Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 17 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Berlim, Alemanha. 25 de dezembro de 1945.

PODE-SE DIZER que Horst chegou à Gubitzstraße na noite de Natal. Bateu à porta logo no começo da noite. Encontrou uma casa diferente. Muita coisa acontecera desde os primeiros dias de 1945.

Os últimos dias de abril, os que se seguiram à visita dos russos ao bunker da Gubitzstraße, haviam sido terríveis em Berlim. Não foi diferente para os Brenke e os demais moradores do prédio, embora Prenzlauer Berg tenha tido um pouco mais de sorte que outros bairros da cidade, inclusive lugares bem perto dali. O apartamento da família Brenke não foi invadido. Talvez pela segurança das portas, talvez por sorte. Mas também não se viveu por alguns dias. Margarete e Maria do Carmo passaram fome, sentiram medo, rezaram muito. Maria do Carmo se sentia fraca; Margarete não tinha mais cigarros. Viviam com medo. A mãe se arriscava a sair de casa para tentar conseguir algo de comer. A filha só foi sair novamente à rua já era maio. O sol reapareceu por aqueles dias também.

Houve festa em Berlim no dia da rendição, 6 de maio. Maria do Carmo não percebeu, mas Margarete deduziu pelo incessante zunido dos órgãos de Stalin. Eram os foguetes katiúcha, que tanto haviam amedrontado os inimigos e que agora cruzavam o céu como fogos de artifício em junho. Era ainda maio, no entanto. O dia seguinte amanheceu com o rescaldo da comemoração; soldados russos bêbados dormindo na rua, sinal de que não encontraram uma casa que os recebesse, o que se suspeitava ter ocorrido a outros, pelas portas derrubadas. Gradual e lentamente, parte do exército soviético foi embora nos dias que vieram maio adentro, mas Maria do Carmo ainda cruzou com soldados russos tentando se equilibrar em bicicletas pela sua rua muitos dias depois. Um deles lhe ofereceu comida certa vez, quando as coisas em Berlim pareciam ter se acalmado um pouco; ele fervia chocolate, cercando com seu grupo o fogo improvisado na calçada. Assim que o russo lhe acenou com o copo, Maria do Carmo se aproximou. Outros garotos fizeram o mesmo. Poucos passos depois, viram o sujeito entornar o líquido no chão. Todos os russos riram. Maria do Carmo não achou a menor graça.

Cupons de racionamento voltaram a ser distribuídos naquele mês, mas era difícil conseguir comida. Nos primeiros dias de junho, Margarete foi à câmara para se registrar e conseguiu cupons. Como não tinha trabalho, não era útil, e por isso voltou com a menor fração para ela e a filha. Encontrou a menina na porta de casa, observada de longe pela vizinha, que fechava uma fila de mulheres no meio de escombros. Nenê as observa trabalhar. Limpavam a rua, recolhendo os destroços, a sujeira e o passado. Passavam tijolos de mão em mão até empilhá-los em um canto. Ainda se viam poucos homens pela cidade.

A rendição alemã não trouxe melhorias para a vida dos civis em Berlim imediatamente. Os meses seguintes foram de muito trabalho. Para Margarete, às vezes parecia a vida de antes do início dos bombardeios, talvez com o racionamento um pouco mais rígido. Além de comida, começou a faltar também roupa. Margarete havia retirado os blecautes da janela e começara a recolocar cortinas. Pegou uma delas, uma verde de veludo, e saiu com a filha. Algumas semanas depois Maria do Carmo tinha novamente um vestido para seu tamanho. Completaria onze anos, mas já parecia uma moça. As coisas foram indo. Indo sem notícias de Richard ou Horst. Já era setembro quando bateram à porta.

Foi Margarete quem atendeu. Assustou-se ao ver um soldado. Haviam relaxado um pouco, pois as invasões russas tinham cessado segundo dizia a rede informal de notícias, isto é, os boatos, ainda que a cidade seguisse tomada por eles. O soldado à porta, no entanto, era americano. Pediu permissão e foi entrando, tentando travar conversa. Margarete tinha dificuldades para entendê-lo, mas não se apavorou. O homem apontou para a janela, se aproximou dela e pegou uma boneca. Era a boneca preferida de Maria do Carmo, que embora parecesse uma mulher e agisse como tal, ainda era uma criança. O soldado passara pela rua e, de fora, vira a boneca pela janela, um modelo fabricado nos últimos anos de vapor industrial alemão. Teve vontade de levá-la para os Estados Unidos, onde tinha uma filha pequena que certamente adoraria o presente. Assim bateu à porta e tentava explicar à dona da casa.

Margarete pegou a boneca e foi ao quarto da filha, que estava deitada, fraca de fome, sentindo cólicas que não compreendia bem. Não precisou argumentar muito para convencê-la a trocar o brinquedo preferido por comida. Negócio feito.

O soldado americano entregou os alimentos pouco tempo depois, num saco escuro, que Margarete agarrou e passou à filha. As duas correram para a cozinha com ele, abriram-no e enfiaram as mãos. Catavam pequenas barras que desembrulhavam e jogavam à boca, comendo apressadas e sem sentir direito o gosto. Depois cozinharam batatas; havia carne numa lata escura e pesada que custaram a abrir, gordura, farinha, uma lata verde e enferrujada de cigarros Lucky Strike e café, café de verdade, não o pó sem gosto a que chamavam de substituto de café e que se podia conseguir com sorte e cupons durante a guerra. Foi uma refeição que havia tempos não viam. Foi provavelmente o café que produziu cheiro, e logo os vizinhos apareceram.

