Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 24 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Halbe, Alemanha. 29 de abril de 2016.

CHEGUEI A Halbe com um dia de atraso. Saltei do trem na estaçãozinha vazia, a plataforma ao relento, pouco depois da hora do almoço. Estava frio apesar do sol, e quando o trem se foi mergulhei no silêncio do campo. Era 29 de abril, vi no relógio da Igreja. Só então me toquei. Se tivesse chegado um dia antes, estaria em Halbe exatamente no dia – 71 anos depois – em que Horst foi capturado pelos russos. Era início da tarde do dia 29 e, àquela hora, ele já havia partido. Perdi o simbolismo.

Halbe hoje é muito pouco diferente do que Horst conheceu. O vilarejo na região do Mark tem pouco mais de dois mil habitantes – cinco vezes mais que nos tempos da guerra –, fica a cerca de setenta quilômetros de Berlim e não há nenhum outro motivo para conhecê-lo senão pela batalha travada ali nos dias 28 e 29 de abril de 1945. Conhecido como Caldeirão de Halbe, Bolsão de Halbe ou Cerco de Halbe, o combate foi o último de maior dimensão antes de os russos tomarem Berlim.

Foi um combate de retaguarda. O exército russo já havia entrado em Berlim e estava perto de dominar a cidade. Um grande grupo de soldados alemães, ultrapassado durante o avanço do Oder, caminhava rumo ao oeste com o intuito de se juntar ao 12º Exército alemão, podendo compor um grupo maior para socorrer a capital. A Primeira Frente Ucraniana fechou o cerco ao grupo em Halbe, numa batalha que deixou quarenta mil mortos, entre soldados e civis, e fez milhares de prisioneiros.

Eu já estava na Alemanha havia quatro dias. A primeira coisa que fiz ao chegar a Berlim foi visitar uma agência chamada WASt. A WASt, ou Deutsche Dienststelle, é um escritório especializado no rastreio de soldados alemães da Segunda Guerra – ou de seus registros. Eu tinha um buraco para cobrir na minha história e guardava esperanças de que eles pudessem me ajudar. De fato, se alguém poderia me ajudar nisso, seriam eles. Eu precisava saber quem havia sido o soldado Horst Brenke.

Como Horst só iniciou seu diário no momento da prisão, ele não escreveu sobre os quase quatro meses como soldado na guerra, entre janeiro e abril de 1945. Eu sabia apenas algumas poucas coisas. Tinha documentos que me permitiam entender como ele havia ido parar no front; conseguira recolher histórias com pessoas que o conheceram; além disso, entendia o enredo em que ele estava inserido, a partir da pesquisa sobre a etapa final da guerra.

Mas eu queria os documentos. Queria provas. Buscava algum papel com o número de categoria de Horst, o batalhão em que esteve lotado, a função que cumpriu, os deslocamentos feitos, o nome do chefe, o número de sua bota, o tamanho de seu capacete, as letras gravadas em seu Erkennungsmarken, a pequena chapa oval que os soldados alemães carregavam ao pescoço para serem identificados.

Eu já havia acionado o WASt pela internet; tinha explicado o caso e solicitado uma busca pelos dados de Horst e de seu pai. Algumas semanas depois recebi uma carta deles, em que lamentavam não ter encontrado registro dos Brenke. Acostumado ao Brasil, onde toda ajuda requer insistência, convencimento ou gorjeta, fui visitá-los em Reinickendorf, um distrito afastado, para os lados do aeroporto Tegel. Num conjunto de prédios de tijolos vermelhos encontrei o escritório; perdi algum tempo até entender que os porteiros não falavam uma palavra em inglês. Eles mesmos desistiram da conversação, me mandaram entrar e aguardar. Pouco depois apareceu um funcionário que, em um inglês tropeçante, me convidou para sua sala, onde expliquei o motivo de minha visita.

O sujeito fez cara de desânimo e adiantou algo que eu já sabia: na altura em que Horst foi enviado para a guerra, começo de 1945, a Alemanha já vivia o caos. Nada era feito com o devido protocolo ou deixava registros. O desespero já havia tomado conta das pessoas, das autoridades e das instituições – entre elas, o Exército. Assim, qualquer homem, criança ou velho podia ser enviado para a guerra sem deixar documentação.

