Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Berlim, Alemanha. Maio de 1945.
HAVIA UM ditado corrente pelas ruas de Berlim que dizia ser melhor um americano sobre a cabeça do que um russo sobre si. Movido pelo pavor dos russos, sentimento trabalhado pela propaganda nazista desde o início da guerra, o ditado sugeria que, para as mulheres alemãs, antes serem atingidas e mortas por uma bomba lançada dos aviões estadunidenses que cair nas mãos dos soldados russos para serem humilhadas, estupradas e outra meia dúzia de barbaridades que os comunistas tinham por hábito realizar. Esse ditado corria também pela Gubitzstraße numa manhã nublada, com abril já ultrapassando sua metade.
Mal amanheceu, Margarete se levantou e acordou a filha, que dormia em um colchão, no chão. Da cozinha, as duas tinham ouvido uma movimentação grande vinda da rua durante toda a noite anterior. Sabiam que se tratava dos russos – ou da proximidade deles. Não havia mais alarmes nem bombardeios aéreos, mas explosões e tiros eram ouvidos ao longe. Nenê conseguira dormir algum tempo. Acordara várias vezes, contudo, e em todas elas se deparara com os olhos abertos da mãe. Silenciosas, conversavam por alguns instantes, numa cumplicidade de íris azuis. A filha voltava a fechar os olhos, encerrando a conversa, e assim os mantinha por longo tempo até que adormecesse.
Elas comeram pão, trocaram poucas palavras, e Maria do Carmo estranhou quando a mãe mandou se aprontarem pois iriam ao bunker, mas não pediu explicações. Fecharam a porta do apartamento pouco tempo depois, Margarete girou várias vezes a chave, olhou rapidamente para a porta da rua, depois se virou; deu a mão à filha e desceram o lance de escadas para o subsolo. Precisou da outra mão para empurrar a pesada porta que dava para um corredor mal iluminado de tijolos aparentes e paredes escuras, por onde caminharam lentamente, guiadas pelo sol que entrava por janelas pequenas acima de suas cabeças. Caminharam em silêncio, passaram por baixo dos prédios vizinhos, atentas a qualquer barulho que viesse lá de fora, mais além das portas que davam para os fundos; Maria do Carmo levava alguma comida embrulhada sob os braços e, ao chegar, teve a impressão de que o bunker nunca fora tão distante.
Lá embaixo, outros moradores do prédio já haviam se aboletado na parede ao fundo. A luz na entrada era fraca e vinha de um lampião. As camas montadas no canto sugeriam que alguém havia dormido nelas na noite passada. As pessoas não falavam muito e não se mostraram animadas quando as duas apareceram. Gritaram-lhes que fechassem logo a porta.
Margarete também trazia algo consigo. Entregou um saco à filha e ordenou que ela molhasse o rosto e passasse nele o pó que havia dentro. Era farinha. Passou-lhe também um cobertor grosso, apontando o canto onde ela deveria se deitar e a instruiu.
– Quando chegarem, cubra-se e tussa – disse a mãe.
Seu canto no bunker estava iluminado de modo intermitente por uma lâmpada azul que ameaçava falhar. Tinha também um cheiro específico, que ela já reconhecia, mas não sabia explicar. O bunker sob os prédios da Gubitzstraße era pequeno, mas suficiente para os moradores. Até onde Maria do Carmo se lembrava, a ideia era de seu pai, em quem, percebeu, pensara pouco nos últimos dias. Sentou-se. A mãe também, logo depois. Ainda havia espaço no bunker, mas o cheiro era mais forte que nos dias mais cheios. Certa vez Maria do Carmo perguntou à vizinha que cheiro era aquele. “Cheiro de falta de ar”, disse-lhe a mulher. Ela não se convenceu. Desde então, porém, tentava respirar pouco, algo parecido com o que diziam sobre comer com classe. Em vez de golfadas de ar, procurava sorvê-lo lentamente, como se a concentração na respiração lhe permitisse realizá-la melhor. Maria do Carmo lembrou-se disso quando a mãe se sentou. Seus olhos se acostumaram ao breu azul, ela correu os olhos pelo bunker por um instante e constatou que não havia nenhum homem entre elas.
