Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
Capítulo 7 - Quimioterapia experimental
Capítulo 7 - Quimioterapia
experimental
Solange L. de Castro; Ricardo M. Santa-Rita; Marcelo Einicker-Lamas
Praticamente desde a descoberta da doença de Chagas, seu tratamento vem sendo investigado. Na década de 60, o desenvolvimento de drogas contra esta doença estava relativamente atrasado em relação àquele contra infecções por outros tripanosomatídeos, sendo o Trypanosoma cruzi geralmente resistente a compostos ativos contra leishmanias e outros tripanosomas (Hawking, 1973). Podemos dividir o desenvolvimento da pesquisa destas drogas em duas fases, com o divisor na década de 70, quando foram descritos o nifurtimox e o benznidazol.
7.1 Estudos com nifurtimox e benznidazol
Atualmente, o tratamento da doença de Chagas está restrito a duas drogas nitro-heterocíclicas: o nitrofurano nifurtimox (Nif, Lampit, Bayer, 3-metil-4-(5'-nitrofurfurilidenoamino) tetrahidro-4H-1,4-tiazina-1,1-dióxido) introduzido na clínica em 1965, e que teve sua produção descontinuada no Brasil, e o 2-nitroimidazol benznidazol (Bz, Radanil ou Rochagan, Roche, N-benzil-2-nitro-1-imidazol acetamida) introduzido na década seguinte (revisto por Luquetti, 1997). Nif e Bz são ativas na fase aguda da doença de Chagas, porém têm efeito limitado sobre a forma crônica da doença (Rassi, 1982) as principais indicações destas drogas são: fase aguda da infecção, forma congênita, reativação associada com imunossupressão, infecções recentes e em situações de transfusões ou transplante de órgãos. As drogas podem também ser indicadas para o tratamento de alguns pacientes nas formas indeterminada e crônica com fraco envolvimento cardíaco. A prescrição do tratamento etiológico na fase crônica é controversa devido a dificuldades em monitorar sua eficiência terapêutica (Viotti et al., 1994) os esquemas mais utilizados de tratamento são: Nif por 60-90 dias, 8-10 mg/kg/dia em adultos e menos que 15 mg/kg/dia em crianças; Bz por 60 dias, 5 mg/kg/dia em adultos e menos de 10 mg/kg/dia em crianças. Ambas as drogas devem ser divididas em duas a três frações após as refeições. Reações adversas estão associadas a perturbações no trato digestivo como inapetência, náusea, vômito e perda de peso com Nif e dermopatia e polineuropatia com Bz. As principais limitações das drogas são a necessidade de tempos longos de administração e efeitos colaterais (Coura, 1996; Cançado, 1997). Foram também relatadas falhas terapêuticas, provavelmente relacionadas com a variação de sensibilidade às drogas nas populações de parasitas na Américas Central e do Sul.
Nif e Bz em estudos em animais experimentais o Nif, testado sobre infecções em diferentes espécies de animais, apresentou atividade dependente da cepa do parasita (Bock et al., 1969; Haberkorn & Gonnert, 1972). A análise ultra-estrutural dos amastigotas intracelulares mostrou alterações semelhantes às descritas no estudo em cultura de células (Voigt et al., 1972, 1973) bem como a indução de vacuolização, inchamento da mitocôndria e alterações de membrana parasita, além de lesões nas células cardíacas ao redor de parasitas danificados (Andrade & Freitas, 1987).
A administração de Bz a camundongos, em dose única (1 g/kg), sete dias pós-infecção (cepa Y), levou a uma queda progressiva na parasitemia, que se negativou após dez dias (Richle, 1973; Polak & Richle, 1978).
Vários estudos foram também realizados comparando-se a sensibilidade de diferentes cepas frente ao Nif e ao Bz em infecções experimentais:
• os percentuais de cura em infecções com a cepa Peru foram
superiores àqueles com a cepa Colombiana, observando-se
desenvolvimento de resistência ao Nif e ao Bz (Andrade et al.,
1975, 1977; Andrade & Figueira, 1977);
• Brener et al. (1976), comparando as cepas Y e CL, e Andrade
et al. (1985), analisando a susceptibilidade de trinta cepas de
diferentes regiões, observaram uma boa correlação entre as
atividades das duas drogas para uma dada cepa, indicando que
os diferentes percentuais de cura estariam associados a fatores
do parasita;
• analisando 47 cepas isoladas de diferentes fontes, Filardi &
Brener (1987) relataram uma larga faixa de susceptibilidade ao
Nif e ao Bz, correlacionada em vários casos com a região
geográfica: as provenientes do sul do Brasil e da Argentina
eram mais sensíveis em relação às de Minas Gerais. Essa
diferença poderia estar associada a diferentes percentuais de
cura de pacientes relatados na Argentina e no Brasil (Cançado
& Brener, 1979).
