Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Berlim, Alemanha. Janeiro de 1945
MARGARETE E Maria do Carmo restaram sozinhas em casa. Nos primeiros dias buscaram notícias dos homens, mas não conseguiram nada. Numa manhã em que já haviam desistido de procurar, Maria do Carmo pegou o balde e foi até a rua. Em frente ao prédio, acompanhando a calçada do outro lado, havia uma vala e a bomba de água, que já reunia muitas mulheres. Maria do Carmo sabia o intuito daquela obra: oferecer água para apagar os incêndios causados pelos bombardeios. Desde que acabara a água do prédio, no entanto, era aquela água de cor duvidosa que ela e a mãe usavam em casa.
Margarete estava deitada no sofá da cozinha e ainda pensava no marido e no filho. Ela sabia que os dois estavam na guerra. Todos os homens da cidade haviam sido mandados para a guerra ou recrutados pela Volkssturm. Os que não quiseram combater tiveram de se esconder ou fugir, mas eram caçados pela polícia e presos quando encontrados. Muitos foram mortos também. Margarete ouvira falar de um homem enforcado, pendurado ao poste da rua, marcado como traidor por uma placa pendurada ao peito. Pensar nisso lhe dava arrepios.
Ela compreendia que a guerra não andava bem para os alemães. Já havia algum tempo o racionamento enrijecera em Berlim; passava-se muito tempo no bunker e, mesmo em casa, vivia-se com a sensação de aprisionamento. Margarete sabia que não havia bunker para todos, ainda mais porque não parava de chegar gente a Berlim. Todo dia chegavam caravanas nos trens ou a pé, de regiões em que os russos já haviam chegado. Sempre mulheres e crianças. Só mulheres e crianças. Os homens estavam na guerra. Ou mortos.
Era uma manhã fria, pois o frio em Berlim era forte naquele janeiro. Na casa dos Brenke, só a cozinha em que Margarete estava deitada tinha aquecimento. Maria do Carmo voltou com o balde e reclamando do frio. À noite, Margarete ainda esquentava tijolos e os embrulhava em jornal para pôr sob o colchão da filha. O apartamento estava frio e escuro. As cortinas de blecautes, antes acionadas assim que a noite chegava, eram usadas o dia inteiro. Os móveis de madeira escura e o vazio deixado por Richard e Horst deixavam o lugar sombrio e lúgubre.
As duas comeram o único pedaço de pão que havia na casa, e Maria do Carmo ferveu a água para usar o substituto de café que detestava. Margarete a chamou para ir à padaria algumas quadras adiante. Corria boca a boca a notícia de que lá havia comida, isto é, farinha e gordura, para ser trocada pelos cupons. Saíram as duas, a filha de mãos dadas com a mãe, embalada em um casaco de cor indefinida que lhe parecia pequeno. Encontraram uma fila imensa na padaria.
Havia sempre o risco de a comida acabar antes de todos serem atendidos. Na fila só havia mulheres, que falavam desorientadamente; davam notícias da guerra, coisas que ouviram pelo rádio, por fontes seguras ou por vozes em suas cabeças. As pessoas viviam caladas em Berlim naqueles tempos, com exceção das filas de racionamento. Ali, era um falatório imenso; discutiam política, xingavam líderes, inimigos, vizinhos e parentes.
Maria do Carmo tentava decodificar alguma frase enquanto assumia lugar na fila. Viu quando um vizinho de bairro, a quem conhecia apenas de vista e cujo nome, sabia, era Rosenberg, passou e foi direto ao balcão. Velho e aleijado, não precisava esperar sua vez para receber comida. Margarete, tempos atrás, contara à filha que Rosenberg tinha se ferido em combate, no início da guerra. Logo atendido, Rosenberg se agarrou aos alimentos e saiu se arrastando com bravura rua afora.
As duas conseguiram pegar a ração. Voltaram para casa, e Maria do Carmo foi observando a cidade. Havia muitas casas destruídas. Vários prédios, vários dos muitos prédios de quatro andares dos bairros operários do leste de Berlim, praticamente iguais ao da Gubitzstraße 11, eram esqueletos em pé. Os bombardeios haviam destruído telhados, pisos, móveis, paredes e janelas; restavam eretas, emergindo dos destroços como uma espinha, as vigas sobreviventes dos prédios, com algumas meias-paredes enegrecidas e fumaça intermitente, ainda que o lugar tivesse sido atingido vários dias antes. Muitas pessoas ainda se aventuravam entre os destroços. Maria do Carmo concluiu que elas procuravam objetos, talvez roupas; mas era bem possível que estivessem ainda procurando familiares e conhecidos.
