Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
Capítulo 13 - Sangria de animais e preparo de inóculos para infecção experimental
Capítulo 13 - Sangria de animais e
preparo de inóculos para infecção
experimental
Tania C. Araújo-Jorge; Maria Teresa Rivera; Solange L. de Castro; Marcos Antônio P. Marques
13.1 Métodos de sangria
Tanto para a análise hematológica dos animais antes da infecção (ver Capítulo 12) como para se obter o sangue que será usado no preparo do inóculo, pode-se proceder tanto por sangria total do animal infectado, por punção cardíaca, como por sangria parcial, pela cauda ou plexo orbital. O sangue deverá ser colhido em anticoagulante e diluído em solução salina fisiológica.
USAR LUVAS, MÁSCARA E GUARDA-PÓ DE
MANGAS COMPRIDAS
13.1.1 Sangria pela cauda
Objetiva preparar lâmina para contagem de parasitemia, esfregaço para contagem leucocitária, medida do hematócrito e coleta de plasma.
Material
• caixa de contenção do animal
• tesoura de ponta fina e afiada
• algodão
• capilares heparinizados para microhematócrito e borracha de
sucção do capilar
• massa plástica para vedação do capilar
• suporte plástico para capilar com marcação milimetrada
• lâminas de vidro para esfregaço sangüíneo
• fósforos
• tubos de microcentrífuga
• caneta de diamante
• centrífuga de microhematócrito
• caixas de descarte de material com as soluções desinfetantes
apropriadas.
Procedimento
• identificar os capilares, as lâminas e os tubos que serão
utilizados para o recolhimento de sangue dos diferentes
camundongos;
• colocar o camundongo na caixa de contenção, com a cauda
para fora;
• com uma das mãos, massagear a cauda no sentido da base
para a ponta e segurar na ponta;
• com a tesoura na outra mão, cortar 1 mm ou menos da ponta
da cauda;
• recolher uma gota para o preparo de esfregaço, que deve ser
feito imediatamente por uma segunda pessoa. Caso seja feita a
contagem de hemáceas ou leucócitos basta recolher uma gota
do sangue sobre placa de Petri que será então utilizada para o
procedimento de diluição e contagem;
• segurar a cauda do animal com as duas mãos e tornar a
repetir o massageamento da base para a ponta, até aparecer
nova gota, que será recolhida no capilar heparinizado (atenção:
a ponta do capilar que contém a heparina geralmente é
marcada com vermelho). Basta encostar a ponta heparinizada
do capilar na cauda do animal e o sangue é transferido
naturalmente para o seu interior;
• colocar o capilar horizontalmente sobre o suporte milimetrado
e repetir o procedimento do item quinto acima (recolher uma
gota para o preparo do esfregaço...) até encher o capilar do
volume necessário (cada mm de capilar corresponde a 1 µl de
sangue);
• ao final, colocar verticalmente o capilar sobre a massa plástica
para vedá-lo;
• cauterizar a cauda do camundongo com fósforo;
• centrifugar o capilar em centrífuga de microhematócrito;
• ler o hematócrito contra régua própria ou régua simples de
marcação milimetrada, caso o volume retirado seja menor que
70 µl de sangue;
• colocar o capilar sobre um suporte e riscar com a caneta
diamante logo acima do creme leucocitário;
• quebrar o capilar em suas partes de plasma e células e
transferir o plasma para um tubo de microcentrífuga, com o
bulbo apropriado;
• congelar o plasma para análises posteriores.
No caso de trabalho com animais infectados, ao invés de vedar o capilar verte-se o sangue diretamente num tubo de microcentrífuga para a contagem de parasitas e o preparo da diluição do inóculo. Pode-se colher também diretamente o sangue no tubo de microcentrífuga, mas para que não coagule é necessário molhar a ponta da cauda com anticoagulante (heparina).
13.1.2 Sangria por punção do plexo orbital
Nos pequenos animais de laboratório a punção de uma veia é delicada, não permitindo a retirada de uma quantidade considerável de sangue e é difícil a sobrevida do animal quando obtemos uma quantidade significativa de sangue. É preferível recorrer à técnica preconizada por Hoffmann, que consiste em puncionar o plexo orbital existente nos mamíferos, entre o glóbulo ocular e o fundo da cavidade orbitária.