Infectando camundongos com parasitas isolados de quatro pacientes agudos (antes do tratamento com Bz), Filardi & Brener (1987) observaram que animais que receberam parasitas provenientes dos dois pacientes tratados, considerados curados, responderam bem ao tratamento, enquanto o contrário ocorreu com aqueles infectados com parasitas dos pacientes não curados, mostrando assim correlação entre os resultados experimentais e clínicos.
Andrade et al. (1992) observaram uma correlação de 81,8% entre o resultado do tratamento de pacientes com Nif e o de camundongos recém-natos. No caso desta droga, a correlação entre as dosagens para camundongos foi baseada em Haberkorn & Gonnert (1972), que estabeleceram a equivalência entre doses de 15 ou 10 mg/ kg para homens adultos e doses de 180 ou 120 mg/kg para os animais (Andrade et al., 1992).
O mecanismo de ação de Nif foi intensamente estudado pelo grupo de Do Campo (revisto em Do Campo & Moreno, 1986); a redução metabólica do grupo nitro por nitroredutases foi de fundamental importância, levando à geração de radical nitroanion. Sendo o T. cruzi parcialmente deficiente nos mecanismos de detoxicação, ele se torna mais susceptível a produtos de redução do oxigênio (Do Campo et al., 1976; Boveris et al., 1980; Morello, 1988).
2 ArNO + -. + + + NADPH + H ---NR---> 2 ArNO + NADP + 2H 2 2
ArNO-. -. + O -----> ArNO + O 2 2 2 2
O-. -. + + O + 2H --SOD--> H O + O 2 2 2 22
O- 3+ . -.+ H O ----Fe--> O + OH + OH 2 2 2 2
Na presença de Nif em T. cruzi foram observados aumentos no consumo de O , na liberação de H O , e na taxa de produção de ion 2 2 2 superóxido e de H O . Também foi detectado o radical nitroanion na 2 2
presença de NADPH em concentrações de Nif que causam efeito sobre a proliferação do parasita. A mesma estava na faixa de concentração sérica alcançada em adultos após dose única de 15 mg/kg ( ≅ 10 mM) (Do Campo & Stoppani, 1979).
O dano oxidativo foi descartado como mecanismo de ação de Bz para T. cruzi, pois em concentrações semelhantes às utilizadas em estudos com Nif, nas quais a droga mostrou atividade tripanocida, não houve estímulo da geração de ion superóxido e de H O . 2 2 Somente foi detectado radical nitroanion quando o Nif foi usado em concentrações muito superiores (10 mM) àquelas necessárias para afetar o parasita. A ação de Bz sobre T. cruzi poderia envolver um efeito direto sobre a síntese de macromoléculas por ligação covalente ou outras interações dos intermediários de nitroredução com componentes celulares (Polak & Richle, 1978; Goijman et al., 1985; Do Campo & Moreno, 1986), ou uma ação inibitória direta de Bz sobre a atividade catenante da DNA topoisomerase do parasita (Riou et al., 1984). Foi observada por Diaz de Toranzo et al. (1988) a ligação de Bz à DNA, lipídeos e proteínas de epimastigotas de T. cruzi.
Nif e Bz apresentam efeitos colaterais sérios com danos, principalmente, ao sistema nervoso central e ao trato gastrointestinal; em alguns casos o tratamento foi temporariamente suspenso ou mesmo abandonado.
Estudos em animais experimentais mostraram que potencialmente estas drogas podem produzir efeitos danosos na fertilidade e no processo reprodutivo (Hoffman, 1972; Lorke, 1972; Navarro & Nagel, 1984; Bernacchi et al., 1986; Vieira et al., 1989). O tratamento de camundongos com Nif levou a um aumento na formação de micronúcleos na medula óssea, enquanto o Bz não apresentou efeito (Gorla & Castro, 1985). Coelhos tratados com Nif ou Bz (8mg/kg/dia/60 dias) apresentaram alta incidência de linfomas malignos e, no caso de Bz, em 20% dos animais foi observada atrofia testicular (Teixeira et al., 1990a,b). Por outro lado, em estudos com camundongos tratados com Bz, não foi detectado aumento na incidência de linfomas (Lima Pereira et al., 1986).
