Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
9.3 Calomys callosus
Figura 7 - Miocardite crônica em rato infectado com a cepa Y.
Observa-se intensa fibrose difusa endomisial com discreto infiltrado
mononuclear; hipertrofia acentuada da maioria das fibro-células;
atrofia, degeneração e necrose de outras. HE x 200
Figura 8 - Ganglionite atrial crônica em rato infectado com a cepa
Colombiana. Observa-se intenso infiltrado inflamatório e destruição
da maioria dos neurônios - HE x 200
A falta de estudos imunológicos adequados e a ausência de pesquisas que demonstrem uma progressiva redução da função contrátil miocárdica que leve ao desenvolvimento de uma síndrome de insuficiência cardíaca congestiva, como acontece na doença de Chagas humana, parecem explicar porque o rato não é considerado, ainda, um modelo útil no estudo da infecção chagásica experimental.
9.3 Calomys callosus Sonia G. Andrade
O Calomys callosus callosus (Rodentia, Cricetidae) é um reservatório natural do Trypanosoma cruzi (Ribeiro, 1973; Mello e Teixeira, 1977). A biologia do C. callosus e a sua manutenção em laboratório foram descritos por Mello (1984) e têm fornecido importantes subsídios para estudos posteriores. Além disso, diversos trabalhos foram desenvolvidos utilizando este animal como modelo da doença de Chagas experimental (Mello et al., 1979; Mello & Borges, 1981; Borges et al., 1982).
Este modelo oferece muito interesse, pois sendo um reservatório silvestre poderá estar albergando cepas do T. cruzi sem desenvolver doença aparente e, deste modo, contribuindo para a manutenção das fontes de contaminação dos vetores nos seus ecótopos silvestres. Por outro lado é de interesse verificar como se comporta este animal quando infectado por cepas do T. cruzi mantidas em laboratório, comparando com o comportamento biológico no camundongo. Com este objetivo, foi feito o estudo da infecção do C. callosus com diferentes cepas do T. cruzi em comparação com o camundongo, não só quanto ao desenvolvimento de lesões histopatológicas, como em relação à ativação dos macrófagos peritoneais destes animais ante a infecção (Borges et al., 1992). As cepas do T. cruzi utilizadas neste estudo foram as Y, F, M226 (isolada de C. callosus naturalmente infectado) e Costalimai (isolada de Triatoma costalimai).
Os principais resultados obtidos foram (Borges et al., 1992, 1995):
• o C. callosus mostrou níveis parasitêmicos superponíveis aos
do camundongo, com as cepas Y e F; porém, enquanto os
camundongos tiveram alta mortalidade, todos os C. callosus
sobreviveram à infecção, mostrando regressão das lesões
histopatológicas entre quarenta e sessenta dias;
• com as duas cepas do T. cruzi de origem silvestre (M226 e
Costalimai) os camundongos não desenvolveram parasitemias
patentes, porém apresentaram intensas lesões tissulares
enquanto os C. callosus desenvolveram baixas parasitemias e
ausência de lesões, indicando uma adaptação e maior
resistência às cepas silvestres;
• a ativação de macrófagos peritoneais foi idêntica em
camundongos e C. callosus infectados com a cepa Y. Na
infecção com a cepa F a liberação de H O foi idêntica nas 2 2
duas espécies porém variou no timing, pois continuava elevada
em camundongos após os sessenta dias quando as lesões
estavam presentes e era muito baixa nos C. callosus entre
quarenta e sessenta dias, correspondendo à regressão das
lesões, observada nesta espécie;
• as maiores diferenças na liberação de H O de macrófagos 2 2
peritoneais foram vistas com as duas cepas silvestres
(Costalimai e M226). A cepa Costalimai determinou no
camundongo altos níveis de ativação dos macrófagos, que
corresponderam à intensa agressão tissular determinada por
esta cepa, enquanto o C. callosus apresentou apenas discreta
ativação de macrófagos e ausência de lesões. Os mesmos
achados foram obtidos com a cepa M226;
• o estudo dos níveis de γ-interferon (IFN-γ) no C. callosus
demonstrou que as diferentes cepas induzem a produção desta
interleucina, sendo os níveis mais altos observado no soro dos
animais infectados com a cepa F, a qual se caracteriza por
determinar no C. callosus lesões de grande intensidade no
miocárdio e no músculo esquelético na fase aguda da infecção
com regressão total aos sessenta dias;
• o C. callosus infectado pela cepa F se constitui, desta
maneira, em um excelente modelo para o estudo da resistência
nesta espécie e a sua correlação com os aspectos peculiares
da sua patologia.
De fato, embora considerado "resistente" devido à ausência de mortalidade e negativação parasitêmica, o C. callosus desenvolve intensas lesões inflamatórias no músculo esquelético e no miocárdio, com predominância de macrófagos (que assumem
aspecto epitelióde), linfócitos e fibroblastos (Figuras 9 e 10). Simultaneamente se desenvolve intenso processo fibrogênico, que se inicia precocemente (26 a 30 dias), com acentuada proliferação fibroblástica e espessamento da matriz intercelular com depósito de
colágeno (Figura 11). Dos cinqüenta aos sessenta dias de infecção observa-se regressão da inflamação e da fibrose, restando apenas
infiltrados focais residuais (Figura 12). Desenvolve-se nestes animais um equilíbrio parasito/hospedeiro, uma vez que, embora o exame direto revele parasitemias negativas, os testes parasitológicos mais acurados (xenodiagnóstico, hemocultura e subinoculação do sangue em camundongos) permitem revelar a persistência da infecção (Andrade et al., 1994). As peculiaridades apresentadas por este modelo o recomendam para pequisas sobre o controle imunológico da infecção, o processo de fibrogênese e de regressão espontânea da fibrose. Além disso é um animal de pequeno porte e de fácil manuseio. A dificuldade está apenas na obtenção e manutenção de colônias destes animais para a sua fácil utilização, como ocorre com o camundongo.
Figura 9 - Miocardite difusa; necrose de fibras cardíacas que estão
substituídas por infiltrado mononuclear (macrófagos e linfócitos);
proliferação de fibroblastos e depósito matricial intersticial (26 dias
de infecção) - HE x 400
Figura 10 - Músculo esquelético: acentuada miosite com infiltado
intersticial mononuclear de linfócitos e macrófagos. Numerosas
formas amastigotas do Trypanosoma cruzi em célula muscular
(setas) (26 dias de infecção) - HE x 400
Figura 11 - Músculo esquelético, trinta dias pós-infecção:
espessamento da matriz intersticial com depósito de colágeno em
torno de miócitos e de vasos sangüíneos, mostrando birrefringência à luz polarizada em secções coradas pelo método do Picro-Sirius -x
400