Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal

Tania C. Araújo-Jorge · Capítulo 1 de 40

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Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal

Apresentação

 

A doença de Chagas não é apenas uma das maiores endemias da América Latina. É a doença que marcou, profundamente, a história da "Escola de Manguinhos", como era conhecido o Instituto Oswaldo Cruz (IOC) no início do século. Marcou, pelo orgulho do IOC em ter sediado o trabalho científico e intelectual de Carlos Chagas, caso único na história da medicina em que o mesmo cientista descreve uma doença até então desconhecida, identifica seu agente etiológico e seu mecanismo de transmissão. Esse grande cientista não só atraiu outros colegas como também formou novos pesquisadores, compondo uma equipe atuante nos mais diversos campos como patologia, diagnóstico e terapia. Marcou, também, pela forte influência que exerceu na condução das pesquisas no IOC ao longo deste século prestes a terminar. Desde a clássica tese de doutorado de Emmanuel Dias, aluno de Carlos Chagas, o Instituto conta, às centenas, as teses que têm sido orientadas por seus pesquisadores nas temáticas básicas e clínicas da doença de Chagas, sobre os mais variados aspectos do comportamento biológico do seu causador, o Trypanosoma cruzi, em humanos e em diferentes modelos animais, ou nos triatomíneos, seus vetores naturais.

Desde sua descoberta, em 1909, por Carlos Chagas, a doença de Chagas tem sido estudada ininterruptamente no Instituto e em um número crescente de instituições brasileiras, latino-americanas e de outros países. Tem sido ensinada em cursos de graduação (medicina, farmácia, enfermagem, biomedicina etc.), em diversas disciplinas (doenças infecciosas, patologia, cardiologia, gastroenterologia, epidemiologia etc.). Em cursos de pós-graduação, a doença de Chagas aparece em disciplinas semelhantes, em níveis mais aprofundados. Porém, onde mais se aprende e se atualiza sobre esta doença é nas reuniões anuais sobre pesquisa básica e sobre pesquisa aplicada em doença de Chagas e leishmaniose, as já famosas reuniões de Caxambu e de Uberaba, respectivamente. Nelas se forjou uma comunidade científica integrada, nacional e internacionalmente, que contribuiu para um forte impacto da participação brasileira no cenário da ciência mundial, especialmente em parasitologia. Nessas e em outras reuniões promovidas por sociedades científicas como as de medicina tropical, epidemiologia, parasitologia, protozoologia, imunologia, entre outras, têm se formado gerações de pesquisadores brasileiros ativos na investigação sobre doença de Chagas no Brasil.

Em 1999, após noventa anos da descoberta da doença, temos a grata satisfação de observar que este manual, editado para suprir uma lacuna na área de experimentação animal em doença de Chagas, foi em grande parte escrito por profissionais e alunos tanto do IOC como de outras unidades da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), como o Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz e o Centro de Criação de Animais de Laboratório. Das 49 pessoas envolvidas na redação deste manual, 38 são da Fiocruz, uma desmonstração de que a instituição ingressará no próximo milênio com um trabalho cada vez mais integrado entre suas diversas equipes de pesquisa e produção.

Quando organizamos a disciplina Doença de Chagas Experimental, verificamos que não conhecíamos nenhuma disciplina acadêmica, em qualquer curso de graduação ou pós-graduação no Brasil, que focalizasse especificamente essa temática. O desafio de orientar estudantes de mestrado e doutorado em trabalhos de pesquisa sobre modelos animais da doença de Chagas, e articulá-los com aspectos da doença humana, nos levou a tentar sistematizar, em uma disciplina, o ensino dos aspectos básicos da doença e dos procedimentos para o trabalho com animais. O curso, essencialmente prático, se propunha a apresentar um experimento completo para estudo de um determinado aspecto do desenvolvimento da infecção experimental em camundongos. Na primeira versão, em 1994, para cinco alunos, reunimos uma bibliografia geral, com capítulos de livros e revisões em periódicos, que nos serviram para introduzir, conceitualmente, os problemas e preparamos as primeiras apostilas de protocolos de trabalho experimental. Na segunda versão da disciplina, para vinte alunos, em 1996, o CNPq financiou a vinda da Prof. Maria Teresa Rivera para um período de quarenta dias no Brasil. Introduzimos, então, além das atividades práticas, uma série de conferências de pesquisadores do IOC e de outros centros. Essas aulas teóricas sobre diversos aspectos da doença de Chagas tiveram um grande sucesso, levando a dois desdobramentos. O primeiro foi a organização deste livro, que sistematiza e consolida as contribuições dos pesquisadores que participaram e prontamente redigiram os capítulos que o compõem. A eles nossos profundos agradecimentos. O segundo desdobramento foi a extensão da disciplina para uma outra: Atualização em Doença de Chagas. Atualmente ambas são oferecidas a cada dois anos na pós-graduação do IOC, com ampla participação de pesquisadores do Instituto e de convidados.

É com orgulho, e com muito prazer, que apresentamos à comunidade este livro, inspirado no pioneiro, editado em 1983 por Carlos Morel no seu curso Genes and Antigens of Parasites, que tem servido como livro base de procedimentos em bioquímica e imunologia de tripanosomatídeos para muitas gerações de novos cientistas. Assim como os cursos, o livro compõe-se de duas partes, uma com conceitos teóricos atuais sobre a doença e a resposta do hospedeiro à infecção, e outra que sistematiza procedimentos práticos para abordagens parasitológicas e imunopatológicas da doença de Chagas em modelos animais. É claro que a atual multidisciplinaridade indispensável à ciência moderna nos impede de fazer uma publicação completa e nos remete a outros manuais de protocolos práticos, seja em bioquímica, em imunologia ou em biologia celular. Da mesma forma, referimos um conjunto de publicações recentes que podem complementar os aspectos introduzidos nos capítulos teóricos deste manual. Na falta de um manual prático atual de parasitologia experimental, esperamos que essa publicação possa ser útil. Pretendemos que o livro contribua também para o engajamento futuro de outros colegas na redação de aspectos teóricos e práticos da experimentação animal que certamente ainda precisam ser desenvolvidos e, por isso, permanecem como lacunas nesta edição. Esperamos que a versão em CD-ROM, que se seguirá a este manual, garanta agilidade e a possibilidade de atualização de arquivos a todos os que se interessarem por esse trabalho, agora e no futuro. A escolha da língua portuguesa foi definida pelo público que pretendemos atingir: estudantes brasileiros e latino-americanos, que formarão a nova geração de cientistas com que o Brasil contará no início dos próximo século e milênio, e que ainda encontrarão cinco a seis milhões de indivíduos chagásicos sob o risco de morte por cardiopatia a desafiar nossa capacidade de explicação para o fato de que alguns desenvolvem a doença enquanto outros equilibram muito bem seu convívio na relação parasita-hospedeiro. Todas as contribuições de leitores na avaliação deste livro, seja em sua utilidade como guia prático ou em seus aspectos teórico-conceituais, serão muito bem-vindas e agradecidas.

Rio de Janeiro, agosto de 1999

Tania C. de Araújo-Jorge & Solange Lisboa de Castro