Doença de Chagas: Manual para Experimentação Animal
Capítulo 4 - Resposta do hospedeiro à infecção
Capítulo 4 - Resposta do hospedeiro à
infecção
4.1 Respostas imune inata, inflamaiória e de fase
aguda na doença de Chagas
Tania C. Araújo-Jorge
A infecção humana pelo Trypanosoma cruzi deflagra um conjunto de reações que levam ao reconhecimento do parasita e à montagem de uma resposta imune específica bastante eficaz, capaz de controlar o crescimento parasitário por toda a vida do indivíduo. Parasitemias subpatentes e a resistência à reinfecção passam então a caracterizar a infecção humana e de outros modelos experimentais mamíferos, inclusive em camundongos.
Os sinais típicos da fase aguda humana são o chagoma (lesão na porta de entrada do parasita) e a parasitemia (presença do parasita no sangue circulante). A parasitemia desenvolve-se por uma fase indetectável microscopicamente (período pré-patente), outra detectável e crescente e uma terceira, detectável e decrescente
(Figura 1). Este estágio da doença é pouco compreendido em humanos devido aos poucos casos estudados. As fontes principais de estudos são casos de infecção acidental em laboratório (Hofflin et al., 1987; Grauert et al., 1993) e casos de infecção congênita. Tal escassez está relacionada à curta duração dessa fase (um a dois meses) e à presença de uma sintomatologia tão fugaz, que pode passar totalmente desapercebida (Antas et al., 1999). Após a fase aguda, geralmente benigna e inaparente, segue-se uma fase clínica conhecida como "indeterminada" ou "inaparente", na qual associam-se ausência de sintomatologia clínica com sorologia positiva. Após vinte a trinta anos, cerca de 20 % dos indivíduos infectados desenvolvem a fase crônica, sintomática, com diferentes formas clínicas: cardíaca, digestiva ou neurológica.
Figura 1 — Cinética das respostas imune inata e adquirida durante
a infecção por Trypanosoma cruzi, avaliada a partir da detecção da
parasitemia
Nos indivíduos imunocompetentes, a articulação da resposta imune
ocorre em três etapas (Figura 1). A primeira se desenvolve nas duas primeiras semanas pós-infecção, antes do aparecimento de parasitemia patente e ascendente, e depende dos mecanismos efetores da resposta imune inata, também chamada imunidade natural, com destaque para a resposta inflamatória. A segunda etapa, que se desenvolve nos estágios intermediário e tardio da fase aguda da infecção, quando a fase ascendente da parasitemia é refreada e controlada até atingir novamente níveis subpatentes, depende dos componentes celulares e humorais da resposta imune específica adquirida. A terceira etapa, também dependente da resposta imune específica, se mantém por toda a fase crônica da infecção e é responsável pela manutenção da parasitemia subpatente por longo prazo, por forte sorologia positiva e pela memória imunológica que garante resistência à reinfecção (e portanto ausência de reagudização por qualquer outra cepa do T. cruzi) no hospedeiro imunocompetente, mas não no imunossuprimido. Essa fase é abolida se o indivíduo infectado for tratado durante a fase aguda e for curado parasitologicamente.
4.1.1 Evolução da Infecção no Sítio de Inoculação
Historicamente, a primeira questão colocada e confirmada no modelo do camundongo foi a infectividade das formas metacíclicas obtidas dos triatomíneos infectados capturados em campo, bem como das sangüíneas obtidas de animais infectados. Em 1912, Brumpt referia que em algumas horas tripomastigotas sangüíneos inoculados por via subcutânea já podiam ser encontrados no sangue, e em 1934 Dias relatou que 40 minutos após uma inoculação subcutânea, e 165 minutos após uma intraperitoneal, já se podiam evidenciar parasitas circulantes. A porta de entrada foi investigada experimentalmente em camundongos também por Romaña (1943). Este autor demonstrou que as mucosas permitiam a instalação e expansão da infecção, ao contrário da pele íntegra, que se constituía numa barreira à penetração do T. cruzi. O parasita só coloniza a pele por inoculação subcutânea, por escarificação e manutenção por duas horas do inóculo com fezes de triatomíneo contaminadas com metacíclicos.
