Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Moscou, Rússia. 19 de maio de 1946.
HORST SALTOU do vagão e foi se sentar no chão, sobre a grama orvalhada da noite anterior. O dia ainda começava a amanhecer em Moscou. Sim, Moscou. Ele pegou o diário e se pôs a escrever. Havia dias que não o fazia. Ele e o trem tinham chegado pouco depois do entardecer. O trem em que estava o levava de volta para casa. Não havia muito o que explicar. Simplesmente acontecera. Tudo que ele mais desejara desde o dia em que desembarcou em Vladimir finalmente se realizava. Horst havia sido colocado em um transporte internacional e estava indo embora da Rússia.
Tudo tinha começado cinco dias antes, antes mesmo de o dia clarear. Os prisioneiros foram acordados e colocados para fora do alojamento. Um comissário russo que não parecia nada satisfeito em estar de pé àquela hora apareceu para proceder com mais um interrogatório. Horst já não tinha mais paciência para aquilo. O sujeito começou com as perguntas de sempre; não usava um intérprete e seu alemão não era tão ruim. Horst respondeu com desinteresse. Afirmou novamente ser brasileiro, mas já havia perdido as esperanças de que alguém acreditasse ou de que isso pudesse fazer alguma diferença.
– Quantos anos você tem?
Horst arregalou os olhos. O sujeito tinha perguntado em português.
– Eu completo vinte anos dentro de um mês e seis dias!
No mesmo dia Horst foi colocado em um transporte internacional.
O trem deixou Vladimir naquela noite. Horst subiu no vagão de carga como se estivesse embarcando na primeira classe. Desta vez não houve atraso, não houve resposta errada. O vagão chacoalhou, o trem fazendo esforço para sair do lugar. Partiu. Ia lento, acompanhando o Kliazma perdido na escuridão da noite. Logo pararam. E o trem foi parando tanto após deixar Vladimir, e ficando tanto tempo parado, que Horst quase começou a duvidar de que realmente sairia da Rússia um dia. Deixou Vladimir na noite de uma terça-feira e só foi chegar a Moscou na noite do quarto dia. Pararam novamente. A manhã seguinte foi um domingo. Ele estava sentado na grama, devia ser umas sete da manhã, e escrevia sobre o “conto de fadas” que vivia. No mesmo dia, seguiu viagem.
O trem passou por Briansk na manhã seguinte. Novamente parou e esperou um bom tempo. Horst estava impaciente. Tentava dormir. Parecia sorte demais. Conviveu o tempo todo com o medo de que algo desse errado. Dois dias depois o trem estava perto de Kiev. Chovia muito e foi um dia escuro. A viagem seguiu com dificuldade e Horst pensava como seria quando cruzassem a fronteira russa, o que só foi ocorrer no final do mês, quando já entrava a terceira semana de viagem.
No dia 31 de maio o trem passou por uma ponte sobre o Rio Tisza, fez uma curva suave à direita e logo parou em uma pequena estação onde se lia “Camara Sieget”. Horst anotou no diário. Ao cruzar aquele rio, haviam deixado o território soviético. Horst ainda não sabia disso. Estavam em Sighetu Marmaţiei, uma minúscula cidadezinha quase ilhada pelo Tisza e outros dois rios, na região conhecida como Maramureş, na Romênia.
Foram todos desembarcados. Estavam no meio da tarde e o calor fazia ferver a lataria do trem. Horst suava dentro do uniforme militar. Sentia-se sujo e tinha fome, mas andava dando pouca importância para ela desde que embarcara. A comida não mudara em nada nas últimas duas semanas; havia a mesma sopa aguada com pão preto e todos ficavam muito tempo sem comer nada. Mas nada disso tinha importância quando se estava voltando para casa.
O grupo deixou a estação e caminhou por uma estrada de terra em direção à cidade. Chegaram a um campo provisório, cercado por muitos carvalhos e outras árvores menores, além de cercas não muito altas. Foram apanhados pela chuva que caiu com o fim da tarde, mas não viram problema em molhar os uniformes imundos. Refrescaram-se. Horst notou que não havia mais guardas. Os russos tinham ficado na estação. Ele tentava sacudir o casaco molhado quando percebeu que receberia roupas novas. Ganhou uma calça escura, uma camisa branca de botão e um paletó surrado. Serviram-lhe muito bem e eram muito melhores que o velho uniforme militar. Fazia mais de um ano que Horst não se via assim. Havia usado o mesmo uniforme todos os dias desde abril de 1945. Era junho de 1946 e seu aniversário se aproximava. Ele começava a fazer planos de passá-lo em casa.
Demorou a escurecer. Ainda estava claro quando o sino da catedral foi ouvido, vários metros adiante, no centro da cidade, marcando sete horas. Horst se levantou e foi até o portão. Colado à cerca, conseguia ver uma alameda onde jovens casais passeavam para cima e para baixo. Estavam bem vestidos e andavam aninhados, conversando ao pé do ouvido e rindo. Pareciam felizes. Horst se entristeceu.
Ao ver a vida além da cerca de arame farpado, percebeu o quanto de sua própria vida havia perdido. Mais do que ficar preso por um ano na Rússia, tinha deixado de viver durante um ano. Os jovens bem vestidos caminhavam pela alameda. Abraçados, eram iluminados pelo Sol que se punha. Horst continuava atrás de uma cerca. Perguntava-se o que havia feito para merecer aquilo. Nada, concluía. Simplesmente não tivera sorte. Enquanto os casais passeavam por entre as árvores, no lusco-fusco do início da noite, ele se sentava confinado como um criminoso. Horst voltou para o alojamento e decidiu que não tornaria a se aproximar do portão.