No caso de crianças chagásicas tratadas com Bz, Gorla et al. (1988) observaram um aumento nos danos ao nível de cromossomas em linfócitos periféricos. Em crianças tratadas com Nif o nível de dano genético espontâneo foi treze vezes superior às chagásicas não tratadas (Gorla et al., 1989).
7.2 Esquemas e acompanhamento do efeito de
drogas em animais experimentalmente
infectados Como o T. cruzi infecta um grande número de células in vitro, o "tratamento" de culturas infectadas permite estudos quantitativos. Com quantidades pequenas de droga, é possível a detecção da atividade sobre formas intra e/ou extracelulares, bem como de sua toxicidade para a célula hospedeira. Este tipo de estudo possibilita o controle das condições experimentais. Devemos estar alertas porém para o fato de que a simplificação introduzida pelo contato direto droga/célula infectada não permite extrapolação dos resultados para situações in vivo, pois a influência do metabolismo e da resposta imune não podem ser avaliadas. Entre os sistemas in vitro para o estudo de drogas, diferentes tipos de cultura de tecidos ou células foram utilizados (revisto em Brener, 1975, 1979 e De Castro, 1993). A abordagem in vitro facilita a elaboração de ensaios em animais experimentais e testes clínicos para desenvolvimento de quimoterápicos mais eficazes e menos tóxicos. Naturalmente a simplificação oferecida por esta abordagem não permite a extrapolação dos resultados para situações in vivo, pois, com o contato direto da droga a ser testada com a célula infectada, a influência do metabolismo e da resposta imune do hospedeiro não podem ser avaliadas.
Em experimentos com animais, a maioria dos tratamentos foi realizada com tempos muitos curtos e os resultados expressos apenas como reduções da parasitemia, mortalidade e duração da fase aguda. A introdução de esquemas de longa duração (Brener, 1961a,b) e a padronização de ensaios de acompanhamento representaram um grande avanço nessa área.
Não existe até hoje um modelo consensual claro e caracterizado no qual o efeito de um quimioterápico possa ser acompanhado nas fases aguda e crônica da infecção chagásica. No modelo de camundongo infectado por T. cruzi a principal característica é a existência de grandes diferenças no curso da infecção a depender da cepa de camundongo utilizada e da origem (cepa ou clone) dos parasitas (ver Capítulo 9).
O modelo clássico de estudo de quimioterapia experimental é o de camundongo albino Swiss, não isogênico, infectado com 104 tripomastigotas sangüíneos da cepa Y. Nesse modelo há alta parasitemia na segunda semana e alta mortalidade em torno da terceira semana pós infecção, claramente revertidas pelo tratamento específico.
Para estudos das fases indeterminada e crônica, é essencial que o par hospedeiro-parasita escolhido apresente as seguintes características: (a) tenha parasitemia patente, porém baixa mortalidade na fase aguda para acompanhamento nas fases indeterminada e crônica; (b) apresente curvas de parasitemia de intensidade e cinética reprodutíveis, uma vez fixados a idade e o sexo do animal, o inóculo e a via de inoculação; (c) mantenha, na fase, aguda as características clássicas básicas da infecção no camundongo: ativação policlonal, imunossupressão com apoptose, sorologia e resposta linfoproliferativa positiva para antígeno de T. cruzi após trinta dias de infecção e miocardite detectável, embora não necessariamente intensa. Os camundongos devem ser acompanhados por quarenta dias (fase aguda), até seis a 48 meses (fases indeterminada e crônica).
Como ponto de partida nestes estudos temos principalmente os trabalhos do grupo de Brener (Brener, 1961a,b, 1962; Filardi & Brener, 1987) e de Andrade (Andrade & Figueira, 1977; Andrade et al., 1985, 1987). Brener (1962) observou que a atividade de drogas é mais rápida e mais facilmente detectada se administrada no dia da infecção ou no dia posterior. Este autor também recomenda, no caso de nova droga, utilizar a dosagem correspondente a cerca de um quinto da LD (dose que mata 50% dos animais) administrada 50
por dez dias consecutivos. De um modo geral o tempo de tratamento depende do modelo escolhido e, assim, da cinética de parasitemia.
