Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
10.3 Planejamento de um experimento com infecção in vivo pelo Trypanosoma cruzi
Tabela 5 – Características do clone CL Brener, adotado no Projeto
Genoma
10.3 - Planejamento de um experimento com
infecção in vivo pelo Trypanosoma cruzi
Tania C. Araújo-Jorge
Um experimento in vivo, no qual vão ser sacrificados animais, está sujeito aos princípios éticos preconizados pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal, Cobea (ver Anexo, Capítulo 20), precisa ser muito bem planejado. Para isso, sugerimos que seja seguido o roteiro de questões abaixo.
• Qual o objetivo do experimento? A definição clara da pergunta
que o experimento visa responder, e o que se quer testar, vai
definir os grupos a serem comparados. Quantos grupos
experimentais serão formados?
• Qual o modelo experimental (animal e parasita) que melhor
permite responder à pergunta formulada? Animal susceptível ou
resistente? De que linhagem genética? Macho ou fêmea?
Recém-nato, jovem ou adulto? Agrupados por idade, peso ou
ambos? Que cepa de parasita se adequa à pergunta
experimental? De baixa ou alta virulência? Com mortalidade na
fase aguda ou crônica? Que estágio do T. cruzi será utilizado
para o inóculo: epimastigota, tripomastigota metacíclico,
tripomastigota sangüíneo, de cultura de células, ou amastigota?
Que inóculo será utilizado? Por que via será administrado?
Recomendamos a leitura do Capítulo 9 como subsídio para a
escolha do modelo experimental.
• Qual o número de animais necessários? Quantos animais
serão analisados por grupo? Os animais serão estudados
individualmente durante todo o experimento ou serão
sacrificados num certo número por dia pós-infecção? Sangue
ou células serão obtidos e agrupados, ou não, em um pool?
Nesse caso, qual o número ideal para compor o pool? Em que
dia será coletado o material? Quantos animais por dia? Se
forem utilizados animais isogênicos, para análises individuais
cujos resultados serão avaliados em médias ou medianas,
recomendamos no mínimo quatro animais por ponto. Para
análises em pool, recomendamos no mínimo três animais por
ponto. Para análise de animais não isogênicos, onde se espera
maior variação individual, são necessários de oito a dez animais
por ponto.
• Há espaço e gaiolas no biotério? Quantas gaiolas precisarão
ser utilizadas? Há espaço no biotério para essas gaiolas? Por
quanto tempo está previsto o acompanhamento desses animais
e a conseqüente ocupação do espaço?
• Algum tratamento experimental será feito? Para o estudo da
administração de drogas ou de anticorpos precisam ser feitos
controles específicos referentes ao veículo de dissolução da
droga, ou ao isotipo do anticorpo, respectivamente. As datas e
as vias de administração do tratamento experimental precisam
ser previamente definidas, em função de critérios objetivos
como a farmacocinética do produto (velocidade de absorção,
concentração ativa, velocidade de inativação ou remoção do
produto da circulação e do órgão alvo, etc.). Todos esses
detalhes devem ser previamente conhecidos, seja por revisão
bibliográfica ou por ensaios experimentais preliminares ao
experimento propriamente dito. No caso do teste de efeito de
nifurtimox, Haberkorn & Gonnert (1972) estabeleceram que
doses de 15 ou 10 mg/kg para homens adultos equivalem a
doses de 180 or 120 mg/kg para camundongos ou ratos.
• Quais as características detalhadas do pedido de animais?
Em razão da data prevista para a infecção e da idade ideal do
animal quando da infecção, é preciso calcular a data ideal de
nascimento, a data para chegada ao biotério de
experimentação (pelo menos dez dias antes do início do
experimento), e especificar no pedido a linhagem, o número, o
sexo e a data de nascimento dos animais.
• Quais as providências necessárias para a obtenção do inóculo
na data prevista para a infecção? Se for ser utilizado
tripomastigota sangüíneo, há que se prever o número de
animais a ser sacrificados no dia do inóculo, para que estejam
no dia de pico da parasitemia. Se o inóculo será feito com
tripomastigota metacíclico ou de cultura de células, os
procedimentos de cultura deverão ser tomados com a
antecedência correta para a obtenção dos parasitas no número
e no estágio desejado.
• Qual o código do experimento? Sugerimos que seja dado um
código global do projeto (de até quatro dígitos) e que os
experimentos sejam numerados seqüencialmente. Desse modo
pode-se montar um diretório do projeto e arquivos ou planilhas
que levem o nome dos diferentes experimentos para digitação
dos dados obtidos (ver Anexo, Capítulo 20).
Na Tabela 6 estão listadas algumas das linhagens de camundongos mais utilizadas para estudos da doença de Chagas experimental e
suas principais características genéticas. Na Tabela 2 são apresentados alguns dos isolados de T. cruzi mais utilizados, com sua origem e padrão de linhagem, segundo tipagem dos genes de miniexon e rRNA.