Despedidas: 1895-1899

António Nobre · Capítulo 28 de 55

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Despedidas: 1895-1899

Ladainha da Suissa

 

 

A MARTINHO DE BREDERODE

Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo

Pelas ruas, vendo-me passar:

—Vem tão doentinho, olhae! e é ainda tão novo...

E assim sósinho, sem ninguem para o tratar!

(Que boa a Suissa! que bom é este povo!)

Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes,

Diziam entre si: Quem será este senhor?

Todo de preto, tão pallido, olhos tão grandes!

E rezavam por mim, baixinho, com amor.

(Ó pastoras tão meigas d'estes Andes!)

Por fim entrei receoso em uma caza immensa

Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim.

Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa:

Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!...

(Ah que tristeza a d'essa caza immensa!)

No alto da escada umas Irmãs da Caridade

Vieram, a sorrir, perguntar: «Como vae?»

No olhar d'ellas (tão doce!) havia tal bondade,

Que me julguei feliz, até sorrir, olhae!

(Minhas boas Irmãs da Caridade!)

Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem

Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou...

—«E então como passou? Gostou da sua viagem?

E a Nossa-Suissa que tal acha, não gostou?»

(Ó Suissa da divina paysagem!)

Não me deixava com perguntas. Era Suissa

E não deixara nunca esta alva nação.

Ignorava o que era a Verdade, a Justiça:

Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdão.

(Que ingenua és ainda, Suissa!)

—Vá, quero que me diga o seu nome, primeiro

E depois d'onde vem, quem é... pelo fallar...

—Venho da beira-mar, e sou um marinheiro.

E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar!

(Nos meus olhos o viste tu primeiro.)

Com que doçura, com que mimo e com que graça

Me arranjou tudo! Até meu leito quiz abrir.

E como uma ama diz ao menino que a enlaça,

Disse-me: «Boas noites. Faça por dormir!...»

(Ó Suissa cheia de graça!)

E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno,

E no outro dia eu já estava melhor.

Passados trez, passei de pallido a moreno

Passado um mez, «não é nada» disse o doutor.

(Oh! quanto eu era então feliz, sereno!)

E a boa Irmã toda contente e dedicada

Que sempre estava á escuta em biquinhos de pé

—Vê, tantos sustos! e afinal não era nada!

E se elle disse «não é nada» é que não é!

(Ó boa Irmã, de voz tão delicada!)

Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve

A minha doida mocidade arrependida.

Bemditos sejaes vós, Alpes cheios de neve!

Bemditos sejaes vós que me salvaste a vida!

(E o meu coração que dôce paz vos deve!)

Bemdita sejas tu, ó Suissa meiga e boa!

Gloriosa entre os mais povos, sê bemdita!

Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa!

Bemdita sejas tu entre as nações, bemdita!

(Bemdita sejas, minha Suissa boa!)

Lausanna, 1896.