Ele tomou os dados e os jogou no computador. O sistema logo encontrou algo. Ele se surpreendeu. Me olhou animado. Correu para anotar um número no papel e seguiu a pista que o banco de dados havia indicado. Mal tinha dado tempo de criar alguma esperança e ele constatou que a única coisa que havia encontrado era o registro da minha solicitação, feita pela internet alguns meses antes. Pelo semblante, não pareceu muito satisfeito comigo.

Saí de lá desanimado e corri para o Treptower Park, no outro lado da cidade, onde precisava resolver algo pendente no Brasil.

Meses antes, enquanto traçava a rota feita por Horst a fim de refazê-la, me deparei com a necessidade do visto para entrar na Bielorrússia. Liguei para a embaixada em Brasília e bati um longo papo com o cônsul. Gentil, ele me informou o que era preciso fazer. Sem me dar conta, conversei demais. Falei sobre o livro, contei que era um jornalista e que passaria por Gomel. O que parecia fácil se complicou. Como jornalista, eu precisaria solicitar permissão de entrada junto ao Ministério da Comunicação na Bielorrússia. Deveria fazer isso via internet, explicando tudo sobre mim, sobre minha viagem e meu trabalho no país, juntamente com uma série de documentos, como carta da empresa de mídia em que trabalhava, passagens de entrada e saída do país, reserva de hotel e outras coisas. Feito isso, eu deveria aguardar cerca de um mês ou mais pela resposta; se positiva, só então se iniciaria o processo para o pedido do visto. Um visto para jornalista. Algo que, o cônsul comemorou, eles haviam concedido pela primeira vez fazia poucas semanas, a uma equipe de reportagem da TV Globo. “Se eles tiveram êxito, é possível que você também tenha.”

Como Horst, na segunda vez em que foi convocado para um transporte internacional, eu tinha conversado demais. Minha ida à Bielorrússia não se tratava de uma investigação sobre o país. Acabei criando um problema. Além de todo o trabalho para solicitar visto de jornalista, talvez não houvesse tempo hábil – e talvez, claro, não fosse autorizado.

No metrô de volta de Reinickendorf eu pensava nisso. Tentava imaginar que situação encontraria dali a alguns minutos, quando batesse na porta do consulado bielorrusso em Berlim para tentar um visto de turista. Eu tinha pouco conhecimento sobre a Bielorrússia. Sabia que era um país muito fechado, com forte lastro soviético e muitas vezes acusado de viver em um regime ditatorial. Fora isso, sabia o que todos sabem: Minsk é a capital; Azarenka, boa tenista; a jornalista Svetlana Aleksiévitch, Nobel de Literatura. Coincidentemente, Svetlana teria seu primeiro livro publicado no Brasil naquela semana. Eu havia lido alguns trechos, precisamente o que se referia a Gomel. A cidade por que Horst passou e que eu desejava visitar foi uma das mais afetadas pelo desastre de Chernobyl, que completava trinta anos em 2016.

Cheguei ao consulado passados alguns minutos do meio-dia e dei com a porta na cara. Já estava fechado.

Assim que deixei a estação em Halbe, trombei com uma grande placa na calçada. Informava sobre a exposição e o memorial construídos no ano anterior, quando a batalha completara setenta anos. A cidade começa na beira da ferrovia, no entorno da estação, onde ocorreram os primeiros tiros na tarde do dia 28. A rua principal bifurca numa praça sem graça, cujo centro hoje são um grande supermercado e um posto de gasolina. A Kirchstraße é a rua que segue rumo ao sul, quase acompanhando os trilhos, enquanto a Lindenstraße corta a cidade para o oeste, tornando-se pouco depois a estrada para Teupitz. Os soldados alemães que chegaram a Halbe encontraram três bloqueios, um em cada ponto dos caminhos citados. Eu só encontrei casas bem cuidadas, com jardim na frente e carro na garagem; pequenos prédios com comércio; alguns carros passavam em direção a Teupitz, e eu seguia as placas.

Custou para aparecer alguém. Pedi informações, mas o homem não falava inglês. Interpelei outros dois – a atendente da doceria e um idoso que limpava o jardim. Nada. Quando já me aproximava do cemitério apostei num casal jovem. Eles sabiam algumas palavras. Me despacharam para o cemitério, sugerindo que tudo que eu precisasse seria encontrado nas placas, que estavam em alemão e em inglês.

