem como na agrovila
Castelo Branco, no km 303 (povoado de 60 casas), na Agrópolis
Brasil Novo (entre Altamira e Itaituba) e na Rurópolis Presidente
Médici, no km 1225, existem hospitais, escolas e restaurantes. Há
serrarias nas zonas de colonização e, perto de Altamira, no km 960,
existe a usina de açúcar Abraham Lincoln, que beneficiará 375 mil toneladas de cana por ano. A usina foi instalada pelo INCRA para
aproveitar terras que, em princípio, deveriam dar uma produtividade
excepcional de 140 t por ha. Hoje a usina está sendo explorada por
um grupo privado.
Para que se tenha uma ideia do efeito da Transamazônica sobre as
cidades, convém indicar que Altamira contava com seis
estabelecimentos de comércio em 1970 e alcançou 480 em 1974 e
possuía 8403 casas em 1975. Itaituba tinha dois veículos, hoje
conta com mais de 200 registrados. Possuía uma pequena casa de
comércio, agora possui até um supermercado.
Não obstante, esta “febre de progresso”, como se assinalou antes,
decorreu mais da presença das empreiteiras e dos órgãos públicos
do que de atividades diretamente produtivas criadas na região. Não
se deve negar o impacto relativo da estrada sobre estas cidades,
mas é preciso ressaltar as ponderações críticas das páginas
anteriores. Por outro lado, Itaituba, por exemplo, continua vivendo
do extrativismo (borracha, castanha e pau-rosa), que é enviado
“para Belém e Santarém pelo mesmo veículo de sempre: o barco,
que não deixou de ser o meio de transporte principal da cidade”.
Depois de Itaituba, na direção de Humaitá, a falta de assistência
médico-social e a utilização de ex-trabalhadores da estrada pelos
seringalistas e, portanto, sua volta ao extrativismo e à economia de
subsistência, são reiteradamente constatados (ver O Estado,
01/10/1975).
O tráfego entre Itaituba e Humaitá, ou seja, do km 1374 ao km 2556,
é diminuto; os repórteres que percorreram a estrada encontraram
sete veículos das construtoras ou do governo e um jipe particular.
Humaitá não está polarizada pela Transamazônica, como se disse
atrás, e tem toda sua ligação econômica com Manaus, ou com o sul,
através de Porto Velho, em Roraima. Já o tráfego entre Altamira e
as agrovilas é relativamente intenso (cerca de 300 veículos por dia
na época da seca).
Em suma, o esforço de colonização foi grande, o resultado em
termos de transferir excedente de população do nordeste foi muito magro e apesar disto houve atração mais do que proporcional de
migração espontânea, se comparada com a capacidade urbana ou
rural de absorção economicamente produtiva da população que
migrou. As queixas das autoridades locais e dos funcionários do
INCRA quanto às dificuldades para absorver a população migrante
são grandes e contínuas.
Além disto, nas áreas que escaparam do controle direto do INCRA
com seus Projetos de Integração e Colonização (PIC) o problema da
luta pela terra agudizou-se. Especialmente na área de Humaitá,
onde havia seringalistas ativos e onde hoje operam empresários do
sul, os choques entre posseiros, pretendidos colonos e latifundiários
(antigos e novos) são constantes. O responsável pelo INCRA na
região declarou que, por falta de recursos, o órgão está demarcando
apenas 800.000 ha dos 7.200.000 da área. Isto facilita a criação dos
latifúndios. Apesar de que até hoje o limite legal dos 3000 ha por
propriedade não foi alterado (apesar das investidas), existem
expedientes comuns (colocar os lotes em nome de familiares ou
testas-deferro) que favorecem a criação de grandes empresas. De
acordo com a mesma autoridade, 80% dos proprietários de terras na
área de Humaitá são latifundiários (cf. O Estado, 01/10/1975). Por
ouro lado, grupos de especuladores vendem, noutras partes do
país, terras que legalmente estão sob controle do INCRA, fazendo
com que migrantes lesados se desloquem para a área amazônica
em busca do Eldorado inexistente.
