Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 8 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Berlim, Alemanha. 18 de novembro de 1943

MARIA DO CARMO não fazia ideia de quando a guerra havia começado. Uma noite, estava em casa brincando de boneca, quando um grito agudo e chato começou a chegar da rua. Parecia um carro de bombeiros. Ele dava intervalos, mas não parava. Ela teve a impressão de que seu pai também tinha se assustado, pois Richard se aproximou ofegante, pegou-a pela mão e saíram correndo para o porão do prédio, um escuro e desconfortável buraco a que chamavam de bunker. Margarete e Horst os seguiram. Lá dentro já havia vários vizinhos, parca mobília e um zum-zum-zum nervoso.

Aquilo então era a guerra de que ouvia os outros falarem. Guerra era algo ruim, realmente, uma sirene chata que ordenava a todos que se escondessem no bunker, pois algo de mal podia acontecer. Do bunker, ouviam alguns estrondos, normalmente longe, às vezes, perto. As pessoas passavam longos períodos em silêncio, especialmente seu pai, cuja voz se ouvia ainda menos que de costume. Se ela observasse melhor, perceberia que todos os homens estavam calados. O bunker era iluminado por uma luz azul e tinha forte cheiro de cimento e suor. Seu pai a ensinou a não correr por ali, pois era um lugar para ficar quieta. Ela ficou quieta.

Mais tarde, um mais tarde que lhe pareceu dias depois, novamente a sirene, de um jeito um pouco diferente, anunciou que podiam voltar para casa, onde os quadros foram encontrados no chão, cobertos de caliça e reboco do teto e das paredes. Seu pai seguiu com cara preocupada, e a mãe beijou longamente o terço, conversando com a santa inabalável sobre o móvel da sala.

A vida, no entanto, fora quase normal desde o início da guerra até aquela madrugada de 26 de agosto de 1940. E seguiria com relativa normalidade até novembro de 1943. Maria do Carmo e Horst continuaram indo à escola. Ela fazia mais amigas a cada dia; ele passava muito tempo em um pequeno estúdio de animação. “Trickzeichen” chamava-se aquilo, explicava à irmã, enquanto a encantava com os personagens que se moviam ao passar rápido das folhas de papel. Horst começou um estágio na Mannesmann em abril de 1942, aprendendo sobre construção de gasodutos e trabalho com chapas metálicas; tinha aptidão com o lápis e se formava desenhista técnico. As paredes do quarto de Horst viviam recheadas de desenhos e, ao contrário dos quadros da sala, eles não despregavam quando as bombas caíam sobre Berlim.

Berlim se tornou um lugar enegrecido a partir de 18 de novembro de 1943, quando mais bombas passaram a cair sobre a cidade. De dia, as ruínas se tornaram um visual inextirpável. As noites ficavam mais e mais escuras. Muitas ruas em Prenzlauer Berg ficaram sem luz, todos os prédios tinham as janelas tapadas com madeira e, em cada apartamento, só um ambiente podia ser iluminado e aquecido.

A Alemanha vivia um racionamento para nutrir o exército. A alimentação era regida por pequenos papéis, e não importava o dinheiro que se tivesse economizado, pois não havia mercadoria para comprar. Diferentes tipos de carnês definiam a quantidade de alimentos, de acordo com o tamanho da família e o trabalho de cada um. Todos os dias, imensas filas se formavam na porta dos armazéns, padarias e outros pontos de distribuição. A ração básica tinha carne, cereais, linguiça, açúcar, conserva, substituto de café e, claro, batatas. Nas filas de distribuição só havia mulheres; se houvesse homens, certamente era dia de aguardente.

Richard fora incluído em uma boa categoria graças à oficina. Nesse tempo, ele ficava pouco em casa. Saía cedo para trabalhar e voltava tarde. Enquanto houve bonde, tomou-o. Quando a vida saiu dos trilhos, passou a acordar mais cedo e ia caminhando até o trabalho. Não era um homem de muitos amigos, não bebia com frequência, e não podia reclamar falta de nada que houvesse sido interrompido pela guerra, pois não era dono de nenhum hábito, hobby, sonho ou vício. A não ser o cigarro, que por ora ainda conseguia arrumar.

Richard possivelmente entendia as implicações de um país em guerra, embora acompanhasse as notícias com pouco interesse. Na casa dos Brenke quase não se ouvia rádio. Richard não lia jornais. Nunca havia tido muito conhecimento sobre a situação política, tampouco compartilhava aquele sentimento de identidade nacional demonstrado por muitos alemães. Estranhava quando cruzava com adoradores do Führer e do nazismo, e parecia conhecê-los tão mal quanto aos comunistas a quem maldiziam. Richard, contudo, sentia uma espécie de agradecimento por ter um emprego e estendia esse agradecimento à forma como a Alemanha fora conduzida nos últimos anos. Era realizado por ter um trabalho e por as coisas parecerem assentadas em casa; talvez, nunca houvesse tido sonhos maiores que esses.

Durante muito tempo, sentira-se rebaixado por sua origem. Por caminhos outros, repetia a história de seus antepassados. Seu pai, o entregador de leite, deixara a Prússia Oriental para tentar uma vida melhor em Berlim. Julius Brenke, seu avô, um agricultor em Niederung, viveu por lá até morrer, ao lado da esposa, Friederike Rehberg. Do outro lado, a mãe de Richard era filha de um pedreiro católico que se casara com uma protestante. Robert Czasch possivelmente enfrentou mais problemas que o neto ao se casar com Henriette Legner, meio século antes de Richard conhecer Margarete.

