Despedidas: 1895-1899

António Nobre · Capítulo 27 de 55

Páginas do PDF

Despedidas: 1895-1899

Outras Poesias

 

A FRANCISCO CEZIMBRA

 

Eu chegara de França uns quatro dias antes

E via-me tão só n'um deserto sem fim,

Lá deixara a alegria, amores, estudantes,

Via a vida, aqui, negra adiante de mim.

Que havia de fazer? Eu não tinha um desejo,

Nada no mundo me podia estimular!

Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo,

Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!

Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar

Pois para que me deste assim um coração!

Tudo quanto via me dava que scismar

De tudo tinha dó, de tudo compaixão.

Ó meus amigos de Coimbra! que saudades

Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzões!

Porque chamaria eu agora, só vaidades

Ao que outrora p'ra nós tinham sido visões?

E conheci depois a phase lastimoza

(Ó meus amigos certos, não m'a queiraes lembrar)

Em que descri de tudo, até da meiga roza

Que via entre velas, aos pés d'algum altar.

De tudo ri então, Senhor, como um perdido

Mas era um rizo mau, Francisco, que feria...

Tu cuja alma em flôr ainda me sorria

Como pudeste tu, meu rizo ter vencido?

1895.