Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 16 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Vladimir, Rússia. 14 de outubro de 1945.

HORST NÃO escreveu por alguns dias. Perdeu o gosto. Melhorou de saúde, voltou a trabalhar, mas nem o pequeno conforto oferecido pelo escritório lhe despertava mais interesse. E as coisas pioraram numa manhã pelo meio de outubro.

Ele acordou antes de o chamarem. Sentia frio e, principalmente, dores no estômago por conta da fome. A comida andava péssima novamente. Ele se levantou lentamente, até porque, pela manhã, as forças eram ainda menores que de costume. A maior parte dos homens ainda estava deitada; o sujeito da cama a seu lado dormia enrolado feito um caracol. Um forte cheiro de suor preenchia o alojamento. Quase todos haviam trabalhado no dia anterior descarregando trens, reformando trilhos, levantando paredes. O acampamento já tinha seu cheiro próprio, mas o suor, o contato dele com os trapos a que chamavam de roupas, o podre que parecia sair pelos poros de sujeitos doentes, tudo isso a que cheirava um prisioneiro, atacava particularmente o olfato pela manhã. Horst caminhou por entre os beliches e ganhou a porta. Quando a abriu, quase não acreditou. O campo estava todo branco. Nevava. Chegara a neve. Chegara o tão temido inverno russo.

As cercas pareciam mais grossas em meio a tanto branco. O telhado da fábrica também mudara de cor. Horst gastou um bom tempo olhando o campo. O céu lhe pareceu muito baixo, o horizonte muito próximo, como se o inverno houvesse chegado para sufocá-los naquele campo perdido na Rússia. O inverno tinha chegado e ele ainda era um prisioneiro de guerra.

No dia anterior havia partido outro transporte internacional. O nome de Horst não estava na lista. Não estaria em casa antes do inverno. Maldita sorte. Ele vasculhou a memória e concluiu que sorte era algo que nunca havia tido. Andou lamentando no diário: “Sempre fui um azarado”.

Já estava mais forte, poderia correr os quilômetros que separavam o campo da estação em segundos. Galoparia em quatro patas se fosse preciso, só para estar dentro de um trem para casa. E depois, Brasil! Seu verdadeiro lar. Mas nada. E agora... neve. “O inverno, o assustador inverno russo se estabeleceu”, ele escreveu no diário, na noite do primeiro dia de neve. “Isso será bom para mim, o que seria o verão tropical para um esquimó. Ontem foi novamente organizado um transporte internacional, onde eu não estava junto. Assim caminha tudo para a minha desdita.” Admitiu que era apenas o começo. Nos dias anteriores, o frio já parecia insuportável. O que se poderia esperar agora?

Dezessete abaixo de zero. Naquela semana, o termômetro marcou dezessete graus negativos. Horst tentou por duas vezes escrever. Seus dedos estavam duros. Não teve força para insistir. A comida foi, durante todos os dias, uma sopa de casca de batatas. Nada mais. Cada vez mais pessoas morriam de fome. No primeiro dia de neve, um sujeito que dormia nos fundos do alojamento amanheceu morto. Dois dias depois, outro morreu. Ao fim da semana, mais um sucumbiu e outros homens começaram a apresentar um estranho quadro de diarreia. O vizinho que dormia como um caracol na manhã em que a neve surgira foi um deles.

O fim de outubro trouxe uma pequena ilusão. O vento diminuiu e houve quem acreditasse que as duas primeiras semanas de neve haviam sido apenas uma peça do destino, que as coisas não seriam tão ruins. Novembro entrou com promessas de folga devido às comemorações da Revolução de Outubro, mas o vento também reapareceu. O vizinho que dormia como um caracol morreu em uma noite de mau cheiro, nos primeiros dias de novembro. Passados oito dias da diarreia, parecia pequeno, sem vida, um esqueleto que movia os olhos. Seu corpo foi retirado por alguns prisioneiros e Horst não viu onde ele foi enterrado. Naquela noite, ao receber a lata com a comida do jantar, Horst ficou entre os últimos da fila. Metade da marmita veio com areia. Ele comeu. Repetiu para si que areia não faria mal. Escreveu no diário para se forçar a acreditar.

