Despedidas: 1895-1899
Contas de rezar
A Maria dos Prazeres
Mizericordia dos mares!
Que escrevi para tu leres,
Que eu fiz para tu rezares!
M P . A E .
Maria é! Violeta da Humildade
Onda do mar das Indias! sempre triste!
Porque andará tão triste nessa idade
Se o Deus em que ella crê para ella existe?
Maria é! Violeta da Humildade!
Onda do mar das Indias! tão modesta
E tão grande que ella é! Que dôr funesta
A faz andar tão triste nessa idade?
E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta,
Na Igreja, quando ajoelha e se persigna:
«Parece incrivel faça parte d'esta
Humanidade mentiroza e indigna!»
Quanto ella é Santa! quanto ella é boa!
Até tem dó e compaixão por mim...
Mal diria eu que a tragica Lisboa
Tinha em seus muros uma Santa assim!
Ella nasceu para assistir ás guerras
Ella nasceu p'ra atravessar os mares
Ella nasceu para ir a longas terras
Ella nasceu para proteger os lares!
Ella nasceu para ir com portuguezes,
Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas,
Com remedios, ao pé, mezes e mezes,
Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!
Ella nasceu para levar comsigo
Um exercito leal, mystico e forte.
Ser a ultima a dobrar ante o inimigo
E a primeira a morrer, sorrindo á morte!
Ella nasceu p'ra commandar armadas
Vestir a bluza azul dos marinheiros.
Morrer que importa? Sobre agoas salgadas
No immenso oceano não faltam coveiros!
Ella é formosa e grande entre as mulheres,
Sua doçura é toda de velludo...
Mas as respostas que dão malmequeres!
Tristes, Senhor! como na vida é tudo!
Quando ella passa toda côr de cera,
Devagarinho e de missal na mão,
Vae tão ligeira, lembra uma galéra
Que segue viagem de vento á feição!
Os seus olhos são negros e tão bellos
Que grandes são! têm penas disfarçadas...
Que são elles? Ogivas de castellos
Com duas meninas sempre debruçadas.
O seu cabello é negro e immenso e roça
Pelo chão, como a noite e a escuridade,
Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa
Senhora, quando tinha a sua idade!
A sua voz baixinha vem da alma,
Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais.
É assim que falla a aragem pela calma
Quando mareantes pedem temporaes.
Vozes assim só se ouvem no convento
Á oração em silencio habituado,
Que Deus entende a voz do Pensamento:
Póde fallar-se a Deus e estar callado!
Os seios lembram duas pombas gemeas
No seu ninho a dormir, muito quietinhas.
Amor, protege o somno d'ellas, teme-as,
Não acordes as pombas coitadinhas!
Que dizer do seu corpo esbelto de aza!
Tão delgado, onde passa o seu annel?
É o mais lindo Torreão da sua Caza!
É uma náu da India, a S. Gabriel.
Os seus braços são debeis! mas exaltam
E sustentam em mim toda a Esperança!
Os seus braços, Senhor! são os que faltam
A certa Venus que se admira em França!
O seu sorrizo é o sol, quando apparece,
Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar;
Mas o seu habitual, ai não se esquece!
É o sol ás tardes quando cahe no mar...
A sua bocca é uma romã vermelha,
Mostrando em rizos os seus grãos de opala.
Favo de beijos, que dá mel á abelha,
A sua bocca é uma flôr com falla!
Lisboa, 1898.