Amazônia: expansão do capitalismo
As drogas do sertão
Em meados do século XVI, o açúcar propiciava já boas rendas à
Coroa portuguesa, além de forte capacidade de negociação com
outras nações européias emergentes interessadas na
comercialização das especiarias. Nada mais justo do ponto de vista
da Coroa do que preocupar-se com a defesa do monopólio daquele
produto. O que implicava em proteger todas as terras tropicais
potencialmente produtoras. Em fins desse século, portugueses e
espanhóis, juntos sob a União Ibérica (1580-1640), defenderam-se
dos ataques que se faziam em toda a linha que desce das Antilhas
ao nordeste brasileiro. Mesmo após a Restauração (1640), e com as
concessões feitas à Holanda e Inglaterra em troca de aliança na luta
contra a Espanha, a preocupação portuguesa manteve-se. Ampliou-
se, na verdade. Criou-se o Conselho Ultramarino com o fito de
controlar e “minimizar as brechas abertas ao uso de seu exclusivo
colonial”5.
Nesse contexto de disputa pela posse de terras que comportassem
um produto comercializável na Europa ou de terras que pudessem
comportar sua produção, a atual Amazônia compunha a retaguarda
econômica da metrópole e integrava-se como peça da acumulação
primitiva européia, ou seja, integrava-se como componente da
expropriação que priva a grande massa do povo da terra e dos
meios de vida e instrumentos de trabalho. Daí o caráter comercial e
capitalista da colonização 6.
O povoamento da Amazônia ocorre durante os séculos XVII e XVIII,
quando os portugueses, a partir de Recife e Salvador, se deslocam
para a região com a finalidade de afastar os concorrentes ingleses,
holandeses e franceses que se apoderavam das “drogas do sertão”
(canela, cravo, anil, cacau, raízes aromáticas, sementes
oleaginosas, madeiras, salsaparrilha etc.). Desse movimento de
defesa surgem São Luís do Maranhão, Belém do Pará, Macapá, no
extremo norte, e Manaus, na confluência dos rios Negro e
Amazonas. São núcleos fortificados aos quais vão-se reunindo
aldeamentos indígenas e colonos que tentam pôr em prática as diretrizes do governo de Lisboa que visava a passar da coleta das
drogas a seu cultivo e, assim, apossar-se efetivamente dessas
áreas, originariamente (segundo o Tratado de Tordesilhas)
pertencentes à Espanha. Esta foi uma linha de povoamento
basicamente lastreada em uma ação militar em prol das terras
potencialmente produtivas.
Uma outra linha tem origem no movimento de caça ao índio por
parte dos colonos assentados no Maranhão. Necessitados de mão
de obra para a produção de açúcar, fumo e outros produtos, esses
colonos decidiram-se a escravizar o elemento nativo. Fustigados
pelos jesuítas, perseguidores e defensores dos índios, foram
penetrando na floresta amazônica, através das vias fluviais e matas
rasas, descobrindo assim suas potencialidades, as especiarias.
Da má sorte dos colonos no Maranhão, em virtude da queda do
mercado açucareiro e de outros produtos (1650/70) e da
necessidade de lutar pela mão de obra indígena frente a reação dos
jesuítas: resultou uma enorme expansão territorial durante o século
XVII até aos meados do século seguinte.
O colono não conseguiu organizar o índio nos moldes escravistas;
no entanto, usufruiu de seu trabalho por intermédio da sagacidade
jesuítica. Se de início os inacianos atuaram em defesa do indígena,
buscaram depois formas adequadas de convivência (obtinham a
mão de obra dessa gente mediante doação de quinquilharias) e
acabaram na exploração servil dessa mão de obra 7.
A desarticulação da forma tribal das relações sociais em proveito
mercantil através da injeção de artigos europeus, “cujo fornecimento
posterior era condicionado à sua (indígena) participação nas
atividades produtivas”, foi condição para o devassamento da floresta
tropical ao longo dos rios, furos, lagos e canais e a exploração das
drogas do sertão. 8 Os núcleos militares e coloniais e as missões,
baseados na exploração da mão de obra indígena, são as primeiras
manifestações de povoamento na Amazônia.
A economia brasileira, em seu conjunto, apresentava-se, nos
meados do século XVIII, como uma constelação de sistemas
tenuamente articulados entre si: a faixa açucareira, a região mineira
e o Maranhão. Esses sistemas interligavam-se através da extensa
hinterlândia pecuária, mas de modo fluido e impreciso. No último
quartel desse século, o único sistema que apresentou efetiva
prosperidade foi o do Maranhão, que estivera estagnado desde
meados do século anterior, devido à já mencionada desorganização
dos mercados açucareiros e de outros produtos. Na Amazônia,
então com a denominação de Grão-Pará, alguma diminuta influência
da prosperidade maranhense será sentida; também aqui as
atividades entraram em decadência desde meados do século XVIII
devido à desorganização do sistema jesuítico, causada pela ação de
Pombal 9.
A mencionada prosperidade ocorreu num panorama mundial muito
particular – revolução industrial inglesa, guerra de independência
norte-americana, Guerra dos Sete Anos – que encontrou a
Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão em plena atividade. A
partir de 1750, Pombal intenta apressar o povoamento da
Amazônia. Decreta leis que isentam os colonizadores de impostos
régios, que concedem sesmarias como prêmio, que distribuem
gratuitamente instrumentos agrícolas. Em 1755 institui a Companhia
Geral do Grão-Pará e Maranhão para coordenar e aplicar o
ambicioso projeto. No entanto, a prosperidade alcançada
principalmente em território maranhense – foi efêmera, pois
apoiava-se em condições anormais do mercado mundial de algodão
e arroz. Em 1778, a Companhia Geral é extinta. No Grão-Pará, o
volume da produção extrativa, nessa época de prosperidade, foi
sempre maior do que o volume da produção cultivada. Dessa feita,
no início do século XIX, a agricultura praticamente restringia-se à
subsistência10.
Como reflexo desse período de prosperidade, que carreou para a
área grande contingente de escravos negros, o Maranhão contava,
em 1808, com mais de 120 mil habitantes. O Grão-Pará não
alcançava a cifra dos cem mil. Demograficamente preponderou o incremento vegetativo, basicamente da população indígena aldeada