Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Vladimir, Rússia. 16 de agosto de 1945.
HORST CHEGOU ao trabalho e foi até o porão para se lavar. Estava suado. A caminhada sob o sol forte o deixara um pouco zonzo. Alexandra estava lá; trazia-lhe pão. Horst o pegou das mãos dela, agradeceu e tentou conversar uma vez mais; eles já se entendiam, muitas vezes. Horst e Alexandra se encontravam sempre que possível. Todos os dias, pela manhã e na hora de deixar o trabalho, ele ia até o porão e lá estava ela, esperando-o. Sempre trazia algo consigo, ainda que fosse apenas um pedaço de pão ou uma cenoura. Todos os dias nas últimas três semanas e meia. Alexandra vivia com as duas mulheres que Horst vira no primeiro dia – eram sua mãe e sua avó. As duas saíam cedo para trabalhar, Alexandra ainda ia à escola. Moravam juntas num minúsculo apartamento que divisava com a sala de Horst. O pai de Alexandra havia sido major do exército soviético. Fora morto pelo GPU.
Horst andava aprendendo cada vez mais palavras em russo. Havia muito já se assumira como um “Woina Plenni”. Desde que chegara, era como ouvia os guardas se referirem a ele e seus companheiros. Demorou um pouco, mas deduziu que significava “prisioneiro de guerra”. Por vezes, quando a conversa dos guardas próximo ao alojamento chegava até ele, passava um longo tempo prestando atenção. Acreditava reconhecer algumas palavras e as guardava para usar com Alexandra ou no escritório. Com o tempo deu sentido à reprimenda que ouvira no dia em que conhecera Alexandra: “Tudo deve ser reportado ao campo”, dissera aquele sujeito, que tinha sempre um tom agressivo com os plennis.
Horst terminou de comer o pão e se voltou para Alexandra, que o olhava.
– Alexandra – ele disse em tom baixo –, quer ir comigo para o Brasil?
Ela ficou constrangida e não respondeu. Horst se aproximou e perguntou baixinho por que ela não respondia.
– Eu sou uma russa – ela disse. – Você é um alemão. Você com certeza terá uma garota que espera por você.
Horst havia voltado a pensar nas chances de ir embora para casa. A partida de um novo trem no dia anterior foi o que o incentivou. Um grande grupo de prisioneiros havia partido. Sujeitos de sorte, aqueles. Horst os viu deixar o campo em direção à estação. Foram todos colocados em um caminhão, sequer precisariam caminhar até a estação. Na verdade, não poderiam. “São as pessoas O.K.”, um dos prisioneiros explicara a Horst, que então perguntou o que isso significava. “Esqueletos metamorfoseados”, respondeu o sujeito, enquanto deixava Horst com seus pensamentos.
Era verdade. Os prisioneiros que deixavam o campo estavam doentes. Não serviam para o trabalho, por isso voltariam para casa. Muitos deles não aguentariam a viagem de volta. Havia muitos homens naquela situação no campo da fábrica de tratores, e isso causava um grande desânimo em Horst, todas as noites, quando voltava do trabalho no escritório de construções técnicas, aquele paraíso atrás das grandes pilastras de Stalin.
Quando Horst subiu ao escritório, ainda pensando na resposta de Alexandra, encontrou os homens reunidos em torno do comandante. Ele contava uma história, sua voz era alta e ele balançava muito os braços. Horst se aproximou, mas tentou manter uma distância segura do chefe. Tinha aprendido isso logo nos primeiros dias de trabalho.