A evolução da infecção no sítio de inoculação subcutânea foi também abordada no modelo do camundongo e indica a relação parasita-célula hospedeiro in vivo (Dias, 1934; Romaña, 1943). Durante o primeiro período de multiplicação intracelular do T. cruzi (três primeiros dias) não ocorrem fenômenos infiltrativos celulares. Só quatro a cinco dias após à inoculação, em seguida às primeiras rupturas de células parasitadas, é que aparecem as primeiras células de infiltrado inflamatório: leucócitos polimorfonucleares, monócitos, linfócitos e mobilização e ativação de macrófagos tissulares. Enquanto as células estão íntegras não ocorre inflamação em torno, mas à medida que aumenta o número de células destruídas pela multiplicação parasitária, aumenta a infiltração celular. É freqüente o encontro de células parasitadas no tecido conjuntivo subcutâneo e entre os feixes musculares, em especial macrófagos e fibroblastos, mas a invasão de fibras musculares vizinhas ao ponto de inoculação é um fenômeno um pouco mais tardio.
O processo inflamatório inicial é dependente da presença do parasita e envolve o recrutamento de macrófagos, células NK, neutrófilos e alguns eosinófilos nestas regiões focais. Isso foi reanalisado por Deutschländer et al. (1978). Inoculando a cepa Brazil, subcutaneamente, na pata de camundongos NMRI, os autores observaram a presença de granulócitos dois dias após a inoculação, de macrófagos infectados quatro dias após a infecção, forte infiltrado inflamatório somente nove dias pós-infecção, em todos os tecido da pata, com ninhos de parasitas ainda em macrófagos e pseudocistos em células musculares íntegras. Após dezoito dias não havia mais parasitas nos macrófagos mas havia muitos pseudocistos nas fibras musculares, junto com forte reação inflamatória, necrose de fibras e reação de cicatrização causada pela ruptura dos pseudocistos. É portanto comum o encontro de macrófagos parasitados, servindo como hospedeiros para o parasita e sem capacidade microbicida imediata sobre eles. Com a formação do infiltrado inflamatório e a ativação celular, podem ser encontrados macrófagos com parasitas íntegros e em divisão e outros com parasitas destruídos (Romaña, 1943). É comum também a destruição de células adiposas, e há relatos de que células de parede de vaso (endoteliais) também podem ser encontradas parasitadas (Dias, 1934). Recentemente foi demonstrado que a carga parasitária na fase aguda é decisiva no desenvolvimento da patologia, do parasitismo e da ativação do sistema imune na fase crônica da infecção (Marinho et al., 1999).
Um recente estudo de Montéon et al. (1996) confirmou que o primeiro infiltrado inflamatório no sítio de inoculação subcutânea do T. cruzi ocorre com polimorfonucleares após 1 hora, atinge um pico em 24 horas e não é mais visto após sete dias. Já o infiltrado mononuclear inicia-se após um dia, é máximo após quinze dias, é ainda detectável aos trinta dias, e regride totalmente em oitenta dias pós-infecção. No sítio de inoculação só foi possível detectar o parasita histologicamente e por imunocitoquímica 1 ou 15 minutos após a infecção; no entanto, por PCR detecta-se DNA de T. cruzi desde um até quinze dias. Após trinta ou 180 dias nem mesmo por PCR os autores detectaram vestígios do parasita no sítio de inoculação. Já miosite e miocardite foram detectadas em intensidade crescente após sete, quinze e trinta dias, sempre acompanhadas de infiltrado mononuclear e da detecção do T. cruzi por PCR. O parasitismo decresce histologicamente após 180 dias mas mantém-se positivo por PCR, assim como a miosite e a miocardite.
Os autores acima referidos geralmente concordam em que os macrófagos têm papel decisivo na etapa inicial de proliferação parasitária:
A completa mudança do parasitismo no sítio de inoculação para
o compartimento muscular sugere que a quantidade de
parasitas e os macrófagos disponíveis no sítio inflamatório são
fatores determinantes na fase inicial da infecção (Deutchländer
et al., 1978).
Em 1929, Galliard chamou a atenção para o fato de que no peritônio dos camundongos, onde há grande disponibilidade de macrófagos residentes, se desenvolve uma infecção muito mais intensa que a percebida pelo exame do sangue. Desde muito cedo (dois dias após a infecção) já se pode detectar uma quantidade apreciável de tripomastigotas no líquido peritoneal.