Material
• tubos capilares heparinizados
• tubos de microcentrífuga
• colírio anestésico (cloridrato de proximetacaína 0,5%)
Procedimento
• a contenção do animal é realizada pela região cervical, de
modo que automaticamente provoque uma estase venosa na
região cefálica, provocando a exteriorização do glóbulo ocular;
• após a exteriorização do glóbulo ocular deve-se instilar uma
pequena gota do colírio anestésico;
• introduzir o tubo capilar verticalmente entre o glóbulo ocular
exposto e o fundo da cavidade orbitária;
• realizar uma ligeira pressão acompanhada de movimentos de
rotação do tubo capilar;
Obs: assim que o plexo orbital é puncionado, o sangue
preenche espontaneamente o tubo capilar. O relaxamento da
pressão exercida sobre a região cervical, utilizada para conter o
animal, faz cessar consideravelmente o fluxo sangüíneo.
• transferir o sangue recolhido para um tubo de microcentrífuga,
previamente identificado.
Obs: a técnica de punção do plexo orbital pode ser novamente
realizada 72 h após a primeira punção.
13.1.3 Sangria por punção cardíaca
Material
• placa de cortiça com quatro agulhas para fixação do animal
• câmara de anestesia (vidro de boca larga, com tampa, e
algodão no fundo)
• éter etílico para anestesia
• tubos de microcentrífuga
• pissete com álcool
• seringas de 1 ml com agulhas de ponta fina e curta (13X4,5)
• anticoagulante (heparina ou citrato de sódio 3,8%)
• caixas de descarte de material com as soluções desinfetantes
apropriadas
Procedimento
• colocar o camundongo infectado na câmara anestésica;
• preparar a seringa com anticoagulante enquanto o animal está
sendo anestesiado: 0,1 ml de citrato de sódio 3,8% para cada 3
ml de sangue ou molhar a seringa com heparina;
• fixar o camundongo na placa, em posição de cruz;
• segurar a seringa com a mão direita (para dextros) e
puncionar sobre o terceiro espaço intercostal (esquerdo) do
camundongo;
• inserir a agulha de modo a perceber a perfuração da pele e do
pericárdio;
Obs: o sangue jorrará assim que a agulha estiver dentro do
ventrículo esquerdo do coração.
• aspirar lentamente com o embolo até completar 1 ml;
• retirar a seringa, descartar a agulha no recipiente apropriado e
colocar o sangue no tubo de microcentrífuga;
• sacrificar o animal, caso não tenha ocorrido sua morte, através
de overdose do anestésico ou por deslocamento cervical;
• descartar o animal em saco plástico mergulhando-o em formol
4%.
13.2 Inoculação
13.2.1 Escolha da via de inoculação
Diversas vias de inoculação podem ser usadas para a infecção por Trypanosoma cruzi, sendo mais comuns a subcutânea (SC) e a intraperitoneal (IP). Todas dão o mesmo resultado, com alguma diferença na cinética da parasitemia. A infecção também se transmite por inóculo via oral, mas não há muitos estudos comparando a resposta usando diferentes vias com diferentes modelos experimentais.
13.2.2 Cálculo e preparo do inóculo
Inóculo/animal
• mínimo: 102 (próximo ao fisiológico)
• médio: 103 4 a 10
• alto: 105 8 a 10
Material
• solução estoque de parasitas
• diluente: solução salina fisiológica (NaCl 0.85%), Alsever, etc.
• seringa de 1 ml
Preparo do inóculo intraperitoneal
Obs: recomenda-se dobrar o volume necessário para se trabalhar com folga.
Exemplo: para infecção de vinte animais com 104/animal em 200 ml, necessita-se de 4 ml (vinte animais x 200 ml) (utilizar o dobro, 8 ml, como dito acima) de um inóculo na concentração de 5.104/ml
• sendo, por exemplo, a solução estoque de parasitas = 40.105
parasitas/ml, deve-se diluir esta suspensão
• fórmula para diluição V N = V N 1 1 22
• vol x 400.104 4 = 8 x 5.10
• vol = 0,1 ml
• preparo da diluição = 0,1 ml da sol. estoque de parasitas + 7,9
ml diluente
Obs: no caso de inoculação SC, os cálculos devem ser feitos
para um volume de 100 ml, ou seja, 104/animal em 100 ml,
necessitandose de 4 ml (utilizar o dobro 8 ml, como dito acima)
de um inóculo na concentraçao de 10 x 104/ml.
Referências bibliográficas
CARVALHO, W. F. Técnicas Médicas de Hematologia e Imunohematologia. 1983. Cooperativa Editora e de Cultura Médica, Ltda.
GARCIA-NAVARRO, C. E. K. & PACHALY, J. R. Manual de Hematologia Veterinária. 1994. Editora Vanela.
HOFFMANN, G. Les animaux de laboratoire. 1963. Paris: Vigot Fréres.
RULIER, J. & PARODI, A. Laboratoire et diagnostic en Médicine Véterinaire. 1968. Paris: Vigot Fréres.