Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Debrecen, hungria. 26 de maio de 2016.
EU PASSEI três ótimos dias em Sighetu. Na manhã seguinte ao último deles, tive de fazer outra adaptação ao roteiro de Horst Brenke.
Peguei um pequeno ônibus com pessoas saindo pelas janelas em Sighetu e segui até Baia Mare, a principal cidade na região de Maramureş. No passado, havia um trem vindo do leste que passava por Sighetu, cortava uma ponta da Ucrânia e entrava na Hungria pelo norte. Eu vi os pilares da ponte que sustentava esses trilhos, que foi por onde Horst seguiu viagem quando deixou a Romênia, dezoito dias depois de desembarcar em Sighetu. Eu, contudo, para chegar à Hungria, pegaria um trem em Baia Mare, onde desci depois de um sobe e desce infindável por uma estradinha que primeiro serpenteava morro acima até o topo do mundo e depois descia do mesmo jeito, para subir e descer mais uma vez, afetando a pressão dos ouvidos e fazendo os estômagos mais frágeis, como o meu, se revirarem.
Enquanto aguentei, observei a subida do morro. Passamos por minúsculos povoados à beira da estrada; havia muitos ciganos, alguns, inclusive, pegavam carona no ônibus, descendo pouco depois. Sim, eu já conseguia identificar ciganos.
Horst nos conta em seu diário sobre o grupo de ciganos que acampava junto aos prisioneiros. Pensei nisso todos os dias que estive em Sighetu e seguia com os ciganos na cabeça enquanto, de pé dentro do ônibus, desbravava em curvas a montanha Solovan. Horst escreveu: “Aqui tem cinema e teatro ao mesmo tempo sem cessar. Eles são muito temperamentais. Deve-se tomar cuidado para não se tornar vítima deles”. Esse pequeno trecho condizia com a imagem que eu tinha dos ciganos, mas era um entendimento extremamente rasteiro. Vinha, inevitavelmente, dos filmes que eu tinha visto. Neles, os ciganos são sempre representados como um povo festivo, em contínuo trânsito mundo afora, sem raízes ou laços com lugar algum, e sempre envolvidos com todo tipo de trapaça, golpe ou roubo.
Meu entendimento sobre os ciganos ainda era afetado por algo de minha infância. Cresci numa pequena cidade do interior mineiro em que, vez por outra, corria a notícia de que os ciganos estavam na cidade. Assim que a aula terminava, corríamos para perto do rio, que era onde acampavam, para vê-los. Me lembro do grupo armando acampamento embaixo da ponte; mulheres com vestidos longos, lenços na cabeça; os homens sem camisa, às vezes cabeludos, alguns montados em cavalos. Na imagem que conservei, tudo era muito colorido, vermelho. Quase consigo sentir a excitação de quando eu tinha dez ou onze anos e via da rua mais próxima, com receio de me aproximar, o grupo de ciganos que passava pela cidade.
Eu sabia que eles faziam algum tipo de escambo. Lembro-me de que um dos meus melhores amigos tinha uma guitarra azul que havia sido trocada por algo com os ciganos. Lembro-me muito bem também das advertências dos mais velhos, para não chegar perto ou sequer ir vê-los na beira do rio, pois os ciganos raptavam crianças. Nessa mesma época, um fotógrafo da cidade fez uma restauração de uma foto antiga da minha mãe, da época de criança, e algumas semanas depois trouxe o retrato ampliado em um imenso quadro em preto e branco. Meu pai, que sempre foi um ótimo contador de histórias, decidiu entreter minhas irmãs mais novas, então com uns cinco anos; elas estavam assombradas com o quanto a menina da foto se parecia comigo. Eu realmente era – e sou – a cara de minha mãe. Meu pai então lhes contou, em tom muito solene e delicado, que aquela era Tarsila, nossa irmã mais velha, que os ciganos haviam raptado. As meninas choraram, mas meu pai, mesmo de coração partido, manteve a história, pois sabia que riríamos muito daquilo dentro de algum tempo. E assim fizemos, embora minha mãe tenha achado a brincadeira de muito mau gosto.
Eu pensava em tudo isso enquanto andava pelas ruas de Sighetu. Tentei identificar ciganos. Cheguei ao terceiro e último dia na cidade e não conseguira identificar um cigano sequer. Havia conversado com Gicu sobre isso. Ele me explicou que Sighetu não era tradicionalmente um lugar de ciganos, mas que, sim, passavam caravanas por lá, como Horst descrevera no diário. Eu comentei que os ciganos haviam sido muito perseguidos durante a guerra; ele concordou comigo e acrescentou que o sofrimento dos ciganos merecia mais atenção nos livros de História.
