Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
9.6 Cão
Figura 56 - Tecido hepático (C47 - fase crônica tardia - seis meses
de infecção pela cepa Y): fígado cardíaco de segundo grau.
Congestão hepática centrolobular com fenômenos degenerativos
(degeneração hidrópica e esteatose) e necrose de hepatócitos
perivenulares - HE x 215
Apesar da positividade do xenodiagnóstico e da hemocultura, nenhum dos órgãos e tecidos examinados na fase crônica apresentou ninhos de amastigotas.
Em conclusão, embora o coelho infectado pelo T. cruzi não preencha, até o momento, todos os requisitos para um bom modelo experimental, em vista de não reproduzir as lesões observadas nos humanos, poderá, entretanto, ser bastante útil para os estudos imunopatogenéticos, como foi sugerido por Teixeira et al. (1983).
9.6 Cão
Sonia G. Andrade
O cão tem sido utilizado por diversos pesquisadores no estudo experimental da doença de Chagas. Este modelo é de grande interesse porque é o único, entre os diversos modelos experimentais, que desenvolve as diversas formas clínico-patológicas da doença de Chagas, como são vistas no homem.
A fase aguda da doença em cães jovens, inoculados com cepas virulentas do Trypanosoma cruzi evolui em um período de quinze a 25 dias pós-inóculo, cursando em geral como uma forma aguda grave no homem, com envolvimento cardíaco proeminente (Andrade & Andrade, 1980). Os animais que sobrevivem a esta fase aguda passam a uma fase latente da infecção, sem sinais de doença, com eletrocardiogramas normais, caracterizando a fase indeterminada (Andrade et al., 1981; Andrade, 1984). Apenas uma pequena percentagem dos casos desenvolve a forma crônica cardíaca, com cardiomegalia, arritmias, edema periférico, ascite e derrame pericárdico e um quadro de miocardite crônica progressiva (Laranja & Andrade, 1980).
A fase aguda da infecção é facilmente obtida em cães jovens (dois a três meses de idade). Utilizando as cepas do T. cruzi, classificadas como do Tipo I (Y ou Peruana), a infecção se caracteriza por um curso rápido, levando ao óbito em no máximo vinte dias e, a depender do inóculo, os cães não sobrevivem à fase aguda. Por este motivo as cepas que têm sido usadas, objetivando um acompanhamento mais prolongado, são as cepas 12 SF (Tipo II) proveniente de São Felipe, Bahia, e a cepa Colombiana (Tipo III).
Os inóculos, constituídos de formas sanguícolas obtidas de sangue citratado de camundongos, são injetados intraperitonealmente variando entre 4.105 5 e 6.10. Os cães jovens desenvolvem parasitemias pouco elevadas a partir do sétimo dia pós-infecção, não havendo paralelismo entre o número de parasitos no sangue periférico e o intenso parasitismo cardíaco desenvolvido por estes animais.
As lesões histopatológicas da fase aguda se caracterizam por intenso parasitismo do miocárdio, com rotura das células parasitadas, determinando acentuado infiltrado focal com mononucleares e polimorfonucleares. Há também necrose de
miócitos não parasitados e intensa miocardite (Figura 57).
Figura 57 - Miocardite difusa e focal em cão no 23º dia de infecção pelo Trypanosoma cruzi: presença de miócitos parasitados (setas);
necrose focal de células miocárdicas com intenso infiltrado
inflamatório; infiltrado intersticial mononuclear difuso – HE x 250
As lesões na fase aguda podem ser monitorizadas pelo estudo eletrocardiográfico e comparadas com o quadro anátomo-patológico (Andrade, 1984) pelo estudo do sistema de condução do coração que mostra lesões inflamatórias acentuadas. Em geral as alterações eletrocardiográficas aparecem entre quinze e trinta dias pós-infecção e se caracterizam por alterações de onda T e do segmento ST, evoluindo posteriormente para alterações indicativas do envolvimento dos átrios do coração, principalmente a fibrilação atrial. A reversão das alterações eletrocardiográficas foi vista em cães tratados com quimioterápico específico (nifurtimox), principalmente quando associado com corticóide (Andrade et al., 1980) e correspondeu à regressão das intensas lesões histopatológicas apresentadas pelos animais antes do tratamento. A possibilidade de acompanhamento eletrocardiográfico permite avaliar a produção e condução do estímulo elétrico e a instalação das arritmias cardíacas, bem como estabelecer a sua correlação com as lesões do sistema excito-condutor do coração.