O idioma seria um problema constante nos dez dias que passei na Alemanha. Depois do fracasso no consulado bielorrusso, fui confirmar o compromisso do dia seguinte. Enviei um e-mail para Peter Steger, em Erlangen. Sempre ágil, ele logo me respondeu com as coordenadas. Eu teria toda a tarde para conversar com Alfons Rujner, um alemão de quase noventa anos, soldado da Wehrmacht na Segunda Guerra e prisioneiro dos russos em Vladimir entre 1945 e 1949. Eu só precisava conseguir um intérprete, pois, como seria com todos os veteranos que eu tinha intenção de encontrar, o alemão seria o único idioma utilizado.

Consegui o intérprete e às duas e quinze da tarde do dia seguinte estávamos os três sentados no Plötners Café, um lugar no leste de Berlim famoso por seu cheesecake. Cheguei com quinze minutos de atraso, vindo do outro lado da cidade – tinha ido entrevistar a professora Ute Schmidt na Universidade Livre de Berlim – e mal respirava de preocupação pela falta de pontualidade. Uma chance daquela e eu me atrasava. Deixava um alemão de noventa anos esperando por quinze minutos mesmo tendo ouvido tantas vezes falar sobre a pontualidade e rigidez dos alemães. Já cheguei me desculpando, tão preocupado, que demorei a perceber a cara boa de Alfons tentando me fazer entender que não havia problema, enquanto me oferecia café.

Conversamos por quase quatro horas. Nesse meio tempo, comemos torta, tomamos café, o Plötners fechou, passamos ao bar do lado e seguimos batendo papo e tomando cerveja. Alfons me presenteou com o livro que escreveu sobre o tempo como prisioneiro na Rússia. Além disso, me encheu de informações e detalhes valiosos. A todo momento ele se mostrava surpreso com minhas perguntas, pois muitas vezes se referiam a detalhes íntimos. “Ninguém nunca me perguntou isso, Taksis”, me dizia, antes de rir e começar a explicar o modo como era despiolhado ou usava o banheiro. Foi uma ótima entrevista. Voltei para casa com o ânimo em alta.

Alfons não esteve em Halbe. Foi capturado antes disso, mais a oeste. Mas fez um caminho até a Rússia muito parecido com o de Horst (a quem nunca viu – se viu, não se lembra) e de boa parte dos homens pegos em Halbe em abril de 1945.

Andei por todo o vilarejo, um lugar pacato, onde a vida parece suspensa. Uma vidinha boba. Um paradeiro que torna quase impossível imaginar que um dia o furacão da guerra passou por ali, indo embora com os russos e sua imensa coluna de prisioneiros, mas deixando para trás, nas ruas e por entre as árvores da floresta, um tapete de corpos, de soldados alemães, soldados russos, civis, cavalos, carcaças de veículos queimados, tanques e carroças, blindados empilhados como sacos de cimento, uma quantidade imensa de escombros, sujeira, lixo e morte para marcar o resto da vida de quem visse aquilo. Numa das fotos da exposição, foi possível ver uma mulher andando por entre o rescaldo; ela procurava qualquer coisa útil que pudesse haver entre os mortos e o lixo.

Konev conta em suas memórias que, em 1962, regressou a Halbe: “Nas aldeias da região ainda se podia ver restos da carnificina. Na floresta viam-se espalhados capacetes enferrujados e restos de armas; a água de um dos lagos, que ficara cheia de cadáveres, ainda não podia ser usada”. Quase trinta mil homens estão enterrados no cemitério de Halbe e todo ano novos corpos ainda são descobertos na floresta. São vidas desperdiçadas, pois só o fanatismo nazista não conseguia ver que a guerra já havia acabado e que os alemães estavam derrotados àquela altura.

Voltei de Halbe no início da noite. Quando cheguei ao meu apartamento em Prenzlauer Berg, onde me hospedara, ainda não havia escurecido. Escolhi o bairro por um motivo óbvio: foi onde os Brenke viveram. O apartamento no número 11 da Gubitzstraße estava a vinte minutos de caminhada e havia sido palco de um fracasso no dia anterior à visita a Halbe.

Com uma amiga alemã como intérprete, fui visitar o lugar onde Horst morou. O bairro é bem diferente daquele da década de 1940. Hoje, Prenzlauer Berg é ocupado por imigrantes de boa condição financeira. Especialmente na altura da Prenzlauer Allee, mais perto da Alexanderplatz, a vizinhança era bonita, com muitos bares e restaurantes. A Gubitzstraße começa na Wicherstraße, um lado menos movimentado e bem menos refinado do bairro. O conjunto de prédios do qual o apartamento dos Brenke faz parte fica logo no começo e tem as paredes pintadas de amarelo, as janelas pequenas e muitas árvores na frente.

