Amazônia: expansão do capitalismo

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 3 de 32

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Amazônia: expansão do capitalismo

A área amazônica

Durante os anos 60, com o início da abertura de estradas para a

Amazônia e ligações internas à região, intensifica-se sobremaneira

a penetração das frentes pioneiras; agora não mais oriundas apenas

do nordeste e do Maranhão mas também do sul, via Belém-Brasília,

e, por caminhos naturais, via Mato Grosso para Rondônia e Acre e

sudoeste do Amazonas. Já nesta década começam a surgir as

grandes organizações empresariais para a exploração do manganês

e das terras férteis do Pará.

 

A possibilidade de grandes ocorrências de óleo, de aproveitamento

industrial das fibras vegetais e de minérios, de utilização da área

para “despressurizar” a situação social nordestina e para

aproveitamento empresarial das matas, cerrados e campos, somada

a sugestões e pressões internacionais, megalomaníacas umas

(“grande lago”, “pulmão do mundo”), interesseiras outras (extração

e/ou beneficiamento direto de minerais e alimentos), levou o Estado

brasileiro a tomar a si, como afirmação de sua soberania, a

incumbência de um novo e ordenado devassamento amazônico.

Mas ao fazer isto o Estado passou a avalizar o processo de

acumulação na área, delegando às empresas sulinas tal propósito.

 

Deixando para a segunda parte deste trabalho os aspectos mais

recentes que envolvem a ação governamental relativa à

colonização, aos incentivos fiscais, à ação da empresa privada, à

Transamazônica e à política rodoviária, enfim, aspectos que dizem

respeito ao quarto devassamento do mundo amazônico, procurou-

se retratar, na primeira parte, o processo de povoamento dessa área

brasileira sob o prisma socioeconômico com ênfase nos aspectos

demográficos.

 

Ao manejar as estatísticas disponíveis tendo em vista o processo de

povoamento, buscou-se sempre trabalhar a equação produção-

populaçãoforça de trabalho junto com os demais elementos

econômico-políticos que com ela teceram a história.

 

A área amazônica É uma tarefa difícil a de efetuar um corte de cunho territorial da

chamada Amazônia, ainda mais quando se a olha pelo ângulo das

estatísticas e das informações disponíveis. Em termos puramente

geográficos, os limites da floresta amazônica em território brasileiro,

tomando como ponto de partida o leste, principiam um pouco antes

da Capital do Maranhão (São Luís); daí ela segue em direção ao

sul, englobando três quartos da área desse Estado, afunda-se cada

vez mais para sudoeste, incluindo o tipo norte de Goiás e um terço

do norte matogrossense1. Esta área, se bem que menor, coincide,

grosso modo, com a Amazônia Legal 2, algo em torno de cinco

milhões de quilômetros quadrados, cerca de 59% do território

nacional3.

 

Se bem que no sentido geográfico e no sentido econômico-

demográfico a área mostre grande uniformidade, esta característica

genérica apresenta nuanças de extrema importância. Observe-se,

no entanto, que as informações disponíveis – por se limitarem em

sua quase totalidade ao nível estadual – não permitem o estudo da

área compreendida pela floresta amazônica ou pela Amazônia

Legal. Por conseguinte, a área física abrangida como amazônica

identifica-se, para fins estatísticos com a Região norte 4, isto é, a

área compreendida pelos Estados do Acre, Amazonas e Pará e

pelos Territórios Federais do Amapá, Rondônia e Roraima;

automaticamente, ficam excluídas nas análises censais as áreas

amazônicas dos Estados de Goiás, Mato Grosso e Maranhão.

Quanto a este último, cuja parcela maior de sua área integra a

região amazônica, com exceção dos vales do Mearim e de

Itapecuru, e cuja geografia e parte da economia constituem-se como

espaço de transição entre a Região norte e a Nordeste, tentaremos

tomar os dados estatísticos, notadamente de 1970/72, como

elemento complementar e comparativo da análise.

 

As fontes utilizadas para o presente relatório são monografias e

capítulos de livros pertinentes ao tema, estatísticas dos Censos

Demográficos e do Recadastramento do INCRA de 1972.