4.1.2 A Resposta Imune Inata
Considerada por muito tempo como um vestígio ancestral de resposta imune, apenas recentemente a resposta imune inata vem sendo reexaminada. Seu papel no desenvolvimento e na articulação das respostas específicas adquiridas e em problemas de imunorregulação e imunopatologia vem sendo reinterpretado e considerado chave nas definições da intensidade e do tipo de resposta específica (Fearon & Locksley, 1996).
Os sistemas imune inatos, naturais, são compostos por proteínas solúveis e receptores de membrana produzidos pelas linhagens germinativas para identificar substâncias potencialmente nocivas. Seus principais componentes solúveis são o sistema complemento e as proteínas de fase aguda, com destaque para as colectinas (mannose-binding protein e outras), as pentraxinas e os inibidores de proteases. Seus principais componentes celulares são os macrófagos tissulares e inflamatórios (macrófagos ativados inespecificamente), as células NK (linfócitos natural killers), outras células apresentadoras de antígenos (especialmente células dendríticas), e algumas células T (γδ e células T "naturais"). A característica comum a todas essas células é a expressão de moléculas de superfície com capacidade de reconhecimento dos componentes solúveis da resposta inata (receptores para complemento e para diversas proteínas de fase aguda), bem como de reconhecimento de padrões estruturais diferentes do próprio (non-self), especialmente carboidratos e glicolipídios complexos comuns em microorganismos. Assim, diversos tipos de receptores de superfície são moléculas de reconhecimento características dessas células, tais como os receptores scavenger, os receptores para complemento, o receptor para LPS (CD14) e os receptores lectínicos como o receptor de manose ou as galactinas. Por meio de sinalização desses receptores são estimuladas a síntese de IL-1, IL-6, IL-12 e TNF— α (fator α necrosante de tumor). Já a resposta imune adquirida, que envolve o rearranjo dos elementos V, D, e J dos genes RAG 1 e RGA 2 para gerar bilhões de clones com distintos BCR e TCR, baseia-se num sistema de detecção de peptídeos que fornece uma faixa de reconhecimento de estruturas moleculares mais ampla do que os carboidratos, mas não distingue patógenos potenciais, que precisam de uma resposta imune, de substâncias inócuas para as quais uma resposta imune pode ser desnecessária ou até mesmo problemática, como no caso de antígenos próprios.
Articulando as respostas imune inata e adquirida encontram-se as citocinas, que se classificam em classes funcionalmente distintas: TNF, TGF, IL-1, IL-6, IL-8 e MCP-1 que são consideradas a resposta de fase aguda; CNF, SCF, TPO e EPO que são citocinas envolvidas na hematopoiese e INF—γ, IL-2, -4, -6, -7, -10, -12, -13 e -15, que são as citocinas ditas reguladoras da função imune adquirida (Les & Van Voorhis, 1995).
A intensidade de apresentação de um determinado antígeno é o primeiro determinante da montagem da resposta específica adquirida pelo reconhecimento por células T auxiliadoras. Todos os sistemas de endocitose mediada por receptores em macrófagos e células dendríticas que facilitem a apresentação de antígenos parasitários (por exemplo, lectinas e receptores diversos de remoção de componentes fisiológicos) conferem, portanto, capacidade de instrução da resposta imune inata para a resposta específica adquirida. Do mesmo modo, todos os sistemas ativadores do complemento, que geram C3d, potencializam a resposta imune humoral, pois o receptor para C3d (CD21) na membrana dos linfócitos B ao interagir com seu ligante estabiliza a ligação de CD19 com o BCR. No hospedeiro não imune os ativadores do complemento são as IgM naturais, a pentraxina CRP, as colectinas ou a via alternativa.