Havia sido no segundo dia de trabalho, pelo que Horst se lembrava. Ele estava sentado à sua mesa no escritório e o ambiente era preenchido por música de piano. Os quadros seguiam no canto – ele agora sabia, tinham sido pintados pelo capitão. Horst o considerava um bom pintor. Talvez fosse apenas porque simpatizava com ele, mas achava. Jupp estava próximo a Horst, e os dois se viraram ao mesmo tempo quando o capitão chamou. Eles foram até a mesa dele, onde outros prisioneiros já o rodeavam. O capitão falava alto, gesticulava muito, se levantava e voltava a sentar. Perdigotos voavam e iam pousar nos ouvintes. Alguns se entreolhavam. Horst não entendia muito bem o que o chefe contava. O capitão então bateu palmas. Soltou uma gargalhada. Os prisioneiros riram. Horst não entendeu. O capitão seguiu contando a história. Cuspia no chão de vez em quando. Os perdigotos seguiam ganhando o ar do escritório de construções técnicas. Alguns o atingiram e ele tentou se limpar. O capitão aumentou o tom da voz. Bateu palmas novamente. Danou a rir. Os prisioneiros também. Jupp ria. Deu um tapa nas costas de Horst.
– Você deve rir também! – disse Jupp.
– Mas eu não entendi a história.
– Ninguém entendeu! – tornou. – Ria!
Horst riu também. Não mostrou muito talento para fingir o riso. O capitão estava vermelho de tanto gargalhar. Alguns dos homens conseguiam rir com veracidade.
O capitão adorava contar histórias, Horst descobriu. Juntava alguns woinas em torno de si e começava a cuspir para todos os cantos. Realmente adorava contar histórias. Mas era preciso rir. A maioria dos woinas não entendia as histórias, alguns identificavam uma palavra ou outra, mas todos tinham que ficar atentos à deixa, que era a pequena pausa antes de o capitão estalar sua risada rouca, e, aí, gargalhar com vontade. Horst achava o capitão um bom sujeito, um russo de bom coração, embora se incomodasse um pouco com o hábito do chefe de cuspir o tempo todo. Às vezes era história, gargalhada, cuspida, tudo em sequência e sem intervalo definido. Horst ainda precisava melhorar sua atuação. O capitão terminou a história daquela manhã. Horst riu, os zigomas saltando da pele ainda quente da caminhada, e foi se sentar, ele e os outros.
O trabalho no escritório ajudava Horst a manter a sanidade. À noite, quando voltava para o campo, retornava à realidade e era tomado de profunda tristeza. Agosto ia passando e as primeiras cartas foram distribuídas. Os prisioneiros que estavam lá havia mais de dois anos puderam escrever para casa. Não era o caso de Horst. Aos domingos, após o banho, costumava dedicar muito tempo ao diário. Só às vezes escrevia no escritório. E só andava tendo interesse em dormir quando voltava ao alojamento.
Numa noite, ele voltou para o campo e, depois da comida engolida às pressas e da inspeção, foi logo se deitar. Seguia sem colchão, artefato raro no alojamento da fábrica de tratores. No galpão de Horst, dormiam seiscentos homens encavalados em beliches improvisados de três andares. Quase ninguém tinha colchão. No beliche ao lado de Horst, dormia Fraus, um alemão mais velho de quem tinha ficado amigo. Os dois vinham conversando menos desde que Horst passara ao escritório. Naquela noite, quando Horst se deitou, Fraus já parecia adormecido. Horst estava distraído quando ouviu o estrondo: a bancada do terceiro andar do beliche em que Fraus dormia despencou, levando com ela o segundo andar e esmagando o morador no térreo. Morreu na hora.
Fraus não foi o único do alojamento a partir naqueles dias. Outro morreu dias depois, doente. As duas mortes causaram um grande mal-estar entre os prisioneiros. Horst anotou no diário:
“Ontem morreu outro colega! Um de 18 anos! Nada excepcional, pois só pode ser assim! Eu tenho a impressão de que eu também não suporto o inverno. Bem, pois nós tivemos apenas azar. Ou, então, eu saio vivo disso, mas com algum sofrimento. Pois ser prisioneiro de guerra é difícil, mesmo para os jovens!”