Em poucas palavras, o esforço oficial em benefício de uma
“colonização social” acabou atraindo mão de obra excedentária que,
levando, como os rios, mais água para o mar, engrossou o caudal
da superexploração do trabalho em beneficio da grande empresa.
Seja na zona agropecuária do norte de Mato Grosso e sul do Pará,
seja nos latifúndios dos seringalistas ou nas serrarias que brotam
legal ou ilegalmente um pouco por toda a parte, reanimando o
extrativismo da madeira146, a mão de obra barata, desprotegida e
errante encontra no empresário o complemento necessário para
transformar a migração, pela via da exploração, em elemento
dinamizador da acumulação.
Por caminhos transversos, a ideologia integradora e cheia de
compaixão pelo nordestino e pela redenção do homem amazonense
acabou, como no passado, dinamizando mecanismos que, longe de
atender os objetivos sociais da colonização, preencheram
necessidades de expansão econômica. Estado e grande empresa,
atuando a níveis diversos, terminaram por encontrar-se na senda
batida da acumulação rápida através da espoliação dos
trabalhadores.
Diante da evidência desta situação, alternativas começaram a ser
discutidas e apresentadas. Especialistas da região tentaram alertar
as autoridades, desde o início do processo de dinamização da
ocupação da Amazônia, para o fato de que se a imigração seria
básica para resolver aspectos da ocupação e valorização da região,
era preciso examinar que tipos de imigrantes deveriam ser atraídos
e quais as condições locais para absorvê-los, especialmente no que
se refere à existência efetiva de planos de desenvolvimento
regional 147.
Com o desencadeamento das políticas de ocupação e valorização
dos anos 70, a consciência de que algo do que fora no passado o
patrimônio cultural da adaptação do homem à floresta úmida
começava a perder-se provocou reações contra a alienação técnico-
cultural em que se baseava a estratégia de penetração da
Amazônia. As distorções econômicas e ‘sociais – algumas das quais
foram apresentadas em capítulos anteriores – somadas àquele
sentimento, motivaram crítica persistente. Característica disto foi a
crítica feita por empresários locais, durante a visita à Amazônia, do
General Geisel, quando candidato indicado à Presidência.
Associações empresariais encaminharam ao futuro presidente um’
relatório feito pelo economista Armando Mendes e colaboradores,
denominado “A Invenção da Amazônia” 148.
Neste capítulo, que se destinou a fornecer subsídios para o capítulo
sobre a Amazônia do Plano Nacional de Desenvolvimento para
1975/79, percebe-se uma revolta contra a substituição do interesse
em torno das condições sociais e morais de vida na região por uma sistemática que substituiu a “meta homem” pelo crescimento do PIB.
Mais ainda, os autores denunciam, sem usar esta expressão, o
colonialismo interno de que a Amazônia é vítima. Partindo da ideia
de uma deterioração continua nos termos de intercâmbio entre a
região norte e o resto do Brasil (em 1960 as exportações eram de
Cr$ 16.243,13 e as importações de Cr$ 20.198,20, em 1970 estas
cifras eram, respectivamente, de Cr$ 502.950,00 e 956.745,00), que
se teria acentuado com o PIN, os autores expressam:
A sucção da reduzida renda regional (e, especificamente, das
escassas poupanças que dela são obtidas) por meio de um
processo de dominação, que se expressa economicamente
através de mecanismos de duas espécies: a) mecanismos de
dependência, na medida em que se processa a fuga da renda
gerada na região, por exemplo, através de termos de
intercâmbio a estas desfavoráveis; b) mecanismos de
vazamento, enquanto os montantes da renda não consumidos
vão gerar investimentos fora da região (p. 15).
Além de criticar a dominação do centro-sul sobre a região e de
afirmar que os dois mecanismos acima anulam em grande parte os
esforços realizados para ocupar e desenvolver o extremo norte, os
autores insurgem-se também contra a ideologia falaciosa dos
“espaços vazios”, numa área de crescimento desigual mas na qual
existem importantes adensamentos urbanos, denunciam os
estereótipos sobre a indolência do caboclo e criticam a ideia de que
na região teria havido “sociedades falhadas” e, portanto, que o
desenvolvimento regional é inviável.
