Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 4 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Curitiba, Brasil. 20 de junho de 1926

HORST BRENKE tinha nome e sobrenome alemães, mas era brasileiro. Nasceu no começo da manhã de um sábado, 20 de junho de 1926, pelas mãos da avó, na casa em que a família vivia, em Curitiba, no Paraná.

Seus pais, Richard e Margarete Brenke, se conheceram seis anos antes, durante um evento esportivo em Düsseldorf. Eles, sim, eram alemães. Richard era um sujeito alto, de rosto oval e olhar vazio; Margarete, uma loira esguia e de olhos muito azuis, cuja personalidade estava estampada no maxilar grave e quadrado. Ele dava braçadas nas piscinas; ela era atleta do tênis. Os dois logo se apaixonaram, mas logo também descobriram viver um amor proibido.

Richard Robert Brenke nascera em Berlim, em 1902. Era o único filho homem de Richard Brenke e Wanda Czasch e, assim como os pais, protestante e pobre. Quando pequeno, via o pai sair muito cedo de casa, se equilibrando na charrete e tocando um cavalo cansado, para entregar leite pela vizinhança. Muito cedo o entregador de leite se foi, e o filho passou a viver com a mãe e a irmã no sótão de um pequeno prédio próximo à linha férrea, no bairro de Moabit. Wanda costurava o dia inteiro, enquanto Richard aprendeu o ofício de torneiro mecânico; viviam com dificuldade.

Margarete Birkenfeld, a quem todos chamavam de Gretchen, completara vinte anos e era a quarta das cinco filhas de Wilhelm e Margarethe Birkenfeld. Seu pai era um alemãozão de origem prussiana, trabalhador de indústria e filho de minerador, cuja barba ruiva se destacava no alto de seus quase dois metros de altura; a mãe, nascida Margaretha Nicolay, era uma parteira de ascendência russa, baixinha e dona de uma alegria mais típica do povo da Baviera que da Renânia. Os Birkenfeld moravam em Mülheim an der Ruhr, próximo a Düsseldorf, e se apegavam à fé católica para amainar a dor de terem perdido os três filhos homens na Primeira Guerra Mundial. Isso significava que Richard Brenke era bem diferente do que desejava o pai de Gretchen – que já havia, inclusive, encontrado o pretendente adequado para a filha, isto é, rico e católico, como ele.

O amor proibido gerou no jovem casal a ideia mais clichê na história das paixões: fugir juntos. Wilhelm Birkenfeld, contando então 63 anos e certamente influenciado pelo incidente que custara a vida de sua segunda filha, Wilhelmina – cuja morte creditavam a amores mal vividos –, viu no delírio amoroso de Gretchen o incentivo para se definir por um plano drástico. Havia algum tempo arquitetava, naqueles complicados anos pós-Primeira Guerra, vender tudo o que tinha e partir para o outro lado do mundo, um lugar sem a nuvem fúnebre da Alemanha devastada e em crise. Já fizera algo parecido em 1910, quando fora com a família viver na África, onde a esposa prestava serviços ao governo alemão e seu imperialismo, e os Birkenfeld se envolveram na mineração de diamantes na Namíbia. Em 1921 o destino seria outro: o Brasil.

No final de outubro daquele ano, os Birkenfeld embarcaram no vapor Cuyabá rumo ao porto do Rio de Janeiro, aonde chegaram em 30 de novembro. Wilhelm tinha comprado terras a perder de vista no Sul do país, região em que se formava uma imensa colônia alemã. Ele levou consigo equipamentos modernos de agronomia, móveis, louças, prataria, gramofone, baús e mais baús de roupas femininas, sapateiros, a esposa, as três filhas solteiras, a filha casada – com marido e seis crianças pequenas –, e Richard Brenke.

Margarete confirmara as pretensões de fugir, e jurara que só não o faria se Richard estivesse naquele navio que partiria para a América do Sul. O pai percebeu que a geniosa menina falava sério. Diante da determinação inconsequente da filha, teve que optar pelo que considerou um mal menor: levar o protestante para o Brasil. Talvez Wilhelm tenha intuído que o próprio Brenke desistiria de Margarete com a iminência da viagem. Se assim pensou, se enganou.