A resposta inflamatória é a primeira fase da resposta imune inata
(Figura 2), e tem sido estudada com diversos agentes infecciosos e traumáticos (Stadnyk & Gauldie, 1991), mas pouco com T. cruzi. Macrófagos e mastócitos são as principais células efetoras inflamatórias residentes nos tecidos. Além destas, as células intersticiais do estroma conjuntivo (fibroblastos) e as células endoteliais dos vasos sangüíneos das regiões afetadas, compõem o universo celular responsável pela orquestração da resposta inflamatória e pelo recrutamento de células inflamatórias circulantes como linfócitos, neutrófilos, eosinófilos, basófilos e plaquetas. Estas últimas são provavelmente as geradoras dos primeiros sinais para a ativação de macrófagos tissulares, quimiocinas PF4 e βTG e a citocina TGF-β, secretados por plaquetas que ativam macrófagos a secretar as duas primeiras citocinas pró-inflamatórias, IL-1/TNF-α, e os fatores de crescimento PDGF e FGF, que atuam sobre as células intersticiais do estroma do tecido lesado. Dessa ativação de plaquetas, monócitos, mastócitos e fibroblastos derivam a amplificação da resposta local e a montagem de uma resposta sistêmica. A resposta local constitui-se de um aumento de permeabilidade vascular causado principalmente por aminas vasoativas, óxido nítrico (NO), prostaglandinas e leucotrienos, ativação do endotélio vascular e de células do estroma, causada por IL-1 e TNF, com aumento de expressão e da funcionalidade de diversas moléculas de adesão e liberação de estímulos quimiotáticos (leucotrienos -LTB- e quimiocinas como IL-8 e 4 MCAF), para a marginação vascular de neutrófilos, linfócitos e monócitos. A resposta sistêmica constitui-se de uma ação de IL-1, IL-6, TNF e prostaglandinas ao nível do sistema nervoso central, levando à febre, à produção de cortisol, de IL-1, IL-6 e TNF ao nível hepático, estimulando a resposta de fase aguda, dos fatores estimuladores de colônias (GM-CSF e G-CSF) e de IL-3 ao nível da medula óssea para aumento do número de leucócitos e, finalmente, pelo efeito de IL-1 e IL-6 na inicialização da resposta imune por células B e T.
Figura 2 – Células e mediadores envolvidos na resposta de fase
aguda
4.1.3 A Resposta Imune Inata na Doença de Chagas Existem poucos estudos sobre a resposta inflamatória imediata à inoculação subcutânea com T. cruzi, protótipo da infecção natural ou acidental. Além disso, a infecção por via vetorial ocorre, provavelmente, mais por via da mucosa ocular do que por via subcutânea, posto que o T. cruzi não está presente na saliva e sim nas fezes que o triatomíneo deposita na região onde lesou um vaso sangüíneo para seu repasto.
Num sítio de inoculação intradérmico, provavelmente as plaquetas são as primeiras sinalizadoras para a inflamação. O processo de invasão de macrófagos e células não fagocíticas é bastante complexo, envolvendo mecanismos ativos e passivos, tanto por parte do parasita quanto da célula-alvo, bem como numerosos componentes da membrana de ambos (revisto em Araújo-Jorge et al., 1992a e em Burleigh & Andrews, 1995). Após vários ciclos reprodutivos, as formas amastigotas sofrem diferenciação para tripomastigotas, que são liberados após ruptura da célula, podendo invadir células vizinhas ou serem levados a outros tecidos pela corrente sangüínea; por isso a parasitemia não é detectável nos primeiros sete a dez dias de infecção, quando a proliferação parasitária ainda está restrita à lesão de porta de entrada. Num estudo de infecção acidental, a parasitemia foi detectada apenas 33 dias após a infecção (Hofflin et al., 1987). O chagoma de inoculação cutânea é a primeira reação observada no mamífero após o contato com as formas infectantes e lembra uma reação tipo hipersensibilidade retardada (Romaña, 1943). Após o início da disseminação por circulação sangüínea ou linfática, quando um a dois parasitas já podem ser observados numa gota de sangue periférico, há uma fase rápida de expansão parasitária (fase ascendente rápida da parasitemia) devida sobretudo à proliferação em macrófagos de baço e fígado. Essa fase é logo em seguida refreada pela ação eficiente de uma resposta específica mediada por células T (ver item 4.2).
