Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 26 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Lublin, Polônia. 8 de maio de 2016.

DEIXEI LUBLIN e a Polônia na noite de domingo. O trem ucraniano rumo a Kovel seria meu primeiro transporte noturno, a primeira viagem com cama em vez de poltrona. Na hora do embarque, tive de entregar o bilhete a um funcionário; ele o olhou, pediu meu passaporte e comentou: “Brasília”. Guardou meu bilhete e me indicou o caminho. Achei estranho, confirmei se o papel deveria ficar com ele. Por sinais, entendi que sim. Embarquei.

A cabine era um pequeno biombo com três camas suspensas em uma das paredes. A minha era a do meio, separando o casal de poloneses que, tendo entrado antes, ocupavam todo o espaço, preparando a cama. Joguei minha mochila no maleiro do alto, tirei as botas e saltei na cama. Ainda faltavam alguns minutos para as 22h13, horário de partida do trem, e o corredor à minha frente estava movimentado. Eu poderia dormir por algumas horas, afinal, a viagem seria demorada. Havia dias eu tentava entender por que uma viagem de pouco mais de 150 quilômetros demorava tanto. Só chegaria em Kovel às 4h15, seis horas depois.

Partimos. Noite escura, era quase impossível ver algo pela janela. Apenas quando atravessávamos pequenas cidades é que as luzes permitiam ter uma noção da área externa. Cerca de uma hora depois passamos por Chełm. Horst certamente passou por aqui. Na verdade, Chełm talvez tenha sido responsável por um dos enganos de seu diário. No original, a primeira parada que ele descreve após deixar Lublin é Kovel. Depois, no entanto, o nome da cidade foi riscado e substituído por Cholm. Cholm é uma cidade no norte da Bielorrússia, poderia ter sido caminho dele, mas certamente não foi. Horst deve ter ficado em dúvida entre Kovel e Chełm; confundiu Chełm e Cholm, que foi o que manteve quando passou a limpo o diário original. Tudo indica, no entanto, que era a Kovel que ele se referia. A cidade ucraniana é um importante ponto da malha ferroviária, e a conexão que liga Kovel a Lublin e também a Varsóvia foi construída em 1877, alavancando o desenvolvimento da região. Só não dava para entender por que demorava tanto para chegar até Kovel.

Chełm tinha ficado para trás havia menos de uma hora, e eu seguia acordado. Paramos novamente. Houve uma agitação no corredor e logo apareceu um homem em nossa porta. Os poloneses saltaram da cama e lhe entregaram algo. Passaportes. O sujeito lançou um olhar para mim, e também lhe entreguei meu documento. Ele abriu e gastou um longo tempo passando as folhas, como se procurasse algo. Por algum motivo, tive receio de haver desconhecido a necessidade de visto para entrar na Ucrânia. Mas eu havia pesquisado sobre isso. Não era possível. Ele olhou para mim, disse “Brasília” e devolveu o passaporte. Seguimos viagem. Descobri que estávamos em Dorohusk, na borda entre os países, mas ainda do lado polonês. O trem seguiu lento, e eu começava a cogitar um cochilo, mas poucos minutos depois paramos novamente.

Nova agitação no corredor. De fora chegavam alguns gritos, funcionários da ferrovia acertavam alguma junção ou troca de vagões. Pelo alto-falante, uma voz estridente disse alguma coisa incompreensível. Pouco depois um militar assomou à porta; ele vestia um uniforme claro, como o dos combatentes de neve, tinha uma pistola no coldre e alguns passaportes à mão. Os dois poloneses entregaram imediatamente seus documentos; eu esperei ele olhar para mim e lhe entreguei os meus. Ele examinou minha foto e passou as páginas duas ou três vezes. “É sua primeira vez na Ucrânia?”, perguntou em inglês. Eu assenti.

Uma mulher com um sobretudo azul se juntou ao militar, perguntou algo aos poloneses e depois virou-se para mim.

