Despedidas: 1895-1899

António Nobre · Capítulo 49 de 55

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Despedidas: 1895-1899

Ás Senhoras de Lisboa

Rezae, rezae, Senhoras por aquelle

Que no Mundo soffreu todas as dores!

Odios, traições, torturas,—que sabe elle!

Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!

E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,

A espera que o enterrem entre as flores...

Ouvi: estão os sinos a tocar:

Senhoras de Lisboa! ide rezar.

 

ÁS SENHORAS DE LISBOA

 

Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo.

Gosto do sol, oh certamente! mas segundo

O meu humor. Á noite, ha esquecimento, ha paz,

De dia, apenas tenho um ou outro rapaz

Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem ás vezes.

Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes)

Faço da noite dia. As grandes descobertas

Que eu descobri! Estou de janellas abertas

Quando os outros estão de janellas fechadas...

Ó fontes a correr como linguas de espadas,

Ó fontes a furar quaes mineiros a fragoa,

Ó fontes a rezar, como freirinhas d'agoa,

Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas,

E só vos falta estar, como ellas de mãos postas!

Ouvi, lá rezam: sob o céu todo estrellado,

«Padre-Nosso! que estás no céu, sanctificado...»

Noites e dias sem parar um só momento,

Só vós me ouvis, e eu só a vós e mais o vento.

Que dôr é a vossa! qual será? não sei, não sei

Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi!

Agoas, só de perdão, suspiros e piedades,

Ó fontes de Belem! Ó fontes de saudades!

Contae para eu scismar, uma bonita historia

Qualquer, a que vos vier mais depressa á memoria.

Contae que eu sou ainda uma criança, gosto

Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto!

Ó rios a contar historias, como as criadas,

Historias de ladroes, mais historias de fadas,

A do Zé do Telhado e da triste viuva

Que só sahia á rua pelas noites de chuva!

E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes!

Os tristes ventos a assoprar das quatro partes:

São os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas,

Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rôlas;

Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas

E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas

Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra.

Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra

Que azula o céu e o rio, e deu ao mar a gloria

De levar as Naus do Gama á India da victoria.

E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora ás Luas!

Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas)

Sonetos de ais que só comprehende quem ama:

E de noivos a quem deu o lençol e a cama.

As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes:

(Pois quando está p'ra isso tambem conta ás vezes)

O mar! como elle conta ás noites tanta historia,

Contos de cavalleiros sublimes de victoria;

Contos de espadas nuas, em mãos desses guerreiros,

E contos de segredo que ouviu aos marinheiros

Lá pelas noites calmas, á luz da lua branca,

Quando choram seus males, que só a lua estanca.

O mar! O mar, oh sim! O mar é meu amigo.

Quantas vezes a rir, vem conversar commigo

N'essas noites tão longas d'infinda solidão

Em que vela no mundo, tão só meu coração!

Quantas vezes na hora em que dormem crianças

E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranças

Para embalar o peito de quem no mundo as tem;

Á hora em que ha mais treva nas sombras desta terra,

(Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.)

Á hora em que ha mais luz no céu todo estrellado,

Eu fico só e scismo, nas dôres do meu passado.

E quando emfim eu chóro, pensando nessas magoas

Lá oiço a voz sublime d'aquellas grandes agoas

Que querem vir chorar commigo e conversar.

Historia é uma d'elle, esta que vou contar;

Ouvi-a em alta noite escura de janeiro

E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro.

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Senhoras escutae-a! se tendes coração,

Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mão:

Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraça

Tambem é caridade, Senhoras cheias de graça!

Dae-me um pranto vosso a este soffrimento,

Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento.

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Senhora minha, perdão

Anjo do meu coração

Pois a escrever eu me affoito?

Estamos no julho, a oito

Dia de Vasco da Gama

(D'oravante assim se chama)

Ai as saudades que eu tenho!

Pois olha escrevo-te e venho

Dar-te noticias do teu

Apaixonado. Sou eu.