Uma carroça passou apinhada de soldados. Maria do Carmo os olhou com interesse. Pensou na primeira vez que vira um tanque. Fazia tempo que não os via. Elas caminhavam apressadas pelo dia cinza. Não nevava naquela manhã. Já parecia não haver árvores em Prenzlauer Berg. A sujeira passara a ser indecifrável, uma mistura do lixo que não era recolhido havia semanas, destroços, cinzas de onde houvera fogo, animais mortos. Depois da carroça, as duas viram um grupo de soldados surgir em marcha; tinham caras cansadas, alguns caminhavam com dificuldade; todos pareciam barbeados. Margarete e Maria do Carmo evitavam o centro das ruas, caminhavam pelos cantos, margeando os destroços e os prédios inteiros. Elas já estavam quase em casa quando o alarme soou.
Correram para o bunker. O alarme continuava a soar todos os dias. Normalmente, Maria do Carmo percebera, uma vez pela manhã, outra à tarde. Certos dias ocorria duas vezes pela noite: a primeira às oito, a segunda às onze. Nos últimos dias, contudo, a pontualidade fora abandonada, e um ataque poderia ocorrer a qualquer momento, inclusive sem aviso. Sua mãe lhe explicara que quando se ouvia o estrondo da bomba e logo depois a sirene, era sinal de que faltava energia e o aviso estava sendo feito manualmente. Ouvir o aviso, nesses casos, Margarete não contou à filha, era um bom sinal. Sinal de que se seguia vivo.
Maria do Carmo estava prestes a completar onze anos, mas já parecia uma mocinha. Tanto pelo tamanho quanto pelas atitudes que aquele cotidiano lhe exigia. Cozinhava, lavava roupa e, muitas vezes, quando a mãe estava de cama, era quem cuidava de tudo. Apesar disso, não tinha permissão para sair sozinha. Só mesmo até o outro lado da rua, todas as manhãs, quando ia buscar água no balde remendado. Assumira essa tarefa desde o dia em que a mãe deixara o balde cair, por fraqueza.
Quando finalmente entraram em casa, meia hora depois do primeiro alarme e de se esconderem no bunker, Margarete caiu no sofá e instruiu a filha sobre o que fazer para o almoço. Fechou os olhos por um momento e tentou não pensar no filho e no marido.
Havia muito ela receava que as coisas tomariam aquele rumo. Ouvindo as notícias da guerra e vendo as mudanças na cidade, percebia que os planos alemães não iam bem. Temia ver o filme se repetir. Era muito criança quando os irmãos foram e nunca voltaram do front, mas conseguia reconhecer a semelhança do clima – e os riscos que ele apresentava. Desde o início tivera medo. Não precisara pensar muito para decidir voltar ao Brasil. Suas preces não fizeram o porto reabrir, mas pareciam ter sucesso em manter o marido e o filho longe da guerra. Até que eles sumiram.
Todo o mês de janeiro foi gelado. Fevereiro foi de menos frio e mais bombardeios. Margarete passou mais tempo entregue ao sofá. Para a filha, no entanto, continuava tentando se mostrar forte. Costumava distraí-la com histórias do seu tempo de criança. Contava da viagem que fizera aos dez anos, quando toda a família foi para a África. Viveram em Angra Pequena, na Namíbia, em uma grande casa bem diferente daquela em Berlim. Tinha telhado de palha, poucos móveis e muitas árvores ao redor. Nos galhos dessas árvores, macacos. Eram muitos, e a família adotara um macaquinho a quem chamavam de Hernann. Muitas vezes, vestiam Hernann com roupas de criança e costumavam convidá-lo para tomar café da tarde. Posta a mesa, gostavam de deixar o convidado sozinho, advertindo que voltariam logo e que ele deveria se comportar, não tocando na comida antes que voltassem. Assim que saíam, o macaquinho não resistia e atacava o bolo, tomava um gole do café e partia em disparada pelo galho mais próximo, antes que os donos da casa reaparecessem e ralhassem com ele. De longe, Margarete e as irmãs observavam tudo e caíam no riso.