4.1.3.1 Citocinas pró-inflamatórias e moléculas de adesão na fase aguda Alguns estudos já abordaram as variações e o papel das citocinas IL-1, IL-6, TNF-α e TGF-β, principais orquestradoras da resposta inflamatória durante a infecção experimental por T. cruzi (Tarleton, 1988, 1990; Russo et al., 1989; Russo & Starobinas, 1991; Starobinas et al., 1991; Silva et al., 1991, 1995; Truyens et al., 1994; Zhang & Tarleton 1996; Laucella et al., 1996). Todas são detectáveis, aumentam rapidamente, geralmente precedem de uma semana o aumento da parasitemia, elevam-se cerca de dez vezes mais que o normal entre o 14º e o 17º dias, a depender do inóculo utilizado, e decaem posteriormente para valores três a cinco vezes os iniciais, normalizando-se após quarenta dias de infecção. A produção de TNF-α por camundongos C57BL/6 pode ser induzida mesmo utilizando-se parasitas fixados como estímulo (Tarleton, 1988). Os níveis de parasitemia não necessariamente se correlacionam com o nível de produção de TNF-α (Russo et al., 1989). Além disso, a susceptibilidade de uma linhagem a um certo isolado de T. cruzi parece ser o resultado do conjunto de interações que ocorrem via rede de citocinas, e não do efeito isolado de uma delas, pois em diferentes combinações camundongo/parasita são detectadas produções de todas as citocinas citadas, com pequenas variações de cinética (Zhang & Tarleton, 1996).
A produção de IFN-γ, TNF-α, IL-1-α e IL-6 por camundongos Balb/C infectados com duas diferentes cepas de T. cruzi (Tulahuen e CA-1) foi estudada, tanto no baço, como no coração (Laucella et al., 1996). O interessante é que no coração há intenso aumento da produção de todas as citocinas testadas, que em alguns casos chega a ser maior do que no baço. Estes autores também analisaram os níveis da molécula de adesão ICAM-1e mostraram que, como previsto pela presença de citocinas inflamatórias, foi possível a detecção de níveis elevados de ICAM-1 solúvel, bem como de expressão aumentada de ICAM-1 na superfície de células. Essa molécula é fundamental para o extravasamento de células inflamatórias nos sítios de lesão, mediando o reconhecimento dos leucócitos com o endotélio pela interação de ICAM-1 com a integrina LFA-1.
4.1.3.2 Ativação inespecífica de macrófagos Os macrófagos têm um papel essencial nas infecções. Secretam uma vasta gama de mediadores químicos e de citocinas que podem regular a resposta T emergente (funções endócrinas e parácrinas). Adquirem, processam e apresentam antígenos para células T e B, e são uma fonte de moléculas co-estimulatórias para a ativação dessas células. Uma vez sensibilizados ("primados") por citocinas, eles podem se desenvolver em células ativadas para uma atividade efetora citotóxica deflagrada por citocinas (como IFN-γ e TNF-α) ou outros co-sinais, como LPS ou produtos do alvo. Secretam então muitos produtos com atividade microbicida (metabólitos reativos de nitrogênio e de oxigênio, lisozimas e citocinas citotóxicas como TNF-α), efetivos a depender da susceptibilidade do alvo.
Um trabalho clássico de Hoff, em 1975, mostrou a cinética de ativação de macrófagos in vivo, em camundongos C3H infectados com T. cruzi. Os macrófagos peritoneais se tornavam resistentes à infecção in vitro apenas 21 dias após a infecção, no final da fase ascendente da parasitemia. Mostrou também que as curvas de parasitemia dos animais infectados não se modificavam em indivíduos imunizados com BCG ou com Listeria monocytogenes, mas eram reduzidas em animais previamente imunizados com formas epimastigotas de T. cruzi. No ano seguinte, Brener & Cardoso (1976) mostraram que a imunização com Corynebacterium parvum reduzia a parasitemia e retardava a mortalidade de camundongos inoculados com altas doses de T. cruzi. Em 1977 uma série de trabalhos de Nogueira (Nogueira et al., 1977a,b) mostraram que tanto a imunização com epimastigotas como com BCG pode ativar macrófagos a exercerem atividade fagocítica e citotóxica contra T. cruzi in vitro, e que nesses casos já na primeira semana pós-infecção era possível detectar a ativação dos macrófagos. Portanto, se a ativação inespecífica de macrófagos pelo BCG for eficiente, pode contribuir para a resistência à infecção.
A julgar pelo aumento da expressão de moléculas de MHC classe II, a cinética de ativação de macrófagos depende do número de parasitas inoculados e da via de inoculação. A porcentagem de macrófagos Ia+ aumenta de três para cem em oito dias após um inóculo intraperitoneal de 105 parasitas, mas apenas após 12 dias com o mesmo inóculo intradérmico, e após 28 dias com um inóculo ID de 10 2 parasitas (Behbehani et al., 1981). O curso temporal da ativação de macrófagos in vivo acompanha o aumento nos níveis IFN-γ, a principal citocina responsável pela ativação. Outras citocinas como GM-CSF, M-CSF e TNF-α também podem contribuir sinergicamente ao efeito do IFN-γ. Estudos mais recentes mostraram que as citocinas IFN-γ, e TNF-α são as principais mediadoras dessa ativação de macrófagos (ver Capítulo 4.4) e que IFN-γ e IL-12 compõem um sistema autócrino de feed-back positivo que amplifica os níveis de IFN-γ para ativação de macrófagos e de IL-12 para produção e ativação de células NK e Th1.