Passei todas as noites em Sighetu com Gicu, jogando cartas em um pub. Na última noite, ele foi me buscar no hotel e tinha a companhia de um outro rapaz que, tendo morado nove anos em Lisboa, falava bem português. Fomos caminhando e logo introduzi o assunto dos ciganos. Disse que não havia visto nenhum cigano naqueles três dias em Sighetu. “Como não?”, disse Gicu. “Eles estão por toda parte”. Começou então a apontar para cada pessoa que via pela rua. “Essa mulher é uma cigana”, indicou uma bela morena, de rosto redondo e pela bronzeada, com um cabelo muito preto e escorrido. Ela se vestia bem, uma calça justa que destacava o corpo em forma, blusa de alça e saltos altos. “Ela é cigana?”, me surpreendi. Ele confirmou, disse que a conhecia e seguiu no jogo de apontar ciganos e não ciganos. No caminho de seis ou sete quarteirões até o pub, e com a cidade já começando a ganhar o aspecto sempre desértico das noites de Sighetu, cruzamos com pelo menos seis pessoas que Gicu assinalou. Eles não se assemelhavam em nada à imagem que eu tinha de um cigano.
“A primeira coisa é o tom da pele”, me disse Gicu. “Os ciganos são mais escuros, morenos.” Eu observei que ele também era bem mais moreno que eu ou o outro companheiro. Seria ele cigano? Ele imediatamente disse que estava apenas queimado de sol. Ele continuou explicando que o cabelo cigano era muito, muito preto – bem mais que o dele, adiantou-se. Os dois seguiram falando sobre ciganos.
Me contaram um pouco da história, da leva de indianos mandados à Europa para trabalhar como escravos. Comecei a perceber que o entendimento que eles tinham de ciganos dizia respeito à raça, como negros, índios ou brancos, e não ao estilo de vida que eu relacionava aos ciganos, que para mim eram quase um grupo paralelo aos hippies. Pode parecer estúpido para quem conhece a história cigana, mas tenho certeza de que eu não sou o único que um dia pensou dessa forma.
Adepto às classificações, Gicu me contou então que há três tipos diferentes de ciganos: primeiro, há os ciganos que são muito dedicados ao trabalho e possuem um conhecimento técnico invejável, principalmente no trabalho com cobre e outros metais; o segundo grupo é o dos artistas, os ciganos que são músicos, atores, etc., e que passam a vida se dedicando a essa cultura folclórica; o terceiro é o dos que rodam o mundo sem destino, às vezes em caravanas, às vezes sozinhos em um carro, e que vivem de pequenos negócios e crimes. Esses, ele contou, não gostam de trabalhar e não são nada confiáveis. “Nenhum cigano é confiável”, interveio o novo companheiro, “eles são um povo com uma mentalidade muito ruim”. A conversa ganhou um tom mais sério e comecei a suspeitar de que os ciganos ainda eram problema para muita gente ali.
Descobri que em Sighetu há, sim, ciganos. Não tanto como no sul da Romênia, onde são mais numerosos e mais identificáveis. Para a minha surpresa, descobri também que as pessoas ditas não ciganas não se misturam com ciganos.
– Poderia ter um grupo de ciganos aqui no pub? – perguntei.
– Eles nunca viriam aqui – disse Gicu.
– Mas, se viessem – continuei –, seriam normalmente recebidos?
– Dependendo do tipo de cigano, sim – respondeu o amigo. – Mas não é um lugar para eles.
Gicu contou que os conhecia muito bem, pois crescera num lugar onde havia muitas famílias ciganas. Ele, quando criança, brincava com uma delas, disse, quase como se requisitasse um reconhecimento de grandeza por isso – ou pelo menos foi a impressão que tive. O companheiro já era menos receptivo. Sem se irritar, e até com humor, tentava fazer entender que os ciganos simplesmente são pessoas que devem ser evitadas. “Em qualquer lugar que um cigano estiver, eles vão dar um jeito de te roubar.” Essa foi minha deixa para contar a recomendação que me foi feita na hora de cruzar a fronteira.
Peguei o trem em Baia Mare, após aguardar algum tempo numa estaçãozinha feia e aparentemente perigosa, pois havia muitos ciganos ao redor, sentados no chão ou pedindo esmola. Viajei sozinho no vagão, cansado e com a cabeça cheia. Incomodado por deixar os lugares por onde passava com mais perguntas que respostas. Eu havia acabado de passar por Debrecen, no meio da tarde, quando peguei o diário para a milésima leitura. Retive-me no ponto em que Horst anota ter passado por Debrecen, parecia uma cidade bonita. “Ontem eu passeei por Debrecen”, ele escreveu no dia 22 de junho de 1946. Eu também passava por Debrecen. Li novamente. Senti um frio na barriga. Li outra vez. Só então me dei conta de uma distração. Horst passeou por Debrecen e não apenas passou. Eu seguia direto para Budapeste e teria de conviver com esse vacilo. Debrecen foi o único lugar onde Horst esteve e em que não pus os pés durante a viagem.