O modelo do cão, pelas suas características, permite a investigação dos mecanismos patogenéticos envolvidos no estabelecimento das lesões através de estudos histopatológico, ultra-estrutural e imunopatológico.
O estudo ultra-estrutural do miocárdio na fase aguda mostrou, ao lado de células parasitadas, a presença de alterações degenerativas e necróticas em miócitos não parasitados (Andrade et al., 1996). Linfócitos e macrófagos estavam aderentes às células cardíacas e determinavam alterações da membrana basal, miocitólise e separação das junções intercelulares. Estas alterações sugerem um mecanismo citotóxico e citolítico mediado por células imunes efetoras, na necrose de células cardíacas não parasitadas, na fase aguda da infecção pelo T. cruzi (Andrade et al., 1996).
A forma indeterminada no cão, como no homem, cursa sem sintomatologia e sem alterações eletrocardiográficas. Os animais acompanhados desde a fase aguda até três anos após a infecção tiveram bom desenvolvimento, com saúde aparente e ativos. O estudo histopatológico do coração nestes animais mostrou ausência de lesões ou presença de lesões inflamatórias focais discretas constituídas por macrófagos e linfócitos. Diferentemente do que foi observado na fase aguda, não mostram tendência a aderirem ao miócito, não determinam alterações citotóxicas sobre os mesmos quando examinados ao microscópio eletrônico e mostram tendência ao desaparecimento por apoptose, com condensação citoplasmática e alterações características da cromatina nuclear (Andrade et al., 1996). Este processo visto na forma indeterminada do cão pode ser responsável pela falta de progressão das lesões nesta forma, que estariam sujeitas a um mecanismo de controle que levaria à apoptose das células inflamatórias. Uma acentuação da miocardite da fase indeterminada foi obtida em cães pelo uso de ciclofosfamida em baixas doses (50 mg/m 2 área corporal, três vezes por semana, durante três semanas). Estes animais desenvolveram uma miocardite difusa com necrose de fibras cardíacas e acentuado infiltrado inflamatório mononuclear, na ausência de parasitos.
Estes achados vieram a demonstrar que uma interferência na rede imunológica de supressão de hipersensibilidade tardia, que mantinha os animais na forma indeterminada, é capaz de desencadear uma miocardite evolutiva nos mesmos (Andrade et al., 1987).
A forma crônica cardíaca raramente se desenvolve no cão, pelo menos no intervalo de tempo de três anos entre a inoculação e o sacrifício. Têm sido descritos casos com cardiomegalia, arritmia e insuficiência cardíaca congestiva, porém sem estudo anátomo-patológico. Esta correlação clínico-patológica foi observada por Laranja & Andrade (1980), que descreveram a forma crônica cardíaca em um cão com dezesseis meses de infecção com características semelhantes às observadas na cardiopatia humana, com miocardite difusa, fibrose focal e intersticial e degeneração focal de fibras cardíacas em relação com o processo inflamatório
(Figura 58). Também na fase crônica o estudo do sistema excito-condutor do coração permite reconhecer topograficamente as lesões
fibrótico-inflamatórias nos diversos segmentos do sistema (Figuras
59 e 60), possibilitando a correlação eletrocardiográfica.
Figura 58 - Secções do miocárdio em cão cronicamente infectado
pelo Trypanosona cruzi: miocardite crônica, observando-se septos
fibrosos que dissociam as fibras cardíacas e difuso infiltrado
mononuclear - Tricrômico de Masson x 100
Figura 59 - Secção do sistema excito-condutor do coração de um
cão cronicamente infectado pelo Trypanosoma cruzi, observandose
o feixe de His (FH) e sua bifurcação: RD (ramo direito) e RE (ramo
esquerdo); infiltrado mononuclear difuso com dissociação das fibras
por fino depósito colagênico, predominante no ramo direito -
Tricrômico de Masson x 100