Tocamos o interfone e um dos moradores do primeiro andar chegou à janela. A intérprete desculpou-se pelo incômodo e explicou a nossa visita. O sujeito, um homem com pouco mais de trinta anos, ouviu até o final, disse algo muito curto e voltou para dentro. Imaginei que viria abrir a porta. A intérprete explicou que ele dissera estar ocupado no momento.

Tentamos o outro apartamento do primeiro andar e a negativa foi parecida. Minha amiga olhou para mim com cara de “eu avisei”. Fomos embora. Ela, aliviada por ter cumprido uma tarefa que considerara árdua; eu, indignado por não ter tido sucesso em algo que me parecia simples, apesar dos avisos dos amigos brasileiros metidos a conhecedores da cultura alemã.

Depois da visita a Halbe, eu ainda tinha alguns dias na Alemanha pela frente. Continuava gastando um bom tempo pesquisando em arquivos e buscando documentos e certidões nos quatro cantos de Berlim. Numa segunda-feira, peguei um trem até Erlangen, cidade quatrocentos quilômetros ao norte de Berlim, na Baviera, já mais próxima de Munique que da capital. Fui me encontrar com Peter Steger, que me apresentaria a mais um veterano, ex-prisioneiro em Vladimir.

Peter já me esperava na estação, com sua bicicleta. É um homem magro e alto, tem os cabelos grisalhos alvoroçados e uma gentileza pouco expressiva, como se dosasse seu sorriso aberto e revelador. Peter trabalha na prefeitura de Erlangen, que é uma cidade irmã de Vladimir. Desde a década de 1990 ele é o responsável pela parceria entre as cidades, o que significa gerir um sem-número de eventos, trocas e intercâmbios culturais e comerciais. Tanto tempo dedicado a Vladimir deu a Peter uma esposa russa, natural da cidade que um dia recebeu tantos prisioneiros alemães. Peter é uma das pessoas com mais conhecimento sobre a história dos prisioneiros alemães em Vladimir; é autor de um livro elaborado a partir de entrevistas com quatorze alemães ex-prisioneiros em Vladimir. O título, Komm wieder, aber ohne Waffen! [Volte, mas sem armas!], saiu da conversa com Alfons Rujner, mas muita coisa interessante vinha do papo com Wolfgang Morel, a quem visitaríamos naquele fim de tarde, depois de Peter deixar sua bicicleta na estação e cruzarmos a pé a simpática cidade.

Wolfgang Morel foi um dos stalingrados. Quando caiu nas mãos dos russos, foi logo mandado para Vladimir, onde passou muito tempo no hospital se recuperando de problemas de saúde. Além de Vladimir, rodou outros campos antes de voltar para casa, o que só ocorreu em 1949. Passamos algumas horas no apartamento de Morel. Observador, ele me falou muito sobre os diferentes perfis dos prisioneiros, e o modo como a guerra e o cárcere iam afetando aqueles homens. Foi uma boa conversa.

Viajei a noite toda de ônibus e cheguei em Berlim na manhã seguinte. Só passei em casa para tomar banho e segui para o consulado bielorrusso. A questão do visto estava me deixando aflito. Não me parecia apenas capricho o desejo de cumprir exatamente o mesmo percurso que Horst. Perder não só uma cidade, mas todo um país, me parecia uma grande lástima.

Peguei a fila na calçada em frente ao sobrado onde funcionava o consulado e não ousei pedir informações para o segurança mal-encarado que controlava o portão. Ele me lembrava Ivan Drago, o adversário russo de Rocky Balboa, só que mais feio e intimidador. Na minha vez, tentei explicar o que me trazia até ali e ele logo me cortou.

– Visa?

– Sim, eu preciso de um visto para visitar a Bielorrússia.

Ele tomou meu passaporte, deu uma olhada, me mandou desligar o celular e entrar.

Eu havia me informado sobre os documentos necessários, mas não possuía todos. Não encontrei modo de comprar previamente as passagens; meu seguro de viagem não era exatamente como pediam e, para piorar, estava em português; eu até havia preenchido a ficha de pedido, mas com sérias dúvidas sobre a coerência de algumas informações – e nem me refiro ao campo em que informei minha profissão: “músico”.

