Amazônia: expansão do capitalismo
Movimentos migratórios
Manaus – concentram os serviços para toda a região, desenvolvendo-
se nelas, no último decênio, mais as atividades industriais. Parte
delas – protegidas pelas distâncias – certamente desenvolveu
pequenas oficinas e artesanato.
A evolução da população e do emprego enquanto redistribuição da
massa de mão de obra requerida pela dinâmica regional, em um
contexto de integração crescente à dinâmica do mercado nacional, se
processa através de movimentos migratórios. Interessa determinar
mais acuradamente a relação entre população/mão de obra/dinâmica
regional que se realiza mediante os fluxos migratórios, com ênfase
em suas magnitudes.
Movimentos migratórios
Quanto às características e à distribuição dos imigrantes, o Censo
Demográfico de 1970 fornece-nos informações sobre a parte da
população residente que não nasceu no município. Chamaremos tal
componente de imigrantes. Trata-se de saldo, na região, dos
movimentos migratórios no momento do Censo, isto é, saldo de um
período longo que não podemos precisar. Nesse sentido, a
mortalidade na área bem como os movimentos de retorno de
migrantes refletem-se nesse saldo, diminuindo-o. As proporções do
componente da população não natural dos municípios da região vão
refletir tais fatores (mortalidade e migração). As proporções das
correntes de população vindas de fora da região, ademais destes
fatores, refletirão – para o caso de uma área cujo povoamento se
processou nesses últimos cem anos – os níveis de natalidade nela
prevalecentes, bem como a maior ou menor recência do povoamento.
Para toda a região, em 1970, 674.083 pessoas tinham nascido fora
do município onde residiam, isto é, 18,7% do total da população da
Amazônia. Esses imigrantes distribuíam-se do seguinte modo:
— pouco mais da metade (52,5%) fazia parte de movimentos
intraestaduais, ou seja, deslocamentos intermunicipais dentro do
Estado de origem;
— 114.288 imigrantes, 17% do total, movimentaram-se de um Estado
ou território para outro, dentro da Região norte;
— 30,5% são oriundos de outras regiões brasileiras; há um resíduo
de pouco mais de 12 mil imigrantes (1,8%) que não puderam ser
classificados; podem-se supor como provenientes de fora da Região
norte.
Essas informações discriminadas segundo a unidade da Federação
constam da Tabela V.
Os níveis das proporções de migrantes não variam muito (16 a 19%),
exceto em dois dos territórios de povoamento mais recente: Roraima
(28%) e Amapá (33%). Comparando--se os territórios, os anteriores
mais o de Rondônia, nota-se um padrão de migração distinto do dos
Estados, principalmente dos dois mais extensos. A maior parte dos
migrantes nos territórios – repita-se, de povoamento mais recente – é
de proveniência (último movimento migratório) intra-regional: 12% da
população de Rondônia, 26% e 30%, respectivamente, da de
Roraima e do Amapá.
Na maior parte da região, onde o principal povoamento é mais antigo,
datando da época do ciclo da borracha (Pará, Amazonas), o principal
contingente de migrantes na população é de proveniência
intraestadual. Esta tendência é “natural” porque são áreas que
ofereceram atividades alternativas nos períodos posteriores ao “ciclo
da borracha” e à “batalha da borracha”.
V – Distribuição dos migrantes segundo o tipo do último
movimento migratório e proporções de migrantes na população,
Unidades da Federação, região norte – 1970
Unidade da Intra- Intra- Inter- Total
Federação Estadual Regional Regional
Rondônia 2.153 13,414 4.827 20.709
pr.** 1,9 12,1 4,3 18,6
Acre 8.144 8.166 18.688 35.705
pr. 3,8 3,8 8,7 16,6
Amazonas 109.739 29.393 36.805 178.789
pr. 11,5 3,1 3,8 18,7
Roraima – 10.586 869 11.613
pr. 0,0 25,9 2,1 28,4
Pará 232.940 18.902 130.300 390.073
pr. 10,7 0,9 6,0 18,0
Amapá
785 33,827 2.291 37.194
pr. 0,7 29,6 2,0 32,5
Região norte 353.761 114.288 193.780 674.083
pr. 9,8 3,2 5,4 18,7
Fonte: Tabulação especial do Censo Demográfico, 1970.
* Inclui os migrantes que não puderam ser classificados segundo o
tipo de movimento migratório.