– Desculpa – eu disse. – Você poderia falar em inglês?

– O que você tem dentro da mala? – E ela apontou para minha mochila no alto.

– Apenas roupas.

– Apenas roupas?

– Sim.

Ela se virou para o militar, que ainda examinava meu passaporte.

– Brasília?

– Sim.

Os dois se foram e levaram meu passaporte. Ouvi-os bater nos outros vagões. Batiam e abriam logo a porta, solicitando os passaportes. Lá fora, os funcionários seguiam andando e falando ao lado da locomotiva. Vez ou outra eu sentia um tranco. Alguns minutos depois o trem partiu novamente. O GPS do meu celular mostrou que já havíamos cruzado a fronteira, mas eu não conseguia especificar onde estávamos. Olhando o mapa depois, poderia ser Rymachi ou Kotsyury. Na hora, eu só estava preocupado com meu passaporte que não havia sido devolvido.

Menos de dez minutos depois paramos novamente. Nesse trajeto, o trem sacolejou à beça. Deitado em minha cama, eu tinha a impressão de que ele estivera trocando constantemente de trilhos. Pela janela, tudo escuro. Nessa nova e inesperada parada, mais conversas na estação. Novos trancos, desta vez um pouco mais duros. Alguém batia com força algum metal, que ecoava dentro da cabine. Voltamos a andar, bem lentamente, os trancos acompanhando o movimento, algumas vozes ainda chegando. Olhei o celular e me surpreendi com a hora. Já era 1h30 da manhã. Conferi o relógio de pulso, que marcava 00h30. Me toquei: a Ucrânia estava uma hora à frente da Polônia. O celular havia se ajustado automaticamente. Isso significava que não seriam seis horas de viagem, mas cinco. Chegaria a Kovel às 4h15, mas no horário da Ucrânia.

O trem seguia a baixa velocidade. Eu tinha a impressão de que boiava sobre um rio, só os trancos é que me tiravam tal impressão. E eles não haviam parado. O trem foi que parou por alguns segundos, depois retomou a marcha, mas no sentido contrário. Ele seguiu a viagem com a constante troca lateral de trilhos, e definitivamente não ia a boa velocidade.

O militar não voltara com meu passaporte e já não havia barulho ou movimentação no corredor. “Será que ele ficou para trás, na parada intermediária?”, pensei. Seguíamos em marcha lenta, trocando constantemente de trilhos, por quase uma hora, quando comecei a me preocupar mais seriamente e fui tentar ver alguma coisa. Da janela do corredor eu podia ver a plataforma. Não parecia uma estação, mas uma construção perdida no meio da ferrovia. Seguíamos boiando a baixa velocidade, os trancos a intervalos regulares, e viajávamos como um pêndulo, mas sem mudar de trilhos. Foi uma impressão equivocada. Da minha cama, cada estalo parecia uma mudança lateral, mas agora eu podia ver que não mudava em nada a nossa posição.

Estávamos na verdade em Jagodin. Meu bilhete previa uma hora de viagem entre Dorhusk e Jagodin, mas havíamos cumprido o trajeto em apenas dez minutos, como deveria ser, dado que apenas treze quilômetros separam as cidades, situadas à borda de seus países. Esperamos duas horas em Jagodin, naquele passeio à deriva, indo e voltando de lugar algum, sob trancos e vozes que eu definitivamente não conseguia compreender. Me senti um pouco na pele de Horst. Pude tatear a sensação dele enquanto, jogado em algum vagão, esperava, esperava e esperava mais um pouco para seguir viagem. O percurso dele entre Lublin e Kovel foi tumultuado. O meu era no mínimo esquisito.

Já passava das três da manhã quando o militar voltou e devolveu meu passaporte. Eu havia ganhado um carimbo na última página. O trem voltou a ganhar velocidade e pareceu estar a caminho. Às 4h15 saltei em Kovel.