Enganou-se novamente, ou melhor, descobriu-se enganado, quando desembarcou no Brasil. De nada adiantava o mapa das terras, os nomes a procurar, muito menos todo o dinheiro entregue ao intermediário na Alemanha. As terras a perder de vista compradas no Brasil nunca poderiam ser vistas, afinal, não existiam. Haviam caído em um golpe.

O trauma derrubou Wilhelm Birkenfeld. Velho e humilhado, vendo desamparadas a esposa e as filhas, prostrou-se, definhou e faleceu pouco tempo depois, em condições e data não muito bem esclarecidas, em algum lugar entre Santa Catarina e o Paraná. Johann Wilhelm Birkenfeld morreu de tristeza, houve quem garantisse, e assim contariam seus descendentes. Sorte dele que trouxera Richard. O Brenke taciturno e sem instrução era agora o homem da família, juntamente com Heinrich Pieper, marido de Elizabeth, a mais velha dos oito filhos que tiveram Wilhelm e Margarethe Birkenfeld.

Richard e Gretchen se casaram no quinto dia de maio de 1922, numa capela franciscana na cidade de Porto União, Santa Catarina. Heinrich e Elizabeth foram testemunhas do matrimônio. No registro da igreja, Richard e Gretchen já atendiam “à brasileira” como Ricardo e Margarida; Heinrich também se tornara Henrique. Por duas vezes, foi referido no caderno paroquial que se tratava de um noivo protestante.

Horst só nasceu quatro anos depois, quando todos já viviam em Curitiba. No cartório, o tabelião exigiu um segundo nome para fazer companhia ao Horst e ao Brenke, que gravou equivocadamente como Brenck. Horst ganhou forçadamente um Ewaldo como nome do meio, em homenagem ao homem que seria seu padrinho de batismo. Ewaldo Pechtel se casou dali a poucos meses com a irmã caçula de Gretchen, Sophia. Maria, a outra irmã, também se casou na mesma oportunidade, com Otto Faber. Sem motivo claro, Horst levaria certa antipatia do novo nome, representando-o em sua assinatura por “E.” quase sempre.

Responsável pelo parto do neto, Margarete Birkenfeld já havia estabelecido, em 1926, sua posição como parteira na cidade. Em 1930, seria uma das passageiras do primeiro zepelim que voou pelo Brasil, numa clara mostra da sua natureza aventureira e lúdica. Antes disso, aprendeu a gostar de Richard.

Não foi preciso muito esforço para ver as qualidades do genro. A forma como ele tratava a esposa, o perfil trabalhador e responsável, e os modos educados embora arredios fizeram boa parte do serviço. Além disso, havia um dote especial. Margarethe Birkenfeld gostava de ouvir valsas em casa. Quase todo início de noite, após o jantar, ligava o gramofone trazido da Alemanha e se deixava levar. Richard se oferecia para conduzi-la. Os dois costumavam dançar sob o chiado rouco da agulha, enquanto Gretchen admirava a cena, ninando Horst.

Certo dia, o garoto ainda pequeno, Richard e Gretchen se entusiasmaram em participar de um evento na cidade. A avó incentivou o casal, garantindo cuidar do neto. Richard ficou pronto bem antes da esposa e recebeu elogios da sogra. Usava seu melhor terno, e, aos olhos de Margarethe, a boa intenção superava a má qualidade do pano e o desleixo nas mangas e no colarinho. Os dois dançaram enquanto aguardavam. Gretchen apareceu metida em um longo vestido de cetim, usava luvas e chapéu. Os dois partiram e se divertiram muito. Quando voltaram, a casa estava silenciosa. Horst dormia no quarto. Margarethe adormecera no sofá da sala, os óculos lorgnette ainda sobre o nariz. Gretchen aproximou-se da mãe para acordá-la, mas ela não acordou.

Um tempo depois da morte de Margarete, os Brenke partiram para Belo Horizonte. Lá, Horst ganhou uma irmãzinha. Em 26 de junho de 1934, nasceu Maria do Carmo Brenke, um bebê desconcertantemente bonito, com olhos azuis e ralos cabelos loiros. Os Brenke se mudaram para uma casa amarela de dois andares, na Rua Aimorés, na Serra, um bairro de operários próximo ao Centro. Logo nos primeiros dias, Horst saiu à rua com suas calças curtas e camisa de algodão e se aproximou do grupo de garotos que usava um pedaço de pau em forma de ípsilon para arremessar pedras nos pássaros. Os atiradores estranharam a indumentária do forasteiro, notando o zelo com que se vestia; um deles o convidou para a brincadeira. Chamava-se Flávio, tinha alguns anos a menos que Horst, quase o mesmo tamanho e o dobro da desenvoltura.