Em decorrência, propõem objetivos estratégicos que deveriam
motivar políticas eficazes para “salvar aquelas populações e as
novas (imigradas)”, mais do que apenas aumentar o estoque
populacional da região. Tais políticas requereriam a formulação de
um efetivo modelo econômico baseado nas potencialidades locais e
na invenção de uma “tecnologia tropical”. Criar-se-iam desta
maneira os meios para que, segundo os atores, a região se auto-
suprisse de alimentos, matérias-primas e bens de produção, em vez de aumentar sua dependência e piorar as condições de vida da
população através da política de incentivos fiscais, que desenvolve
um setor agropastoril e um conjunto de enclaves mineiros, em
benefício de outras regiões ou países.
Outros relatórios foram preparados por empresas consultoras
visando a prestar subsídios ao mesmo PND-II. A tônica deles não
discrepa, na parte crítica, das conclusões óbvias a que a avaliação
da aventura amazônica dos anos setenta levou a maioria dos
observadores: é preciso desestimular a imigração indiscriminada a
curto e médio prazos, para evitar que a falta de capacidade real de
absorção produtiva termine por oferecer novos tipos de flagelados à
superexploração privada. Os projetos oficiais de colonização, que
caminham necessariamente de forma lenta, têm um efeito de
demonstração eficaz sobre a migração espontânea, “incham as
cidades”, multiplicam os “tapiris” da pobreza rural. Melhor do que
estabelecer um “mórbido regime de trocas de doenças, contraindo
(os migrantes) alguma que não tinham (malária, febre negra de
Lábrea) e transmitindo outras estranhas ao ambiente
(esquistossomose), seria aproveitar as populações locais nos
projetos de desenvolvimento, elevando seu nível de vida”. Embora
sem aceitar a tese extrema da autarquização, como a sugerida no
Relatório Armando Mendes, não se deveria pensar a Amazônia em
termos do que ela não possui (uma oferta abundante de terras
férteis), nem como mero pretexto para que bons negócios se
realizem na região.
Não obstante a nova enxurrada de boas intenções geradas pela
crítica do período inicial do governo Geisel à política anterior, os
fatos continuam apontando que mais forte que a boa consciência
são os interesses enraizados do grande capital. Como se viu em
páginas anteriores, a nova política oficial, proposta enfaticamente
por vários ministros e defendida no Senado pelo ministro da
Agricultura, para quem não há êxito econômico fora das grandes
unidades produtivas com “mentalidade empresarial”, repousa na
penetração das grandes empresas na Amazônia. O ministro não se
pejou sequer de fazer referências ao desmatamento provocado pelos colonos e à prática de “paupérrimas culturas de
subsistência” 149.
Fecha-se, assim, o ciclo: A vítima passa a ser causadora dos males
da região e a “nova solução”, quase tão velha como a Sé de Braga,
será a “mentalidade empresarial”, a acumulação privada beneficiada
pelos incentivos do Estado e pela exploração de uma mão de obra
carente de quase todas as condições capazes de fazer dela algo
mais que o velho e sofrido instrumentum vocalis dos tempos da
escravidão.
138 VELHO, Octávio Guilherme – Modes of Capitalist Development,
Peasantry and the Moving Frontier, Ph.D. dissertation, Universidade
de Manchester, 1973, p. 218. Este estudo é fundamental para a
análise dos problemas aqui enfocados. Nele nos baseamos para as
afirmações acima, especialmente no Capitulo 13, “The Amazon
Frontier and the Peasantry”.
139 Existe enorme bibliografia sobre o “assalto à Amazônia” e sua
defesa pelo Brasil. Ver REIS, Arthur César Ferreira, “A Amazônia na
atual conjuntura internacional,” Revista Brasileira de Política
Internacional, março-junho e setembro de 1950. Neste artigo
descreve-se a defesa da Amazônia brasileira desde o Império.
