Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
9.4 Hamster
Figura 12 - Músculo esquelético, 56 dias de infecção: regressão da
fibrose, com depósitos colagênicos intersticiais residuais. Picro-
Sirius (luz polarizada) -x 400
9.4 Hamster
Luis Eduardo Ramírez; Eliane Lages-Silva; Edmundo Chapadeiro
Embora a susceptibilidade do hamster ao Trypanosoma cruzi seja conhecida, este animal não tem sido utilizado como modelo no estudo da doença de Chagas. Existem alguns trabalhos mostrando parasitismo em todos os órgãos, acompanhado de intensa reação inflamatória, fenômenos degenerativos, elevada hiperplasia do sistema macrofágico e alta mortalidade quando os animais eram inoculados com a cepa Tulahuen (Cariola et al., 1950). A comparação da infecção deste animal com o camundongo, infectado com diferentes cepas e procedências distintas, mostrou que o camundongo é mais susceptível que o hamster (Ossimani & Gurri 1954).
Trabalhos sistematizados, realizados em nossos laboratórios através de métodos parasitológicos, sorológicos, clínicos (radiológicos e eletrocardiográficos) e histopatológicos, tanto na fase aguda, como na fase crônica confirmam que o hamster é susceptível à infecção pelo T. cruzi quando inoculado com diferentes cepas (Y, Vicentina, Benedito) e pelas vias intraperitoneal, conjuntival, endovenosa e subcutânea (Ramírez et al., 1991, 1993, 1994). Comparativamente com camundongos, infectados por via intraperitoneal com o mesmo inóculo da cepa Y, observou-se durante a fase aguda (quinze dias) que o hamster controla mais eficientemente a infecção, apresentando uma parasitemia e parasitismo tissular, respectivamente, 5,9 e 1,9 vezes menor (Ramírez et al., 1996).
Nos dois modelos experimentais, o período prepatente foi similar, com duração de três a quatro dias, porém o perfil das curvas de parasitemia mostrou algumas diferenças: nos camundongos foi progressivamente ascendente até o oitavo dia da infecção, a partir do qual começou a declinar até se tornar subpatente, confirmando as observações de outros autores (Melo & Brener 1978; Sousa & Alencar 1984). No hamster, a curva de parasitemia foi baixa e irregular com o pico máximo no 15º dia, confirmando os achados de Ossimani & Gurri (1954). O parasitismo tissular no hamster mostrou maior número de ninhos de amastigotas nas células macrofágicas, quando inoculado com a cepa Y, enquanto no camundongo foi maior nas miocélulas da musculatura lisa, o que parece demonstrar que a cepa Y, durante a fase aguda, é mais macrofagotrópica no hamster e mais miotrópica no camundongo. Em relação ao tecido gorduroso, não foi possível estabelecer, com certeza, a localização dos parasitas, se nos macrófagos ou nos adipócitos, como demonstrado por Andrade & Rocha Silva (1996). Por outro lado, nossas observações não confirmam os achados do parasitismo em relação ao tecido gorduroso marrom (Shoemaker & Hoffman, 1974).
Quanto à fase aguda, não foram observados sinais clínicos importantes. O estudo eletrocardiográfico mostrou em 60% dos hamsters alterações sugestivas de miocardite. A necrópsia dos animais revelou aumento e congestão do coração, do baço e do fígado. Lesões microscópicas foram comuns e progressivas desde as primeiras 24 horas na maioria dos tecidos e órgãos, sendo mais graves no tecido gorduroso e conjuntivo frouxo (celulite) e no músculo liso (miosite). Posteriormente, foi encontrada miocardite, de início nos átrios e, em seguida, nos ventrículos, caracterizada por infiltrado endomisial de mono e polimorfonucleares. Igualmente, este infiltrado foi observado no sistema de condução: nó de Hiss, feixe e ramos. Os gânglios e filetes nervosos do plexo autonômico cardíaco revelaram ganglionite, periganglionite, neurite e perineurite, acompanhadas de sinais de destruição neuronal. No trato digestivo, as lesões (miosite e ganglionite) mostraram sinais de degeneração e necrose. O baço, o timo, os linfonodos e a médula óssea apresentaram, desde o começo da infecção, um estado reacional de variável intensidade com parasitismo nos macrófagos.
Lesões inflamatórias agudas também foram observadas nos órgãos e tecidos genitais e perigenitais internos (miocélulas, conjuntivo frouxo e plexo nervoso hipogástrico), acompanhadas de intenso parasitismo. Nas adrenais foi observado parasitismo de intensidade variável nos macrófagos da parede dos sinusóides, mas não na parede da veia central. Nos demais órgãos, especialmente na musculatura esquelética e sistema nervoso central, as lesões foram menos freqüentes ou ausentes.
Na fase crônica, alguns animais apresentaram mau estado geral, caracterizado por apatia, perda de peso e pêlos, gengivite ulcerada, palidez das mucosas, dispnéia e edema generalizado; alguns morreram espontaneamente e de modo súbito. O traçado eletrocardiográfico dos animais nesta fase mostrou, a partir do segundo e terceiro meses, aumento transitório da freqüência cardíaca e, entre o quarto e quinto meses, redução da mesma. O exame radiológico do trato digestivo, após dieta baritada, revelou aumento do volume do estômago e do calibre do intestino grosso, especialmente ceco (dados não publicados).
Apesar de não ter sido realizado um estudo da cinética dos anticorpos no transcurso da infecção, foi demonstrado, através da técnica da lise mediada pelo complemento (Krettli & Brener, 1982), que estes animais produzem anticorpos líticos, a partir do terceiro ou quarto mês pós-infecção.