Anrique, pastor de ovelhas.

Tenho-as brancas e vermelhas,

Pretas, de todo o tamanho.

Tivesse-te eu no rebanho

Porém como tu ainda

Não vi nenhuma mais linda.

Eu pensei que tu amavas

O teu pastor, mas brincavas.

Mas amo-te eu, muito embora.

Não sou amado, Senhora?

—Não o és, nem nunca o has-de ser—

Pois seja o que Deus quizer!

Vou pelas serras mais altas

Mas vejo que tu me faltas

E logo fico a pensar

Que bom e triste é amar!

Um amor sem esperança

É um bem que não se alcança.

Nasci debaixo d'um signo

Que em nada me é benigno;

Já não póde ser desfeito

O que está feito, está feito.

Ai de mim! não sou amado!

Ai de mim, triste e coitado!

Fumo saindo dos cazaes

Que aspirações vós levaes!

As minhas não vão tão alto:

............................

São bem simples e modestas:

Bons dias e boas sestas!

Com mui pouco me sustento:

O amor é meu alimento.

O meu pão de cada dia,

Lagrymas, minha agoa fria,

Quem me dera andar comtigo

No mar cheio de perigo!

Ir á Africa n'uma Nau

Na San Rafael de pau,

Como os nossos Portuguezes!

E andar por lá sete mezes,

Sete annos, ou mesmo mais

Sem medo dos temporaes!

Outros ha pior de passar...

Já tantos tive no mar

Já tantos tive na terra

Que já nenhum me faz guerra.

Nós dois sós, e porque não?

Sem maior tripulação.

Eu seria o commandante

D'aquella nau almirante!

Oh que formoza serias

Queimada das marezias!

Vestida de marinheiro

Ai sobe! sobe! gageiro

Aquelle topo real,

Diz adeus a Portugal,

Que lá nos vamos, Adeus!

E partiriamos com Deus!

Oh que viagem venturoza!

Pela Azia religioza

Mais pelas terras do sul

Com mar e ceu sempre azul!

Vêr no ceu planetas novos

Vêr pela terra outros povos,

Outras leis, novos costumes,

Capellas cheias de lumes,

Á California do Oiro

E lá achar um thesoiro.

Vêr (que isso nunca se perde)

O celebre «raio verde»

Do sol-pôr no mar da America!

Oh! a viagem chymerica!

De gatas, como as gatinhas,

...........................

Tu subirias aos mastros

(Tão altos que vão aos astros)

Sem receios das procellas!

E dobrarias as velas

A bujarrona, a latina.

Com tuas mãos de menina!

Oh! vem d'ahi commigo! eu parto!

Quando estivesses de quarto

A mão no leme segura

A nau iria á ventura

Ó suspiro das aragens!

Ó phantasticas miragens!

Não tenhas mêdo. Morrer

Não custa nada, é viver.

Custa menos que se pensa.

O principal é ter crença.

Morre o corpo, a alma abre aza

E vae: é mudar de caza...

Mas nem sempre ha mares grossos

E que houvesse! Os padres nossos

Fazem muito em tua bocca.

Voz dôce acalma voz rouca!

Tu não temes temporal

És filha de Portugal!

Se morressemos, que importa!

Que bella serias morta!

Minha Senhora da Esp'rança

Já na Bemaventurança!

Ir comtigo pr'o outro mundo,

E juntos para o profundo

Para esses mares salgados,

N'um abraço amortalhados!

Meu pensamento fluctua

Perdoa (lá vem a Lua)

Esta carta tão comprida!

Mas eu amo nesta vida

Duas coisas, tu primeiro

Depois o mar, sou poveiro!

Mas hoje, Senhora minha,

Sou pastor sem pastorinha,

Ainda hontem era estudante

Porque não sou navegante!

Foi sempre a minha paixão;

Era a minha vocação.

Mas a minha Mãe não quiz

Talvez fosse mais feliz.

Ah, Senhora! vou deixar-te!

