Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 23 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

A investigação

A HISTÓRIA DE HORST BRENKE foi a segunda melhor coisa que me ocorreu certa noite, numa pizzaria argentina em Belo Horizonte. Eu estava em uma espécie de primeiro encontro com uma loira de olhos verdes e lábios violeta. Sentada ao meu lado, detrás das lentes dos óculos de aviador, Bruna me contava sobre um diário que seu padrasto tinha herdado do pai, que fora soldado alemão na Segunda Guerra. Ela havia lido meu primeiro livro e gostado, assim disse; comentou que o tal diário também rendia uma boa história. Eu concordei. Mas concordaria com qualquer coisa que ela dissesse, a exemplo da pizza de abobrinha que pedimos naquela noite.

Eu quis ouvir mais sobre a história do diário. Ela explicou que sabia pouco. Já havia visto o diário, mas o sujeito, embora brasileiro, tinha escrito em alemão. Bruna contou que nem mesmo seu padrasto sabia muito, pois o pai havia sido um homem fechado, que não gostava de falar do passado. Concluí que o padrasto não falava alemão. Ela disse que eu estava enganado, pois ele falava, e bem, assim como outro irmão.

E o que ele leu no diário? Nada. Ninguém havia lido. Horst Brenke tinha morrido havia mais de trinta anos, mas nem mesmo seus filhos conheciam sua história. Eu intuí que tinha algo à minha frente além de uma bela mulher.

Bruna foi a melhor coisa daquela noite, e viria a ser a melhor dos dias que se seguiram. Ela se tornou minha namorada e logo tive a oportunidade de conhecer sua mãe, o padrasto e o diário de Horst Brenke. A primeira vez que o tive nas mãos foi decepcionante. Era um caderninho minúsculo, do tamanho de uma agenda de bolso, caindo aos pedaços com suas folhas amarronzadas e a costura capenga. Nem havia muitas páginas! Eu que pensara encontrar uma grande história, contada em detalhes, percebia que tinha nas mãos apenas algumas anotações.

Então abri o diário. Suas 76 páginas tinham cada milímetro preenchido por uma letrinha minúscula e encavalada, na frente e no verso das folhas, com datas saltando aos olhos, indo de 1945 a 1946. Tudo era marca do tempo; sujeira, tinta azul, páginas marrom-amareladas, porosas e corroídas; cheiravam a qualquer coisa que ainda não conheço ou sei nomear, tudo em alemão minúsculo. Cada milímetro abrigava uma frase, compondo um diariozinho gigante em alemão, sobrevivente da guerra, sujo de suor e de sangue e de poeira e de neve e de pólvora, um diário que não fora lido, uma história que ninguém sabia muito bem, um homem que ninguém conheceu muito bem, uma história que eu já queria colocar em livro antes mesmo de conhecer. E assim me decidi, naquela noite.

Horst manteve seu diário entre 4 de maio de 1945 e 21 de outubro de 1946. Escreveu pela primeira vez em Sagan, hoje Polônia, seis dias depois de ter sido feito prisioneiro pelos russos, durante a batalha no vilarejo alemão de Halbe. Começou a colocar sua história no papel pelo mesmo motivo que o fazem quase todos os soldados de guerra: o medo da morte. Contar a própria história é uma reação instintiva entre os que sentem a real e clara possibilidade de a vida se extinguir no campo de batalha. Ter a história registrada é talvez uma forma de continuar vivo quando não houver mais vida.

Horst escreveu a intervalos irregulares. Nos primeiros dias, diariamente; depois, de modo mais espaçado; algumas vezes, retomava por dias seguidos; noutros momentos, deixou intervalos de até duas semanas. Escreveu até o dia em que desembarcou no Brasil. No navio, voltando para casa, escreveu com mais calma e com detalhes impressionantes o relato do dia em que havia sido feito prisioneiro, em 28 de abril de 1945. Foi esse rico relato que me permitiu abrir o livro com a cena de sua prisão. O primeiro capítulo não é muito distante de uma transcrição, tal a qualidade com que Horst narrou tudo que se passou. Mais de uma vez, entre meus primeiros leitores, fui questionado sobre como era possível eu fazer um relato tão detalhado de algo que não presenciei. Não há segredos. Tudo se deve ao texto original, à narrativa feita por Horst. Meu trabalho foi jogar luz sobre os detalhes e sobre os vazios.