Maria do Carmo ouvia desde pequena essa história. Entrava março quando Margarete percebeu que sua viagem à África não animava mais a filha. Mandou Maria do Carmo se arrumar para passear. A menina teve dúvidas se o convite era verdadeiro. Mas era. Foram a Unter den Linden, onde Maria do Carmo adorava observar as vitrines e as pessoas, que nos tempos de paz caminhavam altivas e bem vestidas. Logo descobriram que a guerra havia passado pela avenida. Muitos dos belos prédios tinham sido atingidos. Logo após a Schloßbrücke, o Alte Kommandantur havia sofrido, mas conseguia mostrar algo de seu estilo barroco. Do outro lado da rua, o Zeughaus apresentava melhor estado. Passaram pelos palácios, alguns mais, outros menos danificados. Quando estavam perto da Praça da Ópera, já no fim da tarde, foram surpreendidas pelo alarme antiaéreo. Correram para o U-Bahn, que pouco funcionava como meio de transporte, mas muito servia de bunker. Logo ele ficou cheio de gente. Maria do Carmo teve medo, mas gostou do passeio quando já estava em casa, naquela noite. Voltaram sãs e salvas, e Margarete, completamente esgotada.
No mês de abril, em Berlim, já era perceptível que a Alemanha perdera a guerra. Estava ao alcance dos ouvidos. Os russos poderiam chegar a qualquer momento, e com eles começou a correr pelas ruas um terror semelhante ao que sentiam os soldados alemães à iminência da derrota. Os russos ainda não haviam se aproximado da Gubitzstraße – combatiam crianças, velhos e os últimos soldados alemães, que tentavam desesperadamente conter os inimigos nos canais que circundam a cidade. Mas, sabia-se, não demorariam a chegar.
Margarete e Maria do Carmo não tinham saído de casa nos últimos dias, mas quase não tinham o que comer e, como todos no prédio, queriam fazer reservas para se esconderem no bunker. Decidiram se arriscar.
Foram até o mercado onde a ração havia sido entregue nos últimos dias, e tão logo chegaram perceberam que muitos outros haviam tido a mesma ideia. O lugar estava abarrotado e fora de controle. Não havia mais filas, mas, sim, uma aglomeração com empurrões, gritaria, pessoas caídas no chão ou discutindo. Não havia outro assunto além da iminente chegada dos russos. De uma hora para a outra, parecia que todos odiavam Hitler e não receavam mais falar nisso. A fila era composta quase que só por mulheres, mas não muito longe dali um grupo de homens, muito mais homens do que as duas puderam ver nos últimos tempos, se acotovelavam para conseguir aguardente. Margarete tentava não soltar as mãos de Maria do Carmo. Ficou nervosa com a agitação. Percebia que os modos das mulheres haviam se deteriorado. Elas falavam de forma chula. Além disso, vestiam-se sem qualquer zelo. Se por um instante olhou para a própria roupa, viu que ela mesma não escapava à regra.
As duas estavam relativamente perto de entrar no mercado quando um casal, no meio da balbúrdia, subiu no balcão. Maria do Carmo assistia a tudo como se mais nada estivesse acontecendo por ali, e só os três – ela e o casal –, estivessem presentes. O homem passou uma corda sobre o pilar do telhado, deu voltas, encoleirou a esposa e a si mesmo, e então se jogaram, um de cada lado do balcão. Suicidaram-se. No mercado ainda só existiam os três, na cabeça de Maria do Carmo. Tudo era silencioso e lento. Até que seus ouvidos voltaram à atividade.
Foi uma gritaria imensa. Homens surgiram e tentaram intervir. O transtorno ficou ainda maior. Pessoas saíram correndo, outras entraram aos esbarrões. Gritavam de horror e desespero. Então começaram a saquear. Muitos deixaram o casal morto de lado e se preocuparam em conseguir alguma coisa. O lugar voltou a se encher de gente. Foi a poucos metros de Maria do Carmo que Rosenberg, o velho aleijado que conseguia receber os alimentos sem fila, quase tropeçou. Saía correndo apressado com um saco cheio de comida saqueada. Maria do Carmo o acompanhou com o olhar, boiando entre a profusão de gente, a mãe tentando protegê-la. Rosenberg corria normalmente, usando um dos braços para se desvencilhar da multidão.
As duas foram embora sem nada naquele dia.