Horst tentava não pensar nisso enquanto iniciava o trabalho no escritório. A manhã passou silenciosamente, depois da história do capitão. Talvez fosse o calor. Houve a pausa para o almoço, que era um pouco melhor que o do campo; a tarde seguiu quente e modorrenta. Horst se virou e seus pensamentos se perderam a observar a sala do escritório. Era uma grande sorte ter ido parar ali. De novo pensou em como seria se ainda estivesse carregando terra no canteiro de obras. Percebeu o capitão concentrado em sua mesa. Jogava xadrez. Ele pareceu ter percebido que era observado. Horst tentou disfarçar e voltar o rosto para o trabalho em sua mesa. O capitão disse algo e apontou para o tabuleiro. Horst entendeu o convite, se levantou e foi até lá. Sentou-se. Começaram a jogar.
Ele sequer havia perdido o primeiro peão e já pensava no extraordinário daquela cena. Estava jogando xadrez com um russo capitão do GPU. Era um prisioneiro de guerra naquela cidade perdida no meio da Rússia e jogava xadrez com seu chefe russo. Seu ânimo não parecia menos inocente do que quando fora enviado para o front. O jogo seguia. Horst sabia que iria perder. Era apenas um peão. Uma peça sem importância no tabuleiro. Seria possível ganhar um jogo apenas com peões? Obviamente não. Com peões e bispos? Também não. Rezar adiantava pouco para os prisioneiros de guerra, embora parecesse preciso também. Ainda assim, não poderiam com as torres, os cavalos, além, claro, da rainha. Dizem que o xadrez foi inspirado nas guerras. Não à toa os peões costumam ser os primeiros a deixar o jogo. Quem diria, Horst?! Jogando xadrez com um russo capitão do GPU. Horst era o único dos trabalhadores do escritório que sabia jogar xadrez. Caiu nas graças do capitão. Assim que terminaram a partida chegou ao fim também o dia de trabalho.
Naquela noite, Horst de volta ao campo, seu pai lhe veio à cabeça. Era 16 de agosto; faltavam quatro dias para o aniversário dele. Horst não sabia como ele estava. Não sabia se Richard estava vivo. Escreveu sobre isso, deitado na cama dura, o corpo doendo, a barriga rangendo como os beliches enquanto os homens iam deitando. A comida andava bem ruim na fábrica de tratores. Já fazia alguns dias que, pela manhã e à noite, serviam a mesma coisa, uma água com farelo dissolvido. O almoço no escritório era melhor, mas nada que fosse suficiente para manter um homem saudável.
“Um dia bem quente! O Sol tem boas intenções com nossos Plennis ”, Horst escreveu. “Mas ele também causa o contrário, pois fica-se cansado e mole. Eu devo reclamar menos sobre isso, pois eu tenho sorte de ainda trabalhar no escritório! Mas em breve terá também essa maravilha um fim.” Ele ainda receava deixar o escritório, ou talvez apenas se referisse ao inverno, que não tardaria a chegar. “16 de agosto. Sim! Em quatro dias o pai fará aniversário!, e eu já não sei se ele ainda vive.”
“Com certeza, papai, eu te dou os parabéns verdadeira e cordialmente e te desejo, tanto quanto a todos nós, um sadio e breve reencontro, a fim de irmos juntos para lá, onde é meu lar.”
A comida continuou ruim naquela semana, e também na semana que se seguiu. Horst chegava ao trabalho torcendo para Alexandra ter algo para ele. Um novo domingo chegou, o último de agosto, e foi um verdadeiro dia de sol. Horst e os outros prisioneiros de seu alojamento teriam folga. Acordaram cedo, passaram pela revista e receberam sopa. Houve um avanço, mais de duzentos gramas de pão. O chefe da companhia foi então chamado à cozinha. Voltou de lá com uma caixa. Havia uma espécie de camarão dentro dela. Cada prisioneiro ganhou dois camarões. Horst comeu-os calmamente, tentando fazê-los durar, se multiplicarem na boca, saciar-se como uma verdadeira refeição. O clima melhorou na fábrica de tratores.
“O coração de um prisioneiro de guerra se alegra com pouco!”, anotou Horst no diário.