Amazônia: expansão do capitalismo
Caracterização geral do emprego
extrativos, como a madeira, através dessas vias terrestres,
incrementa a taxa de urbanização daqueles pequenos núcleos de até
2 mil habitantes. Estes, excluindo-se as Capitais (Tabela II),
apresentavam em 1950 uma taxa de urbanização superior à 8% e, 20
anos depois, 13,5%.
As expansões econômicas assinaladas que criaram novos setores de
atividade no meio rural provocaram não só o crescimento de
pequenas aglomerações humanas mas também o de núcleos
maiores. Prova disso é a relativa desconcentração urbana ocorrida
entre 1920 e 1970: na primeira data, 28% da população residiam nas
duas grandes Capitais; 50 anos depois, a proporção cai para 20%.
A redistribuição da população no meio rural e no meio urbano poderá
ser apreciada de um modo um pouco mais preciso se tomarmos as
informações estatísticas disponíveis sobre a população
economicamente ativa (PEA).
Caracterização geral do emprego
Que a diferenciação setorial do emprego na Região norte,
comparativamente a outras regiões brasileiras do centro-sul, é
incipiente, nota-se facilmente pelo escrutínio das informações
estatísticas censuais relativas à distribuição do emprego.
Para toda a região, em 1960, 2/3 da PEA estavam no primário, 6%
nas atividades industriais e 28% nas outras atividades. Entretanto,
deixando de lado as microrregiões onde se situam as capitais, apenas
uma (a 19, no Pará)69 apresenta proporção de emprego, nas
atividades agropecuárias, ligeiramente inferior a 2/3. A grande maioria
das outras microrregiões exibia porcentagens superiores a 80%, ou
mesmo 90%, neste setor.
Em 1970 a situação havia mudado um pouco. Deixando de lado as
microrregiões das Capitais, tão-somente parte das microrregiões do
Pará possuíam menos de 3/4 do emprego nas atividades
agropecuárias (situando-se no geral esta proporção entre 60 e 70%); este é o caso principalmente das microrregiões mais próximas de
Belém (as de números 18, 19, 23 e 24), onde a estrutura setorial de
emprego, entre o campo e a cidade, ganha um pouco mais de
complexidade.
A Tabela IV, onde os dados são apresentados de forma mais
simplificada que a constante nos Censos (separando-se para as duas
datas as microrregiões das Capitais das demais), permite-nos
apreciar melhor o sentido da evolução da divisão social do trabalho
indicado pela distribuição setorial do emprego.
Nas microrregiões das Capitais (entre as quais o peso preponderante
é de Manaus e Belém), grande proporção do emprego se situa, já em
1960, nos setores não agrícolas (61% para o conjunto das Capitais,
conforme se pode ver na tabela; excetuando-se as duas Capitais
mais importantes, quer dizer, só pata as Capitais menores, tal
proporção alcança pouco mais de 1/3).
IV – Distribuição setorial do emprego, capitais e interior,* região
norte 1960 e 1970
Data Microrregiões Total Atividades Atividades Outras
Capitais e Agropecuárias Industriais Atividades
Interior
1960 Capitais nº. % 293.778 39,0 11,4 49,6
100,0
Interior nº. % 491.980 82,0 3,0 15,0
100,0
Região norte 785.758 65,9 6,1 28,0
nº. % 100,0
1970 Capitais nº. % 439.644 29,7 17,9 52,4
100,0
Interior nº. % 589.646 77,2 6,6 16,2
100,0
Região norte 1.029.290 56,9 11,4 31,7
nº. % 100,0
Fonte: Censos Demográficos, 1960 e 1970.
* Capitais: Microrregiões onde se situam as Capitais; Interior: Demais
microrregiões, exceto as das Capitais.
A evolução no decênio é rápida: para o conjunto das microrregiões
das Capitais o emprego não agrícola sobe para cerca de 70% e para
as das Capitais menores, 50%. O sentido maior do crescimento
setorial do emprego não agrícola reside nas atividades industriais.
Estas ganham mais de seis pontos porcentuais (de 11 a 18%),
enquanto os “serviços” que já continham metade do emprego total em
1960 aumentam um pouco menos de 3%. Esta tendência para o crescimento relativo mais acentuado das atividades industriais
verifica-se tanto nas duas principais cidades da Região norte como
nas Capitais menores. O motor dessa tendência reside na instalação
de moderníssimas unidades produtivas (refinarias, extrativas
minerais, fiação e tecelagem, pescado, transportes marítimos e
fluviais etc.) que produziram um setor novo na Região norte,
realizando aí um importante salto tecnológico, passando de atividades
artesanais ou unidades familiares de produção para enormes
empresas capitalistas, alterando significativamente a taxa de emprego
nas atividades industriais, com repercussões, se bem que mais
reduzidas, no setor terciário. Caberia refletir sobre esse fenômeno a
partir da constatação de que tais empresas criaram, e continuam a
criar, sub-ramos industriais que não deslocam o artesanato existente,
não entram em conflito com a mão de obra empregada nos ramos do
setor primário e não possuem na Amazônia seu mercado consumidor.
Não seria uma impropriedade pensar que o pessoal técnico e
burocrático dessas empresas provém de fora da região, enquanto o
pessoal da linha de produção é recrutado entre migrantes
intrarregionais e inter-regionais, bem como de cada núcleo urbano
(Manaus, Belém, Macapá etc.). (Vide “Movimentos Migratórios”).
Tentaremos caracterizar a PEA do setor urbano em item específico
sobre o assunto; por ora basta notar que o setor de serviços
desempenhou, historicamente, um papel proeminente em termos de
pessoal ocupado, graças ao tipo de economia prevalecente. Hoje
(1970) a participação da PEA dos setores secundário e terciário
localizados no meio rural na PEA total desses setores atinge cerca de
17%, bem inferior, por exemplo, ao Maranhão, 30%. Assim, se há
uma participação artesanal na região (unidades beneficiadoras
organizadas e operadas familiarmente), ela é bem menor que a do
vizinho Maranhão, refletindo uma economia extrativa mercantil que,
historicamente, ao instaurar-se sob a égide de produção para
mercados fora da região, criou profundos liames com a economia
urbana – via sistema de aviamento – que fornecia boa parte dos
componentes da cesta de consumo do pessoal do setor primário.
Assim, temos na região, em sua maior parte, uma divisão setorial de
emprego ainda rudimentar e que no último decênio pouco se modificou. Umas poucas cidades – novamente sobressaem Belém e