Maria do Carmo não havia entendido a ordem da mãe. Demorou um pouco, no entanto, para externar.
– Por que eu tenho que me cobrir, mamãe? E para que passar isso no rosto?
– Para os russos não incomodarem você, Nenê – disse Margarete. – E tussa. Não se esqueça de tossir. – Margarete não entrou em detalhes, mas foi mais que o suficiente para Maria do Carmo entender tudo. Lembrou-se da conversa que ouvira entre a mãe e duas vizinhas no dia anterior. Falavam de maldades que os soldados russos estariam fazendo perto de Berlim. Quase sempre bêbados, fedidos e sujos, invadiam as casas e batiam nas mulheres. Faziam crueldades que até os adultos se horrorizavam. “Não posso me esquecer de tossir”, repetiu para si.
A manhã no bunker passou tão quieta quanto a cidade parecia estar lá fora. Havia uma geladeira que no passado guardara comida e fora útil no tempo dos primeiros ataques aéreos. Nesse dia, porém, estava vazia. Não havia energia. Margarete e Maria do Carmo comeram pão no fim da manhã. Sobrou apenas a farinha. A tarde já avançava quando ouviram uma agitação lá em cima. Perceberam que a rua estava ocupada. Vozes masculinas se destacavam, e veículos passavam de tempos em tempos por algum lugar próximo. A certa altura, suspeitaram de que alguém havia batido à porta e entrado na casa, mas depois pensaram ser um equívoco. Foi quando ouviram gritos, barulho de portas sendo forçadas e vozes de homens. Logo sentiram o tumulto se aproximar.
O prédio foi invadido. Havia homens no corredor que levava ao bunker. Logo chegaram até ele, forçaram a porta e vários soldados foram entrando. Maria do Carmo estava assustada. Eles falavam alto, rápido, gritavam; cheiravam a álcool e a bosta de cavalo. O silêncio tomou o bunker. Os russos deram ordens, empurraram as mulheres que estavam de pé, reviraram caixas e armários; tinham as armas sempre apontadas e pareciam procurar por homens. Depois se aquietaram e passaram vistoriando o público, que se concentrava ao fundo. Logo notaram a garota. Um deles pareceu caminhar em direção a Maria do Carmo. Margarete se levantou, colocou-se entre eles e começou a apontar. Maria do Carmo de imediato começou a tossir. Um soldado pegou Margarete pelos braços, tentando tirá-la do caminho. Junto com a tosse, um involuntário choro irrompeu da garota. Os russos hesitaram. Margarete gritou que a garota estava doente, ameaçou chorar também, e os soldados se detiveram a alguns metros como se tivessem entendido.
– Tuberculose – dizia Margarete, apontando para Maria do Carmo.
Os russos conversaram algo entre eles e arrastaram Margarete para perto da porta. A filha continuou tossindo, o choro aumentou. Outras mulheres choravam. Tudo parecia ainda mais escuro. Os russos começaram a deixar o bunker. Um dos últimos fechou a porta aos chutes, mas deixou um pacote de biscoitos. Margarete foi abraçar a filha, que ainda chorava e tossia. O alívio foi tão forte quanto o cheiro de estrume deixado no ar viciado do bunker.
Nos dias seguintes, Maria do Carmo manteve o rosto embranquecido e o cobertor sempre por perto. As duas se mantiveram em casa, deitadas no sofá da cozinha, sem sequer se aproximar das janelas fechadas por blecaute e dos móveis da sala. O bunker se mostrara desnecessário. Não podia passar despercebido, e sua porta era mais frágil que as dos apartamentos. Os moradores do prédio preferiram reforçar as portas. Tentaram cerrar a comunicação subterrânea entre os prédios, empilharam móveis detrás das portas de entrada e dos fundos; Margarete pendurou o terço na maçaneta da entrada. Eles não foram incomodados nos dias seguintes, a não ser pelo medo, pela fome e pelas notícias sem sentido trazidas por quem se arriscava a sair do prédio ao longo do dia.