Minha Mãe por toda a parte

Anrique! Anrique, onde estás?

A pregação que ella faz

Tudo por amor de ti

(E já lhe oiço a voz d'aqui)

E as ovelhas? Ai, Senhor!

Não sirvo para pastor.

Cada uma p'ra seu lado

Não dou conta do recado.

Minha Mãe ralha que ralha

Ai, Senhor! Jezus me valha.

E adeus que me vou embora

Pois, boas noites, Senhora!

Ah! eu estou, aqui, tão bem...

E lá torna a minha Mãe

—Anrique, Anrique, onde estás?

—Onde te somes, rapaz!

Tem razão, é já tão tarde!

Na lareira o lume arde

E fuma, aceza a candeia:

Minha Mãe que faz a ceia!

Ha que tempo ella passou

Com a lenha que encontrou!

Desprezada nos caminhos...

Nós somos mui pobrezinhos!

E eu, aqui, á lua, á farta.

Prompto. Acabo, aqui, a carta.

Adeus! são horas de eu me ir

Cear, rezar... e dormir.

Nossa-Senhora me ajude!

A minha Mãe não se illude

Com toda esta demora

Ella bem sabe, Senhora!

E lá torna a Mãe: Anrique

Queres que eu me mortifique?

Anda cear, não tens fome?

Jezus! Jezus! Santo Nome!

Eu bem sei e bem no entendo.

O que são Mães! Em me vendo

Quando todo me concentro

Que trago paixão cá dentro.

Isto já ha muitos mezes.

Mas nada diz. Só ás vezes

Quando não como e me deito

Assim... a tossir do peito,

Tambem não quer ella comer

E aventura-se a dizer:

«Amores—filho, paixões

Só trazem consumições»

E assim é, assim, Mãesinha!

Pois adeus, Senhora minha!

..........................

Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa

Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza.

É a hora em que Paris começa a louca vida

Na tragica cidade ao sol adormecida.

O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna

Que em tempos já molhei nas agoas do teu Sena

Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar!

Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards!

Ó vêde a pallidez da luz d'aquelle gaz,

Vêde a côr mortuaria, que aos rostos elle traz!

Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva;

Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva

Que pede aqui cantando, e canta ali chorando,

E assim de pranto e riso seu pão vae amassando;

Ó Paris de Verlaine e poetas sonhadores!

Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores;

Paris que me acolheste n'agreste mocidade

Eu não te amo não, mas dou-te uma saudade.

Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento,

Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento.

Não vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo

Nem vejo o céu azul, Senhoras!... mas eu vejo

Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos,

Que pela luz que tem não contam muitos annos.

E a lua que anda fugida, lá pelo céu profundo

Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo.

.............................................

 

Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras

E quando no adro branco, as notas derradeiras

Perderam-se voando, julgou n'um som dorido

Reconhecer a voz do seu amor perdido!

São sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios

Tão brancos como elles... vermelhos nos martyrios!

.............................................

Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir?

Ingenuo é o seu cantar... talvez vos faça rir!

«Vi-te ha pouco rezando nas novenas

Ai tão linda, tão pallida, meu Deus!

Quaes são as tuas dores, as tuas penas,

Por quem levantas tuas mãos aos céus!

«Cantae, ó freiras Benedictinas,

Cantae, cantae,

Cantae novenas, cantae matinas,

Cantae, cantae.

«No Boul'Mich, os castanheiros da India

Começam a despir as folhagens, ao luar,

Que bellas armações, para galeras da India

Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar!

«Tudo tão triste! todos tão tristes!

Olhae, são poucas todas cautelas

Doentes do peito, cuidado, ouvistes?

Tirae do armario vossas flanellas!

«Cantae o canto Gregoriano

Para eu chorar!...

Cantae ó freiras! durante um anno

Para eu... chorar!...

«Andam meus olhos luzitanos

A procurar-te,

Minha chymera! tenho vinte annos!

Eu quero amar-te!