Fui um dos poucos a desembarcar em Kovel. Desaguei em uma praça deserta, afora três táxis parados. O fato de eu ter apenas euros e dinheiro polonês me preocupou mais do que não saber falar uma única palavra em ucraniano. Eu sabia que o hotel era próximo, até porque a cidade era pequena. Pensei que uma nota de cinco euros resolveria o problema; mostrei-a ao primeiro taxista, que me indicou o carro seguinte. Mostrei novamente a nota, depois entreguei o endereço por escrito. Entrei no carro e fui.

Umas dez quadras depois chegamos ao hotel. Entreguei os cinco euros para o taxista, que passou a mão nos bolsos e falou desemboladamente no idioma local. Percebi que falava do troco. Tentei dizer com as mãos que não era preciso e emendei: “Good?”. O sujeito abriu um sorriso e soltou um “Beeeery good!”. Ficou tão feliz que me ajudou com as malas e bateu na porta do hotel durante quinze minutos, até que alguém apareceu para me receber. Despediu-se e me deixou com uma senhora loira, cara de sono, que não sabia sequer o “bery good”. Mostrei-lhe o dinheiro e ela disse que não receberia em euro. Pegou meu passaporte, me mandou subir, e eu entendi que trocaria minha alforria por dinheiro ucraniano no dia seguinte. Subi e dormi.

Na manhã seguinte, saí cedo para trocar o dinheiro. Era segunda-feira, dia 9 de maio e, portanto, feriado. Comemorava-se o dia da vitória na Ucrânia, o 71º aniversário do fim da guerra na Europa, da assinatura da rendição incondicional dos alemães perante os Aliados. A data nos livros de história do Ocidente é 8 de maio – a assinatura da rendição estava prevista para o início da noite, mas acabou atrasando e só foi para o papel pouco depois da meia-noite. Já era dia 9, principalmente em Moscou.

Na capital russa, naquela manhã em que eu estava em Kovel, dez mil soldados desfilavam pela Praça Vermelha, sob o passeio de 71 caças de guerra. Vladimir Putin discursou. Em Kiev também havia uma grande festa. Em Kovel, na principal avenida, a poucos quarteirões do meu hotel, houve festa, mas cheguei no fim, quando encerrava-se uma corrida celebrativa. Havia muitas pessoas na rua: jovens loiras com carrinhos de bebê, rapazes de cabelo cortado bem rente, crianças correndo para lá e para cá. Nos extremos da avenida, muito policiamento. Na televisão, durante todo aquele dia, a programação passou coisas relativas à guerra.

Kovel teve, no passado, uma grande comunidade judia. Quando os nazistas invadiram a União Soviética, em junho de 1941, estima-se que havia em Kovel algo em torno de dezessete mil judeus, incluindo refugiados do oeste da Polônia. Quase todos foram confinados em dois guetos ao redor da cidade, e depois enviados para Bakhiv, uma área distante oito quilômetros. Em agosto de 1942, mais de oito mil foram executados pelos alemães. Outros milhares morreram na mesma época, em diferente locais da região.

Consegui trocar dinheiro, resgatei meu passaporte e, na manhã seguinte, parti para Gomel. Passaria o dia viajando até Kiev, onde trocaria de trem para mais algumas horas até Gomel. Meu bilhete de trem, todo em cirílico, permitia tirar conclusões apenas sobre o vagão e o número da cama. Foi o suficiente para encontrá-la. Desta vez não havia cabines; estávamos divididos em baias, cada uma delas com quatro camas dispostas duas a duas de forma perpendicular ao trem e outra acima da janela, no mesmo sentido do vagão; embaixo dela, uma pequena mesa com duas poltronas. Deduzi que uma delas era a minha, já que minha cama era aquela solitária sobre a janela. Sentei e fui observando a paisagem.