140 Sobre o Relatório Hudson, o Grande Lago. Amazônico, as
políticas alternativas propostas etc., ver Revista Brasileira de
Política Internacional s , ano XI, nº. 41-42, março-junho de 1968, que
é fonte obrigatória.
141 Riqueza de solos (que, segundo muitos técnicos, é, no mínimo,
um exagero, dada a pequena camada de humo que, sem as árvores
e com as chuvas, é lixiviada) e riqueza mineral. Por ex.: o Ministro
Cirne Lima falava, em 22/06/72, in O Estado, na “utilização racional
desta imensa riqueza”. O diretor do DNER, Elizeu Rezende, dizia,
em junho de 1970, que “a terra existente entre Altamira e Itaituba,
num trecho de 600 km de extensão por 140 km de largura, possui as mesmas características das terras de Dourados, no Mato Grosso,
consideradas as melhores do Brasil” (reproduzido in O Estado,
11/02/73). Enquanto um grupo de trabalho técnico criado pela
EMBRAPA e pelo CNPq, dizia: “A Amazônia apresenta, para a
exploração agrícola, problemas relacionados com a pobreza dos
solos, drenagem, custo de adubos, controle de ervas daninhas,
pragas, doenças, baixa densidade populacional e pesquisa
agropecuária incipiente” (O Estado, 09/05/74); e as terras roxas de
Altamira ocupam uma área de apenas 50x2 km. Quanto à riqueza
mineral (que é provável) as afirmações fizeram-se antes de qualquer
resultado do Projeto RADAM.
142 GUILHON DE ALBUQUERQUE, José Augusto, “Levantamento
sócio-antropológico das condições de ocupação das zonas urbanas
da Transamazônica,” mimeo, s.d. e sem numeração. As informações
sobre as cidades transamazônicas foram extraídas deste relatório,
que constitui subsídio para a elaboração pelo Ministério do Interior
de um estudo sobre “Os núcleos urbanos da Transamazônica”. Este
último trabalho foi resumido no Jornal da Tarde, 26/09/1974.
143 GUILHON DE ALBUQUERQUE, José Augusto, op.cit.
144 Ver PINTO, Lúcio Flávio, “Amazônia, como deter a ocupação?” in
O Estado, 31/08/75, que fala em Cr$ 32.000,00 por colono.
Entretanto, este jornalista considera esta soma razoável, frente ao
custo presumível da “nova estratégia”, ou seja, de abertura das
terras à iniciativa privada. Segundo o autor, a “colonização social”
criaria 125.000 empregos. A nova ocupação, através de 327
projetos agropecuários, custará 4 milhões de cruzeiros para cada
um dos 60.000 empregos que serão oferecidos, calculando-se que
nos próximos 5 anos se invistam 10,5 bilhões de cruzeiros, através
da SUDAM e dos incentivos fiscais. Outro cálculo mais recente fala
em Cr$ 50.000,00 gastos pelo INCRA por colono assentado e
menciona o gasto de custeio anual da Transamazônica como sendo
de 51 milhões de cruzeiros (cf. MORAIS, Fernando, “De volta à
Transamazônica,” Jornal da Tarde, 26/09/74). ‘Para o autor desta
estimativa o quilômetro da Transamazônica teria custado Cr$ 7.000.000,00 e não os Cr$ 300.000,00 da estimativa oficial. Os
dados sobre o número de colonos efetivamente assentados não são
muito precisos. O mesmo repórter Lúcio Flávio Pinto, defendendo a
“colonização social”, falou em 15.000 famílias assentadas pelo
INCRA em 16 núcleos coloniais, abrangendo 60.000 pessoas,
produzindo 35.000 empregos diretos e 60.000 indiretos (O Estado,
23/06/74).
145 Até outubro de 1974, nos três Projetos de Integração e
Colonização (PIC) principais, o INCRA teria assentado 6154
colonos, ocupando uma área de 615.400 ha. Foram construídas 29
agrovilas, duas agrópolis e uma rurópolis. Dados em O Estado,
02/10/1975, “O homem esquecido lá nos domínios federais”.