Estudos preliminares, in vivo, de drogas tripanocidas se concentram na fase aguda e analisam apenas parasitemia e mortalidade, comparando-se animais infectados tratados e não tratados e utilizando-se os métodos descritos neste manual.
No caso de uma pré-seleção de drogas potencialmente ativas é necessário analisar mais a fundo esta atividade, utilizando além da mortalidade e da parasitemia, diferentes critérios de cura além dos acima mencionados: subinoculação de sangue em recém-nascidos, reinoculação de sangue ou homogenatos de tecidos, xenodiagnóstico, hemocultura, histologia e detecção de anticorpos específicos anti T. cruzi e PCR. Segundo Brener (1962), a subinoculação e o xenodiagnóstico apresentam alta eficácia e a reinoculação pode prover resultados importantes na medida que a persistência da infecção está associada com alta imunidade a superinfecções.
De um modo geral, a maioria dos estudos se apoia na cura de animais agudamente infectados, com parasitemia patente, como indicador de sucesso. Porém em infecções humanas os perfis parasitológicos, patológicos e de sensibilidade a drogas se alteram marcadamente com o progresso da infecção. Desta forma o resultado de estudos apenas com animais de fase aguda pode ser deficiente.
Mesmo em trabalhos de quimioterapia experimental utilizando os nitroheterocíclicos Nif e Bz, pouca atenção tem sido dada à resposta imune. Desta forma seria interessante o desenvolvimento de um conjunto de parâmetros indicativos do grau de ativação da resposta inflamatória, de lesão tissular, de capacidade funcional cardiovascular, de intensidade da resposta imune humoral e celular específica e inespecífica, e de expansão de células citotóxicas e/ou auto-reativas que melhor possam complementar os parâmetros parasitológicos que monitoram a carga parasitária de animais experimentalmente infectados e tratados.
7.3 Desenvolvimento de novas drogas Como etapas cruciais no surgimento de novas drogas temos a descoberta de uma estrutura química líder, com a atividade biológica desejada, e o desenvolvimento dessa estrutura em uma forma segura e terapeuticamente efetiva (transformações químicas).
Em poucas ocasiões drogas importantes foram descobertas sem um composto líder, sendo talvez a penicilina uma das poucas exceções. A descoberta deste composto líder pode ocorrer por várias vias:
• triagem randômica: procurar atividade biológica em diferentes
compostos, independentemente de sua estrutura, que
invariavelmente está associada a um grande volume de
triagens e com o acaso;
• triagem direcionada: realizar testes de atividade biológica,
após cuidadosa escolha do composto, baseada em compostos
que intuitivamente têm semelhança com um outro que
apresente sinais de atividade ou que seja ativo sobre outros
organismos, ou sobre enzimas ou receptores específicos;
• descoberta racional: identificar uma via metabólica, chave
única e vital para o parasita; obter estrutura tridimensional do
alvo ou, caso a seqüência de aminoácidos seja suficientemente
semelhante a de uma proteína com estrutura conhecida, a
modelagem por homologia; obter grandes quantidades de
material, geralmente por clonagem; e expressão do gene do
alvo. A próxima etapa é o desenho ou procura (síntese ou
coleção) de inibidores específicos.
A identificação de um composto líder por qualquer abordagem leva a uma colaboração entre químicos e biólogos dentro de um processo contínuo e iterativo envolvendo: (a) isolamento ou síntese de compostos; (b) desenvolvimento de testes in vitro e in vivo adequados para análise de atividade biológica; (c) identificação de diferenças entre parasita e hospedeiro; (d) correlação de estrutura/atividade visando boa atividade biológica, permeabilidade e minimização da toxicidade para o hospedeiro; (e) expressão de alvos em quantidades que permitam estudos estruturais; (f) geração de bibliotecas de compostos com as mais diferentes estruturas.