Maria do Carmo compreendia apenas parcialmente o que ocorrera no bunker. Percebia que havia um grande medo tomando as mulheres. Elas só falavam disso. A mãe e uma vizinha conversaram também sobre mulheres que se entregavam a esses soldados para serem poupadas e ganhar comida. Maria do Carmo deduziu que era de uma moça conhecida que falavam. Ela não se sentia em condições de pensar direito, e na hora não deu muita atenção para a história, ainda que tivesse notado a expressão tensa das mulheres mais velhas. Desaprovavam o que quer que estivesse acontecendo. Além disso, veio-lhe à cabeça, vira tanta coisa ruim nos últimos anos que ouvir falar de pessoas ainda vivas era quase alentador. Recordava-se do dia no metrô em que havia descido com a mãe para se proteger e encontrou o lugar inundado. Corpos de pessoas que haviam se refugiado ali durante alarmes anteriores boiavam. Outra vez, enquanto voltava para casa, caminhando na rua, viu uma mãe agarrada ao filho pequeno, encostados em um muro de uma casa. Estavam mortos, queimados, fundidos ao meio-fio e à parede negra de fumaça. Maria do Carmo voltou a pensar também em Anne, uma vizinha que morrera no ano anterior. Ela dormia quando seu gato, assustado com uma explosão, se eriçou e cravou as garras no pescoço da garota, abraçada a ele. Anne foi enterrada num jardim uma quadra adiante, como muitas outras pessoas eram enterradas naquele tempo, isto é, em qualquer lugar, pois ninguém mais se importava em enterrar os mortos. Eram muitos. Maria do Carmo não viu o enterro. Provavelmente, nenhuma de suas amigas viu. Ela percebeu que fazia algum tempo que não via nenhuma amiga.
Por esses dias, Maria do Carmo se levantou, foi até a cozinha, olhou as panelas sujas e foi encontrar a mãe na sala principal.
– Mamãe, eu não aguento mais. Preciso comer alguma coisa.
– Eu sei, Nenê – Margarete disse com uma voz fraca. – Mas não temos nada. Nem sopa.
– O que a gente faz, mamãe?
Margarete já não sabia. Na última semana, elas haviam se alimentado da sorte. Uma vizinha foi quem informara que não muito longe dali, em um ponto da linha do trem, várias batatas haviam caído de um vagão que passara apressado. Maria do Carmo foi com a vizinha conferir. Era verdade. Muitas pessoas se jogaram ao chão para catar as batatas, entre elas, Maria do Carmo, que conseguiu algumas. Estavam todas estragadas, podres, com pequenas raízes brotando como rugas. Margarete limpou as batatas e as duas comeram-nas, misturadas à sopa, que dias antes era de espinafre, segundo a mãe, mas que na verdade tinha urtiga. Todas as sopas de espinafre daquela semana haviam sido de urtiga.
Agora, ouvindo o desespero da filha, Margarete não sabia o que fazer. Não havia nem batatas podres. Saiu à rua em busca de algo. Duas quadras adiante, o mau cheiro era bem forte. Quase ao pé do muro estava um cavalo morto. Margarete o havia visto três dias antes no mesmo lugar, no dia em que, ansiosa, esperava a filha voltar do ponto da ferrovia em que fora buscar batatas com a vizinha. Margarete pensou um pouco e voltou para casa. Entrou e saiu, levando consigo uma faca, e chorando. A rua estava vazia. Ninguém a via chorar.
Ela se aproximou do cavalo, escolheu um ponto pouco povoado por bichos e cortou. De volta à cozinha, jogou o pedaço de carne na água e deixou um bom tempo, enquanto refletia. Já havia parado de chorar. Tentou limpar, depois ferveu, depois cozinhou, depois passou no moedor, depois temperou, depois desistiu, depois temperou de novo, depois fritou, depois serviu.
Não teve coragem de comer. Olhou o punhado de carne no prato e teve ânsia de vômito. Sentia o cheiro da esquina duas quadras à frente. A dor de cabeça regressou mais dura do que nunca, o estômago revirou e ela deixou a mesa para se deitar. Maria do Carmo comeu tudo que colocou no prato.