Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Vladimir, Rússia. 26 de junho de 1945.
FORAM DEZ dias sem fazer nada, apenas se recuperando da estafa da viagem, tomando a sopa aguada da velha lata de conserva e vendo em cada gota de chuva uma lembrança dos tempos felizes. Pareceu uma eternidade. Um prisioneiro de guerra, Horst experienciou, passa a ver a vida por outra perspectiva. No jogo contra o tempo ele só podia perder. Ficar preso sem uma ocupação e sem nem mesmo estar a caminho de algum lugar era desesperador para ele. Pensava na família o tempo todo, em comida o tempo todo, na falta de sorte o tempo todo.
“Jovem, jovem! Quão desértico é o cárcere de guerra”, ele escreveu por aqueles dias. “Só fui preso há dois meses e já estou cheio dele. Mas o que devem dizer aqueles que já estão aqui há três anos?”
Então a chuva finalmente parou, e Horst foi enviado para o trabalho. Já era a última semana de junho.
Foi pela manhã, logo depois da sopa e da revista. Saíram em um grupo, três filas, como seria sempre, cruzando o portão do campo em direção à cidade. Um alemão os guiava. Era o chefe de companhia, um prisioneiro como eles, que apenas estava nas mãos dos russos havia mais tempo, e por isso trabalhava para eles – ou como um deles.
Seguiram pela estrada de terra que levava até o campo. O chão ainda estava revirado pela chuva, com poças pelo caminho, mas o Sol logo daria conta delas. Era fácil perceber que estavam afastados de tudo, exceto do silêncio dos pássaros. Para chegar à cidade precisavam cruzar uma espécie de vala. Desciam o pequeno morro; na metade dele, já começaram a surgir casas, quase todas de madeira, as janelas emolduradas com ornamentos talhados em tábuas pintadas com cores vivas; muitas tinham pequenas janelas perto do chão, sugerindo a existência de um porão. Não estavam em bom estado. Uma ou outra casa tinha a base construída com alvenaria, mas a parte com tijolos e cimento funcionava apenas como uma capa, pois logo acima vinha a estrutura de madeira cheia de furos e falhas. Ainda era muito cedo, as pessoas deviam estar em casa.
Começavam a ver a vida fora do arame farpado, o mundo das pessoas livres. Tornaram a subir, mas antes de vislumbrarem como viviam os russos, eles dobraram numa estradinha também de terra e começaram a se afastar da cidade novamente; não iriam para o centro. Logo perderam a companhia das velhas casas de madeira e entraram em uma área inabitada, que logo se mostrou um canteiro de obras. Horst marchava e se perguntava o que poderia haver de serviço para um desenhista técnico como ele. Informara sua formação no interrogatório, na chegada. Tentara ser claro sobre suas qualificações. Certamente haveria algo.
Não havia.
No campo de trabalho, guardas russos esperavam pela chegada dos prisioneiros. O chefe da companhia se adiantou, apontou os prisioneiros e permaneceu algum tempo em companhia dos russos. Depois voltou para explicar o trabalho do dia. Dariam continuação à abertura e pavimentação da rua em que estavam. Ele então dividiu os homens em pequenos grupos, determinando a função de cada um. Para Horst coube terraplanar o terreno nos arredores da cidade. Não era exatamente o que esperava.
Nos dias seguintes, Horst cavou, carregou terra, descarregou caminhões com pedras e tijolos. O sol passou a maltratar. O ritmo de trabalho cansava, ainda mais para homens mal alimentados. E sempre havia um russo por perto para mandá-los, aos xingos, ir adiante, ir mais rápido, deixar de moleza, toda vez que paravam um pouco para descansar.
A comida piorou naquela semana. As batatas sumiram da sopa, que passou a ter urtiga. O pão não passava de cem gramas. Horst não demorou a sentir o reflexo disso.
No domingo, ainda não havia amanhecido quando acordaram a companhia. Foram postos para fora do alojamento, passaram pela revista e depois fizeram fila para serem interrogados por um comissário russo. O sujeito trabalhava impacientemente. Transmitia as perguntas ao chefe da companhia e já passava para outra antes que a resposta lhe fosse completamente repassada. Ele parecia entender um pouco de alemão; o chefe da companhia parecia entender um pouco de russo; mas ninguém parecia interessado em ouvir os prisioneiros a não ser ao buscar informações sobre o que haviam feito durante a guerra. Deviam estar à caça de oficiais ou de homens da SS. Enquanto aguardava, Horst se atentava para a palavra que mais ouvira desde que desembarcara: “Woina Plenni”. Horst era um “Woina Plenni” também, notou quando foi sua vez de se apresentar.
Horst mais uma vez explicou ser brasileiro, ter vivido apenas três meses no exército alemão e todas as coisas que já havia dito nas vezes anteriores. O comissário anotou algo, mas não mostrou reação. Horst foi um dos últimos. O dia já raiava quando o comissário foi embora, e então os prisioneiros foram até a cozinha para tomar a sopa rala. Depois, formou-se o grupo novamente à porta do alojamento.
Os homens deixaram a fábrica de tratores, mas tomaram um caminho diferente. Caminharam em paralelo à cidade, sem vê-la, mas se pudessem chegar um pouco mais adiante veriam-na logo depois da depressão do terreno. Levaram algum tempo caminhando, uma distância curta, mas uma caminhada dura para quem estava fraco das pernas. Chegaram a um novo campo, que Horst logo descobriu se tratar do campo principal.