No desenvolvimento de novas drogas, alguns grupos opõem abordagem racional versus abordagem empírica (Croft, 1994; Douglas, 1994; Hudson, 1994; Hunter, 1995). Ambas são necessárias mas não suficientes, uma permitindo a definição precisa e expressão de alvos e a outra permitindo a geração dos mais diversos compostos que dão um novo significado à "triagem direcionada" e fornecem esperanças para o futuro da quimioterapia parasitária. O desafio é usar ambas as abordagens para produzir drogas efetivas, baratas, de baixa (ou sem) toxicidade, alta biodisponibilidade, ativas por via oral, em número e variedade suficientes para desenvolver um arsenal que possa combater a resistência a drogas (combinações seqüenciais ou simultâneas) e funcionar também em imunossuprimidos.
7.4 Perspectivas da pesquisa de drogas
tripanocidas
A quimioterapia da doença de Chagas é uma área de pesquisa muito intensa (revisto em De Castro, 1993; Croft et al., 1997; Urbina, 1999). As indústrias farmacêuticas têm pouco interesse no desenvolvimento de quimioterápicos contra esta doença, por serem esses programas muito caros, especulativos e longos, não sendo, assim, justificados em uma base puramente comercial (Gutteridge, 1987). Cabe às instituições de pesquisa e aos governos, principalmente de países contidos nas áreas endêmicas, subsidiar este tipo de investigação.
Avanços alcançados na área de bioquímica sinalizam para enzimas glicolíticas presentes em glicosomas, bem como para a tripanotiona redutase envolvida no metabolismo antioxidante (Fairlamb & Cerami, 1992) como alvos promissores no desenvolvimento de novas drogas.
O composto alopurinol (4-hidroxipirazolo (3,4-d) pirimidina), análogo da hipoxantina, apresenta um mecanismo de ação relacionado à competição com adenosina, nucleotídeo essencial para o parasita, e ao bloqueio da síntese de novo de nucleotídeos purínicos (Hammond & Gutteridge, 1984; Marr, 1991). Este composto apresentou resultados promissores em estudos in vitro (revisto por Marr & Berens, 1983), levando à realização de ensaios clínicos na fase crônica da doença; os percentuais de negativação de xenodiagnóstico foram semelhantes aos obtidos com Nif e Bz, porém com menos efeitos colaterais (Sosa & Gallerano, 1988; Gallerano et al., 1990). Estudos recentes do grupo de Apt et al. (1998) demonstraram 44% de cura e 36,5% de normalização em pacientes cardiopatas tratados com alopurinol. Esta droga foi utilizada em dois casos de reativação da doença de Chagas devido a transplante cardíaco, levando à regressão de lesões cutâneas (Tomimori-Yamashita et al., 1997).
Grandes esforços estão sendo empregados na investigação do efeito de inibidores da biossíntese de ergosterol sobre T. cruzi (Urbina et al., 1988a,b,c, 1991, 1993, 1996, 1998). Estes compostos são usados no tratamento de doenças causadas por fungos, com o mecanismo de ação baseado na depleção de esteróis endógenos essenciais e/ou no acúmulo de intermediários tóxicos (revisto por Sheehan et al., 1999).
Um dos primeiros compostos deste grupo testado foi o ketoconazol, que se mostrou ativo sobre T. cruzi em estudos in vitro (McCabe et al., 1984; Urbina et al., 1988a). Foram observadas alterações no metabolismo de esteróis com acúmulo de produtos intermediários, em especial de precursores metilados (Urbina et al., 1988b; Goad et al., 1989). Em ensaios in vivo o tratamento na fase aguda levou à cura parasitológica (McCabe et al., 1983, 1987), porém na fase crônica não foi efetivo (McCabe, 1988). A combinação de ketoconazol com outros inibidores da síntese de ergosterol, como por exemplo alilamina SF-86327, lovastatina e terbinafina, mostrou um potente efeito sinergístico sobre a infecção por T. cruzi in vitro e in vivo (Urbina et al., 1988c, 1993; Maldonado et al., 1993). Em infecções experimentais, o ketoconazol não foi capaz de erradicar o parasita em animais infectados ou em pacientes chagásicos (Brener et al., 1993).
Outro composto que atua no metabolismo de esteróis é o triazol itraconazol, que se mostrou ativo em experimentos in vitro e in vivo (McCabe et al., 1986; Goad et al., 1989). Recentemente, em estudos clínicos com chagásicos crônicos, foi observada cura parasitológica em 53% dos casos com 48,2% de normalização de eletrocardiogramas (Apt et al., 1998).