Uma vez com a tradução do diário de Horst Brenke nas mãos, não tive dúvidas de que tinha um livro pela frente. Assim como ocorrera com Bruna, minha paixão à primeira vista se tornou um relacionamento fértil. Passei todo o ano de 2015 lendo e pesquisando sobre a Segunda Guerra. Revirei o passado das famílias Brenke e Birkenfeld, caçando documentos em posse da família, mas principalmente em cartórios, arquivos, igrejas, cemitérios e afins. Toda a história dos Birkenfeld-Brenke, da vinda deles para o Brasil e da vida pregressa na Alemanha, era nebulosa. Cada descoberta ou nova conexão eram uma vitória.

Ao mesmo tempo, fui em busca de lembranças daqueles que conheceram Horst. Conversei com seus amigos, seus filhos e com Dona Ignez Brenck, viúva de Horst e que foi, desde o início, de grande ajuda para este livro. Antes de conhecê-la, em algum momento dos primeiros meses de Brasil, Horst começou a passar o diário a limpo, acrescentando umas poucas coisas. Nunca terminou. Foi com a transcrição até fevereiro de 1946, guardou o diário na gaveta e nunca mais mexeu. Horst costumava contar histórias da guerra a Ignez quando namoravam. Talvez tentasse impressioná-la. Acho que conseguiu. Casaram-se e ele não falou mais do assunto.

Encontrei duas pessoas que o conheciam havia mais tempo. Flávio Vieira, amigo de infância, de quando Horst chegara a Belo Horizonte antes de ir para a Alemanha e acabar na guerra; e Maria do Carmo Brenke, irmã do nosso protagonista. Devo muito à Tia Maria do Carmo. Essa linda senhora me recebeu dezenas de vezes em sua casa. Passamos horas conversando sobre o passado, suas memórias, sua família, sobre coisas que ela sequer sabia que ainda se lembrava. O tempo com Maria do Carmo foi uma escola sobre a memória, sobre o modo como guardamos nossas lembranças e sobre o que fazemos e esperamos dela ao fim da vida. Maria do Carmo sempre me perguntava quando o livro ficaria pronto. Tinha medo de ela não estar viva para vê-lo. Isso me partia o coração.

Algumas vezes, recebi ligações aflitas de Maria do Carmo. “Lembrei de algo muito importante. Venha à minha casa o mais rápido possível.” Eu ia de imediato. Às vezes, ela realmente havia se lembrado de algo que não me contara. Outras vezes, a lembrança era de algo que já havíamos conversado. No entanto, eu não lhe dizia nada, pois o relato era então muito mais rico, preciso e profundo. Outros dias, quando parecíamos esgotados da tarefa de revolver o passado, dávamos a entrevista por encerrada e passávamos a jogar conversa fora. Na hora de nos despedirmos, como se contasse algo sem importância, ela recordava algo extraordinário, algo que, de tão antigo e ordinário, não lhe parecia ser de meu interesse. A história de Maria do Carmo se mostrou tão poderosa que ela se tornou uma personagem importante neste livro. Enquanto Horst e seu pai estavam na guerra, a então garota Nenê estava sozinha em casa com sua mãe, numa Berlim destruída e atônita. O que as duas viveram merecia atenção. Espero ter tido o cuidado devido.

Investiguei a distância o máximo que pude, mas, no início de 2016, já havia esgotado minhas possibilidades. Havia recebido documentos de diversos arquivos alemães e russos; feito contato com historiadores brasileiros e dos dois países europeus; conversado com diferentes fontes de informação. Já estava, então, de viagem marcada. Iria para a Alemanha no fim de abril; passaria alguns dias pesquisando em Berlim, tentando iluminar os buracos que ainda restavam na história, caçando documentos e informações complementares. Depois partiria para a Rússia, refazendo a jornada – percorrendo o mesmo trajeto – que Horst Brenke fizera, 71 anos antes. Tomaria a licença de percorrer de trem o trecho que ele percorreu a pé; no mais, faria exatamente a marcha de Horst rumo ao campo de prisioneiros de guerra na Rússia. Ficaria alguns dias em Vladimir, pesquisando, depois cairia na estrada (ou nos trilhos) novamente, seguindo o caminho de Horst até a Itália, ponto final de sua jornada. Me sentiria também um viajante do mundo.