Os dias seguintes foram dedicados a dormir e comer. Foram dias muito quentes em Sighetu. Horst os via passar. O sino da catedral anunciando cada hora vencida, o Sol se pondo atrás do morro Solovan como uma grande bola de fogo. Atrás daquele morro estava sua casa, fosse ela qual fosse. Hungria, logo ali depois do morro; Alemanha, mais adiante; ou o Brasil, um oceano depois. Sua vida já era bem melhor em Sighetu. Tinham boa comida, não precisavam trabalhar, ninguém os tratava aos berros. Apenas não eram livres ainda. Horst dormia muito. Embora estivesse satisfeito por ter roupas novas, passava boa parte do dia apenas de cueca. O calor o fazia se lembrar dos dias quentes no Brasil.
Já tinha se passado uma semana quando Horst e os outros prisioneiros foram chamados para fora do alojamento. Seu espírito já estava bem melhor. Ele pensou que finalmente seguiriam viagem, quando foram caminhando pela mesma estrada por onde haviam chegado. Não tinha nada além do diário, porém podia-se dizer que carregava tudo consigo. Antes de chegar à estação, dobraram à esquerda. Foram dar no Tisza, com suas águas calmas escurecidas pelas pedras no fundo do leito. Horst demorou a entender. Só quando todos já haviam tirado a roupa e começavam a entrar na água foi que ele se deu conta. Ficou apenas de cueca e saltou para dentro do rio.
O Tisza formava pequenas ilhas de pedras naquele ponto. As pedras eram escuras como granito, grandes, redondas e lisas. O rio corria calmo, em direção à cidade. Lá muito adiante, quase tão distante quanto os pensamentos de Horst naquela manhã, ia desaguar no Danúbio. O Tisza faz muitas curvas até encontrar o Danúbio. Era como o que a vida parecia a Horst naquele momento. Imerso nas águas do Tisza, ele brincava feito uma criança. Tudo que havia passado nos últimos tempos fazia parte dele. Seus pés ainda doíam do congelamento, seu corpo ainda sentia a fraqueza dos maus-tratos, mas a marca mais indelével estava em sua memória. Foi um banho e tanto. Horst decidiu lavar a cueca. Quinze minutos sobre a pedra e ela estava seca. Vestiu-se e voltou ao campo. Estava renovado. Horst seguia pensando em seu aniversário, faltava pouco mais de uma semana. Ele começava a cogitar a chance de completar ali seus vinte anos.
Os prisioneiros ganharam companhia naquela noite. Quando voltaram ao campo já perceberam que havia novos visitantes. Um grupo de ciganos chegava com cavalos, carroças e carruagens. Andavam pelo pátio, levantavam tendas, fazendo muito barulho. Mais tarde, acenderam uma fogueira. Horst os observou com curiosidade. Eles se reuniram em uma das tendas maiores e iniciaram o que parecia ser uma encenação de teatro. Um deles tocava músicas animadas no violão. Os prisioneiros se aproximaram. Foi uma noite bem divertida.
Horst não passou o aniversário em Sighetu Marmaţiei. No dia 18 de junho eles seguiram viagem. Embarcaram em um trem de passageiros e seguiram para a Hungria. Dois dias depois ele comemorou seu aniversário em movimento. Chegaram a Debrecen no dia seguinte. Foram autorizados a sair e andar pela cidade. O trem só partiria durante a noite. Pela primeira vez depois de muito tempo, Horst foi um homem livre.
Debrecen é uma cidade muito plana e costumava ser muito bonita, mas ainda se recuperava da destruição da guerra. Horst deixou a estação e ganhou a rua. Não sabia muito bem o que fazer. Caminhou ao redor, tinha receio de como seria tratado. Tentava reparar na forma como o olhavam, mas ninguém o olhou de modo que parecesse diferente. Observando Debrecen, tentou imaginar como estavam as coisas em casa. Berlim devia estar em situação pior. Ele se lembrava bem do que os bombardeios haviam feito enquanto ele estava lá.
O trem seguiu viagem e passou por Budapeste. A guerra definitivamente havia passado por lá também. Quando se aproximavam de Viena houve uma longa parada. Correu a notícia de que deveriam aguardar por uma locomotiva americana. Passaram a noite ali e no dia seguinte, logo cedo, partiram no mesmo trem em que estavam. Foram desembarcados pouco depois, num vilarejo de que Horst nunca havia ouvido falar, ainda na Áustria. Chamava-se St. Valentin.
A libertação era mais sofrida do que Horst imaginara. Mal acreditou quando foi desembarcado em St. Valentin e levado novamente para um acampamento. Parecia sempre voltar ao princípio. O vilarejo era quente, houve boa comida, mas ele já não suportava mais aquela viagem. Quase não escrevia mais. E era totalmente compreensível. Todas as palavras naquele diário deviam-se ao medo da morte, ao receio que toma todo e qualquer soldado ou prisioneiro. Horst não pensava mais que ia morrer, mas começava a ficar impaciente. A viagem de volta já durava mais de um mês.
Horst passou mais de uma semana em St. Valentin. Praticamente não contou nada em seu diário, apenas que gostava do lugar. Deve ter tido a mesma companhia da Romênia: os sinos da catedral anunciando cada hora que se passava. Foram dias quentes, em que provavelmente dormiu muito. No início de julho, embarcou num trem americano e finalmente acreditou que ia para casa.