Areia poderia até não fazer mal, mas não faltava o que fizesse, por aqueles dias, em Vladimir. Mais homens que o normal morreram na virada de outubro para novembro dentro da fábrica de tratores. Não demorou para detectarem que entre os mortos havia características de tifo. As coisas começaram a ficar tensas.

Chegou ao alojamento a ordem de que ninguém iria trabalhar. Nenhum prisioneiro tinha autorização para deixar o campo. Horst ouviu isso quando já se reunia na área externa, esperando que alguém aparecesse para levá-lo até o escritório. Mandaram todos para dentro novamente. Estavam de quarentena. E não houve mais explicações.

Transcorreram-se dias tristes no alojamento da fábrica de tratores. Os homens passavam as horas em silêncio. Amontoados, olhavam-se com curiosidade, tentando vislumbrar quem seria o próximo. Fez muito frio. Horst batia o queixo e tentava de tudo para se aquecer, mas pouco adiantava. Parecia que todos cogitavam a possibilidade de morrer. “Agora bateram as horas para muitos!”, escreveu Horst, no primeiro dia de quarentena. “Para mim também?” Em todos os cinco dias da quarentena houve mortes.

A vida só começou a voltar ao normal no fim da semana seguinte. Voltaram ao trabalho. Todos se sentiam como sobreviventes. Horst se viu no escritório a fazer contas. Só então voltou a colocar uma palavra no papel. Faltavam 42 dias para o novo ano, ele escreveu no diário. Errou as contas. Perguntava-se se 1946 traria boas coisas para ele. Riu quando concluiu que um ano pior que 1945 não poderia haver.

Numa sexta-feira, antes do fim de novembro, o ano-novo deu sinal de vida. Horst trabalhou durante todo o dia no escritório. Não havia lenha para queimar no fogão usado como aquecedor, então o frio incomodou mais que o habitual. Ele não conseguia segurar o lápis. Voltou mais cedo para o campo, cruzando apressadamente a cidade coberta de branco. A neve caía como plumas, o caminho era escorregadio para as botas ruins, mais duras que os dedos duros dentro delas. Havia conseguido alguns trapos, que usava como bandagem para os pés, mas isso adiantava muito pouco. Disseram-lhe que era uma tática usual entre os soldados soviéticos durante a guerra. De todo modo, pouco resolvia. Ele ainda aguardava para pegar o jantar, quando o alemão que chefiava o destacamento apareceu para dizer que chamavam por ele no escritório do comandante do campo. Horst foi imediatamente. Ouviu exatamente o que sonhava: deveria se desinfetar no dia seguinte para transitar pelo campo principal, quando então seria alocado em um transporte internacional para voltar para casa. Ele mal conseguiu dormir naquela noite. Finalmente voltaria para casa.

Amanheceu um dia mais frio e feio. Horst comeu rápido e até deixou sobrar comida, com medo de se atrasar novamente. Foi se apresentar ao comandante, já levando consigo todos os pertences no alforje. Ele estava tão feliz que sentia medo de algo dar errado, medo de que não fosse verdade. Seus pés doíam, mas ele mal os sentia e nem mesmo lhes dava atenção.

A manhã passou lentamente. Ele aguardava com outros cinco prisioneiros que fossem enviados para o tal lugar onde passariam pela desinfecção. Horst tentava imaginar do que se tratava; não conseguia ter uma ideia clara. Ele conversou um pouco com os outros homens, todos eram de nacionalidades diferentes. Casos como o dele. Homens que haviam estado no exército alemão mas não eram alemães. Homens que já deveriam ter sido mandados de volta para casa, como ocorrera com os franceses, os romenos, os húngaros e tantos outros. Só à tarde apareceu um guarda russo para guiá-los.