4.1.3.3 A resposta de fase aguda
A resposta de fase aguda é o nome dado para um padrão característico de alterações metabólicas que ocorrem em resposta a diferentes formas de infecção, inflamação ou danos tissulares (Koj, 1984). Estas mudanças metabólicas incluem leucocitose, diminuição da concentração plasmática de zinco e ferro, aumento da concentração de cobre, aumento do catabolismo protéico e gliconeogênese, aumento da síntese protéica total e febre, entre outros. Os níveis de complemento aumentam (Scharfstein et al., 1982), mas animais deficientes no componente C5 do complemento desenvolvem curso normal de parasitemia e apresentam níveis similares de mortalidade a animais com o sistema complemento funcionante (Dalmasso & Jarvinen, 1980). Além disso, tripomastigotas são resistentes à ativação direta da via alternada do complemento, por possuírem molécula com atividade similar que apresenta decay accelerating factor humano (DAF, CD55) (Norris et al., 1991). O complemento pode também ser ativado por pentraxinas, como CRP, ou por colectinas, como mannose-binding protein (MBP). No entanto o T. cruzi apresenta um antígeno de superfície que mimetiza CRP humana, a julgar pela capacidade de interagir com anticorpos poli- e monoclonais anti CRP humana (Coutinho et al., 1998), que pode também contribuir para o escape do parasita aos efeitos do sistema complemento. Quanto à possível participação da MBP, que reconhece padrões de manoses comumente expostos na superfície dos microorganismos, ela não reconhece formas tripomastigotas, contribuindo, desse modo, possivelmente, para o escape à lise por complemento na fase inicial da infecção (Kahn et al., 1995). Já as formas amastigotas se ligam à MBP, através de glicoproteínas de superfície, da família SA85 (Kahn et al., 1996).
Durante a inflamação, há um grupo bem definido de proteínas, conhecidas como proteínas de fase aguda, cujos níveis plasmáticos aumentam. Entre elas temos: (a) proteína C reativa (CRP), que funciona como uma opsonina não específica para aumentar a fagocitose de bactérias; (b) α-2-macroglobulina (A2M) e outros inibidores de proteases; (c) proteína fibrinogênio da coagulação; (d) proteína amilóide do soro (SAP); (e) haptoglobina; (f) fibronectina solúvel (Fn). A maioria das alterações nas concentrações plasmáticas pode ser diretamente atribuída a alterações nos níveis de síntese dessas proteínas plasmáticas por hepatócitos, que por sua vez são regulados primariamente por IL-1 /TNF-α e por IL-6.
Até o presente, pouco se sabe a respeito do papel dos elementos da resposta de fase aguda na doença de Chagas. Do conjunto de proteínas de fase aguda apenas três foram estudadas em camundongos: SAP, A2M e Fn.
A SAP aumenta drasticamente no plasma de camundongos C57BL/6, em paralelo ao aumento da parasitemia, dependendo do inóculo utilizado (Scharfstein et al., 1982; Luz et al., 1994). Já em camundongos C3H seus níveis não se alteram em resposta à infecção (Luz et al., 1994), e em camundongos Balc/C aumentam, mas muito menos do que em C57BL/6 (Luz et al., 1994; Truyens et al., 1994). Crianças na fase aguda da doença de Chagas também apresentam uma resposta heterogênea quanto à elevação de CRP (o homólogo da SAP de camundongos), com predomínio de aumento (Medrano-Mercado et al., 1996a). Sabe-se que a CRP ativa complemento, atua como um opsonizante e ativa macrófagos e neutrófilos (revisto em Steel & Whitehead, 1994). Os componentes C3 e C4 do complemento também aumentam na fase aguda da infecção experimental (Scharfstein et al., 1982).