«Ó sinos de toda a França

Cantae, cantae o meu mal,

Tão alto, essa voz não cança,

Que ella os oiça em Portugal!

«Cantae o canto Gregoriano

Para eu chorar!...

Cantae ó freiras durante um anno

Para eu... chorar!...»

...................................

 

Morrera já o Sol; os altos castanheiros

Choravam á voz do vento, quaes lugubres troveiros,

Os choupos retorciam os troncos já despidos,

Parecendo erguer ao céu seus braços resequidos,

Ao darem as «Trindades» no claustro, de mansinho,

Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho.

A cruz meio inclinada parecia desmaiar

Perdida na côr pallida da luz crepuscular;

Eram mysterios da hora nervoza da tardinha

Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha!

A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmãos,

Scismando no meu Lar, eu junto as frias mãos;

A hora em que o traidor por mais que faça esforços

Não póde em si calar o susto dos remorsos;

A hora em que se acende o lume nas lareiras

E ladram cães ao longe, em véla pelas eiras;

A hora em que entristece na rua o caminhante,

E pára vendo o Sol cahir agonisante;

E as raparigas trémulas se vão fechar as portas,

Ouvindo ao longe as rãs, gritar em agoas-mortas!

 

Ó Senhora d'altas Espheras!

Castellã das minhas chymeras!

Ó meu amor!

Amor mystico, amor celeste

Que tu pelo Natal me deste,

Senhor! Senhor!

Sou forte agora, e temerozo,

Sou um rei Todo Poderozo

Senão olhae!

Só diante de ti me humilho

Senhor! Senhor! Sou teu filho

E tu meu Pae!

Venham armadas de Inglaterra

Venham as naus de toda a terra,

De todo o mar!

Que eu só por entre ellas e o Oceano,

Na minha nau a todo o panno,

Hei-de passar!

Venha o exercito da Allemanha,

Mais seus alliados, mais a Hespanha,

Hei-de vencer!

Tu és grande, és forte, Guilherme!

Tu és um mundo, eu sou um verme...

Vamos a vêr!

Venha uma immensa tempestade,

Caiam raios sobre a cidade,

Venham trovões!

Que eu irei só para as janellas,

Sem Santa-Barbara, sem velas,

Sem orações!

Soldados de Alsacia e Lorena!

(A bella França assim m'o ordena)

Vamos! Então?

Atirae balas aos meus peitos,

Que eu apanho-as, como confeitos,

Na minha mão!

Venham Philosophos, Douctores,

Venha Spinoza, outros maiores,

Gregos, Judeus;

Venham Estoicos, Pessimistas,

Cynicos, os Positivistas...

Eu creio em Deus!

Ó morte, minha amiga de outr'ora

Que fazes ahi, ha mais d'uma hora!

Queres-me? Ah sim?

Cortei as relações comtigo

Ó vae-te! já não sou teu amigo,

Nem tu de mim!

Ó Luiz de Camões e da Esperança!

Ao pé de ti sou uma criança,

Mas ouve cá.

Vamos cantar ao desafio,

Á sua janella, sobre o rio,

Ver qual mais dá...

Ó troveiros de toda a parte

D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte!

O que sois vós?

Minha lyra é do seu cabello,

E os meus versos, quereis sabel-o?

São a sua voz!

Ó vento cantante do Norte!

Minha lyra agreste é mais forte

Do que a tua!

Vinde todos, troveiros do ar,

Em desafio commigo a cantar

Por essa rua!

....................................

 

Vem entrando a barra a galera «Maria»

Que vem de tão longe e tão linda que vem!

Toca em terra o sino p'ra missa do dia

Em frente, em Santa Maria de Belem!

Mareantes trigueiros no alto dos mastros,

Aí dobram as velas não são mais precizas!

Ai que lindas eram, ás luas e aos astros!

Que doidas, aos ventos! que meigas, ás brizas!

Desdobra as amarras! apresta a fateixa!

Pois todos em breve a nau vão deixar;