Flávio Vieira morava no número 291, do outro lado da rua, com a mãe, uma viúva também descendente de alemães, e doze irmãos. Horst ainda tentava se familiarizar com o bodoque quando Margarete saiu à porta para chamá-lo. Flávio se virou e viu aquela mulher loira reluzindo sob o sol que se punha detrás da Serra do Curral; ela se vestia de um jeito incomum, falava de modo diferente; ele concluiu que se tratava de uma rainha. Era a mulher mais bonita que já havia visto. Horst despediu-se de Flávio, mas dali em diante seriam melhores amigos.

Flávio passou a frequentar a casa da família Brenke e achava graça quando, às vezes, o pai e a mãe de Horst conversavam numa língua estranha. Ficava impressionado também com o carinho do amigo com a irmã, uma garotinha linda a quem chamavam de Nenê. Da mesma forma, percebia a rigidez doce com que a rainha conduzia a vida da casa. Ela era capaz de impor medo durante uma reprimenda, sem, contudo, alterar a voz baixa, a dicção cristalina, e uma certa expressão que só podia ser própria da realeza.

O bando da Rua Aimorés costumava vadiar a tarde inteira pelo bairro. Soltavam pipa, jogavam bente altas, atiravam em pássaros e gatos. Vez ou outra, Horst e Flávio conseguiam alguns tostões e corriam ao armazém para comprar bala. Flávio tirava tudo do bolso e despejava sobre o balcão. Horst contava as moedas, escolhia algumas e informava quantas balas desejava. No fim da tarde, mal o sol desaparecia, Horst se despedia e ia para casa.

Flávio adorava a rainha, era chamado de filho por ela, e Horst se tornava um irmão realmente. Um irmão um pouco diferente, é verdade. Andava limpo demais, nunca se exaltava e nem sempre o acompanhava nas explorações. Certa vez, empoleirado na mangueira de seu quintal, Flávio descobriu uma vista privilegiada para a janela do banheiro onde Maria Rita, a empregada da casa, tomava banho. Quando engenhou a espiada para todas as tardes de todos os dias de sua vida, Flávio logo procurou Horst para incluir o amigo.

– Horst, vamo lá no quintal ver a Ritinha com a bunda de fora!

– Isso não se faz – respondeu Horst, já dando as costas para o assunto.

Em Belo Horizonte, Richard Brenke arrumou emprego como mecânico na casa Arthur Haas, um conjunto de posto e oficina para carros de um comerciante judeu. Gretchen cuidava da casa, das crianças e encontrava tempo para servir como voluntária na Santa Casa de Misericórdia, onde mantinha boas relações com enfermeiras de origem alemã. Horst entrou para a escola, fez o primário no Colégio Dom Pedro II e, em 1937, começou o ginásio no Colégio Arnaldo. Mal teve tempo de terminar o primeiro ano.

As condições financeiras apertadas no Brasil, os bens da família Birkenfeld que haviam sobrevivido na Alemanha, e talvez outros fatores difíceis de determinar quando observados tempos depois fizeram Richard e Margarete decidirem voltar para Berlim, ainda que sem planos muito claros para o futuro. Ouvia-se, no entanto, que as coisas lá andavam bem. Um tal Adolf Hitler chegara ao poder pelo Partido Nacional Socialista em 1933 e, desde então, o país parecia ir de vento em popa. Não faltava emprego nem dinheiro, não se sangrava mais com a inflação, e o fantasma da Primeira Guerra parecia coisa do passado. Isso chegava à casa amarela da Rua dos Aimorés pelo rádio, nas ondas curtas da Rádio de Berlim, que os imigrantes alemães costumavam ouvir em todo o Brasil. Para Richard havia ainda sua mãe e irmã, que viviam na capital alemã.

O sonho – ou pesadelo – da colônia alemã no Brasil não saíra como o imaginado por Wilhelm Birkenfeld e sua família, embora outros milhares de alemães que chegaram ao país naquela época tenham sido bem-sucedidos. Apesar disso, os Brenke ainda acreditavam no futuro. E ele parecia estar em Berlim.