A autópsia dos animais mortos espontaneamente e/ou sacrificados, após anestesia pelo éter, revelou edema do tecido subcutâneo e derrame líquido, claro e transparente, nas cavidades pericárdica, pleural e abdominal (ascite). A presença de formas tripomastigotas do T. cruzi foi detectada nesses líquidos, após concentração pelo microhematócrito e pela hemocultura.
O coração da maioria dos hamsters mostrou-se aumentado de volume e congesto e, aos cortes, as cavidades átrio-ventriculares apresentaram-se dilatadas e com ocasionais trombos parietais. Microscopicamente, os corações exibiram infiltrado inflamatório predominantemente de mononucleares de intensidade variável, ora focal, ora zonal, raramente difuso, entre as fibras cardíacas dos átrios, ventrículos e septos. Fibrose, de extensão também variável, substituía áreas de miocárdio destruído. O tecido específico de condução mostrou, fundamentalmente, porém em grau menor, as mesmas lesões do miocárdio funcional. Ninhos de amastigotas no miocárdio foram encontrados em 50% dos corações. Também o epicárdio exibiu infiltrados focais de mononucleares (epicardite), assim como os gânglios e filetes nervosos do plexo intracardíaco (ganglionite, periganglionite e neurite) com significativa destruição neuronal. Neste modelo, a redução neuronal, ao contrário do que ocorre em outros modelos de animais infectados pelo T. cruzi, como ratos (Chapadeiro et al., 1988), camundongos, C. callosus (Ferraz de Carvalho et al., 1993) e cães (Lana et al., 1992) é altamente significativa, sendo, portanto, até agora, o único animal no qual se comprovou, de fato, redução neuronal significativa (dados não publicados). Dilatação e alongamento do intestino grosso, especialmente do ceco, constituiu achado freqüente nesta fase, confirmando os achados radiológicos. Microscopicamente, o tubo gastrointestinal apresentou infiltrado de mononucleares na muscular própria (miosite) e nos gânglios (ganglionite) dos plexos misentérico e submucoso com sinais evidentes de destruição neuronal.
O fígado, em alguns animais, mostrou macro e microscopicamente as características do órgão cardíaco, isto é, congestão e degeneração dos hepatócitos. Além disso, acúmulos nodulares de macrófagos e infiltrados de linfócitos intralobulares podiam ser observados; mais raramente material amilóide (vermelho Congo positivo) podia ser evidenciado nas trabéculas hepáticas. Pancreatite crônica com fibrose e atrofia da parte exócrina constituiu achado freqüente, entretanto, as ilhotas pareciam íntegras. Os linfonodos, baço e médula óssea mostraram discreta hiperplasia reacional, enquanto o timo era geralmente atrófico.
A musculatura esquelética exibiu miosite focal, caracterizada por infiltrado mononuclear endomisial e, ocasionalmente, necrose das fibrocélulas e raros ninhos parasitários.
Os órgãos genitais internos mostraram infiltrado de mononucleares no epidídimo (epididimite), vesícula seminal (vesiculite), próstata (prostatite) nos machos, e nos ovários (ooforite) e útero (metrite) nas fêmeas, acompanhadas de atrofia em grau variável desses órgãos; o parênquima testicular, entretanto, mostrou-se preservado em todos os animais. O trato urinário exibiu o mesmo infiltrado mononuclear focal na musculatura lisa da bexiga (cistite), do ureter (ureterite) e uretra (uretrite). Os gânglios e filetes nervosos no plexo hipogástrico exibiam discreta reação inflamatória. No sistema nervoso central observaram-se, ocasionalmente, nódulos gliais esparsos na substância branca e infiltrados mononucleares na leptomeninge (leptomeningite focal). Nas adrenais não foi encontrado parasitismo e/ou sinais inflamatórios nas veias da medular, como tem sido observado no homem (Teixeira et al., 1991).
As Figuras 13 a 24 mostram as características histopatológicas encontradas no modelo hamster durante a fase crônica da infecção experimental por T. cruzi.
Concluindo, o hamster infectado com T. cruzi pode constituir mais um modelo útil para o estudo da doença de Chagas, visto que reproduz muitas das características observadas na infecção chagásica humana; no entanto, torna-se necessário o prosseguimento das pesquisas, principalmente em nível imunológico, para que este animal seja caracterizado como tal.
Figura 13 - Baço (infecção crônica): deposição intensa de material
amelóide amorfo na polpa vermelha e discreta na polpa branca com
depleção de ambas as polpas - HE x 200
Figura 14 - Fígado (infecção crônica): congestão sangüínea intensa
e áreas extensas de infarto vermelho (fígado cardíaco) – HE x 100
Figura 15 - Coração (infecção crônica): processo inflamatório
crônico focal em torno de ninho de amastigotas - PAP x 400
Figura 16 - Coração: miocardite crônica difusa com intensa
destruição de miofibras HE x 200
Figura 17 Coração: miocardite crônica fibrosante focal -Tricrômico
de Masson x 200
Figura 18 - Coração: ganglionite e periganglionite moderadas no
átrio direito - HE x 200
Figura 19 - Ceco: miosite e ganglionite discretas com fenômenos
degenerativos de alguns neurônios - HE x 400
Figura 20 - Estômago: miosite crônica multifocal HE x 200
Figura 21 - Intestino delgado: miosite discreta e ganglionite intensa
crônicas com destruição neuronal - HE x 400
Figura 22 - Músculo esquelético: miosite multifocal moderada com
degeneração e destruição das fibras musculares - HE x 200
Figura 23 - Testículo: orquite crônica intensa com extensas áreas de
destruição dos túbulos seminíferos e infiltrado predominantemente
mononuclear, azoospermia - HE x 200