Richard pensava pouco nisso, naquele tempo; mantinha a casa com o próprio suor e isso bastava. Estava pouco interessado no que estivesse além. Concordara com a esposa quando, no início da guerra, decidiram voltar para o Brasil. Mas não lamentou terem encontrado os portos fechados tanto quanto ela. Só no final de 1943 ele teve motivos mais sérios para lamentar não ter embarcado com a família para longe dali.

Por esses dias também, a guerra se aproximou de Richard Brenke. A oficina passou a ser usada como cadeia para prisioneiros de guerra. O primeiro a aparecer foi um francês, que Richard viu chegar pelas mãos de oficiais da SS e ser trancado em uma espécie de grande gaiola improvisada. Desde então, o dia a dia teve a presença de militares, embora a vigilância não fosse rigorosa. Richard mesmo trocou meia dúzia de palavras com o francês logo no primeiro dia, quando foram, ele e todos os outros funcionários da oficina, espiar o novo morador.

Certa manhã, Richard andava pelo escritório principal, de onde via a grande gaiola. O sujeito estava de costas para ele, encostado à grade, o rosto virado de lado, podendo ver o que ocorria no salão, embora o olhar estivesse perdido em outro lugar. Estava sujo e visivelmente mal alimentado. Richard acabara de chegar para trabalhar, e se aquecia com café e comia um pão de desjejum. Observou o homem por um instante. O francês pareceu ter percebido a atenção sobre ele e fitou o mecânico. O vigia envergava-se na porta de entrada, distraído com a movimentação de outros militares no pátio. Richard deixou cair o pão de sua mão, olhou para o francês, depois para o guarda, e chutou-o em direção à grade. Lentamente, o prisioneiro se virou, esticou o braço para fora e puxou o pão para si. Guardou-o entre as mãos e o peito, deu novamente as costas e começou a comer em silêncio a grandes mordidas.

Cenas parecidas se repetiram. Vez ou outra, Richard conseguiria conversar com o sujeito. Chamava-se Jean Pierre. Trocariam correspondência no futuro.

Corriam notícias de que as coisas não iam bem desde o final de 1942, embora a propaganda nazista tentasse convencer do contrário. Em Berlim, a vigilância sobre os próprios alemães se acirrou. Em casa, nas poucas vezes que ligava o rádio, Richard não se arriscava a sintonizar as rádios inglesas para conferir se tudo o que Goebbels dizia era verdade. Sabia que aquilo era considerado um crime e que teria sérios problemas se fosse pego. Os bombardeios pioraram em 1944, quando os Lancasters da Força Aérea Real britânica receberam a companhia dos B-17 americanos.

Foi Goebbels quem foi ao rádio para convencer os alemães de que deveriam comemorar normalmente o Natal de 1944. Richard não pareceu muito animado, mas não criou problemas em casa. Margarete foi para a cozinha e começou ainda cedo a preparar a ceia. Passou o dia todo dando atenção a uma peça pequena de carne de porco que tinha conseguido comprar. Para o Natal daquele ano não haveria o tradicional ganso assado, mas Margarete havia conseguido algo. No fim da tarde, colocou-a no forno e foi se aprontar. Um tempo depois retornou à cozinha para os retoques finais.

Horst estava sentado próximo à porta da cozinha, burilando sua coleção de selos. Era um imenso álbum, e nada lhe dava mais prazer do que aquela propriedade. Maria do Carmo chegou da sala empolgada, um livro grosso e pesado equilibrado com esforço nos braços. Tinha cansado de admirar a coleção de bonecas que mantinha em um armário de vidro no quarto e que, já sabia, não aumentaria naquele Natal. Sentou-se não muito longe de Horst, que levantou as vistas por um instante para olhar com ternura, através das grossas lentes dos óculos ovais, para a irmã, que dobrava as pernas e descarregava sobre elas o livro. Era um caprichado almanaque com fotos e relatos da carreira de Shirley Temple. Nenê era completamente apaixonada pela cantora e atriz norte-americana, apenas seis anos mais velha que ela. Maria do Carmo abriu o livro em uma página qualquer e deu de cara com Shirley em Poor Little Rich Girl , um filme de 1936, quando a artista tinha praticamente a idade atual de Maria do Carmo.

Da cozinha chegava o cheiro do pernil, o relógio acima da geladeira marcava oito da noite. Os blecautes nas janelas não deixavam ver que fazia uma noite clara e fria, mas não detiveram o som das sirenes anunciando ataque aéreo. Margarete teve tempo de desligar o fogo, enquanto os vizinhos já faziam barulho no corredor. Foram todos para o bunker.

Maria do Carmo sentiu que as bombas caíram perto. Aprendera a supor a distância pelo espaço de tempo entre o fim do assobio e o impacto. Durou um bom tempo, o bombardeio. Quando deixou a luz azul do bunker e voltou para casa, Richard percebeu que sentira o cheiro da comida lá de baixo. Todos comeram depois de recolocar os quadros e limpar o chão. Foi um Natal feliz, concluiria Horst. Havia boa comida.

A noite de ano-novo foi diferente. Houve bombardeio, mas não houve comida. Dias depois, Horst pegou com a mãe um cartão do racionamento e foi comprar pão. Sumiu. No dia seguinte, não havia voltado. Richard saiu em busca de notícias e também não voltou.