Despedidas: 1895-1899

António Nobre · Capítulo 32 de 55

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Despedidas: 1895-1899

Contas de rezar

 

 

A Maria dos Prazeres

Mizericordia dos mares!

Que escrevi para tu leres,

Que eu fiz para tu rezares!

M P . A E .

Maria é! Violeta da Humildade

Onda do mar das Indias! sempre triste!

Porque andará tão triste nessa idade

Se o Deus em que ella crê para ella existe?

Maria é! Violeta da Humildade!

Onda do mar das Indias! tão modesta

E tão grande que ella é! Que dôr funesta

A faz andar tão triste nessa idade?

E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta,

Na Igreja, quando ajoelha e se persigna:

«Parece incrivel faça parte d'esta

Humanidade mentiroza e indigna!»

Quanto ella é Santa! quanto ella é boa!

Até tem dó e compaixão por mim...

Mal diria eu que a tragica Lisboa

Tinha em seus muros uma Santa assim!

Ella nasceu para assistir ás guerras

Ella nasceu p'ra atravessar os mares

Ella nasceu para ir a longas terras

Ella nasceu para proteger os lares!

Ella nasceu para ir com portuguezes,

Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas,

Com remedios, ao pé, mezes e mezes,

Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!

Ella nasceu para levar comsigo

Um exercito leal, mystico e forte.

Ser a ultima a dobrar ante o inimigo

E a primeira a morrer, sorrindo á morte!

Ella nasceu p'ra commandar armadas

Vestir a bluza azul dos marinheiros.

Morrer que importa? Sobre agoas salgadas

No immenso oceano não faltam coveiros!

Ella é formosa e grande entre as mulheres,

Sua doçura é toda de velludo...

Mas as respostas que dão malmequeres!

Tristes, Senhor! como na vida é tudo!

Quando ella passa toda côr de cera,

Devagarinho e de missal na mão,

Vae tão ligeira, lembra uma galéra

Que segue viagem de vento á feição!

Os seus olhos são negros e tão bellos

Que grandes são! têm penas disfarçadas...

Que são elles? Ogivas de castellos

Com duas meninas sempre debruçadas.

O seu cabello é negro e immenso e roça

Pelo chão, como a noite e a escuridade,

Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa

Senhora, quando tinha a sua idade!

A sua voz baixinha vem da alma,

Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais.

É assim que falla a aragem pela calma

Quando mareantes pedem temporaes.

Vozes assim só se ouvem no convento

Á oração em silencio habituado,

Que Deus entende a voz do Pensamento:

Póde fallar-se a Deus e estar callado!

Os seios lembram duas pombas gemeas

No seu ninho a dormir, muito quietinhas.

Amor, protege o somno d'ellas, teme-as,

Não acordes as pombas coitadinhas!

Que dizer do seu corpo esbelto de aza!

Tão delgado, onde passa o seu annel?

É o mais lindo Torreão da sua Caza!

É uma náu da India, a S. Gabriel.

Os seus braços são debeis! mas exaltam

E sustentam em mim toda a Esperança!

Os seus braços, Senhor! são os que faltam

A certa Venus que se admira em França!

O seu sorrizo é o sol, quando apparece,

Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar;

Mas o seu habitual, ai não se esquece!

É o sol ás tardes quando cahe no mar...

A sua bocca é uma romã vermelha,

Mostrando em rizos os seus grãos de opala.

Favo de beijos, que dá mel á abelha,

A sua bocca é uma flôr com falla!

Lisboa, 1898.