Fui chamado ao guichê e a mulher que me atendeu não falava inglês. Ela se levantou aborrecida e foi chamar alguém. Veio um rapaz magro e jovem. Ele se sentou e começou a olhar meus papéis e meu passaporte. Eu tentava conseguir um visto de trânsito, o que me permitiria ficar até 48 horas na Bielorrússia. Apesar de pouco, estava dentro do meu cronograma. O consulado pedia cinco dias para a emissão do visto e cobrava um valor de vinte euros. Para pedidos urgentes, em que o prazo caía para dois dias, a taxa dobrava. Era o que eu planejava, pois partiria de Berlim em menos de 48 horas.

Antecipei-me e expliquei que não conseguira comprar as passagens. Pretendia fazer minha viagem de trem, e não havia modo de comprar o bilhete de ida, da Ucrânia para Gomel, pela internet. Poderia até ter comprado o de Gomel para Moscou, mas como ainda não havia conseguido o visto preferira não me arriscar. Mostrei a ele o roteiro da minha viagem, um passeio turístico pelo leste europeu. Ele quis ficar com o papel. Me explicou que não poderia receber a documentação com tanta coisa faltando. Iria conversar com o chefe e voltaria logo.

Passou meia hora até que ele reaparecesse. Não poderia aceitar meus papéis, mas disse que, se eu conseguisse comprar a passagem entre Gomel e Moscou, poderia voltar até o meio-dia que ele me atenderia novamente. Me passou o e-mail a que eu poderia enviar a confirmação para ganhar tempo. Corri para o McDonald’s mais próximo para usar o wi-fi, comprei a passagem e voltei imediatamente ao consulado. O segurança parecia não ter sido avisado de que eu voltaria. Olhou desconfiado para mim e não quis me deixar entrar. Eu mostrei o passaporte e ele abriu a porta como quem diz “vai então”.

Agora meus papéis estavam completos, mas tudo quase foi por água abaixo: o pagamento não podia ser feito em dinheiro nem com cartão de crédito, apenas com um tipo de cartão alemão que eu não fazia ideia de o que era. Desanimei. O atendente tentou me acalmar; disse que poderia pedir a uma colega para passar o cartão para mim, e eu faria o pagamento para ela. Conversou com a colega, mas voltou com a conclusão de que não poderiam fazer aquele procedimento. Pareceria estranho um funcionário do consulado recebendo dinheiro, me explicou. As câmeras mostrariam. Ele me sugeriu voltar no dia seguinte bem cedo. Certamente já teria uma fila para o atendimento, e eu poderia tentar convencer alguém a fazer o pagamento por mim. Mas não haveria tempo para isso. Foi quando surgiu uma pessoa, a última do dia, pois o protótipo de Ivan Drago já colocava a placa de “atendimento encerrado” na porta. O atendente me indicou o recém-chegado. Era a minha chance.

Era um alemão de uns cinquenta anos. Estava sendo atendido pela mulher que não falava inglês e pareceu confuso com seus papéis quando o interpelei. “Excuse me, sir...” Ele ouviu minha explicação e me despachou. Disse que tinha coisas para resolver ali e estava ocupado. Eu desisti de vez.

Expliquei ao atendente que eu estava jogando a toalha. Não havia jeito. Ele lembrou que meus papéis estavam ok. Perguntou se eu já não queria deixá-los ali – o processo se iniciaria, e eu providenciaria o tal cartão até o dia seguinte ou convenceria alguém da fila a fazer o pagamento por mim. Eu não estava com o espírito bom. Não via possibilidade nem tinha ânimo para fazer um raio-de-cartão-alemão-que-eu-nem-sabia-dizer-o-nome e imaginava a mesma falta de simpatia do sujeito ao meu lado nas pessoas da fila no dia seguinte. Seria a mesma frieza daquele homem vermelho no guichê ao lado, que era a mesma má vontade dos moradores do prédio na Gubitzstraße e que naquela altura me parecia a mesma cretinice de todos os alemães da Terra. Eu estava realmente frustrado. Já demonstrava certo descaso ao agradecer a boa vontade do atendente bielorrusso, que me devolvia os papéis, quando o alemão terminou seu atendimento e se voltou para mim.

– Pronto. Agora vamos ver como eu posso te ajudar.

Ele me salvou. Fez o pagamento, pediu desculpas por não ter troco, depois me perguntou de onde eu era. Contou que tinha voltado havia pouco do Brasil. Passara o Carnaval no Rio de Janeiro. Amara o Brasil. Disse-me que viveu ótimos dias em meu país e elogiou meu povo, enquanto fazia uma dança para mostrar o que aprendera, suas mãos se movendo à la Carmen Miranda.

No dia seguinte meu visto para a Bielorrússia estava pronto e em minhas mãos.