Eu ainda tinha Kapuscinski comigo. Depois de viajar pela Índia, ele havia regressado a Varsóvia, viajado novamente para a China e retornado para casa mais uma vez. Ele conta ter voltado dessas viagens com vergonha de sua ignorância. Havia tido grandes encontros com o diferente e descoberto a impossibilidade de conhecer seus mistérios. Eu tinha a mesma sensação, e me sentia ainda mais envergonhado, pois havia me deparado com diferentes bem menos diferentes que Kapuscinski. Por sorte, o mestre consolava: “Para desvendá-los, é necessária uma longa e sólida preparação”. É preciso tempo. O que eu não havia tido. Larguei o livro quando cruzamos uma estação desativada. Havia vagões antigos, alguns de carga, outros de animais, exatamente o tipo de vagão em que Horst viajara.

A viagem seguiu e eu me perguntava a que velocidade íamos. Incrivelmente lento. Talvez cinquenta por hora. No máximo sessenta. Parávamos o tempo todo, e em cada parada ficávamos alguns minutos. Eu tinha comigo um senhor de bigode e cabelos brancos, que lia seu jornal e depois puxou conversa. Pedi desculpas por não entender. Ele lamentou, mas não se deu por vencido. Começou a enumerar algo que pareciam países. Eu disse: “Brasil”. “Brasil?”, ele bateu o jornal na mesa e soltou uma gargalhada. Falou animadamente algo comigo como se eu o estivesse entendendo – e estava. Tive certeza de que ele dizia algo como: “Não é possível! Um brasileiro por aqui? O que um brasileiro pode estar fazendo aqui nesta cidade?”. Depois ele apontou o jornal e usou uma palavra que lembrava “presidente”, seguida de um gesto com as mãos que insinuava pedras rolando. Não havia mais dúvidas. Nos entendíamos perfeitamente.

Já tinha escurecido quando chegamos a Kiev. Me despedi do meu amigo, que seguiria até Moscou, e fui buscar a plataforma do trem para Gomel. Assim que desci as escadas, vendo o trem já parado lá embaixo, fui abordado por militares bielorrussos. Pediram meu passaporte e meu bilhete, e conferiram com atenção. Tudo checado, autorizaram minha passagem; entreguei o bilhete e o documento ao funcionário e embarquei. No início do corredor encontrei uma jovem militar sentada em frente a um notebook, conferindo os passaportes de cada um. Entreguei e dei boa-noite; ela me olhou e sorriu. Fui deitar em minha cama e tentei dormir. Fechei os olhos pensando em como havia me preocupado sem necessidade. Eu receara encontrar problemas para entrar na Bielorrússia, para chegar a Gomel, e tudo ia muito mais fácil e ameno do que com os ucranianos.

A viagem foi tranquila. Eu estava muito cansado e dormi pesado. Quando chegamos à fronteira era madrugada alta e fui acordado abruptamente com a luz sendo acesa e a comissária batendo nas camas para nos acordar. Me senti como Horst no momento em que, preso, ele pede água e o russo ralha com ele. “Estava demorando para os problemas aparecerem.” Os militares entraram e fizeram a longa checagem de sempre. Sumiram com meu passaporte, voltaram, me encararam por um tempo, depois “Brasília” pra cá, “Brasília” pra lá, pediram para ver minha mochila e então me deixaram em paz. Logo seguimos viagem, a luz se apagou, eram 3h da manhã, e eu caí no sono novamente.

Estávamos em Terjukha e ainda havia mais de uma hora de viagem até Gomel. Mas eu precisava ficar em vigília, pois o destino do trem era Minsk, portanto eu saltava antes. Apaguei pensando nisso e acordei assustado quando as luzes se acenderam novamente. Pareciam ter se passado apenas alguns minutos, mas eu pulei e fui calçar as botas para poder saltar em Gomel. Eu estava caindo de sono e peguei a bagagem pesada com dificuldade, fui andando e colocando-a nas costas, com receio de que partissem antes de eu descer. A comissária surgiu e parecia me xingar; ela disse: “Por favor, retorne ao seu lugar”, em inglês, mas eu não entendi prontamente, pois pensei que ela não falasse inglês. Então ela disse: “Sente-se”, e eu voltei para perto da minha cama. As pessoas continuavam deitadas e me olhavam; ninguém, aparentemente, ia descer em Gomel, então eu olhei o relógio: 3h15 da manhã. Tinham se passado apenas quinze minutos, e nós ainda estávamos chegando à polícia de fronteira, porém agora do lado bielorrusso.