O terreno do campo principal talvez não fosse tão grande quanto o da fábrica de tratores, mas parecia comportar mais prisioneiros. Era um campo estruturado, com muitos alojamentos, algumas casas de alvenaria e obras ao fundo, onde também havia uma barraca de madeira de cuja chaminé subia fumaça. O grupo da fábrica de tratores parecia caminhar em direção a ela, cruzando o pátio pouco movimentado. Horst deduziu que os homens estavam no trabalho e, mais à frente da fila, ouviu claramente quando o chefe da companhia disse que haviam chegado ao destino e que ali tomariam banho.
Horst foi um dos primeiros a entrar na cabana. Encostou a mão na parede e sentiu o calor da madeira. O lugar era pequeno, mas uma porta sugeria outro ambiente. Foi ordenado que tirassem as botas e as roupas; eram seis homens, que obedeceram ao comando, depois cada um empilhou o que tinha num ponto do chão. O chefe da companhia usou o cotovelo para abrir a porta, liberando uma nuvem de vapor. Eles entraram. Suaram por cerca de dez minutos, parados, de pé, tentando entender o que faziam ali. O homem abriu novamente a porta, apontou para o fundo da sala e gritou que usassem a água, que estava armazenada em grandes latas. Eles usaram uma cabaça para apanhá-la e molhar o corpo. Um sabão grande e marrom passou de mão em mão.
Levou toda a manhã até que os prisioneiros tivessem se banhado. No mesmo dia, receberam quarenta gramas de tabaco cada um. O domingo foi um dia de folga para Horst e seu destacamento. O domingo passou a ser sempre dia de folga para eles. Cada destacamento tinha o seu. Mas não era exatamente folga. Era o dia de se banharem, o que só podia ser feito no campo principal. Isso significava passar por revista, formar fila, marchar até lá, tomar banho e aguardar todos os outros terminarem, para então voltar para o alojamento no terreno da fábrica de tratores, engolir a sopa de urtiga e perceber que já havia se passado todo o dia.
Por aqueles dias, alguns prisioneiros da fábrica de tratores foram chamados durante a noite. Retornaram, apanharam os objetos que guardavam sob a cama e partiram. Eram poloneses e franceses. Seriam enviados de volta para casa. A notícia correu o campo e todos já sabiam dela na manhã seguinte. Isso acendeu uma chama em Horst.
“Se eu como brasileiro também irei em breve? Ou são apenas sonhos!”, ele escreveu no diário. “Nós nos vemos com certeza mais uma vez. Vocês vivem ainda?!”. Horst parecia sentir tanta falta de casa que já conversava naturalmente com a família através das palavras escritas naquele caderninho.
A semana que se seguiu foi de calor escaldante. O trabalho foi o mesmo. O humor dos guardas pareceu pior. Chegou o domingo novamente, e Horst foi ao campo principal, mas não para o banho. Mandaram-no para o trabalho. Era dia de folga, mas um russo ordenou que terraplanassem um terreno à esquerda e nos fundos do campo principal. Seria feito um campo de futebol no local. E assim ele começou a trabalhar logo cedo, num ritmo que lhe pareceu estranho. Trabalhavam por quarenta minutos, depois ficavam outros quarenta parados, enquanto outra parte do grupo assumia o serviço. Já deviam ser dez horas da manhã, Horst olhava os colegas trabalhando sob o sol impiedoso. Lembrou-se de casa. Tinha o diário consigo. Sentou-se atrás dos companheiros e começou a escrever.
“Mais uma semana se passou!
Uma semana quente. Aqui reina momentaneamente um calor tropical.
Como será o clima em casa?
Também tão belo?”
O calor lembrou-lhe as férias passadas. Havia viajado até Prenden e se divertido muito sob o sol nos lagos da cidade. Nem pensou na guerra durante aqueles dias. Agora, sentado ao chão de um campo de prisioneiros de guerra, não conseguia concluir se era bom ou ruim ter ainda boas lembranças.
Os quarenta minutos se passaram e ele voltou ao trabalho.
Mais uma semana se passou. Chegou outro domingo. Completavam-se quatro semanas em Vladimir. Nesse domingo, além do banho, Horst foi despiolhado. Foram-se embora novamente os cabelos. E foi uma sensação ótima estar limpo. Bastava voltar para o alojamento, no entanto, e logo voltava a se coçar. Reapareciam os piolhos. Nada surpreendente, afinal a roupa era a mesma. Horst usava o mesmo uniforme com que havia sido preso em Halbe. Não poderia ser diferente. Piolhos, mau cheiro, coceira, feridas nos pés. Sentado ao chão do campo principal, temporariamente limpo, Horst pegou novamente o diário.
“Domingo ao meio-dia em casa. A comida deveria ter acabado de ficar pronta. Teria juntado os selos tão vagarosamente, colocaria a prancheta de desenho no canto e então iria sentar-me à mesa coberta de branco para comer alegre e confortavelmente! Agora se percebe quão boa a vida era! Apesar das cartelas de racionamento de alimentos, apesar dos bombardeios e outras coisas, de que se reclamou naquele tempo! Esse tempo volta mais uma vez?”
A vida numa Berlim em guerra começou a dar saudades. Tudo dependia da perspectiva, e a de Horst era muito frágil. Ele não escreveu nas duas semanas seguintes.