** Proporção.
O Acre constitui um caso à parte. De fato, é a unidade federativa da
região que, embora a mais distante, apresenta o maior contingente da
população de origem de fora da região, cerca de 9%. Tal fato explica-
se, como já foi dito, pela manutenção dos níveis de produção da
borracha, concentrada no Acre, durante todo o período após 1945.
Demograficamente, se entre 1940-1950 há um saldo positivo para
esse Estado, nas duas décadas seguintes as estatísticas de Graham
e Buarque acusam uma emigração praticamente em idêntico volume
à imigração de 1940-1950. Como se está trabalhando com
informação à base do lugar de nascimento, tudo leva a crer ter
ocorrido um afluxo para o Acre seguido de um refluxo para as regiões
de origem, cujo resultado, num momento determinado (1970), é
favorável ao Estado; cabe mencionar, por outra parte, que os
seringueiros com roçado são mais frequentes nessa área 70. Os dados
demográficos disponíveis não permitem responder claramente à
questão, mas as informações relativas à expansão da área cultivada
e da área dedicada à pecuária entre 1965 e 1972 mostram-se
consistentes com o saldo populacional favorável (ver Capítulo IV).
De qualquer modo, os dados censuais indicam, para os territórios,
padrões bem distintos de imigração segundo a sua localização rural ou urbana. Em geral, as proporções de migrantes são maiores nas
zonas urbanas, situando-se ao redor de 22 a 24% da população,
comparadas com as proporções de migrantes de 14 a 17% nas zonas
rurais. As áreas novas, de povoamento mais recente, entretanto –
nomeadamente o Amapá e Roraima – discrepam deste padrão. Na
primeira, os principais contingentes migratórios vieram para zonas
urbanas, chegando a constituir quase metade da população. A
instalação nestas áreas de mineração do manganês resultou, em
verdade, na constituição de novas cidades, como na serra do Navio, e
na alteração demográfica da Capital. Na área de Roraima, de
economia agropecuária, a proporção maior de imigrantes reside na
zona rural, onde constituem praticamente metade da população.
Nas direções dos fluxos, em termos de origem rural ou urbana,
preponderam os movimentos rurais-rurais e urbano-urbanos. São
bastante significativos também os movimentos rurais-urbanos (êxodo
rural). Para a Amazônia, estes tipos de movimento distribuem-se da
seguinte maneira:
Tipo Imigrantes %
Rural-Rural 220.692 32,7
Urbano-Rural 79.863 11,8
Rural-Urbano 121.750 18,1
Urbano-Urbano 251.777 37,4
Total 674.082 100,0
De modo geral, ao âmbito das unidades da Federação da Região
norte, nas zonas rurais, a maior parte dos migrantes provém dessas
mesmas zonas (quase 3/4 para a região) e, nas zonas urbanas,
provém igualmente de zonas urbanas (cerca de 2/3). Há desvios
significativos desses padrões para o caso dos Territórios de Roraima
e Amapá, onde grandes proporções dos migrantes residentes em
zona rural provieram de zona urbana (2/3 no caso do Amapá);
ademais, ainda nesse território, a proporção de migrantes rurais é
maior entre os migrantes residentes nas cidades do que nos que
estão no campo.
Observe-se, ainda, que para os migrantes residentes em zonas
urbanas, as proporções dos provenientes do campo são maiores nas
correntes que vieram de fora da região do que nas intrarregionais ou
interestaduais.
A Tabela VI permite analisar a procedência dos imigrantes de cada
Estado e território da região, bem como dos imigrantes de fora dela.
Os fluxos não são uniformes. Vejamos como se compõem e quais
suas direções. O caso dos territórios é mais claro: do Amazonas para
Rondônia e Roraima, e do Pará para o Amapá; nesses dois últimos
casos, tais fluxos constituem mais de 90% dos imigrantes. Para os
três Estados que foram ocupados na época do ciclo da borracha e
com sua crise, pela reativação da extração da castanha e outras
atividades, a maioria das migrações de fora do Estado veio de fora da
região, com altas proporções do nordeste: vieram da região
nordestina 63, 36 e 55%, respectivamente, dos migrantes de fora do
Estado para o Acre, Amazonas e Pará.