Uma hora depois saltei em Gomel e peguei um táxi até o hotel. Paguei com dinheiro ucraniano, pois não conseguira trocar em Kiev. Ninguém no hotel falava inglês, então me indicaram o quarto e ficaram com meu passaporte; para a minha surpresa, dois minutos depois bateram à porta para entregá-lo. Quando fui me deitar, o dia já começava a entrar pela grande janela. Só então me dei conta de que estava na Bielorrússia, um lugar pelo qual nunca havia me interessado, mas que havia se tornado um grande desejo desde que o visto se revelou um problema.

No dia seguinte paguei o hotel, usei o celular para pedir um mapa à recepcionista, perdi metade da manhã tentando sacar dinheiro, acabei trocando um punhado de dinheiro polonês que tinha sobrado e voltei ao restaurante do hotel para almoçar. No caminho, encontrei uma cidade que não esperava. As avenidas de Gomel são amplas, estavam todas enfeitadas com bandeiras verdes e vermelhas, e na gigantesca Praça Lênin havia tantas pistas como nunca vira em cidades brasileiras. Andei pelo parque pensando o tempo todo de onde eu tinha tirado a expectativa de encontrar um país mergulhado no passado. Talvez esperasse ver em Gomel algo como Cuba. A beleza de uma cidade que não fora tomada pela modernidade. O que eu via era uma cidade com cara de Europa. Apenas mais bonita graças aos toques que me lembravam estar em uma cultura diferente. Quanta tolice a minha. Mas eu devia ser desculpado. Na Bielorrússia não havia Google Street View.

Cheguei ao restaurante com isso na cabeça. Dei a sorte de encontrar uma garçonete que sabia inglês. Falei com ela da minha surpresa e emendei as outras imagens que eu pintara antes de conhecer o país, como a questão política. Expliquei que, provavelmente, minha má impressão do governo bielorrusso vinha do incidente envolvendo a expulsão do embaixador sueco havia alguns anos. Eu disse que tinha lido sobre o fato e sobre os questionamentos que o episódio suscitara a respeito da liberdade civil no país. Ela me interrompeu, se aproximou e falou baixinho:

– A gente não deveria conversar sobre isso aqui.

– Por quê? – perguntei.

– Porque há um escritório do GPU, a polícia secreta, bem aqui perto do hotel – ela disse. – É melhor ficar atento.

Há uma história popular na Bielorrússia que diz que se um russo, um ucraniano e um bielorrusso se sentam em uma cadeira sem perceber que nela há um prego pronto para espetá-los, as reações serão distintas. O russo sentará e, mal sentindo a espetada, se levantará e xingará tudo e a todos ao seu redor. O ucraniano também se levantará, mas logo, calado, vai procurar outra cadeira. Talvez xingue, mas sem alvoroço. O bielorrusso vai se sentar, sentirá a espetada e permanecerá sentado. Vai pensar: “Bem, não está bom. Mas, se é assim, talvez seja assim que deva ser. Ficarei quieto”.

Passei dois dias em Gomel. Aproveitei cada minuto das 48 horas que o visto em meu passaporte me autorizava. Andei pelos parques, fui ver o rio, andei pelo centro e em ruas mais afastadas. Horst não deve ter visto nada – apenas parou na estação. Gastei uma manhã no museu da guerra. Parti no início da noite, sob os olhos de Lênin, que também estava na estação, para mais 15 horas de viagem até Moscou, passando por Briansk (assim como Horst) sobre bitolas largas, (como Horst), e ainda com a companhia de Kapuscinski, de cujo país natal eu levava uma impressão ainda inominável. Mas minha casa mesmo era o trem.