Foram caminhando até uma pequena casa de madeira que havia na outra extremidade do campo. A neve no caminho já fazia os pés afundarem alguns centímetros. O guarda abriu apenas um pouco da porta e o bafo quente atingiu os homens do lado de fora. Entraram. Um calor sufocante reinava lá dentro. Horst tinha dificuldade de respirar. O guarda fechou a porta e ordenou que tirassem o uniforme. Aos seis homens nus foram indicados dois baldes sobre o fogão. Havia água neles, deveriam temperá-la e jogar sobre o corpo. Horst foi se acostumando ao calor. Suava muito. Seus pés queimavam de dor. Lavou-se, sentiu a água quente tocar o corpo, a pele ameaçava se desfazer. Tentou molhar o rosto; depois passou as mãos pelos cabelos, que começavam a crescer, espetando as palmas molhadas da mão. Ninguém parecia muito confortável, mas o ambiente era agradável. Havia galhos de árvore próximos à água quente e eles davam um cheiro bom ao lugar. O guarda ordenou que os prisioneiros pegassem os galhos. Fez um gesto com as mãos, como se desse chicotadas no ar, depois apontou para um prisioneiro e depois para outro, então o segundo na direção do primeiro; fez o mesmo com os dois restantes. Os homens entenderam que deveriam bater os galhos nos corpos uns dos outros; deveriam atingir as costas dos companheiros, depois trocariam o chicoteador. Ao bater nas costas, os galhos exalavam um cheiro ainda mais forte. O lugar pareceu ficar ainda mais quente. Os homens ficaram algum tempo se açoitando com os galhos, tendo cuidado para não acertar o rosto, até que o guarda autorizou que parassem e mandou que se lavassem novamente.

Deixaram aquela espécie de sauna e foram de novo ao escritório do comandante. Estavam então desinfetados, ao que tudo indicava, o que quer que fosse aquilo por que haviam passado. Enquanto aguardavam, chegou ao escritório a conversa de que uma nova morte havia sido confirmada, e novamente com características de tifo. Horst percebeu que uma discussão se formou entre os soldados russos, e pareciam discutir se ele e seus colegas poderiam deixar o campo naquele momento. Já vinha a noite. A neve caía intensamente. Horst começou a sentir medo. Um dos militares que chegara havia pouco conversava nervosamente com o comandante. Percebia-se que eles evitavam se aproximar dos seis prisioneiros; logo Horst entendeu que o recém-chegado não queria levá-los. Os outros homens também não pareciam convencidos. Algo os incomodava – obviamente, o risco de algum dos seis estar contaminado com tifo.

O comandante se exasperou. Mandou que os seis se levantassem e fez sinal para que se mandassem dali. Fora do escritório eles se entreolharam, Horst tinha dúvidas do que aquilo significara. Não duvidava que o destino fosse capaz de lhe pregar mais uma peça. Novamente tão perto de voltar para casa, e novamente tudo ia por água abaixo. Pouco depois, um dos guardas saiu e se juntou a eles em frente ao escritório; os acompanharia até o campo principal.

Caminharam na noite escura. O guarda ia mais à frente com uma lanterna nas mãos. Fazia muito frio. A única roupa que Horst tinha para se aquecer era o próprio casaco do uniforme. O único calor dentro dele vinha de seu coração. A noite era mais noite quando chegaram ao campo principal, apesar de todas as luzes dos holofotes ao redor. Tudo dava certo. Desta vez Horst não chegaria atrasado para pegar o trem. Não houve imprevistos. Nem o medo do tifo o segurou. Desta vez voltaria para casa. Ele pegou o diário enquanto aguardava. Passou a reconsiderar sua condição de azarado: “Tivemos uma sorte danada!”.