É bom recordar que se trata sempre do último movimento migratório,
aquilatado pela pergunta, no Censo de 1970, para os que não
nasceram no município, em que unidade da Federação tinham o seu
domicílio anterior. Assim, para a região como um todo, o Censo
informa que 73% das migrações inter-regionais, comparados com
61% das migrações intrarregionais (não há destaque na informação
para a parte destas provenientes de fora do Estado), efetuaram-se
nos últimos 10 anos. Somente 27 e 39% desses dois tipos de
movimentos migratórios ocorreram respectivamente em períodos
anteriores. Estas porcentagens devem variar de Estado para Estado,
o que não podemos dimensionar por falta de informação71.
VI a – Estado de proveniência dos migrantes de fora do Estado
Unidades da Federação, Região norte, 1970
Região
RO AC AM RR PA AP
Rondônia nº. – 2086 9096 78 2154 –
% – 11,2 49,0 0,4 11,6 –
Acre nº. 57 – 6804 50 1255 –
% 0,2 – 24,7 0,2 4,6 –
Amazonas nº. 1921 13060 – 1282 12970 160
% 2,8 18,9 – 1,9 18,8 0,2
Manaus nº. 1760 9006 – 1282 12734 160
% 2,9 14,8 – 2,1 21,0 0,3
Roraima nº. – – 10507 – 79 –
% – – 90,5 – 0,7 –
Pará
nº. 360 2100 12275 60 – 4107
% 0,2 1,3 7,8 0,0 – 2,6
Belém nº. 360 1008 8342 – – 3456
% 0,6 1,8 14,7 0,0 – 6,1
Amapá nº. – 274 424 – 33130 –
% – 0,8 1,2 – 91,0 –
Região nº. 2338 17520 39106 1470 49588 4267
% 0,7 5,5 12,2 0,5 15,5 1,3
Para o Acre, segundo consta na Tabela VI, quase 1/5 veio do
Amazonas e mais da metade do Ceará, revelando ainda os saldos
migratórios da “batalha da borracha” e até mesmo anteriores a esta
fase. Para o Amazonas, pouco mais de 40% veio da própria região,
principalmente do Acre72 e Pará; e para o Pará, pouco mais de dez
por cento.
O caso do Pará deve ser mencionado em separado: quase 3/4 dos
imigrantes de fora do Estado vieram do nordeste e de Goiás. Merece
destaque, além do contingente vindo desse último Estado (mais de 30
mil), aquele provindo do Maranhão (mais de 36 mil). Esses fluxos
migratórios indicam o avanço da frente pioneira rural vinda do
nordeste e de Goiás (compare-se a parte dos fluxos, na coluna “fora
da Região”, que se dirigem para Belém com os do Estado).
VI b – Estado de proveniência dos migrantes de fora do Estado
Unidades da Federação, Região norte, 1970 (continuação)
Fora da região Migrantes
de fora
do
CE MA Outros GO Outros Estado
Estados
do
nordeste
Rondônia nº. 1899 315 1107 78 1428 18556
% 10,2 1,7 6,0 0,4 7,7 100,0
Acre nº. 14100 358 2795 50 1385 27561
% 51,2 1,3 10,1 0,2 5,0 100,0
Amazonas nº. 18209 1355 5391 156 11694 69050
% 26,4 2,2 7,8 0,2 16,9 100,0
Manaus nº. 15916 1277 4363 156 11536 60726
% 26,2 2,1 7,2 0,3 19,0 100,0
Roraima
nº. 632 237 – – – 11613
% 5,4 2,0 – – – 100,0
Pará nº. 33036 36298 16743 31128 13095 149202
% 23,1 23,1 10,7 19,8 8,3 100,0
Belém nº. 9397 11639 7977 864 7344 50387
% 16,6 20,5 14,1 1,5 12,9 100,0
Amapá nº. 1487 438 293 – 73 36409
% 4,1 1,2 0,8 – 0,2 100,0
Região nº. 69363 39001 26329 31412 27675 320322
% 21,7 12,2 8,2 9,8 8,6 100,0
Fonte: Tabulações especiais do Censo Demográfico, 1970.
* Incluídos os migrantes sem especificação de proveniências
(pressuposto de que seja de fora da unidade da Federação).
Os dados da Tabela VI mostram também os diferenciais das correntes
migratórias que se dirigem para as duas principais cidades da região,
entre si e em relação com os que vão para o interior. Mais
explicitamente, comparando-se as correntes migratórias para Manaus
(116.472 no total) com as para o interior do Estado (62.317 no total),
nota-se que, para este último lugar, há muito maior proporção que é
oriunda do Amazonas mesmo. De fato, enquanto apenas 13% vieram de fora do Estado para o interior dele, mais da metade dos que se
dirigem para a Capital veio de outras áreas da Amazônia e de fora
dela. De outro ângulo, apenas pouco mais de 8 mil, de quase 70 mil
dos imigrantes para o Amazonas, que vieram de fora do Estado,
localizou-se no interior.
