Amazônia: expansão do capitalismo

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 12 de 32

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Amazônia: expansão do capitalismo

Caracterização geral do emprego

extrativos, como a madeira, através dessas vias terrestres,

incrementa a taxa de urbanização daqueles pequenos núcleos de até

2 mil habitantes. Estes, excluindo-se as Capitais (Tabela II),

apresentavam em 1950 uma taxa de urbanização superior à 8% e, 20

anos depois, 13,5%.

 

As expansões econômicas assinaladas que criaram novos setores de

atividade no meio rural provocaram não só o crescimento de

pequenas aglomerações humanas mas também o de núcleos

maiores. Prova disso é a relativa desconcentração urbana ocorrida

entre 1920 e 1970: na primeira data, 28% da população residiam nas

duas grandes Capitais; 50 anos depois, a proporção cai para 20%.

 

A redistribuição da população no meio rural e no meio urbano poderá

ser apreciada de um modo um pouco mais preciso se tomarmos as

informações estatísticas disponíveis sobre a população

economicamente ativa (PEA).

 

Caracterização geral do emprego

 

Que a diferenciação setorial do emprego na Região norte,

comparativamente a outras regiões brasileiras do centro-sul, é

incipiente, nota-se facilmente pelo escrutínio das informações

estatísticas censuais relativas à distribuição do emprego.

 

Para toda a região, em 1960, 2/3 da PEA estavam no primário, 6%

nas atividades industriais e 28% nas outras atividades. Entretanto,

deixando de lado as microrregiões onde se situam as capitais, apenas

uma (a 19, no Pará)69 apresenta proporção de emprego, nas

atividades agropecuárias, ligeiramente inferior a 2/3. A grande maioria

das outras microrregiões exibia porcentagens superiores a 80%, ou

mesmo 90%, neste setor.

 

Em 1970 a situação havia mudado um pouco. Deixando de lado as

microrregiões das Capitais, tão-somente parte das microrregiões do

Pará possuíam menos de 3/4 do emprego nas atividades

agropecuárias (situando-se no geral esta proporção entre 60 e 70%); este é o caso principalmente das microrregiões mais próximas de

Belém (as de números 18, 19, 23 e 24), onde a estrutura setorial de

emprego, entre o campo e a cidade, ganha um pouco mais de

complexidade.

 

A Tabela IV, onde os dados são apresentados de forma mais

simplificada que a constante nos Censos (separando-se para as duas

datas as microrregiões das Capitais das demais), permite-nos

apreciar melhor o sentido da evolução da divisão social do trabalho

indicado pela distribuição setorial do emprego.

 

Nas microrregiões das Capitais (entre as quais o peso preponderante

é de Manaus e Belém), grande proporção do emprego se situa, já em

1960, nos setores não agrícolas (61% para o conjunto das Capitais,

conforme se pode ver na tabela; excetuando-se as duas Capitais

mais importantes, quer dizer, só pata as Capitais menores, tal

proporção alcança pouco mais de 1/3).

IV – Distribuição setorial do emprego, capitais e interior,* região

norte 1960 e 1970

 

Data Microrregiões Total Atividades Atividades Outras

Capitais e Agropecuárias Industriais Atividades

Interior

 

1960 Capitais nº. % 293.778 39,0 11,4 49,6

100,0

 

Interior nº. % 491.980 82,0 3,0 15,0

100,0

 

Região norte 785.758 65,9 6,1 28,0

nº. % 100,0

 

1970 Capitais nº. % 439.644 29,7 17,9 52,4

100,0

 

Interior nº. % 589.646 77,2 6,6 16,2

100,0

 

Região norte 1.029.290 56,9 11,4 31,7

nº. % 100,0

 

Fonte: Censos Demográficos, 1960 e 1970.

 

* Capitais: Microrregiões onde se situam as Capitais; Interior: Demais

microrregiões, exceto as das Capitais.

 

A evolução no decênio é rápida: para o conjunto das microrregiões

das Capitais o emprego não agrícola sobe para cerca de 70% e para

as das Capitais menores, 50%. O sentido maior do crescimento

setorial do emprego não agrícola reside nas atividades industriais.

Estas ganham mais de seis pontos porcentuais (de 11 a 18%),

enquanto os “serviços” que já continham metade do emprego total em

1960 aumentam um pouco menos de 3%. Esta tendência para o crescimento relativo mais acentuado das atividades industriais

verifica-se tanto nas duas principais cidades da Região norte como

nas Capitais menores. O motor dessa tendência reside na instalação

de moderníssimas unidades produtivas (refinarias, extrativas

minerais, fiação e tecelagem, pescado, transportes marítimos e

fluviais etc.) que produziram um setor novo na Região norte,

realizando aí um importante salto tecnológico, passando de atividades

artesanais ou unidades familiares de produção para enormes

empresas capitalistas, alterando significativamente a taxa de emprego

nas atividades industriais, com repercussões, se bem que mais

reduzidas, no setor terciário. Caberia refletir sobre esse fenômeno a

partir da constatação de que tais empresas criaram, e continuam a

criar, sub-ramos industriais que não deslocam o artesanato existente,

não entram em conflito com a mão de obra empregada nos ramos do

setor primário e não possuem na Amazônia seu mercado consumidor.

Não seria uma impropriedade pensar que o pessoal técnico e

burocrático dessas empresas provém de fora da região, enquanto o

pessoal da linha de produção é recrutado entre migrantes

intrarregionais e inter-regionais, bem como de cada núcleo urbano

(Manaus, Belém, Macapá etc.). (Vide “Movimentos Migratórios”).

 

Tentaremos caracterizar a PEA do setor urbano em item específico

sobre o assunto; por ora basta notar que o setor de serviços

desempenhou, historicamente, um papel proeminente em termos de

pessoal ocupado, graças ao tipo de economia prevalecente. Hoje

(1970) a participação da PEA dos setores secundário e terciário

localizados no meio rural na PEA total desses setores atinge cerca de

17%, bem inferior, por exemplo, ao Maranhão, 30%. Assim, se há

uma participação artesanal na região (unidades beneficiadoras

organizadas e operadas familiarmente), ela é bem menor que a do

vizinho Maranhão, refletindo uma economia extrativa mercantil que,

historicamente, ao instaurar-se sob a égide de produção para

mercados fora da região, criou profundos liames com a economia

urbana – via sistema de aviamento – que fornecia boa parte dos

componentes da cesta de consumo do pessoal do setor primário.

 

Assim, temos na região, em sua maior parte, uma divisão setorial de

emprego ainda rudimentar e que no último decênio pouco se modificou. Umas poucas cidades – novamente sobressaem Belém e