Estudos com o fluconazol (ICI-195.739) mostraram sua atividade em experimentos com animais (Ryley et al., 1988). Estudos bioquímicos e ultra-estruturais sugeriram um mecanismo duplo na ação deste bistriazol sobre T. cruzi, envolvendo inibição da síntese de ergosterol ao nível da C14-α-desmetilase dependente de citocromo P450 e bloqueio da citocinese (Lazardi et al., 1991; Maldonado et al., 1993; Urbina et al., 1993). Este composto foi também utilizado com sucesso no tratamento de encefalite causada por reativação da doença de Chagas em um caso de paciente com Aids (Solari et al., 1993). Estudo subseqüente com o isômero D(+) de fluconazol, D0870, mostrou potente atividade em pesquisas com animais experimentais nas fases aguda e crônica da doença de Chagas, sendo de trinta a cinqüenta vezes mais ativo que o ketoconazol e capaz de promover de 60 a 70% de cura parasitológica (Urbina et al., 1996; Liendo et al., 1998). Esta cura foi monitorada por hemocultura, xenodiagnóstico, inoculação de homogenatos de órgãos em camundongos, hemoinoculação em camundongos jovens e PCR.
Um novo derivado triazólico, o SCH 56592 (Schering-Plouch), desenvolvido como antifúngico sistêmico, mostrou ser de trinta a cem vezes mais potente in vitro do que o ketoconazol e o D0870 como agente antiproliferativo e inibidor da síntese de ergosterol contra T. cruzi. Em infecções experimentais, este composto protegeu contra a morte, produzindo de 90 a 100% de cura (Urbina et al., 1998).
A indução da resistência de T. cruzi a azóis, como fluconazol, e também da resistência cruzada entre ketoconazol, miconazol e itraconazol, observadas em experimentos in vitro, aponta para dificuldades da utilização destes compostos na clínica (Buckner et al., 1998).
Estudos com alquil-lisofosfolipídeos têm revelado uma nova classe de compostos, promissora para o tratamento de doenças causadas por tripanosomatídeos. Na literatura temos vários relatos recentes sobre o efeito destes compostos sobre T. cruzi, T. brucei e diferentes espécies de Leishmania (Croft et al., 1987, 1993, 1996; Kuhlencord et al., 1992; Bourass et al., 1996; Konstantinov et al., 1997; Le Fichoux et al., 1998; Santa-Rita, 1999; Santa-Rita et al., 2000). Inclusive, a mitelfosina está sendo ensaiada no tratamento de leishmaniose visceral; 21/30 pacientes apresentaram cura, incluindo casos resistentes a antimônio (Sundar et al., 1998). O desenvolvimento destes compostos como agentes anticâncer assegura resultados sobre a farmacologia, a toxicologia e a tolerância dos mesmos em humanos, reduzindo os custos de desenvolvimento de drogas para o tratamento de doenças tropicais e, em especial, da doença de Chagas.
7.5 O tratamento de sangue infectado
A pesquisa de drogas tripanocidas está também dirigida para compostos que possam substituir o cristal violeta como aditivo em sangue a ser transfundido. A importância epidemiológica da transmissão transfusional é importante devido ao processo de urbanização (Dias, 1992).
Devido à variação, entre vários fabricantes, na composição de violeta de genciana, este corante foi substituído por cristal violeta (seu principal componente) com forma quimicamente definida, portanto mais seguro (125 mg/500 ml sangue). Vários grupos de compostos foram ensaiados (fenotizinas, AmB, nafotquinonas, análogos trifenilmetânicos, entre outros) mas não foram capazes de substituir o cristal violeta. Os mais ativos enfrentaram problemas de toxicidade, baixa solubilidade em água e ligação a proteínas plasmáticas. Devido à dificuldade de se encontrar drogas alternativas, foi recomendado pela OMS dar continuidade à utilização de cristal violeta em serviços hemoterápicos em áreas endêmicas.
O cristal violeta não apresenta efeitos colaterais dignos de nota, porém há preocupações sobre possível toxicidade/mutagenicidade e relatos de microaglutinação de hemácias. Sua principal desvantagem é colorir o sangue, e conseqüentemente os tecidos. Seu mecanismo de ação envolve radicais livres, e o alvo principal é a mitocôndria (revisto em Gadelha et al., 1989; Do Campo, 1990).
Cristal violeta: cloreto de N-[4-[bis[4-(dimetilamino)-
fenilmetileno]2,5- cyclohexadien-1-ildeno]-N-methylmetaminio
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