O que se pode depreender destes dados, em conjunto, quanto aos
fluxos rurais-urbanos, é que os que se dirigem às cidades do interior
do Amazonas provêm, na sua quase totalidade, das zonas rurais do
próprio Estado e aqueles que daí se dirigem para Manaus juntam-se
a segmento importante (1/5 a 1/4 do total de imigrantes para esta
cidade) proveniente de zonas rurais de outros Estados; nesta cidade,
como nas outras da região, as correntes migratórias principais são
urbano-urbanas.
Para o Estado do Pará, as correntes migratórias diferenciam-se
bastante. Sobressai a alta porcentagem dos imigrantes do interior que
provêm de fora da Região. Para um total de 130 mil imigrantes de
fora que se dirigiram para o Pará, mais de 70% localizaram-se no
interior. A Tabela VI, referente à unidade da Federação de
procedência, indica, como vimos, que se trata de maranhenses,
goianos e cearenses que se juntam a outros nordestinos num total de
mais de 87 mil pessoas. Infelizmente os dados de que dispomos não
nos permitem distinguir as ondas mais antigas (presumivelmente
cearenses) da mais recente (maranhenses e goianos) que penetram
no leste do Pará como extensão gradativa da frente pioneira.
Os movimentos migratórios aqui examinados, com ênfase na
magnitude dos fluxos, expressam, no fundo, a redistribuição da
massa de trabalho demandada segundo os interesses econômicos e
políticos em jogo – governos federal e estaduais, empresas industriais
e de serviços, empresas agropecuárias e mineradoras, autônomas
urbanas e rurais, latifúndio extrativo e pecuário e sítios – na
organização regional e nacional. Convém desenvolver esta hipótese,
inicialmente no âmbito rural e depois no meio urbano.
65 “Com a instalação de serrarias para atender às empreiteiras, a
demanda de energia elétrica dobrou nos últimos dois anos. O
Governo do Território passou a se preocupar com a instalação de
uma hidroelétrica”. Vitela, 07/10/1974, p. 36.
66 Veja-se BASA, “Movimentos Migratórios, Nomadismo e Êxodo,” pp.
69 a 74, onde são descritos os movimentos do caboclo amazonense,
a desruralização da população, a migração nordestina e japonesa.
67 Visão, 07/10/1974, p. 36. Neste trabalho, veja-se nota 85.
68 Os dados dos municípios de 1950 e 1960 foram agrupados
segundo a divisão por microrregiões de 1970. Em alguns casos, para
se obterem unidades de áreas comparáveis nas três datas, foi preciso
juntar duas microrregiões. Nos casos das Microrregiões 12 e 13, 14 e
15, 22 e 26, 38 e 39 a comparabilidade de áreas exigiu alterações na
sua composição municipal, que passou a diferir um pouco da
definição pelo Conselho Nacional de Geografia.
69 Trata-se de área polarizada por Marabá, onde se desenvolvem
atualmente a pecuária e os castanhais.
70 Observe-se ainda o seguinte: a porcentagem da área das lavouras
nos estabelecimentos, no Acre, caiu de 6% em 1950 para 4,2% em
1960; a taxa de expansão dessa área entre 1947 e 1963 foi de 3,5%,
bem abaixo da média (Região norte. 6,4%), permitindo pensar em
uma produção de roçados. Tais dados (BASA. Cap. 7) estão a indicar
a possibilidade de movimentos de vinda e ida ao “Estado dos
seringais”, o que ajuda a situar os dados demográficos, já que as
informações disponíveis indicam que a exploração do látex acha-se
intimamente vinculada às oscilações dos preços e, no caso do Acre, o
afluxo de gente parece ser uma resposta a esses aumentos. No
entanto, os preços da borracha constituem-se, nesse momento
(1970), em apenas parte da resposta; a outra parte relaciona-se â
expansão da frente agropecuária.
71 Ver MATA, Milton da, et al., Migrações Internas no Brasil. Aspectos
Econômicos e Demográficos, IPEA/INPES, Rio de Janeiro, 1973, pp.
56 e 63.
72 O que ajuda a compreender os movimentos migratórios desse
Estado tratados em páginas anteriores.