Foi Margarete à porta novamente. Um vizinho procurava por comida, tinha sentido o cheiro diferente, parecia café. Nos últimos tempos era comum casas da rua se ajudarem. Margarete mesmo, e por diversas vezes, havia socorrido outros conhecidos. O vizinho perguntou por comida. Margarete desconversou. Outro vizinho se aproximou. Ela explicou que fazia uma sopa de urtiga, havia jogado muitos temperos para enganar o paladar. Isso explicava o cheiro. Cortou a conversa e voltou para a cozinha, após fechar a porta. A filha já havia corrido e jogado o saco embaixo da cama, como ordenado pela mãe. A comida daria para Margarete e Maria do Carmo se alimentarem por dois ou três dias, não mais que isso.

Margarete estava deitada no sofá da sala, que seguia na cozinha, com mais um mal-estar. A campainha tocou. Fraca, quebrou o hábito e pediu que Maria do Carmo atendesse. Devia ser a filha da vizinha, uma garota com quem Maria do Carmo costumava brincar.

– Nenê, se for ela, por favor, diga que não pode brincar agora – disse Margarete. – Mamãe está doente e precisa descansar.

– Está bem, mamãe – respondeu Maria do Carmo, enquanto se dirigia à porta.

Quando Maria do Carmo abriu a porta, viu um soldado. Ou o resto de um soldado. Ela demorou alguns segundos para reconhecer o pai. Richard a abraçou e entrou em casa. Perguntou por Margarete, e Maria do Carmo disse que ela estava doente, deitada na cozinha. Ele pediu para ela ficar em silêncio, e foram entrando devagar. Relutantemente, Margarete, ainda deitada do sofá, curvou o rosto para ver o que se passava.

– Richard! – gritou, pulando do sofá, então correu até a sala e saltou sobre o marido, que com dificuldades a susteve nos braços.

Os dois se beijaram. Choraram. Maria do Carmo olhava meio desconcertada. Choraram mais quando foi dito que Horst não estava em casa.

Richard disse que queria tomar banho. Margarete falou que ela e Maria do Carmo providenciariam algo para ele comer. No banheiro, Richard abriu a torneira e tirou as roupas com dificuldade; entrou na banheira e viu que seu corpo se desfazia. Estava tão cheio de feridas que o contato com a água doía. Os pés, grossos e trincados, pareciam verter outro líquido distinto da água em que estava submerso. Margarete entrou para ver se estava tudo bem, saiu assustada e voltou com medicamentos. Naquela noite, Richard explicou sem muitos detalhes como fora enviado para a guerra. Havia combatido na Tchecoslováquia, fora preso pelos americanos e bem tratado durante o tempo em que esteve em um campo de prisioneiros, a oeste de Berlim, até ser mandado de volta para casa, junto com outros milhares de prisioneiros alemães, liberados aos poucos a partir da segunda metade de 1945.

– Notícias do Horst? – perguntou.

– Nada, nem uma carta.

Era 18 de novembro de 1945. Richard chegou a tempo de passar o Natal com a família. As coisas melhoravam em Berlim. Ele rodou a cidade em busca de notícias do filho. Elas bateram à porta no dia 25 de dezembro.

– Deus seja louvado! – gritou Margarete à porta. – Uma carta do Horst.

Todos correram e pararam em volta dela. A carta vinha pelas mãos da Cruz Vermelha. Horst contava que estava na Rússia, que havia sido preso em abril, não muito longe de Berlim, e mandado para um campo de prisioneiros em Vladimir. Horst queria saber como estavam, como ia a vida em Berlim. Pareceu contido. Margarete lia em voz alta, Maria do Carmo estava alegre e Richard, muito atento. O emissário da Cruz Vermelha ainda aguardava. A outra página da carta era reservada à resposta. Margarete correu para apanhar uma caneta e sentou-se à mesa para escrever.

“Nosso querido Horst!

“Hoje à noite nós recebemos a sua estimada carta. Graças a Deus. Esse foi o melhor presente de Natal para mim. Meu filho, nós estamos vivos e com saúde. Papai retornou em 18 de novembro do cativeiro russo. Ele está com saúde e passa bem. Nenê está grande, é uma menina bonita, e eu estou com saúde. Sim, meu menino, agora finalmente há paz. Aqui tudo está andando no seu curso. Agora pode-se falar sem tremer. Chegam a nós agora muitas visitas. Os seus conhecidos mandam lembranças. No Natal, você também recebeu o seu presente. Selos. Guardei tudo para você.

“O seu passaporte foi prorrogado, ele ainda está válido. Nós nos alegramos por você estar bem. Esperamos que em breve você seja libertado e nós possamos partir, nós vamos aguardar como as coisas vão se dar com você.

“Acredito que você tenha preocupação com o frio. Espero que você permaneça com saúde. Por aqui as coisas vão indo. Nós vamos todos cortar árvores para lenha. Em breve será primavera e esperamos estar reunidos. Escreva logo de novo, se for possível. Todos mandam lembranças. Saúda-o e beija-o a mamãe.

“A sua irmã Nenê.

“O seu pai.

“Mantenha-se com saúde. Até a vista.”