146 Não cabe aqui aprofundar a análise da exploração econômica da
madeira. Neste aspecto, existem tanto os entusiastas da riqueza
florestal da Amazônia, como, por exemplo, Egon Glesinger, técnico
da FAO que escreveu um relatório, “Uma ruptura no front de
matérias-primas, plantações e indústrias no Brasil,” onde discute o
caso especial da Amazônia e, muito particularmente, o caso do
reflorestamento do Jari. Este técnico defende com entusiasmo a
derrubada da floresta nativa e sua substituição por melina e
pinheiros. Minimiza os riscos ecológicos e mesmo o emprego das
queimadas. Ocorre que, em sua ânsia apologética, viu muitos
pequenos povoados “compostos de casas com boa aparência,
escola, hospitais, etc.”. (p. 35). Falou até em “Acrópolis” (?).
Qualificou de “boatos” as condições insatisfatórias de trabalho e os
baixos salários do Jari, mesmo porque, se tal fosse o caso, “os
empregados simplesmente iriam embora”. É de esperar, pois, que o
técnico em sua área específica de competência seja menos ingênuo
do que na análise sociológica… Por outro lado, existem outros
especialistas que vêem em cada árvore derrubada um risco
ecológico. É difícil crer, mesmo sendo leigo, que a penetração
racional na floresta constitua um risco insuportável. Ocorre,
entretanto, que esta se faz desordenada e rapidamente,
especialmente no caso dos empresários privados. Isto é mais
verdade ainda no extrativismo da madeira. E, sobretudo, faz-se ao preço de uma superexploração da mão de obra, como
documentamos neste Relatório, embora tal processo não tenha sido
desejado pelas autoridades (especialmente militares) de forma
consciente, nem tenha resultado da ação direta do INCRA. Indireta
e inconscientemente, a pressa, a propaganda e a necessidade de
abrir frentes para a acumulação econômica privada transformaram a
política de valorização da Amazônia numa política de valorização do
capital.
147 Ver, por exemplo, TUPIASSU, Amílcar Alves, O processo
demográfico da Amazônia, série “Documentos Breves,”, do Instituto
do Desenvolvimento Econômico e Social do Pará, conferência
pronunciada em 07/06/1968, esp. pp. 18 e ss.
148 MENDES, Armando, com a colaboração de Jean Hebertte, Edna
Maria Ramos Castro e Roberto da Costa Ferreira, “A invenção da
Amazônia,” Belém, fevereiro de 1974, mimeo. Este relatório foi
resumido também em Opinião, nº. 78, maio de 1974.
149 Ver, para mais detalhes e para uma visão de conjunto, GOMES,
Marcos, “Revendo a Solução Mágica,” Opinião, nº. 84, junho de
1974. Para comprovar que as queixas antigas permanecem, ver a
matéria de O Estado, “O homem esquecido, lá nos domínios
federais,” já citada. Deste artigo veja-se o seguinte trecho: a
Transamazônica “não alterou a situação no meio rural, onde os
latifúndios – formados à base da violência – apenas estão mudando
de dono. De qualquer forma, continuam impedindo acesso à terra de
maior número de camponeses”. Para suprir de mão de obra a usina
Abraham Lincoln (hoje explorada pela Empresa Zanini
Equipamentos Pesados S.A., sob gerência do Cel. Câmara Senna,
ex-superintendente da SUDAM), cogita-se levar, de caminhão, dois
mil homens do interior de São Paulo. Se a usina produzir 600.000
sacos, 10.000 homens serão necessários para o corte da cana. Não
haverá problema, pois os bóias-frias (trabalhadores volantes)
“poderão ser trazidos em caminhões do nordeste para a Amazônia,
repetindo o clássico modelo da região sul do Pará, onde mais de 200 mil peões não têm relações de trabalho estáveis nas fazendas
instaladas com recursos dos incentivos fiscais”.
Anexos
A Transamazônica (de Estreito a Humaitá)
Você terminou Amazônia: expansão do capitalismo
Fernando Henrique Cardoso
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