Tanto camundongos como crianças infectadas apresentaram níveis elevados de α-macroglobulinas, inibidores fisiológicos de proteinases, durante a fase aguda (Luz et al., 1994, 1995; Medrano-Mercado et al., 1996a,b). O aumento do nível de A2M é mais significativo nas crianças assintomáticas do que naquelas sintomáticas, que se encontravam hospitalizadas no momento da colheita do soro (Medrano-Mercado et al., 1996b). Camundongos Balb/C que sobreviveram à infecção aguda apresentaram níveis mais elevados de A2M plasmática comparável àqueles que morreram (Araújo-Jorge et al., 1992b). No entanto, tal como para SAP também é grande a heterogeneidade observada nos animais e em humanos quanto à elevação dos níveis de A2M (Luz et al., 1994, 1995; Medrano-Mercado et al., 1996b). Como é conhecido o envolvimento de proteinases de T. cruzi em eventos moleculares ligados à sua interação com células hospedeiras (revisto em Araújo-Jorge et al., 1992a), o efeito de A2M nesse processo foi estudado in vitro e mostrou-se que A2M pode inibir a invasão de macrófagos e fibroblastos por parasitas das cepas Y, Colombiana e CL, possivelmente devido à sua ação inibidora sobre proteinases. Além disso, a pré-incubação de macrófagos peritoneais residentes com A2M resulta em um aumento na endocitose e na destruição celular de tripomastigotas da cepa Y. Um papel potencialmente importante e ainda pouco explorado da AM é sua atividade como carreadora de citocinas (revisto em Borth, 1992 e em Legrés et al., 1994). Esta ligação resulta na redução de atividade dessas citocinas, ou no aumento de sua meia-vida. A2M ligase a TGF-β, TNF-α, IL-1, IL-2 e IL-6.
Finalmente, foi demonstrado que também a Fn apresenta níveis ligeiramente elevados na fase aguda da infecção experimental (Truyens et al., 1995), resultado encontrado também em crianças chagásicas na fase aguda (Antas, 1996). Em ambos os casos foi mostrado que há elevação dos níveis de anticorpos anti Fn. Estudos in vitro sugerem que Fn tenha papel como adjuvante na penetração do parasita nas células do hospedeiro vertebrado (Wirth & Kierszenbaum, 1984; Ouaissi et al., 1985), e que anticorpos anti Fn podem ter efeito "protetor" na infecção (Ouaissi 1988). Apesar desse conjunto de dados, ainda não foi esclarecido o real papel que essas proteínas de fase aguda apresentam in vivo na infecção.
4.1.4 Atividade de Células NK e de Células Tγδ
Quando ativadas, as células NK cumprem duas funções primordiais: sintetizar IFN-γ e lisar alvos reconhecidos por seus receptores. Um dos sistemas de ativação das células NK é a interação. Na década de 80 foi observado um aumento de atividade NK no baço de animais C57BL/6 e C3H infectados experimentalmente (Hatcher et al., 1981), bem como a indução de atividade citotóxica em macrófagos peritoneais. Essa atividade pode ser verificada tanto utilizando-se parasitas vivos como mortos por calor. Com base em seus resultados, os autores discutiram que não havia indícios de que células NK desempenhassem um papel direto na proteção durante a infecção por T. cruzi. A administração de indutores da atividade NK, como o ácido poliinosino-citidílico (Hatcher & Kuhn, 1982), gera células NK com atividade tripanocida. Do mesmo modo, a administração de tilerone (James et al., 1982), indutor de atividade NK, aumenta a resistência à infecção. No entanto, o papel-chave das células NK como secretoras de INF-γ e participantes da resistência do hospedeiro à infecção por T. cruzi foi recentemente demonstrado (Silva et al., 1995), especialmente quando da sua depleção in vivo por anticorpos anti NK (ver item 4.4).
Já a subpopulação de linfócitos Tγδ pode ser ativada por antígenos contendo prenil-pirofosfato (componentes de membranas de microorganismos envolvidos na ligação de carboidratos), e não precisam de processamento intracelular ou de associação com produtos MHC. Secretam IFN-γ e TNFα e induzem a diferenciação de células Th1. Seu número aumenta bastante durante a infecção (Minoprio et al., 1989). Essas células podem modular a parasitemia em certos modelos (Cardillo et al., 1993) e a inflamação característica da miocardite aguda (Santos-Lima & Minoprio, 1996). 4.1.5 Regulação da Resposta Imune Inata