Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
Parte 1 - Conceitos atuais em doença de Chagas humana e experimental
Parte 1 - Conceitos atuais em doença
de Chagas humana e experimental
Capítulo 1 - Desafios da pesquisa
científica após 90 anos da descoberta
da doença de Chagas
1.1 Questões da doença humana para trabalho
em modelos animais
Tania C. Araújo-Jorge; Solange L. de Castro
Quando Dr. Carlos Chagas viu pela primeira vez, sob as lentes de seu microscópio, o protozoário flagelado que denominou Schizotrypanum cruzi, em homenagem a seu mestre e amigo Oswaldo Cruz, começou a estudar a biologia desse interessante microorganismo e seu comportamento em animais experimentais. Este fato, único na medicina, da mesma pessoa descobrir e descrever o quadro clínico de uma nova doença, com um novo agente etiológico, o ciclo de vida desse agente, seus vetores e reservatórios, foi explicado mais tarde pelo próprio Chagas (Chagas 1922): "...quando no sangue periférico de uma criança febril, observamos o flagelado patogênico, de sua biologia já possuíamos noção completa, adquirida em demorados estudos anteriores", usando sobretudo animais inoculados experimentalmente com a urina de triatomíneos ou com o sangue de macacos infectados.
Desde essa época, cientistas em todo o mundo tentam desvendar questões obscuras dessa relação parasita-hospedeiro para as quais hoje, após noventa anos da descoberta da doença, não se tem resposta. Como o Trypanosoma cruzi entra em tantos tipos celulares diferentes? Como pelo menos parte da população de parasitas que infecta um indivíduo escapa da potente resposta imune e mantém uma carga parasitária latente e em equilíbrio com seu hospedeiro por todo o longo período em que permanece assintomático? Os próprios pacientes e seus parentes também formulam claramente questões ainda não esclarecidas como: "doutor, por que meu irmão, que sempre viveu nas mesmas condições que eu, tem o coração bom e o meu está assim tão doente?" ou "doutor, não tem um remédio que possa matar o bicho que está causando esse inchaço na minha barriga?" ou ainda "doutor, por que esse remédio que o senhor me deu está me fazendo tão mal?".
Com o sucesso da iniciativa das Organizações Mundial e Pan-americana da Saúde no programa de erradicação da transmissão vetorial, e com a melhoria nas técnicas de diagnóstico e da qualidade do sangue visando a interrupção da transmissão transfusional ou através de transplante de órgãos, o problema de novos casos de doença de Chagas na América Latina poderá estar resolvido na primeira década do novo século se as medidas que têm sido eficientes para o controle da infestação de casas por Triatoma infestans forem igualmente eficazes para diferentes vetores como Rhodnius prolixus e outras espécies. O Uruguai já teve êxito na interrupção da transmissão vetorial e há previsão de certificação da interrupção da transmissão no Brasil e no Chile para 2001 (WHO, 1999). Com isso, o foco dos estudos deve, necessariamente, ser direcionado mais para os pacientes chagásicos e para as lesões que evoluem durante as fases indeterminada e crônica da infecção. Acreditamos que, nesse campo, permanecem como desafios o encontro de respostas definitivas a questões como:
• qual a fisiopatologia da miocardite chagásica, dos "megas", e
das lesões neurológicas?
• que fatores determinam a patogênese em órgãos específicos?
• quais os mecanismos decisivos para a cronificação da
infecção: mecanismos de imunossupressão ou de
imunopatogênese? Ou ambos?
• o que protege da doença os indivíduos infectados em fase
indeterminada?
• que fatores concorrem para a evolução de pacientes da fase
indeterminada para a crônica, disparando o surgimento de
lesões com diferentes aspectos anátomo-clínicos?
• qual a influência da infecção materna na transmissão
congênita e no desenvolvimento de doença em seus
descendentes?
• existem, ou não, populações de parasitas com tropismo por
certos órgãos?
• há possibilidades reais de imunoproteção e perspectivas
concretas para o desenvolvimento de vacinas? Quais as
estratégias mais promissoras de imunoproteção?
• a eficácia de quimioterápicos tripanocidas está associada a
diferentes populações parasitárias?
• como aprimorar o tratamento etiológico de individuos
infectados? Como intervir, terapeuticamente, na fase
indeterminada da infecção?
• como melhorar o tratamento sintomático de pacientes
crônicos?
• como melhorar a qualidade de vida dos seis milhões de
pacientes ainda infectados?
• como proceder à profilaxia e ao tratamento de infecções por T.
cruzi reativadas por imunossupressão, e quais as
conseqüências do não-tratamento?
Uma pesquisa sobre a produção científica recente em doença de Chagas, na base de dados bibliográficos MedLine, feita em julho de 1999, identificou o seguinte quantitativo:
Palavra-chave 1964- 1995- 1990-
1999 1999 1999
Chagas disease 5.240 1.098 2.155 Chagas disease & review 415 129 250 Chagas disease & 523 128 224 chemotherapy
Chagas disease & 816 172 355 pathology
T. cruzi 5.206 1.279 2.487 T. cruzi & review 234 69 155 T. cruzi & animal models 222 92 157 T. cruzi & experimental 324 99 186 infection
Mais de 90% das referências correspondem a trabalhos originais e apenas 6% dos trabalhos estão associados a estudos com infecção experimental. Até estudos de quimioterapia, reconhecidamente pouco numerosos frente à necessidade de novas drogas clínicas e profiláticas, atingem cerca de 10% da produção científica em doença de Chagas, um percentual maior que o de estudos com infecção experimental. Talvez a heterogeneidade de resultados obtidos em diferentes modelos e a complexidade do trabalho com experimentação animal estejam na origem dessa carência de estudos, bem como na ausência de consenso quanto aos modelos mais adequados para cada aspecto da doença a ser estudado.
Como parte das comemorações dos noventa anos da descoberta da doença de Chagas, muitas revisões e livros vêm sendo lançados sobre o assunto e fica patente a necessidade de um uso mais objetivo dessa ferramenta já usada por Carlos Chagas: o estudo do curso da infecção por T. cruzi em modelos experimentais. A presente publicação se insere nesse contexto comemorativo e aponta a aplicabilidade dos modelos experimentais para a busca de respostas a questões como as levantadas acima.